A Primeira Grande Força na Psicologia:

A Psicologia Comportamental ou o Behaviorismo

 

O movimento da Psicologia Behaviorista que se organizou nos EUA a partir do início do século XX representou a influência conjunta de várias tradições filosóficas e científicas. O positivismo, aqui, se manifesta na condenação da pretensão em ir além do observável e da elaboração de leis empíricas. O pragmatismo, por sua vez, se faz presente em sua ênfase no caráter instrumental do conhecimento e na produção do conhecimento útil. As primeiras vítimas, então, do ataque conjunto do positivismo e do pragmatismo foram a introspecção e a “vida interior”, com o “Behaviorismo Metodológico” de Watson (1878-1958), abordagem teórica e prática da época que estabelecia como objeto da Psicologia o comportamento do organismo como um todo (Figueiredo, 1991).

Notamos aqui, que nesse momento histórico inicial, o tipo de psicologia científica que se propõe, é uma psicologia materialista, no sentido de que seja no Behaviorismo Metodológico de Watson, seja em todo o apanhado de abordagens quantificadoras em psicologia, que foram citados anteriormente,  considera-se aquilo que normalmente denominamos como sendo o pensamento, um resultado e um produto essencialmente derivado da atividade das células do cérebro e do sistema nervoso corporal. No Behaviorismo Metodológico de Watson, especificamente essa visão materialista chegou, mesmo, ao cúmulo de negar a realidade da subjetividade e dos estados mentais, pois em função de seu caráter positivista, a abordagem de Watson considerava que a Psicologia só poderia ter como objeto de estudo algo concretamente observável. Como o conceito de “mente” é algo abstrato, não “possuindo uma realidade concreta observável”, ele era rejeitado e negado em todos os sentidos.  Concreto e valorizável era, portanto, o comportamento observável, medível e descritível.  O pensamento, enquanto tal, só seria apreensível, enquanto atividade do funcionamento do cérebro (visão materialista), com um conteúdo condicionado por variáveis ambientais. Tudo isso, poderia ser medido, observado e/ou descrito, por isso era legítimo de ser estudado.

Segundo o próprio Skinner (1994), “...Watson fez importantes observações  acerca do comportamento instintivo e foi, na verdade, um dos primeiros etologistas no sentido moderno. Entre os fatos de que dispunha, relativos ao comportamento, estavam os reflexos e os reflexos condicionados, aos quais ele explorou ao máximo. Todavia, o reflexo sugeria um tipo de causalidade mecânica que não era incompatível com a concepção que o século XIX tinha de uma máquina. A mesma impressão fora dada pelo trabalho do fisiólogo russo Pavlov publicado mais ou menos na mesma época, e  não    foi corrigida pela psicologia do estímulo-resposta, surgida nas três ou quatro décadas seguintes.

Watson naturalmente destacou os seus resultados mais passíveis de reprodução que pôde descobrir, e muitos desses resultados foram obtidos com animais – os ratos brancos da Psicologia animal e os cães de Pavlov. Parecia estar implícito que o comportamento humano não tinha características distintivas. Para apoiar a sua afirmação de que a Psicologia era uma ciência, ele fez empréstimos da anatomia e da fisiologia. Pavlov adotou a mesma linha ao insistir em que seus experimentos sobre o comportamento eram, na realidade, ‘uma investigação da atividade fisiológica do córtex cerebral’, embora nenhum dos dois pudesse apontar qualquer observação direta do sistema nervoso que esclarecesse o comportamento. Eles foram também forçados a fazer interpretações apressadas do comportamento complexo; Watson afirmando que o pensamento era apenas uma fala subvocal e Pavlov, que a linguagem não passava de um segundo sistema de sinais. Nada, ou quase nada, tinha Watson a dizer a respeito de intenções , propósitos ou criatividade. Ele acentuava a promessa tecnológica de uma ciência do comportamento, mas seus exemplos não eram incompatíveis com um controle manipulador”.

Não poucas vezes, Allan Kardec, ainda no século XIX, postulou que tais considerações seriam uma conseqüência natural de uma posição materialista, que reduzisse o homem ao nível de uma máquina e desconsiderasse suas emoções, anseios, e o que é ainda mais grave, seus comportamentos morais.

B.F. Skinner tentou, em momento posterior, oferecer uma solução para os impasses desse tipo de psicologia, através de uma proposta bem mais elaborada e complexa (embora tenha, no final das contas – como veremos - continuado materialista). Refutando o “Behaviorismo Metodológico” de Watson, e expondo as suas limitações, Skinner propôs a sua abordagem teórica ao qual denominou “Behaviorismo Radical”.

O “Behaviorismo Radical” é, na verdade, a filosofia da “Análise Experimental do Comportamento” ou da ciência (ou engenharia) do comportamento, criada ambas – a filosofia e a ciência – por B. F. Skinner.

Skinner se esforçou, sobremaneira, para diferenciar o seu “Behaviorismo Radical”, do “Behaviorismo Metodológico” de Watson. De fato, o seu materialismo baseado numa visão funcionalista e organicista, avançou alguns passos em relação à visão materialista mecanicista, e positivista de Watson.

