As
Contribuições da Segunda Grande Força na Psicologia:
A Psicanálise ou a Psicologia do Inconsciente
A psicanálise, elaborada ao longo de investigações e reflexões ininterruptas de Sigmund Freud (1856-1939) que se estendem da última década do século XIX à terceira do século XX, apresenta tal riqueza e passou por tantas reformulações que vem admitindo as mais variadas leituras e sendo objeto de um trabalho exegético que muito se assemelha ao que os teólogos fazem em relação ao livro Sagrado (Figueiredo, 1991).
Algumas dessas leituras
sublinham e desenvolvem certos aspectos que revelam a presença da matriz de
pensamento funcionalista e organicista. Convém assinalar, porém, que a obra de
Freud é tributária de diversas tradições. Há tradições filosóficas; há
tradições filológicas, teológicas, e místicas
(realçadas pela aproximação da psicanálise com a hermenêutica e com a lingüística).
Por fim, há tradições científicas, que são as mais explicitadas.
· Resumo da teoria psicanalítica
É recomendável um resumo sumário da teoria psicanalítica clássica, apenas para situar alguns dos seus conceitos nesse trabalho. Refere-se a Psicanálise a (1) um padrão muito complexo de teorias sobre o desenvolvimento emocional dos seres humanos e (2) a uma forma de tratamento baseado em parte nestas idéias teóricas (Nagelshmidt, 1996).
A riqueza teórica da
Psicanálise, pode ser apreciada – segundo Nagelshmidt (1996) – através de
sua proposta teórica de divisão da Psique (ou de divisão do aparelho psíquico
da mente) em três instâncias: o id, depositário do instinto sexual, o ego, a
mente consciente e racional, e o superego ou consciência moral. Nesse sentido,
a Psicanálise representa uma combinação de uma teoria de motivação, uma
teoria cognitiva e uma teoria sócio-psicológica: o id contém forças
emocionais e motivacionais básicas, o ego corresponderia ao sistema cognitivo e
o superego ou consciência moral seria a internalização dos valores da família
e da sociedade em geral.
Para a Psicanálise, os
distúrbios mentais seriam causados por conflitos entre estas três instâncias
da vida psíquica. Assim, sendo, a terapia psicanalítica parte do princípio de
que se as pessoas pudessem ter acesso a idéias e conflitos reprimidos em seu
inconsciente, poderiam encará-los com mais objetividade e clareza. Para
recuperar o material reprimido, a Psicanálise fez uso de duas técnicas
principais: a associação livre e a análise dos sonhos.
A Psicanálise,
portanto, seria essencialmente uma teoria psicológica e um método terapêutico
derivado dessa teoria, o qual visaria diminuir o sofrimento
causado pela não elaboração de certos conflitos. Tais conflitos fazem
com que materiais importantes sejam reprimidos e tornem-se inconscientes, sem
por isso deixarem de influenciar o comportamento e a experiência dos seres
humanos.
A recuperação desses materiais, através do “insight” adquirido durante a terapia, tornaria os indivíduos mais aptos a manejar sua vida psicológica e os conflitos inevitáveis decorrentes de sua condição humana (Nagelshmidt, 1996). Deve-se enfatizar, que esse sintético resumo, refere-se às concepções da Psicanálise clássica freudiana. Desde a fundação da Psicanálise, por Freud, até os dias atuais, muitos conceitos novos, influências e modificações fizeram dessa ciência, um campo dinâmico de produção de conhecimentos.
· A importância da Psicanálise nesse estudo
O objeto de estudo da
Psicologia, dentro de uma orientação psicanalítica, é o inconsciente. A
Freud coube o mérito de ser o primeiro a levar a sério a noção de
inconsciente e, assim, revelar-lhe a estrutura (Reis, 1984).
O inconsciente já era
conhecido dos filósofos antigos e dos místicos. Freud não o descobriu, por
assim dizer; o seu diferencial, foi a operacionalização de recursos teóricos
e práticos, em contexto terapêutico, para lidar com o inconsciente, a partir
do estudo deste, e de sua maior compreensão. Freud sistematizou um método de
pesquisa do inconsciente compatível com as exigências da inteligibilidade
científica, abrindo um caminho novo para o estudo da Personalidade. Sabe-se,
que ele realizou esse projeto lado a lado com dois outros espíritos igualmente
inovadores: Carl Gustav Jung e Wilhelm Reich.
Juntos Freud, Reich e
Jung centraram seus estudos da personalidade tomando como ponto focal o
inconsciente – fato esse, que une os três em uma identidade.
