·       O Paradoxo da Primeira Grande Força

 

Pelas considerações anteriores, observamos que Skinner avança bastante em relação ao mecanicismo materialista de Watson, mas ainda limita a sua concepção às conseqüências significativas do materialismo formal; (quase) aceita a existência da alma, mas não as implicações da existência dessa alma (ou mente). Isso ocorria porque Skinner procurava evitar o que chamava de “mentalismo” (ou psicologismo) – como costumava dizer – enquanto linha de argumentação para explicar as causas do comportamento.

Essas causas que estariam, segundo ele, na interação do organismo com as variáveis do ambiente situacional serviram, porém, como argumento para refutar a crítica de que a visão de homem no Behaviorismo, é a de um sujeito passivo sob ação de estímulos do ambiente. Nesse sentido, a obra de Skinner se saiu muito bem: o Behaviorismo mostrou que não considera o organismo um agente passivo à ação do ambiente, mas sim um agente ativo na sua relação de integração com o ambiente.

Na verdade, temos aqui, uma relação dialética: o ambiente atua sobre o organismo, e o organismo atua sobre o ambiente. Esse postulado é axiologicamente demonstrado, mesmo, no experimento mais simples da Ciência do Comportamento, que é a experiência com ratos brancos albinos, conhecida na literatura específica, como experiência da “Caixa de Skinner”. Para quem conhece o experimento, é sabido que o ratinho (previamente privado de água) deve “apertar” uma barra para obter a água que satisfará a sua sede. Ou seja, o rato deve ativamente atuar sobre o ambiente de sua gaiola. Por outro lado, a água (que será metaforicamente falando a sua “recompensa”) será um estímulo reforçador ao rato, para aumentar a freqüência do comportamento de apertar a barra. Ou seja, o ambiente também atua sobre o rato.

Conclusão: a relação entre o organismo e o ambiente, é de natureza dialética, onde um atua sobre o outro. O paradoxo, aqui, é que essa relação será de suma importância para o Espiritismo e para a compreensão dos postulados de uma Psicologia Espírita, que tenha como objeto de estudo a alma humana. Certamente, essa é uma afirmação que deixará muitos Psicólogos Comportamentais de “cabelos em pé”, e mesmo alguns Espíritas – afinal, como uma Psicologia Materialista pode vir a colaborar com uma Psicologia do Espírito? Mas, a conveniente revisão conceitual seguida pela linha de raciocínio a seguir, deverá esclarecer pelo menos em parte essa afirmativa. Será tomado como base um artigo publicado pela Drª Maria Amélia Matos (professora de Psicologia Experimental da USP, e maior pesquisadora da área na América Latina), intitulado A análise experimental do comportamento, no livro Novas contribuições da Psicologia aos Processos de Ensino e Aprendizagem:

1)    O Behaviorismo Radical – como foi dito – é a filosofia proposta por Skinner para fundamentar a ciência ou Engenharia Comportamental denominada “Análise Experimental do Comportamento”. A Psicologia compreendida, nesse sentido, como uma ciência natural e, um ramo da Biologia, tem como objeto de Estudo o comportamento operante considerado como aquele que afeta (atua sobre) o ambiente e, mais importante, que é afetado pelas conseqüências dessa atuação sobre o ambiente (vide o exemplo, do experimento da Caixa de Skinner).

2)       O conceito fundamental em Análise Comportamental é o de “conseqüenciação” (e daí a sua confusão com uma teoria do reforço); operante é o comportamento sensível a suas conseqüências (em oposição ao comportamento reflexo, instintivo, etc). A tarefa básica da Análise Comportamental é descobrir as leis que descrevem esta sensibilidade. Para o Behaviorista Radical, consciência (ou autoconhecimento) diz respeito às descrições que o sujeito faz sobre suas interações com o ambiente. Reconhece-se que esta descrição é um comportamento operante estabelecido pelo ambiente social em que o sujeito vive e, como tal, possível de alterações pelas suas conseqüências.