O principal avanço da Psicologia Comportamental de Skinner, em relação ao Behaviorismo Metodológico de Watson é o seguinte: Watson opunha-se à realidade dos conteúdos internos, o que em outras palavras significava que ele negava a existência da mente e da subjetividade. O Behaviorismo Radical se distingue por não negar a existência dos estados internos: o fato de que esses estados se situem dentro do organismo e não possam ser observados senão pelo próprio sujeito não põe em discussão a sua existência, como fazia pensar o positivismo de Watson.

Para o Behaviorismo Radical, o objeto de estudo da Psicologia – como no Behaviorismo Metodológico – é o comportamento. Porém diferente de Watson, para Skinner, o comportamento não é visto apenas como uma reação ao meio, mas como o resultado da própria interação do organismo com o meio. O analista do comportamento não está interessado em investigar o que o comportamento significa, ou o que ele simboliza, mas sim, interessado em estudar as variáveis que afetam esse comportamento, e de que maneira.

Em um primeiro momento, a Psicologia Comportamental de Skinner parece escapar um pouco da abordagem materialista de Watson. Reconhece a existência de um ente abstrato – a mente – os seus processos internos, e a realidade da subjetividade.

Se reconhecermos que esse é um pré-requisito fundamental para a elaboração de uma Psicologia que considere os aspectos espirituais do ser, seguindo a Lei do Progresso (descrita pelo Espiritismo), observamos que o Comportamentalismo também realizou um certo avanço.

Entretanto, o Behaviorismo Radical coloca tudo a perder e esbarra exatamente em um dos seus postulados principais: o Comportamentalismo de Skinner considera que embora a mente exista, ela não possui status de causa do comportamento em qualquer nível de manifestação. Ou seja, a mente, a subjetividades e os estados internos existem; talvez, a própria alma exista! Mas, nada disso explica porque uma pessoa se comporta dessa ou daquela maneira. Assim, um psicólogo comportamental, simplesmente não aceita a explicação de que uma ou outra pessoa, tenha se comportado dessa ou daquela maneira, “porque sentia isso ou pensava aquilo”. A explicação estaria sempre na interação do organismo com as variáveis do ambiente físico e social, e não no que a pessoa pensa e sente.

Apesar de toda a sofisticada elaboração skinneriana, o Behaviorismo Radical, em função mesmo de sua posição em relação a influência do pensamento sobre o comportamento, subestimando essa influência, não conseguiu evitar de atrair para si críticas semelhantes às realizadas à abordagem mecanicista de Watson. Muitas dessas críticas foram equivocadas, outras bem fundamentadas.

As críticas mais contundentes acusam que o Behaviorismo encara o ser humano como essencialmente passivo, controlado por estímulos provenientes do mundo externo, como se o homem fosse um mero autômato (Nagelshmidt, 1996). Essa crítica é levantada tanto para o “Behaviorismo Metodológico” de Watson, quanto para o “Behaviorismo Radical” de Skinner, mas a partir de uma leitura mais imparcial, observamos que ela seria mais aplicável à abordagem de Watson. A abordagem skinneriana surgiu exatamente como uma oposição ao pensamento mecanicista da abordagem de Watson, que também era criticada por autores de diversas outras abordagens teóricas.

A matriz de pensamento funcionalista subjacente ao modelo de Skinner enfatiza três fenômenos característicos dos seres vivos, no universo dos eventos naturais, que desafiam o poder compreensivo do mecanicismo e dos procedimentos analíticos atomicistas: a reprodução, o desenvolvimento e a autoconservação. Como afirma Figueiredo (1991), “... nenhum ser inanimado reproduz-se e nenhuma máquina constrói outra máquina que se lhe assemelhe; uma máquina não se monta sozinha; finalmente, a máquina estragada não se conserta nem tem a capacidade de se modificar de forma a se manter em funcionamento apesar das variações do meio ambiente”.

Skinner – ao contrário de Watson - tinha toda essa concepção em alta conta, quando elaborou o corpo teórico e prático da sua abordagem comportamental. A existência desses fenômenos – a reprodução, o desenvolvimento e a autoconservação – indica a especificidade dos seres vivos que aponta para algo “dentro” deles: superficialmente o ser vivo é matéria tão acessível como qualquer outra aos procedimentos da física e da engenharia. Essas três características sugerem, porém, a existência por debaixo da superfície observável, para lá da pura anatomia, de processos e mecanismos sui generis (Figueiredo, 1991). Essas considerações que encontramos na literatura científica não-espírita, também foram apontadas por Allan Kardec (1868), em seu livro “A Gênese”. Assim, observamos que a intuição de todos esses processos e mecanismos também alimentou o pensamento vitalista dos séculos XVII, XVIII e XIX.

Em Skinner, observamos que o tronco funcionalista de sua teoria parece caminhar para retirar o Behaviorismo do materialismo restritivo de Watson, ao considerar a existência da mente. Ele quase conseguiu rebater a crítica de que o Behaviorismo Radical “... apresenta o comportamento simplesmente como um conjunto de respostas a estímulos, descrevendo a pessoa como um autômato, um robô, um fantoche ou uma máquina”. Porém, Skinner coloca tudo a perder quando insiste em afirmar que as emoções e o pensamento não influenciam ou não explicam o comportamento. Afinal, um ser vivo dessa natureza não nos transmite, novamente, a impressão de uma concepção de ser humano similar a uma máquina ou um robô, sem emoções?

 

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