Isso, que hoje pode parecer banal representou para a Psicologia, uma
revolução equivalente àquela efetuada por Copérnico na Astronomia, e por
Darwin na Antropologia. Copérnico retirou o homem do centro do universo. Darwin
destronou-o, ao situá-lo na cadeia animal e Freud revelou o inconsciente
(aquela parte que o sujeito ignora de si mesmo), erigindo-o como predra
fundamental sobre o qual se apóia o edifício da Personalidade. Segundo Freud,
essas foram “três feridas profundas na auto-estima da humanidade” (Reis,
1984) – as três grandes feridas narcísicas do ser humano.
O aspecto fundamental
que acredito ser importante sublinhar nesse estudo, e que de fato, parece ser o
ponto central da contribuição Psicanalítica à elaboração de uma Psicologia
Espírita é o seguinte: ao tomar o inconsciente como
objeto de estudo da Psicologia (e com isso inaugurando um consistente estudo da
Psicologia da Personalidade, e mesmo da Psicologia Contemporânea como hoje a
conhecemos), a Psicanálise é a primeira das abordagens teóricas a dar
um passo decisivo para a Psicologia retomar o seu objeto de estudo original –
a alma humana – segundo os parâmetros que regem a conduta científica, como
compreendida na contemporaneidade.
Para entender essa hipótese, teremos que levantar todo um apanhado histórico da Psicologia, tal como era entendida pelos gregos antigos, e ao mesmo tempo penetrar rapidamente no complexo labirinto das tradições místicas e gnósticas que estão na origem do pensamento aqui proposto, e que influenciaram parcialmente a Psicanálise, especialmente no que diz respeito ao tronco judaico-cristão de Freud.
Psicologia e
Gnose:
Para o historiador de arte Aby Warburg (1866-1929), que desenvolveu, nas investigações realizadas no início deste século, um trabalho interdisciplinar pioneiro, a Alexandria tardo-clássica representava a essência do lado obscuro e supersticioso do homem. Aqui, no antigo centro da cultura universalista grega em solo egípcio, constituída por um amálgama de povos de várias raças, por colonos gregos e romanos, por egípcios e judeus, convergiram nos primeiros séculos da era cristã as linhas de todas as disciplinas individuais que formam o complexo da filosofia hermética: a alquimia, a magia astral e a Cabala (Roob, 1997).
Os sistemas
sincretistas complementares, de que se alimentam, formas híbridas de filosofias
helenistas e de religiões orientalistas e cultos de mistérios, são conhecidos
pelos conceitos de gnose e de neo-platonismo. Essa
é base do campo de conhecimento normalmente denominado como Misticismo.
(...) Gnose significa conhecimento, que os gnósticos adquirem por várias vias.
O conhecimento primordial e fundamental é a informação correta e diz respeito
à natureza divina da própria essência do ser, onde a alma surge como centelha
de luz divina (Roob, 1997).
A Psicologia segundo a clássica concepção da Grécia antiga tinha como objeto de estudo essa alma humana, de natureza divina. Hoje encontramos definições da Psicologia como o estudo da mente ou da psique, dependendo da posição teórica adotada. Já vimos que para Skinner, todos esses termos mentalistas retomam a referência a um conceito abstrato, similar à noção de alma (por isso, o mentalismo é rejeitado por uma concepção atual da psicologia como o estudo do comportamento).
Porém Psique
foi um termo amplamente utilizado por Freud e Jung, ao longo dos textos que compõem
suas complexas teorias; ela é a palavra grega que serve de raiz do termo
Psicologia, e significa alma, ou “aquilo que não é do corpo, mas é o
componente invisível de uma pessoa” (Halevi, 1990). Nenhum estudo sistemático
da psique foi empreendido no mundo ocidental antes dos antigos gregos (o mesmo não
pode ser dito sobre os orientais que já estudavam a realidade da alma no
psiquismo, milhares de anos antes). Reconhecia-se a presença da alma, mas o que
era conhecido estava limitado às escolas esotéricas ou fazia parte do
folclore.
Essa fenomenologia poderia ser encontrada na observação das aparições dos mortos, no significado dos sonhos ou nas histórias de aventuras entre os deuses. Fragmentos de conhecimentos chegaram até nós, mas estão na maior parte das vezes, na forma de alegorias que precisam ser interpretadas na linguagem de nossos dias. Aliás, o Espiritismo tem oferecido a sua contribuição substancial para clarificar o conteúdo desse material metafórico, e ir ainda mais além.