3)    Segundo uma compreensão Espiritista, a limitação da perspectiva behaviorista está no fato de que, embora considere que a descrição que a pessoa faça do seu comportamento afete suas futuras interações (fato que tem conseqüências psicoterapêuticas eminentes),  os estados internos não têm status causal na abordagem de Skinner. O paradoxo, porém, se encontra no fato de que essa abordagem comportamental – que não deixa de ser materialista em suas implicações e conseqüências – acaba contribuindo para a pesquisa espírita, na medida em que “o modelo skinneriano de seleção por conseqüenciação é muito próximo do modelo darwiniano de evolução”, e esse último aplicado à compreensão da organização do mundo espiritual, explica e fundamenta, em parte, os conceitos Espíritas de reencarnação, carma, evolução e progresso na Doutrina como um todo: O modelo ou o esquema das cadeias comportamentais na representação behaviorista, retira a conhecida Lei Espírita de Ação e Reação de uma causalidade mecanicista, baseada nos modelos da Física Clássica Newtoniana, apropriada à compreensão da época em que tal conhecimento surgiu no Espiritismo, ampliando a compreensão dos mesmos mecanismos de Ação e Reação, num contexto funcionalista e operacional, mais amplo, dinâmico e flexível.

 

A explicação desse postulado será realizada através do conjunto de proposições a seguir, onde alguns tópicos serão retomados, e novas observações serão realizadas. É comum na literatura Espírita, a afirmação de que o aprofundamento dos estudos de inspiração materialista conduzirão à uma conclusão espiritualista. Segundo uma hipótese pessoal, isso também pode se aplicar à Psicologia Comportamental, segundo o seguinte conjunto de idéias:

 ·         Como vimos, num primeiro momento, afirma-se que o Behaviorismo Radical aceita a existência da vida mental interna, e mesmo da “alma”, mas retrocede ao materialismo em suas implicações, ao tentar evitar todo tipo de “mentalismo”, subestimando a influência do pensamento sobre o comportamento manifesto.

 ·         Apesar disso, é exatamente o conceito skinneriano de seleção por conseqüenciação (sublinhando-se, sua proximidade com o modelo darwiniano de evolução) que caracteriza a sua maior contribuição a um estudo de Psicologia Espírita.

 ·         É oportuno destacar ainda que, o conceito de comportamento operante, bem como a matriz de pensamento funcionalista, na Psicologia de Skinner, refutam eficazmente a crítica de que a visão de homem nessa abordagem é a de um ser passivo, robótico, e unilateralmente sujeito à ação do ambiente. Porém ao subestimar a ação da vida mental sobre o comportamento, Skinner comete a falha de simplificar de tal maneira a sua compreensão de ser humano, que novamente acaba abrindo espaço para as mesmas críticas que eram dirigidas ao comportamentalismo mecanicista de Watson. Ocorre ademais que, Skinner cometeu um deslize incoerente com a consistência teórica interna de sua própria teoria, refutando-se a si mesmo; felizmente, será esse deslize, a porta de entrada para possibilitar que a construção comportamentalista ofereça contribuições à Psicologia Espírita.

Isso pode ser explicado da seguinte maneira: o Behaviorismo Radical, como o próprio nome diz, radicaliza o conceito de comportamento, aplicando-o à todas  as manifestações humanas. Assim, ações, sentimentos e pensamentos são todos considerados pelo Behaviorismo como sendo comportamentos.

Continuando, se esmiuçarmos o modelo skinneriano de seleção por conseqüenciação, chegaremos na famosa fórmula esquemática:

 

S – R – C (+ ; -)

ou

Estímulo Antecedente (S) ® Resposta Comportamental (R) ®

Conseqüência (C) ou Reforçamento (positivo ou negativo).

 

Através desse esquema, podemos entender a questão das cadeias comportamentais na Psicologia Behaviorista: para os behavioristas, nem animais, nem seres humanos atuam de maneira isolada, pontual, com ações discretas e justapostas. Pelo contrário, seus atos (ou ações) formam seqüências, organizam-se em padrões, constituem hierarquias. Descritivamente, estímulos antecedentes (S) discriminativos oportunizam a manifestação de diferentes respostas comportamentais (R), que são seguidos de diferentes conseqüências (C); estas, por sua vez, podem se constituir (e freqüentemente se constituem) em estímulos discriminativos antecedentes para outros e diferentes comportamentos.

Para os behavioristas, eventos ambientais que possuem dupla função (conseqüencial para comportamentos anteriores, e discriminativa para comportamentos subseqüentes) são a explicação de por que um determinado fluxo comportamental ocorre em certas circunstâncias e muda de direção em outros. Esta dupla função dos eventos ambientais ajuda a explicar por que, apesar do aparente caos e confusão dos esquemas seqüenciais de representação comportamental resultantes, a corrente comportamental tem direção.

