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O Diabo e o Rock 
Carta sobre o fascismo
Na aula de religião 

 

 

 

O Diabo e o Rock 

 

"O Diabo é o Pai do Rock" já dizia em uma canção o saudoso Raul Seixas. Vamos examinar mais profundamente esta afirmação.

Como sabemos, os artistas muitas vezes revelam-nos profundas verdades pois agem , mesmo que involuntariamente, como antenas receptoras da grande fonte universal de sabedoria: os Deuses ou Arquétipos, conforme a sua crença. Assim devemos sempre prestar atenção ao que dizem os artistas genuínos e sinceros. Raulzito "Rock" Seixas, como gostava de ser chamado, foi um artista especialmente interessante graças à sua postura e ao conjunto de sua obra (ver Safira Estrela nº 02). Nada temos a acrescentar ao ótimo artigo escrito por Toninho Buda na edição citada; também integramos a numerosa legião de admiradores de Raulzito, que consideramos o primeiro e único legítimo "Rei do Rock Brasileiro" (sorry, Roberto & Erasmo).

Em relação ao Rock, procedamos a um breve histórico. Este gênero musical característico do século XX é um dos mais típicos produtos de nossa era. Este nasceu na América a partir do cruzamento (encruzilhada Ô exu Ô demônio) entre a música dos brancos europeus, mais requintada em orquestração e a música dos negros africanos, mais rica em sentimento e ritmo. Desde o nascimento, pois, o Rock é bastardo, filho do prazer proibido do patrão branco que treinava às ocultas o gingado de cintura com a mucama negra. Esta é uma das pistas para entender porque o lado oficial e wasp (da raça branca, de cultura anglo-saxã e religião cristã, protestante ou católica) da sociedade norte-americana abominou o Rock and Roll no seu nascimento e até hoje tem problemas em aceitá-lo bem.

Mais do que apenas um estilo musical, o Rock transformou-se em um veículo de expressão da revolta e rebeldia dos jovens, de início nos EUA e mais tarde em outros países, contra as regras e leis impostas pelo Sistema que domina a mentalidade e (de)forma o comportamento dos indivíduos. Qual Sistema? Igreja, Governo e Forças Armadas. Porém, como dizíamos, o Rock veio transformando-se paulatinamente numa pedra no sapato do Sistema. É claro que este último contra-atacou, tentando neutralizá-lo. Além de diversos tipos de censura ostensiva ou velada, vale lembrar o fato de que o Rock era e ainda é proibido em países de regimes autoritários como a antiga União Soviética e as atuais nações islâmicas.

Os pais deste estilo musical anárquico e irreverente nos EUA foram os negros, que aqui no Brasil foram os criadores do samba, música que há algumas décadas também era marginalizada e confinada aos guetos, associada à cultura "profana e demoníaca" dos africanos. Artistas negros como Chuck Berry, Fats Domino e Little Richard, alegres e provocadores, eram incômodos para a sociedade wasp norte-americana. Porém como o Rock já nasceu dotado de uma energia avassaladora, não pôde ser suprimido. O embalo da música, além de ser irresistível, atraía a juventude com a aura do "proibido". E como diz a sabedoria popular, "proibido é ainda mais gostoso". A saída foi adotar o Rock, trazendo-o mais para perto dos padrões da classe média branca. De que maneira? Contrapondo a artistas como Berry e Richard um produto mais palatável: Elvis Aaron Presley.

É inegável que Elvis ajudou a tornar o Rock and Roll conhecido mundialmente e que, no início de sua carreira, encarnava bem o espírito rebelde e erótico desta música. Seu rebolado parecia obsceno para os conservadores, provavelmente porque fazia lembrar os movimentos dos quadris durante o ato sexual e sexo é uma lembrança desagradável para quem adota o puritanismo como religião. Elvis, porém, acabou aceito (e engolido) pelo Sistema porque sua figura era mais fácil de digerir do que a de Little Richard, por exemplo.

Negro, afeminado e "porra-louca", Richard era um autêntico artista marginal e, ao nosso ver deveria ser considerado o verdadeiro Rei do Rock and Roll. Apesar de ter raízes familiares evangélicas e experiência em corais gospel, suas apresentações eram um delírio, uma catarse para os espíritos reprimidos pelos tabus e convenções de uma sociedade hipócrita. Catarse que, aliás, deve estar presente em todo genuíno show de rock, como de resto em qualquer espetáculo artístico que se proponha a uma transformação de sua audiência.