Seja como for, naquela
época da história, o homem ocidental estava ainda na fase supersticiosa do
desenvolvimento, na qual os fenômenos incomuns eram observados, mas não
entendidos, de modo que o natural e o sobrenatural se confundiam (Halevi, 1990).
Esse fato é bastante sublinhado na literatura específica sobre Parapsicologia
(Andrade, 1990; Still, 1986; Aresi, 1917; Inardi, 1977) e Espiritismo (Kardec,
1861). A partir de agora, será realizada uma descrição histórica do
desenvolvimento do misticismo até o surgimento da Psicanálise, tomando como
base os estudos e pesquisas de Halevi (1990), estudioso da Cabala, e de suas
conexões com a Psicologia. Durante essa descrição, aqueles que conhecem bem o
Espiritismo, observarão que muitos dos temas abordados por místicos e
cabalistas, também são abordados pelos Espíritas modernos, e logicamente,
também por psicólogos, justificando esse apanhado histórico.
Segundo Halevi (1990),
quando os gregos entraram em contato com as mais antigas e avançadíssimas
civilizações do Oriente, em suas campanhas de conquista e de comércio,
ocorreu uma alquimia cultural, na qual a inteligência racional
dos gregos foi estimulada e fusionada com a experiência filosófica e religiosa
da mente oriental. Além dos contatos com as civilizações indiana e persa e a
conexão com os egípcios, houve também o encontro entre as culturas helênica
e judaica, que deram origem aos fundamentos da Cristandade e do Islã.
O impacto dessa interação
estimulou não somente uma abordagem intelectual da cosmologia como também a
psicologia, quando os gregos começaram a examinar seus próprios mitos, dando
corpo a uma base lógica para a estrutura e a dinâmica do macrocosmo e do
microcosmo do Universo e do gênero humano, respectivamente, conceitos comuns em
disciplinas como a Cabala, a Astrologia e a Alquimia.
Por volta do sexto século
antes da era comum a.C., a ciência grega concluíra que havia uma diferença
clara entre sentido e razão, no sentido em que a mente sintetiza o que o corpo
percebe. Paralelamente, a noção de temperamentos diferentes foi observada e
relacionada aos quatro elementos em uma fórmula do tipo “embaixo tal qual em
cima”, tão apreciada pelos filósofos místicos. Lá pelo quinto século
a.C., a escola pitagórica diferenciou
a psique do corpo, o qual era visto por eles como uma prisão para a alma
enquanto a pessoa estivesse encarnada. Acreditavam que a vida fosse um
processo de aprendizagem, durante o qual a alma abria vagarosamente o seu
caminho em direção à liberdade interior, purificação e imortalidade, ao
transcender o ciclo natural de nascimento, crescimento, decadência e morte.
As escolas que não se
ocupavam das questões ligadas ao desenvolvimento focalizavam aspectos mais
pragmáticos; aqui temos a grande divisão entre as abordagens platônica
e aristotélica, que partilham o estudo da psicologia até os nossos dias
(elemento longamente estudado por Jung, em seu livro de 1920 - Tipos Psicológicos).
Platão seguiu a linha mística, pois via o Universo emergindo de um reino invisível
para uma manifestação, enquanto Aristóteles, o cientista, observava que esses
reinos mais sutis eram inerentes ao mundo material. Ele via a psique como a soma
ou essência do corpo vivo, enquanto Platão a percebia como um organismo não físico
que podia renascer várias vezes após a morte.
Em um nível mais
detalhado de observação da mente encarnada, os gregos preocuparam-se com a
moralidade da psique em conflito com os vários impulsos do corpo. O processo da
vagarosa organização de impulsos primitivos em ações conscientes complexas
também foi observado, assim como o princípio do desejo e realização nos
sonhos, quando as faculdades superiores estão adormecidas e os apetites mais básicos
podiam ser desencadeados sem condenação social. Sabemos que a psicanálise
freudiana irá no século XX sistematizar ao conhecimento científico esses
postulados, que foram por ela redescobertas.
Isso porque, muitas
dessas primeiras conclusões foram incorporadas aos vários sistemas que
surgiram da visão helênica da psique. De fato, o efeito do helenismo sobre a
visão judaica da psique, e mais tarde sobre as visões cristã e islâmica, foi
enorme. Isso ficou mais claro quando a Cabala saiu de sua
tradicional reclusão no princípio da Idade Média. A Cabala é um sistema
filosófico-religioso que busca compreender Deus, os mistérios do Universo e o
destino do homem através do misticismo. Enquanto sistema judaico-cristão
guarda muitas relações de similaridade e complementaridade com a visão
espiritista moderna, de forma que seu estudo sumário é importante para
qualquer um que queira contribuir para a pesquisa de um projeto de Psicologia
Espírita.