Um psicólogo comportamental típico daria o seguinte exemplo prático: diante do painel de um carro com motor desligado (situação antecedente SA.1), “dar partida girando uma chave” (R.1) tem uma certa probabilidade de ser seguido pela conseqüência “motor girando” (C.1). Ao mesmo tempo, outra seqüência comportamental é iniciada onde “premir o pedal da gasolina na situação SA.1” (R.2) tem como conseqüência “afogamento do motor” (C.2), porém fazê-lo na situação “motor girando” (SA.2 ou seja, C.1) tem outra conseqüência, que é “manter o motor funcionando até esquentar” (C.3). O cheiro da gasolina na situação C.3 e o barulho do motor aquecido na situação C.3 são discriminativos para que o motorista, num primeiro momento, espere (R.3) que o excesso da gasolina se dissipe (C.4), antes de fazer qualquer outra coisa e, num segundo instante, engate a marcha (R.4) e saia andando (C.5). Mas são também, e basicamente, conseqüências diferentes para o ato de premir o pedal da gasolina com o pé (R.2): num caso (C.2) uma conseqüência punitiva, e no outro, reforçadora (C.3).

A representação esquemática completa das duas cadeias comportamentais simultâneas resultantes expressa o caráter seqüencial e multideterminado do comportamento:

 

SA.1 – R.1 – C.1 (SA.2) – R.2 – C.3 (SA.4) – R.4 – C.5

SA.1 – R.2 – C.2 (SA.3) – R.3 – C.4

 

Onde C.1, C.2 e C.3 são conseqüentes, respectivamente, de SA.1 – R.1, de SA.1 – R.2 e de SA.2 – R.2; e, simultaneamente, são antecedentes (SA.2, SA.3 e SA.4) de R.2 – C.3, de R.3 – C.4 e de R.4 – C.5.

 

No esquema completo representado, observamos que na seqüência comportamental, a conseqüência reforçadora de uma resposta comportamental (portanto, um comportamento  operante) transformou-se ele próprio num estímulo antecedente para outra resposta, com outra conseqüência reforçadora, e assim por diante.

Do ponto de vista técnico, o modelo instrumentaliza uma tática de intervenção psicoterapêutica ativa, onde o ponto de partida da aplicação das técnicas graduais de mudança comportamental partem sempre do repertório de entrada do sujeito (a ênfase, portanto, recai no caráter ativo do indivíduo na alteração de seu próprio comportamento). 

Nesse contexto, observamos que o ponto de partida SA.1 (“estar diante do painel de um carro com o  motor desligado”) é o mesmo, mas dependendo da resposta (R.1 ou R.2) a cadeia se descreve em uma ou outra direção, ou até em duas ou mais direções, conforme diferentes respostas simultâneas sejam expressas. É nesse sentido que o modelo skinneriano é um modelo funcionalista (que possibilita a esquematização de vários caminhos para a seqüência comportamental, dependendo da função que esse comportamento desempenhará na seqüência) em contraposição aos modelos mecanicistas watsonianos, tipicamente newtoniano-cartesiano (onde no Behaviorismo Metodológico, o esquema descrito é linear e apresenta apenas um caminho possível).

É importante salientar que esses modelos mecanicistas já foram tão assimilados, mesmo pelo senso-comum, que a representação ocidental utilizada para descrever as leis cármicas de ação e reação, estudadas pelo Espiritismo e pela maioria dos sistemas espiritualistas orientais e gnósticos, têm sido elaboradas tomando por modelos tais paradigmas. Essa compreensão distorcida acaba resultando em quadros clínicos de indivíduos que racionalizam um estado no qual “se sentem presos a um determinado tipo de carma” (a racionalização, aqui, responde aos processos descritos pela psicanálise nos estudos dos diversificados mecanismos de defesa psíquica existentes, e se configura basicamente, como uma deturpação ou distorção da razão e da lógica consistente; em detrimento da razão, o indivíduo preenche as suas necessidades afetivas, em complexos contextos de sintomas de formação de compromisso, envolvendo diferentes ganhos secundários fantasiados. Logicamente, todo o processo se elabora, não necessariamente de maneira voluntária, mas sim de forma inconsciente, na maioria dos casos).