Além de Little Richard, o enérgico Jerry Lee Lewis também ajudou a consolidar a tradição roqueira de chutar pianos, sapatear sobre eles e até demolir a machadadas o nobre instrumento. Devemos lembrar que o piano era um símbolo sagrado da música séria e erudita da "velha guarda". Falando em símbolos vem-nos à mente a associação entre o sacrifício dos instrumentos feito pelos roqueiros e o holocausto de animais oferecidos às divindades em diversos rituais por magos e sacerdotes. Mais um efeito especial para catalisar as emoções e a fé dos fiéis? Enfim, a platéia aplaude, agradece e vai embora seduzida. Os espetáculos têm suas similitudes; os objetivos que se pretende alcançar em cada um deles deixo às vossas próprias conclusões, caros leitores.

Na década de 60, sob os primeiros eflúvios favoráveis ao signo de Aquário, várias revoluções importantes colocaram-se em curso. No terreno da música seus efeitos foram profundos. O destaque da época é a obra legada pelos quatro rapazes de liverpool, os ingleses John, Paul, George e Ringo. Já ouviu falar neles? Provavelmente sim , pois de acordo com uma das várias frases de John Lennon que criaram polêmica, "Os Beatles são mais populares que Jesus Cristo". Esta declaração e mais a preciosa (para nós) divulgação das filosofias orientais para a juventude do Ocidente, angariou para os Beatles a antipatia e mesmo o ódio de setores mais empedernidos das igrejas cristãs.

John Lennon foi uma das figuras mais brilhantes dos anos 60, incitando muitos jovens ao questionamento das verdades estabelecidas e ao protesto contra estruturas autoritariamente impostas. A canção "Imagine", de sua autoria, é um belíssimo hino anarquista em prol do humanismo, do pacifismo e da liberdade (Confira a tradução em português no final do texto). Lembramos que Lennon foi espionado e atormentado anos a fio pela polícia secreta (FBI e CIA) e governo ianque durante o tempo em que viveu nos Estados Unidos. Podemos também recordar que ao ser "convidado a deixar o Brasil" pelos generais da ditadura militar na década de 70, sob a acusação de pregar a fundação de uma "subversiva" sociedade alternativa, nosso Raulzito perambulou pelos EUA tendo encontrado John Lennon e Yoko Ono. Ficamos a imaginar o papo que deve ter rolado entre estas grandes figuras. Funcionando como antenas receptoras mais apuradas da sociedade, os artistas da década de 60 tiveram um importante papel em impulsionar a onda de transformações que Aquário começou (e continua ) a jorrar sobre a Terra, até que finalmente as bases das velhas estruturas apodreçam e caiam.

E falando do arquétipo do Questionador, do Rebelde, de Lúcifer, o portador da Luz, não podemos esquecer de citar aqueles que já foram até mesmo apelidados de "Suas Satânicas Majestades": os Rolling Stones. Em verdade, Mick, Keith, Charlie, Bill e o finado Brian Jones ultrapassaram os Beatles na capacidade de chocar os conservadores. Até hoje há que faça o sinal da cruz e se benza ao ouvir falar do andrógino e — por isso mesmo —sedutor Mick Jagger, do "largadão" Keith Richards e sua orgulhosa postura de marginal da sociedade tradicional e ainda do enigmático Brian Jones, artista dotado de uma aura de mistério e que morreu em circunstâncias intrigantes e mal explicadas.

Com Brian Jones, aliás, começa uma longa história recheada de inúmeros boatos, calúnias e deturpações — entremeada por algumas poucas verdades — associando o Rock ao Satanismo. Podemos citar alguns fatos:

 

  • A música "Sympathy for the Devil", de autoria dos Rolling Stones, é uma versão alternativa da figura que tanto assusta (ou fascina) o "rebanho obediente do Senhor". Nunca antes uma canção falando sobre o Demo tinha tido tanta popularidade, isto é, fora cantada coletivamente por grandes audiências, como ocorre nos shows dos Stones. Esta música tornou-se mesmo um ícone de contestação e, como tal, foi regravada por outras bandas identificadas com uma postura marginal, como os Guns and Roses, banda também inspirada nos Rolling Stones. "Sympathy for the Devil" é a música que se ouve no encerramento do filme "Entrevista com o Vampiro", baseado no livro de Anne Rice.