Observamos, nesse
contexto, que na crise entre razão e revelação, a psique foi submetida a
profundos estudos, quando vários místicos discutiam abertamente os muitos
componentes, funções, problemas e resoluções relacionados à vida interior.
Debates sobre a alma nas casas de estudo rabínicas, nas celas monásticas, nas
escolas sufistas e entre os cabalistas e os alquimistas gnósticos, bem como
entre os mais diferentes pesquisadores esotéricos e místicos (ocidentais e
orientais) exploravam cada aspecto e nível, até que o espírito criativo se
abatesse e as universidades se tornassem meros centros de repetição e informações
baseadas no que fora dito pelos mestres antigos e medievais, situação que só
se modificou com a Renascença, quando a psicologia voltou a mover-se, devido ao
esforço de pessoas inquisitivas que recomeçaram a estudá-la com uma nova visão.
Por exemplo, o trabalho
do anatomista Vesalius, no século XVI, removeu muitas idéias sobre a dependência
do corpo pela alma, como sustentavam muitos antigos pensadores; observadores
sociais, como Maquiavel, varreram com o ideal acadêmico de que as pessoas eram
inerentemente nobres. Estava bastante claro, naqueles tempos politicamente
expeditivos, que o lado primitivo de um ser humano podia perfeitamente
predominar. Isso levou a uma reformulação da psicologia e das suas implicações,
com o estudo do efeito da sociedade sobre os indivíduos (Halevi, 1990).
Por outro lado,
estudiosos como Thomas Hobbes tomaram outro caminho, e desenvolveram uma
abordagem mecanicista, alinhada com a influência de Galiltu, que havia destruído
a antiga imagem do mundo e todo o seu mistério com a mecânica celeste. A Idade
da Razão, nascida desta perspectiva, foi combatida por algumas escolas
platonistas da época, mas até mesmo Newton, um místico de primeira grandeza,
se viu obrigado a ocultar o fato de que a maior parte de suas anotações eram
sobre questões religiosas. Aparentemente, durante os séculos XVII e XVIII,
poucos estudos psicológicos reais foram feitos, embora muito tenha sido feito
com o uso da abordagem mecanicista e teórica, o que levou a muitas conclusões
baseadas no método empírico. Por outro lado, o extremo racionalismo dessa época
produziu suas reações, através de edifícios téoricos complexos como os dos
processos magnéticos do mesmerismo, ou o surgimento de algumas novas escolas
protestantes no Cristianismo, entre outros.
Em uma era obcecada com
o estilo requintado e com o aperfeiçoamento do maquinário, a loucura não era
entendida, e era tratada do modo mais bárbaro. Foi somente após o surgimento
da consciência social que as pessoas pensaram em examinar a psique do indivíduo.
Por volta do fim do século XIX, surgiram numerosas escolas de psicologia;
algumas tinham um ponto de vista fisiológico, enquanto outras consideravam os
aspectos sociológico, funcional e comportamental. Escolas como a gestáltica
exploravam os efeitos do meio ambiente sobre a psique, em contraste com os
procedimentos analíticos que se envolviam então para devassar as estruturas da
mente.
De toda essa ebulição
de estudos científicos surgiu Freud, que abriu o Mundo do Inconsciente, com
suas poderosas forças que permeiam a consciência, para influenciar as pessoas
sem que elas o percebam, causando neuroses, psicoses e comportamentos
ocasionalmente irracionais em pessoas consideradas normais. A contribuição de
Freud para a psicologia ocidental foi enorme. Ele não somente redescobriu
aquilo de que as escolas esotéricas falaram durante séculos como também começou
a sistematizar a mente de maneira científica, embora tenha encontrado muita
resistência em sua própria área profissional. Jung, seu colega mais jovem,
que estivera desenvolvendo sua própria visão de psique, adotou uma postura
platônica para a abordagem aristotélica de Freud. Jung notou que, embora a
mente tenha seus impulsos primitivos, está também sujeita a uma influência
mais profunda, vinda dos níveis mais altos do inconsciente. Desse modo, o ego
da psique inferior foi separado do Si-mesmo, que supervisiona o processo de
desenvolvimento, tal como descrito em textos e mitos espirituais (Halevi, 1990).