O modelo funcionalista e operacionalista skinneriano, aplicado às leis cármicas de ação e reação, analisadas por Allan Kardec, retira o conceito de carma de um modelo mecanicista, e revaloriza o conceito cristão de livre-arbítrio, ao mostrar experimentalmente o caráter ativo do sujeito na determinação de seu próprio comportamento, ao mesmo tempo em que apóia as conclusões elaboradas nas outras abordagens teóricas em psicologia, que enfatizam o caráter de auto-regulação do psiquismo (como ocorre na visão humanista de Rogers, na Psicologia Profunda de Jung, ou na Epistemologia Genética de Jean Piaget). O dinamismo conceptual da concepção kardecista e o funcionalismo skinneriano, complementados nesse caso, colaboram para mostrar que as várias abordagens teóricas  em psicologia podem ter muito mais em comum, do que a maioria dos pesquisadores acadêmicos costumam imaginar.

Uma leitura dinâmica da abordagem kardecista (ou seja, uma leitura não deturpada pelas distorções de outras abordagens mecanicistas), demonstra que o conceito de carma, nada mais significa, num primeiro momento, senão, na compreensão de que o ser humano sofre as conseqüências dos seus próprios atos. O conceito de comportamento operante, nesse sentido, é um conceito similar por demonstrar experimentalmente que o organismo atua sobre o ambiente ativamente, e é influenciado pelas conseqüências dessa própria atuação. Assim, a abordagem skinneriana apresenta de forma descritiva – através da representação gráfica dos esquemas seqüências comportamentais - como que comportamentos geram comportamentos, na sua interação com o ambiente. Nesse sentido, enquanto representação pictórica, tais esquemas constituem em seu conjunto, um constructo abstrato inteligível às exigências do rigor e da sistematização científicas.

O problema da abordagem comportamental é que, se realmente ações, pensamentos e sentimentos são comportamentos, e em interação com o ambiente, comportamentos geram novos comportamentos em seqüência (onde antecedentes, viram conseqüentes, e esses viram novos antecedentes, para novos conseqüentes, gerando um sistema em cadeia que se auto-alimenta, e portanto, se auto-regula),  observamos contraditoriamente na literatura específica sobre a abordagem comportamental skinneriana, que os esquemas seqüencias só representam como comportamentos ações observáveis, tais como “dar partida girando uma chave”, “premir o pedal da gasolina”, etc.

Porém se pensamentos e sentimentos também são comportamentos, a questão é, por que eles estão ausentes de tais representações, que só incluem as “ações” (definidas como condutas observáveis)? Observamos que nesses casos, mesmo o Behaviorismo Radical, não conseguiu se livrar das limitações do positivismo, e assim, simplesmente, ele ignora sentimentos e pensamentos de suas representações de cadeias comportamentais, apesar de os considerar conceitualmente como sendo comportamentos.

Mas, se sentimentos e pensamentos são conseqüentes da atuação integrada de comportamentos antecedentes em interação com o ambiente (como os próprios behavioristas, assim definem), enquanto tais, eles não deveriam pelo menos figurar nos esquemas de representação comportamental? E se assim fosse feito, o próprio sentimento ou pensamento (que é uma conseqüência) não poderia, ele mesmo, ser um estímulo antecedente discriminativo para a eliciação de novas respostas comportamentais?

Ou seja, se comportamentos (em interação com o ambiente) geram novos comportamentos, e se sentimentos e pensamentos são comportamentos, então não seria um contra-senso a afirmação Behaviorista de que o pensamento, as emoções, o mundo interno de imagens mentais, não possuem status de causa de outros comportamentos globais ?

Autores de outras abordagens psicológicas procuraram criticar esse aspecto da abordagem skinneriana, mas sempre cometeram o erro epistemológico de partirem dos pressupostos de suas próprias teorias para tentarem refutar o postulado behaviorista. Entretanto, parece estar evidente agora, que as conclusões behavioristas refutam-se por si mesmas, por entrarem em contradição com os seus próprios pressupostos teóricos (ou seja, não há a necessidade de recorrer, aqui, a outra abordagem teórica em psicologia, para refutar essa contradição behaviorista). Tanto isso é verdade, que os próprios psicólogos comportamentais realizaram questionamentos similares, especialmente através da análise de comportamentos humanos extremamente complexos, em experimentos clássicos de equivalência de estímulos (por exemplo, na aquisição da capacidade de leitura), iniciando novos movimentos teóricos dentro da própria Psicologia Comportamental, como a Psicologia Comportamental-Cognitiva (que aceita a consideração da afetação do pensamento sobre o comportamento observável) e a Psicologia Comportamental-Racional-Emotiva (que caminha mais alguns passos, e mostra que as emoções e sentimentos também são comportamentos que geram novos comportamentos, em interação com o ambiente).