 

  • O guitarrista Jimmy Page, segundo suas próprias palavras, interessou-se por ocultismo, estudando magia e, especialmente, a obra de Aleister Crowley. Inspirado por estes estudos Page e seus colegas Robert Plant, John Paul Jones e John Bonham, que formavam o grupo Led Zeppelin, compuseram várias canções com climas místicos, inclusive a belíssima e bem conhecida "Stairway To Heaven" (Escada Para O Céu), com imagens da mitologia tradicional céltica.

 

  • A amizade de Jimmy Page com o cineasta marginal Kenneth Anger, inglês como ele (sem dúvida a Inglaterra parece um celeiro mundial de ocultistas), resultou numa parceria de trabalho que rendeu o filme "Lucifer Rising" (Lucifer Despontando), sobre o popular Capeta. Anger era, como Page, seguidor das idéias de Crowley.

 

  • A banda Black Sabbath (Sabá Negro, ritual de bruxaria ancestral), segundo declarações de seus próprios membros , não integrava nenhum satanista assumido. Toni Iommi, Terry Geezer Butler, Bill Ward e o fauno (vá ao dicionário!) Ozzy Osbourne apenas tinham curiosidade sobre o assunto e usaram as imagens sombrias associadas pelo povão a tudo o que é infernal para montar os seus espetáculos. Uma espécie de "Casa Das Bruxas" musical, na mesma linha dos inesquecíveis e divertidos filmes B produzidos nas décadas de 60 e 70 por produtoras cinematográficas como a inglesa Hammer. Bom, mas cinema já é matéria para um outro artigo. O mencionado Black Sabbath acabou tornando-se, voluntariamente ou não, o grupo pioneiro e também um dos melhores de um novo estilo que surgiria a partir de sua obra, o "Black Metal", designação para Rock Pesado (Heavy Metal) contendo letras macabras.

 

  • Ozzy Osbourne, desde os tempos de cantor do Black Sabbath(segue atualmente uma prolífica carreira solo), tornou-se figura referencial para outros vocalistas que queriam desenvolver uma atuação em cena com caráter provocante. Artistas como Alice Cooper, Kiss, Motley Crue, Twisted Sister, Wasp e outros adotaram e exageraram o visual andrógino, macabro ou demoníaco, encantando os adolescentes com seu circo sonoro-visual e horrorizando os puritanos e conservadores que, ingenuamente, são quem mais os leva a sério! Ah, antes que me esqueça: Ozzy Osbourne reitera sempre que não é satanista. O cantor compôs a canção "Mr. Crowley" (no disco Blizzard Of Ozz), questionando o trabalho do conhecido mago.

 

  • Muitos astros do religiosismo de mídia nos EUA como o pregador Jimmy Swaggart e seus clones televisivos evangélicos parecem ser os maiores fãs do Rock Pesado. Na verdade, precisam deste porque usam-no como chamativo símbolo de tudo o que é demoníaco e "errado" na sociedade atual. Porém, na mesma medida em que arrebanham fiéis ovelhas assustando-as com as estórias dos anticristos roqueiros, também ajudam um bocado a aumentar a popularidade destes artistas junto à garotada. Um dos conjuntos que mais deve agradecer pela tremenda reputação que alcançou a nível mundial devido aos boatos dos religiosos é o KISS. Alguns evangélicos norte-americanos espalharam a idéia de que o nome da banda seria uma sigla para Kids In Satan Service (Crianças A Serviço de Satã). Resultado: a badalação ajudou a promover o KISS, que conquistou boa parte da juventude nos anos 70 com seus inesquecíveis rocks dançantes como o hino "Rock And Roll All Nite" (Roquenrou A Noite Toda) e "Let Me Go Rock And Roll" (Deixe-me Ir Roquenrou) do disco "Hotter Than Hell" (Mais Quente Que O Inferno!). A rapaziada do grupo, quatro gozadores "boas-vidas" aproveitaram ao máximo o que a fama pôde lhes proporcionar. Uma recordação especial: quando vieram apresentar-se no Brasil, eles também ganharam uma ajudinha extra na divulgação de seus shows com as campanhas levantadas pelos evangélicos brasileiros para afugentar os adolescentes dos locais dos concertos. Com isso o KISS conseguiu praticamente lotar o estádio do Maracanã!

