Você é criativo?
Conrado Schlochauer*
Boa parte das pessoas que tenta responder a essa pergunta fica em dúvida. Muitas acham que, se disserem “sim”, serão taxadas de arrogantes. Caso a resposta seja negativa, fica flagrante a auto-desvalorização. Mas aproveite que está sozinho, lendo, e tente responder com sinceridade: você se considera um profissional criativo?
Difícil não? Provavelmente surgiu insegurança. Lembrou-se de algumas situações nas quais suas idéias foram boas para o seu trabalho. Sentiu aquele delicioso bem-estar quando disseram que o seu projeto era bom... Mas depois pensou no dia-a-dia corrido e rotineiro e veio à mente a imagem do publicitário Washington Olivetto e, então, você decretou: “Ele sim é criativo! Eu, com minhas ideiazinhas, sou no máximo um aprendiz!”
Esse raciocínio, que passa na cabeça da maioria das pessoas antes de responderem a uma pergunta tão simples, contém diversas considerações que demonstram o grau de angústia e confusão que assola os profissionais quando o assunto é criatividade. A desordem já começa na própria definição do conceito. Muitas vezes, confundimos criatividade com genialidade. Achamos que, para sermos criativos, devemos ter uma capacidade intelectual muito acima da média. Isso não é verdade. A inteligência tradicional, que medimos com os testes de QI – ou Quociente de Inteligência –, pode auxiliar muito a utilização do nosso potencial criativo, mas nem de longe é suficiente para termos soluções geniais a todos os problemas.
Além disso, normalmente dividimos as pessoas em dois tipos: as criativas e as não-criativas. E isso também não é correto. Todos (repito, todos) têm algum grau de criatividade em uma área específica. Porque, em primeiro lugar, não existe apenas um tipo de criatividade. Você é criativo para fazer algo. Pode ser escrever, desenhar, lidar com pessoas, resolver problemas cotidianos, imaginar cenários ou criar macros de Excel. É raro encontrar alguém que seja criativo em todas as áreas. E é impossível que você não seja criativo em algumas delas.
Vovós criativas
Você quer um exemplo simples e longe do ambiente empresarial? A sua avó. Tenho certeza de que, se você pensar um pouco, vai identificar algum traço extremamente criativo nela. Pode ser a habilidade de cozinhar com poucos ingredientes, de contar histórias para você dormir quando pequeno ou mesmo de inventar brincadeiras nas tardes de chuva. O importante é que ela sempre aparecia com uma solução perfeita, no momento preciso. E a base disso é a simplicidade.
Nas empresas e na sua vida pessoal não é diferente: a criatividade está relacionada à simplicidade. Uma organização, para ser bem-sucedida, não precisa de idéias fenomenais todos os dias – até porque seria impossível tirar proveito delas. O que as empresas necessitam é de pequenas boas idéias e que sejam bem executadas. Muitas vezes, porém, pelo fato de não termos soluções geniais, capazes de mudar o mundo, descartamos centenas de idéias singelas e eficientes, que poderíamos aproveitá-las ao longo da vida.
Lei do uso
A boa notícia é que, como outras tantas habilidades, quanto mais utilizamos nossa criatividade, mais fácil fica. A má é que, no começo, pode ser um pouco difícil. A dificuldade vem da nossa estrutura cerebral, que é muito boa para buscar informações em pequenos “bancos de dados” específicos. Quando vamos resolver um problema, acessamos a área do cérebro que contém as soluções mais diretas. Tudo organizadinho, afinal, o objetivo do nosso corpo é economizar energia.
Contudo, se quisermos ter uma idéia diferente, ousada, temos que buscar soluções fora desses bancos de dados, pois eles são parecidos para todos. Isso quer dizer que, se você ficar restrito a eles, muito provavelmente terá a mesma idéia de seus concorrentes.
Para inovarmos, temos que nos forçar, pois, no começo, o processo não ocorre de forma natural. Para criarmos algo efetivamente novo, é preciso fazer sinapses, ou ligações cerebrais, com duas áreas distantes que não são freqüentemente acessadas (o lobo frontal – próximo da testa, e as amídalas cerebrais – na região da nuca). E isso cansa, gasta energia (em forma de ATP, lembra das aulas de Biologia?).
Veja um exemplo do cotidiano: você não desliga o rádio do seu carro para procurar uma rua? Isso é sua massa cinzenta falando: “Se vou ter que fazer algo novo, me libera de outra atividade para eu funcionar direito”.