Vimos que além do positivismo, o pragmatismo Behaviorista busca a construção de uma Psicologia mais instrumentalizada, prática e tecnológica. Nesse sentido, a simplificação de ignorar os pensamentos e sentimentos dos esquemas comportamentais, por facilitarem uma certa intervenção pragmática sobre o comportamento, do ponto de vista dos psicólogos behavioristas, foi uma atitude que se justificou num primeiro momento, deixando uma certa “marca” nesse modelo teórico. O contato com a realidade da atividade clínica, porém, colocou em xeque essa postura tão apreciada pelos behavioristas mais sintonizados com o trabalho acadêmico de pesquisa experimental, demandando algumas mudanças gerais de atitude entre tais teóricos (Rangé, 1995).

Isso porque, superando o aspecto meramente descritivo, para penetrar num nível explicativo e existencial mais profundo, tal simplificação (1º) não é coerente com a efetiva complexidade do ser humano, (2º) mesmo em nível pragmático, não oferece instrumental para lidar com comportamentos ainda mais complexos, como os que são estudados em experimentos de equivalência de estímulos pelos próprios comportamentalistas e (3º) por fim, como foi visto, é uma incoerência com o próprio corpo teórico do Behaviorismo e a sua definição extremamente ampla de comportamento. Em relação a esse último aspecto, observamos novamente a Lei Espírita de Progresso. O próprio Behaviorismo começa a lidar de forma mais direta com conceitos, antes rotulados por eles, como “mentalistas”; isso vem ocorrendo nas novas escolas teóricas que surgem no próprio movimento, evidenciando uma linha evolutiva dentro dessa escola teórica, evolução que na verdade, também ocorre naturalmente com todas as outras abordagens psicológicas.

Enfim, notamos a similaridade entre o conceito de Carma (Espiritismo) e Comportamento Operante (Behaviorismo). Que fique bem claro, que essa relação de similaridade não se traduz por uma relação de igualdade, mas apenas de aproximação conceptual relativa. Isso porque, de fato, são conceitos provindos de teorias distintas, com bases de fundamentação filosóficas diferenciadas. A Psicologia Behaviorista, mesmo em seus desenvolvimentos, é uma Psicologia Materialista. E através dessa aproximação conceptual - como afirma Kardec - onde o materialismo estaciona, o Espiritismo assimila suas contribuições e vai mais além, num movimento de complementação e expansão, e não de exclusão das conquistas dos estudos materialistas.

Tanto o conceito de Carma, quanto o de Comportamento Operante – desde que seja feita uma leitura não-distorcida, e ao mesmo tempo dinâmica e flexível – apontam para o fato de que o homem é o agente ativo de suas próprias ações, e das conseqüências de seu comportamento.

Porém, quando Kardec expôs o conceito de carma em termos de Leis de Ação e Reação, ele utilizou um linguajar apropriado para o conceito de ciência do século XIX (época em que o Espiritismo surgiu), baseado na Física Clássica de Newton. Assim o foi, para o conceito de Carma, em si mesmo. Porém, no contexto da Doutrina Espírita como um todo – e é isso que escapa à percepção, mesmo de muitos espíritas – o conceito precisa ser lido de maneira mais dinâmica para concordar com outros conceitos da própria Doutrina (tais como o Livre-Arbítrio, Evolução, Progresso, etc). O modelo mecanicista científico da época nem sempre permitiu isso, e quando o conceito era tomado fora do seu contexto original (que inclusive, nem foi um conceito originado no Espiritismo, mas muito provavelmente no hinduísmo, estando presente também nas origens do Cristianismo), a sua interpretação se dava em termos deterministas restritivos. Porém, se o próprio Kardec assumia muitas vezes uma postura positivista, experimental, clássica e descritiva em seu discurso (muito bem coordenado, diga-se de passagem), ao mesmo tempo, para integrar filosofia, ciência e religião, ele contextualizou essas atitudes, a um padrão geral de conduta holístico e globalizante, sem perder uma direção sintetizadora, numa época que ainda não havia estruturado os conceitos de gestalt e holismo, evidenciando o seu caráter pré-científico quase profético, característica que só foi compartilhada mais tarde por gênios como Jung, Freud e Albert Einstein.