 

  • Uma das melhores e mais importantes bandas a surgir na década de 80, o Iron Maiden tirou seu nome de um medieval instrumento de tortura, a Donzela de Ferro. Apoiando-se em histórias de terror e ficção, o grupo lançou discos marcantes que ajudaram não só a revitalizar o rock pesado como também a popularizar os temas sombrios. Em seu clássico album "The Number Of The Beast", a faixa-título trata diretamente de um dos personagens principais do Apocalipse segundo o apóstolo João: o Anticristo. O número, cantado no refrão da música, é 666.
  • O cantor Ronnie James Dio (Deus, em italiano), popularizou em seus shows o sinal dos cornos (ôpa, estou falando de outros cornos, meu chapa!), com os dedos indicador e mínimo levantados e os outros abaixados, tradicionalmente usado pelo povo (de lá) ao falar das coisas do Tinhoso. Dio consagrou-se internacionalmente substituindo Ozzy Osbourne como cantor do Black Sabbath em discos como "Heaven And Hell" (Céu e Inferno) e "Live Evil" (Maligno Vivo), e depois em carreira individual. Seu primeiro disco solo, que inclusive foi lançado no Brasil, trazia na capa um audacioso desenho de um reluzente diabão. Dio, ainda mais que Ozzy, capitalizou bastante o visual demoníaco em seu trabalho.

 

  • De uma leva mais recente de intérpretes que se valem das estratégias de chocar usando imagens diabólicas podemos citar o vocalista King Diamond e sua banda Mercyful Fate (Destino Misericordioso). Diamond tornou-se conhecido por apresentar-se com uma cruz invertida (símbolo satânico) pintada na testa.

 

  • A banda Venom (Veneno), cujos integrantes adotavam nomes de demônios, gravou diversas canções com temas sombrios e títulos como "In Nomine Satanas".

 

  • Celtic Frost (Geada Céltica) é outro conjunto que se destaca entre os adeptos do estilo Black-Metal. Um de seus discos intitulava-se "To Megatherion", que lembra um dos nomes mágicos usados por Crowley em seus trabalhos.

 

  • Um exemplo da recente geração norte-americana de roqueiros é o radical (pois o próprio leva-se a sério!) vocalista da banda Marilyn Manson. Dono de uma feiúra incomparável e mestre da extravagância, o sujeito é ajudado por seu peculiar masoquismo e homossexualismo, o que lhe permite praticar em pleno palco atos de felação e auto-flagelação. E mais: a quem interessar possa, ele já anunciou aos quatro ventos que é a própria personificação de Belzebu. Durma-se com um barulho destes! De qualquer modo, ele representa sinceramente o seu papel de escandalizar os ingênuos que buscam um mundo paradisíaco idealizado, cuspindo-lhes na cara um discurso fundado no lado amargo da vida, ou seja, o outro lado da moeda Céu-Inferno.

 

  • Uma recente informação diz-nos que o primeiro disco da banda Seahorses (Cavalos-Marinhos) traz uma canção chamada "Love Is The Law" (O Amor É A Lei), remetendo à obra thelêmica.

 

Que conclusão tirar após o exposto acima? O Rock, sem dúvida, deve muito de seu sucesso e fama aos temas assustadores e aos tabus que recheiam o nosso "inconsciente coletivo" (thanks, Dr. Jung). Muitos roqueiros souberam capitalizar os aspectos sombrios da vida transformando-os em temas de canções e até em postura cênica. É verdade que nem todos tinham, como tinha Raul Seixas, um objetivo definido de criar uma obra que tocasse a fundo nossas consciências. Ainda assim, as idéias libertárias e questionadoras devem pagar tributo ao Rock por ser até hoje um dos mais potentes e eficazes veículos destas mensagens. Longa Vida Ao Rock And Roll!