Independentemente de compreender essa parafernália neurológica, o importante é saber que a dificuldade de gerar novas idéias vai ocorrer para todos. E, principalmente, quanto mais você se habituar a fazer coisas criativas, mais fácil ficará. É exatamente o mesmo que acontece quando se começa a freqüentar a academia. No início surgem tonturas e câimbras, mas, depois de um tempo, com a freqüência, o corpo se habitua e é capaz de fazer exercícios mais pesados.
Criatividade para quê?
Você pode estar se perguntando: “Mas para que eu preciso ser criativo?” E a resposta é direta: porque sem essa ferramenta você não consegue mais atuar de maneira competitiva em qualquer que seja o seu mercado.
Em primeiro lugar, devido ao caos. Não no sentido de bagunça, mas no sentido matemático da palavra. A ciência do caos estuda o impacto de inúmeras variáveis no acontecimento de determinado fenômeno. Por exemplo: o que determina qual restaurante você vai almoçar em um dia de semana? Em uma lista pequena, podemos dizer: sua fome e sua vontade; a fome e a vontade de seus colegas (pois vocês vão se influenciar mutuamente); a fome e a vontade de outras pessoas (porque o restaurante que vocês pretendiam ir pode estar lotado); sua capacidade financeira...
Agora, imagine que você é o dono do restaurante. Na prática, como lidar com tantas variáveis? E o pior é que, desde o início de nossa vida escolar, nos ensinaram a pensar de maneira linear, cartesiana. Um profissional que fez faculdade passou cerca de 20 anos estudando um tipo de lógica que não funciona mais no mercado onde atuamos. Esperamos uma relação de causa e efeito em nossas ações gerenciais: “Se eu fizer isso, acontece aquilo”. E, nesse ambiente caótico, essa não é a verdade. O que ocorre agora é “se eu fizer isso, podem ocorrer muitas coisas... ou não”.
Mais do que isso. Fomos treinados para acreditar na verdade única, na solução perfeita. Um exemplo: teste de múltipla escolha, como o vestibular, que nos faz escolher a alternativa correta. Agora pense no seu negócio ou na sua carreira. Você acha que só existe uma maneira correta de fazer as coisas acontecerem? Claro que não. Existem, provavelmente, milhões de decisões que tomamos ao longo da vida que irá nos afetar profissionalmente – e não apenas um caminho certo.
Oxigênio da inovação
Acabou-se a era da certeza! E, nesse contexto, a criatividade é a linguagem perfeita para o ambiente atual. Isso vale para todos os mercados. Até trabalhos mais simples como vender balas nos faróis está exigindo criatividade para vencer a concorrência. O mais difícil é que as técnicas de vendas e os produtos mudam a cada semana. Atualmente, nesse mercado urbano, a inovação é a forma de exposição do produto, como aqueles saquinhos de bala que ficam pendurados no espelhinho lateral do carro.
E o que isso tem a ver com a sua carreira e com o seu negócio? Tudo!
A criatividade é o oxigênio da inovação e as pessoas são as únicas fontes de criatividade nas empresas. E essas, para sobreviver nesse ambiente, devem inovar o tempo todo. Isto é, precisam de novos produtos e serviços , descobrir mercados e nichos, reinventar-se a cada dia.
Muitos utilizam os termos inovação e criatividade como se fossem a mesma palavra. No entanto, a ligação e a distinção entre eles são muito claras. Criatividade é o processo de geração das grandes idéias. Inovação é a criatividade implementada. É pegar as idéias criativas, que podem ser concretizadas, e trazê-las para o mercado.
E essa relação de criatividade e inovação, por mais óbvia que possa parecer, ainda é pouco compreendida pela maioria dos profissionais. Para muitos, a criatividade aplica-se mais facilmente à arte do que aos negócios – o que provavelmente ocorre pelo fato de a atividade criativa ter sido reconhecida primeiro nessa área.
Você pode dizer que acha tudo isso um exagero, que precisa, no máximo, “surpreender” o cliente para ser competitivo. Mas se parar para analisar um pouco, perceberá que ainda assim, a única forma de fazer isso é sendo criativo. Afinal, “surpreender” é propiciar uma experiência que o seu cliente não estava esperando – e com isso conquistar sua fidelidade. Como fazer isso sem gerar algo novo? Acredite, é muito difícil ter sucesso sem lançar mão de um pouco de criatividade no seu dia-a-dia.
Do que é feita a criatividade?
*Conrado Schlochauer é sócio do Laboratório de Negócios SSJ ( www.labssj.com.br), uma escola de negócios voltada para o treinamento de competências. Graduado em administração pela FGV/SP, é mestre pela PUC-SP na mesma área, dissertando sobre Criatividade. É professor e palestrante do tema em diversas empresas e escolas de todo o País.