Mesmo sendo o Espiritismo uma ciência progressiva, observamos a necessidade de rever seus conceitos, ou talvez a forma de sua apresentação textual, à luz de modelos mais modernos. O modelo por conseqüenciação proposto por Skinner (desde que fazendo a adequada correção de suas incoerências teóricas internas com a adequada releitura do papel da importância do pensamento, dos sentimentos, e enfim, da subjetividade sobre o comportamento global do ser humano), além de concordar com o modelo darwinista, oferece uma esquematização funcionalista e operacionalista mais adequada para representar (ou mais especificamente, descrever em seus mecanismos) o conceito de carma, segundo parâmetros científicos mais coerentes com o conceito de ciência do século XXI.

Se considerarmos que a função da subjetividade, do pensamento e da emoção, é um atributo do psiquismo, que por sua vez, representa a intimidade da Alma Humana, teremos a interação entre o esquema aristotélico do pragmatismo comportamental com o abstracionismo platônico da maioria das “psicologias mentalistas”, um complementando o outro.

Como dissemos, onde o materialismo se detém, o Espiritualismo avança. O conceito espiritualista de Carma difere do conceito materialista de Comportamento  Operante, num aspecto: o Espiritismo, demonstrando a imortalidade da alma, propaga a inteligibilidade dos esquemas seqüenciais comportamentais vistos, e do modelo darwinista, ao contexto das milhões de reencarnações seqüencialmente vividas pelo princípio espiritual, em seu processo arquetípico de evolução filogenético e de aprendizagem até o estágio humano. Isso é bem descrito na obra de André Luiz, especialmente no livro “Evolução em Dois Mundos”, onde o autor espiritual inclusive comenta, como que desse processo surge a Consciência com o aprimoramento do aparelho psíquico na Alma Humana.

Veremos que nas “psicologias mentalistas”, a “Lei de Ação e Reação” vai estar presente especialmente em Jung, através de sua abordagem teleológica (finalista e sintética), e em seu conceito de arquétipo, expressamente aludido pelo autor (em nota de rodapé, inclusive) como sendo inspirado no conceito indiano de carma (Jung, 1942). A própria Ciência Védica define Carma (ou Karma) como significando – em sentido amplo – ação ou atividade (Yogi, 1963), abrindo espaço para uma correlação com o conceito de comportamento operante, em Skinner. Jung, porém, vai levar esse conceito à esfera das simbolizações psíquicas da alma.

Esse é apenas o primeiro passo para mostrar, que a possibilidade de integração entre as várias abordagens teóricas da psicologia – um objetivo que parece ser uma impossibilidade para alguns teóricos da área – não é uma meta, assim, tão distante quando se adota o paradigma científico proposto pelo Espiritismo, a sua estrutura lógica e seu progressista dinamismo conceptual.  Muito pelo contrário aliás, a Psicologia Espírita vai propor não apenas uma integração/interação em nível teórico entre as várias abordagens existentes na Psicologia, mas levará essa alternativa ao nível de uma profunda integração filosófica e epistemológica, ainda que tal se oponha à opinião de muitos teóricos e filósofos expressivos do meio acadêmico oficial. Entretanto, mesmo a realidade científica desses autores é transitória, e os fatos que ainda serão expostos nesse  trabalho de pesquisa, irão colocar esse aspecto em evidência.

Se a Doutrina Espírita pode oferecer uma série de conceitos-chave para integrar diversos sistemas espiritualistas, e ao mesmo tempo, esses à Ciência e à Filosofia, e ainda nesse estudo, se é possível o estabelecimento de relações mesmo entre uma Psicologia de bases tão materialistas como a Behaviorista, com todas as outras abordagens (possibilitando que todo o repertório de conhecimento tecnológico produzido pela Engenharia do Comportamento possa ser aproveitada pela pesquisa Espírita em Psicologia Integrada, inclusive em contexto de intervenção clínica terapêutica) porque a Psicologia Espírita não possibilitaria a união de todas as outras abordagens teóricas entre si, em um grande contexto holístico, dialético e sintetizador?

O desafio, portanto, será mostrar como a Psicologia Espírita se opõe à compreensão fragmentada de ser humano tão comum na Psicologia Contemporânea, em benefício da apreensão do Homem Integral ou Universal.

 

Próximo texto: As contribuições da Segunda Força na Psicologia - A Psicanálise ou a Psicologia do Inconsciente

Voltar ao Início - Clique Aqui

Hosted by www.Geocities.ws

1