 

"Imagine"

(John Lennon)

* tradução:

 

Imagine que não existe Paraíso

É fácil se você tentar

Nenhum Inferno abaixo de nós

Acima de nós só o firmamento

Imagine todas as pessoas

Vivendo o momento presente

 

Imagine que não existem países

Não é muito difícil fazê-lo

Nada para você defender morrendo ou matando

E também não existe religião

Imagine todas as pessoas

Vivendo a vida pacificamente

 

Imagine que não existe propriedade

Quero ver se você consegue

Sem necessidade de ganância ou fome

Uma Humanidade fraternal

Imagine todas as pessoas

Compartilhando o mundo todo

 

Você pode dizer que eu sou um sonhador

Mas eu não sou o único

Eu espero que um dia você venha a se juntar a nós

E o mundo será como uma coisa só.

 

Paulo Sisinno (texto para a revista Safira Estrela n. 6, publicado em março de 98)

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Carta sobre o fascismo

       Aí está o resultado de vinte anos de uma ditadura que perseguiu, exilou ou assassinou as melhores cabeças de uma geração: a juventude de nossos dias, retratada em recente pesquisa divulgada na imprensa, ignora as noções mais elementares de cidadania e direitos humanos, despreza a democracia e aceita o racismo e o fascismo como coisas naturais.

A desvalorização do ensino e dos professores somada ao processo de idiotização das mentalidades principalmente através da televisão criou uma geração de trogloditas que se orgulham de ser comparados com uma raça de cachorros (pit-boys)!

Com a perda de mentes brilhantes como a de Dias Gomes, Antonio Callado, Enio Silveira, Darcy Ribeiro, Paulo Freire, Florestan Fernandes e outros temos assistido um vazio cultural engolfar a nação de forma assustadora nos últimos anos. É a geração dos Maicons, Jhonys, Pamelas e Suelens que mal sabem falar português mas são perfeitos consumidores de Hollywood, Dallas, McDonalds, etc; zumbis programados para doar seu sangue aos que os exploram, sem questionar e prontos a adorar o próximo ídolo a ser criado pelo show business.

Hoje estamos vendo nosso parque industrial sendo sucateado, nossas riquezas naturais vendidas a preço de banana podre e nossas poupanças usadas para ajudar os banqueiros. Os mais ricos vivem cada vez melhor e os pobres morrem nas filas dos bancos e hospitais. Somos os campeões mundiais de desigualdade social segundo dados da ONU. A reforma agrária ainda depende de vontade política para deixar de ser uma promessa e nossa política econômica segue sendo coordenada pelos yankees, não por acaso avalistas do golpe de 64. Me parece que a "revolução para livrar o Brasil das garras dos soviéticos" entregou o país de mão beijada ao Tio Sam. E mais:  há semanas um out-door na cidade do Rio de Janeiro anunciava a venda do livro "Protocolos de Sião", famosa cartilha nazista.

Um alerta: nossa frágil democracia ainda corre sério risco frente aos gorilas de vários tipos, fardados ou não.

(carta enviada por Paulo Sisinno ao jornal O Globo em outubro de 1999)

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Na aula de religião

 

Cenário: turma de jovens na sala de aula de um colégio esperando a professora de religião para a aula inicial. Os garotos e garotas estariam certamente mais interessados em aprender noções de sexualidade do que em ouvir falar de pecado (pausa para vômito, após tão nauseabunda palavra). A moçada debruça-se displicentemente sobre as carteiras, como se dissessem com os próprios corpos que preferiam não estar naquele lugar. Alguns, mais sagazes, manifestam através do humor a sua contrariedade.

Paulinho: "— Oh, deus! Por que me fazes estar aqui nesta bela manhã de sol ao invés de na praia olhando as meninas?" (risos generalizados). As gêmeas Roberta e Renata comentam em voz alta: "— É, ele está mesmo certo!"

A bela Aninha, admiradora secreta de Paulinho, sorri e registra mentalmente mais esta demonstração de presença de espírito e independência do rapaz.

Entra em sala Dona Maricota, encenando sua melhor pose de auto-controle, após ter escutado em segredo as manifestações de protesto da turma. Na verdade ela guardava o hábito de, como legítima fofoqueira, colar o ouvido à porta da sala para bisbilhotar o que a meninada dizia.

Dona Maricota: "— Bom dia, classe. Parece que hoje vocês estão um pouco inquietos. Qual é o problema, afinal?"

Paulinho: "— A senhora acha justo que nós tenhamos que assistir a uma aula de religião? Aliás, Dona Maricota, vou refazer a minha pergunta; a senhora acha que seja possível ensinar religião ?"

Dona Maricota, sentindo um tremor nas bases: "— Que idéias são essas, menino? Todos precisam passar por uma doutrinação, digo, orientação. É muito perigoso que suas mentes fiquem sem rumo."

Ludovico, lá do fundo da sala, reúne toda a sua coragem para desafiar o poder instituído e levanta a voz para dizer, ainda que gaguejando:" — ‘fessora, meu pai costuma dizer que somente nós podemos escolher o rumo de nossas vidas."

A turma agita-se e um burburinho corre a sala. As crianças filhas de pais dominadores espantam-se com aquelas demonstrações de independência, que elas não ousam mostrar . Outras crianças concordam e apóiam a intervenção e a coragem do tímido Ludovico.

Paulinho sentindo que não está só, retoma: "— Então, a senhora acha que nós mesmos não somos capazes de conduzir nossas próprias vidas e que deve nos dizer o que é o certo e o errado?"

A velha sente um nó na garganta lembrando de uma vez em sua juventude quando ousou desafiar o pai. Recorda-se de uma indefinível sensação de culpa, de sentir-se uma menina mal-comportada por não obedecer exatamente como lhe era cobrado, por sentir-se uma pecadora. Lembra-se afinal de como abraçou a fé religiosa tentando aliviar o sentimento de culpa por ser humana, isto é, não ser "perfeita como Deus".

Ela agora sente como se sua garganta fosse fechar mas disfarça e, com um tom de voz mais agressivo, diz:" — Meu filho, você precisa tomar muito cuidado. É bom saber que muitas vezes quando nós fazemos perguntas que questionam a Verdade de Deus e afirmamos coisas que parecem inteligentes, na realidade não somos nós que estamos falando mas sim o Diabo que está falando através de nossa boca."

Paulinho, revidando o fogo:" — Ôpa, a senhora quer dizer que quando nós pensamos e agimos de forma inteligente estamos sendo orientados pelo Diabo? Então qual é a parte de Deus nesta história? Por que ele deixa com o Diabo os mais inteligentes? Será que ele prefere a companhia dos medíocres, dos que se contentam em abaixar a cabeça todo o tempo e concordar sempre, aceitando tudo sem critérios?"

A cabeça de Dona Maricota gira. Aquilo tudo é demais para ela. "Eu não ganho o bastante para suportar isso!", pensa . "Este menino rebelde me faz lembrar de uma parte de mim mesma que eu prefiro esquecer. Não tenho força o bastante para domá-lo. Vou apelar para um poder maior, chamarei o diretor da escola. Aí ele vai ver só."

Alguns minutos mais tarde adentra a sala Dom Estevão, diretor da escola, já preparado para o combate após ter sido alertado por Dona Maricota. Ele portava sua estudada máscara de placidez e benevolência, a qual já usara para domar diversas gerações de jovens fogosos.

Dom Estevão:" — Bem, crianças, parece-me que algumas de vocês julgam-se já maduras para decidir o que devem fazer de suas próprias vidas, certo?"

Paulinho, sem dar mole para o "santo homem": "— O senhor quer dizer que sabe, mais do que nós próprios, o que é o melhor para nós?"

Sentindo que a parada vai ser dura, D. Estevão apela ao seu repertório:" — Cuidado, meu filho. Você sabe que quando nós fazemos perguntas e afirmações que questionam a Verdade de Deus, na realidade... "

"– Sim, já escutei esta antes Dom Estevão. Estamos sendo orientados por Satanás."

"– Não o diga em voz alta, garoto! Este nome tem poder. Ele é o símbolo de tudo o que é errado nesta vida e que vocês devem evitar."

Paulinho suaviza o tom:" — Desculpe, mas eu estou apenas querendo entender. Não estou aqui para engolir o que me dizem como sendo algo absoluto e inquestionável. Tenho dúvidas, sim, e fico pensando em qual seria a melhor atitude a tomar num determinado momento. Porém sinto também que as dúvidas fazem parte de nossa natureza humana e que amadurecemos quando aprendemos a escolher por vontade própria. Nenhuma outra pessoa pode aprender por nós. Também sinto que o homem é agente de sua própria história. Por acaso, o senhor também não tem dúvidas sobre as suas escolhas, padre?"

Dom Estevão sente as bochechas esquentarem como brasas. Os alunos riem ao vê-lo vermelho como um diabo (com o perdão da palavra, D. Estevão). Um suor frio surge em suas mãos enquanto um calor infernal (com o perdão, etc.) sobe por dentro de sua batina. Em um átimo o padre vê, projetados na imagem daquele rapaz, todos os seus medos escondidos, suas dúvidas abafadas em silêncio auto-complacente, seus desejos inconfessáveis, suas insatisfações mudas. Subitamente encontra uma explicação para o que está sentindo; sua voz até então presa na garganta explode num grito horripilante:

"— Satanás! És tu, maldito! Afinal me achaste, após tanto tempo! Saia daqui, demônio! Não quero ouvir-te, amaldiçoado cão dos infernos." E, deixando-se tomar por fúria e desejos reprimidos durante longos anos, Dom Estevão berra a plenos pulmões, numa catarse quase orgástica:

"— Satã, seu cão danado! Você faz tudo para que nós te admiremos, para que nos encantemos por você! Você vem nos tentar à noite em sonhos, ou de dia em pensamentos anti-conformistas. Eu já não aguento mais as tentações sucedendo-se, uma após a outra, todos os dias, todo o tempo, sempre, sempre! Agora até mesmo as crianças falam com a tua voz. Tu estás em todos os lugares, és onipresente a perseguir-me onde quer que eu vá. Sinto que estás agora dentro de mim, em meus pensamentos e emoções! Sai de mim! Sai capeta! Vou exorcizá-lo! Vou chamar o Rambo, quer dizer, o Ratzinger! Vamos restaurar os tribunais da Inquisição!"

Paulinho levanta-se para tentar abraçar o padre e acalmá-lo, mas este apavora-se ao vê-lo mover-se.

"— Vade retro, Satanás! Você é a imagem de todos os meus medos, de todos os desejos secretos que sufoquei desde a juventude, de minha sexualidade reprimida, de minha angústia e do meu inconformismo com a justiça divina na qual não acredito porque não consigo entendê-la. Mas eu não quero entender nada ! Não quero nem mesmo pensar, Satã! Não quero questionar nada, não tenho coragem para isso. Nunca tive os necessários colhões para ser contestador, só quero obedecer e que me deixem em paz. Por isso imploro-te que me deixes, trevoso. Saia de minha vida, estou ficando louco! Socorro mamãe Maria, salve-me rainha!"

O jovem, comovido pelo lastimável estado a que tinha se reduzido o pobre diabo, isto é, o pobre padre, encaminha-se para a porta de saída. Na soleira ainda vira-se para deixar uma última mensagem:

"— Acalme-se, Dom Estevão. Não amaldiçoe uma possível benção. Se Lúcifer realmente apresentou-se ao senhor, ele pode ter vindo trazer-lhe uma Luz de esclarecimento. Duvidar é humano e o senhor também é humano, mesmo se alguns delírios de grandeza e santidade tenham lhe perturbado o juízo durante algum tempo. Um momento de dúvida pode ser a véspera de uma importante tomada de consciência, seguida de uma valiosa mudança de atitude e, até mesmo, de um inesperado atalho em nossa trajetória de vida. E as mudanças não são ruins quando nos acrescentam experiência e sabedoria vivida. Refazer uma rota traçada não significa imaturidade ou leviandade. Pelo contrário, pode representar a grandeza de espírito de quem sabe reconhecer que cometeu um erro e também sabe que é livre para começar de novo, sem culpa nem sentimento de pecado, com o perdão de tão nauseabunda palavra. Se aparentemente erramos, ao menos estamos aprendendo a não cometermos os mesmos erros mais tarde. É assim mesmo o caminho da evolução, errático mas não destituído de prazer, contanto que seja livre. E admita padre, Lúcifer tem lá seus méritos se fez o senhor pensar um pouco nestas palavras após provocar esta pequena revolução."

Cai o pano.

N.A . : Os personagens e situações aqui descritos são fictícios. Quaisquer semelhanças com situações que o leitor tenha vivido ou com pessoas que tenha conhecido será, quem sabe, mera coincidência.

 

( texto para a revista Safira Estrela n. 8, publicado em setembro de 98, sob o pseudônimo de Saulo Ahau)

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