Como existe hoje em
dia, no Ocidente, um grande interesse pelo esotérico, isso levou muita gente a
reconhecer que a psicologia é um pré-requisito necessário antes de se
passar para o estudo do Espírito e do Divino. É aqui que a Psicologia
e o Esotérico podem encontrar-se, adaptar-se mutuamente e dar origem a uma alquimia
para a nossa época. Antes que isso possa acontecer, porém, temos, que
considerar a idéia da revelação como fonte de conhecimento, na
chamada epistemologia da intuição (Cabala, Parapsicologia e
Psicologia Profunda) e da mediunidade (Espiritismo): se tomarmos,
por exemplo, a Cabala como um dos referenciais a serem considerados, veremos que
o seu ensinamento tem sido sempre o mesmo ao longo dos séculos. Apenas a forma
desse ensinamento mudou com o tempo. O conteúdo da Torá, tal como é
tradicionalmente chamada, diz respeito à origem, natureza e propósito do
Universo, o lugar do homem em um processo Divino pelo qual Deus contempla Deus
no reflexo da Existência. Esse tema é recorrente em toda a Bíblia e em todos
os sistemas esotéricos que surgiram daquele círculo de seres humanos que
historicamente apreenderam a dimensão transpessoal da realidade. Uma
determinada cultura pode encobrir ou obscurecer o ensinamento, mas a presença
deste é sentida nos rituais, nas devoções e na metafísica por todos os que
buscam um sentido para a vida, e até mesmo por aqueles que têm somente uma
apreciação supersticiosa do que se encontra sob a superfície do mundo físico.
Os gnósticos originais, ou “os que sabem”, foram alguns dos que tiveram
acesso direto a um conhecimento “superior”. Tal acesso pode ter sido alcançado
mediante ações corretamente executadas, oração devota ou contemplação
profunda. Pode também ter sido revelado pela instrução de alguém que
sabia, por uma experiência mística pessoal, o que é que estava além da
“mente comum”, e compreendia os seus níveis superiores e o seu
funcionamento. Infelizmente, como tem sido notado pelos místicos, há sempre o
problema de descrever o indescritível. Muitos, portanto, foram obrigados a
reduzir suas percepções a termos corriqueiros, de modo a poderem passar
adiante algo dessas dimensões mais refinadas e sutis.
Temos assim, que entre
os pólos da simples consciência física e da total realização está um amplo
espectro de experiência humana. Tal espectro é dividido, por toda Tradição
esotérica em corpo, alma, espírito e Divino. A psicologia, segundo essa
visão, ocupa-se primariamente do mundo da mente, que tem acesso ao corpo, contém
a alma, é penetrada pelo espírito e tocada pelo Divino. Quando o estudo da
psicologia é colocado nos marcos do esquema da Cabala, é levado em consideração
a origem do ser humano e da sua composição física, espiritual e Divina. Sem
restringir a psique a um único caminho que conduz ao processo de aprendizagem,
antes a Cabala, a aborda como um microcosmo dentro do Universo, onde é possível
encontrar, em suas partes mais profundas, áreas inconscientes que possuem
lembranças não apenas desta vida, mas de toda a humanidade, permitindo ao
indivíduo um relacionamento melhor com as constantes mudanças de valores que
ocorrem não somente no mundo exterior, mas também nos processos corporais e
psicológicos.
Temas como a noção de
reencarnação, carma e vidas passadas, e a influência dessas existências
anteriores sobre a psique, passam a ser importantes nesse contexto. Os
cabalistas acreditam que todo ser humano, antes mesmo de nascer, possui uma
linha seqüencial de desenvolvimento físico e psicológico pré-determinada, em
linhas gerais, já que modulada e flexibilizada pelo livre-arbítrio, e
dentro da qual cada um tem tarefas espirituais a cumprir. A este processo dá-se
o nome de Destino ou Sina, que deve ser vivenciado para que o indivíduo possa
alcançar a perfeição do Self. O simbolismo da Árvore da Vida é, tomado
assim, como base para uma viagem dentro do Eu, em que especial atenção é
oferecida à psique e à grande jornada do destino, que cada um de nós
empreende ao descer à encarnação, e ao voltar depois ao lugar de onde todos
viemos.
Ao fundir disciplinas
como psicologia, cabala e espiritismo, devemos examinar a história da nossa
atual situação a cada nível, extraindo elementos mais importantes de cada
tema e inter-relacionando as suas relevâncias, de maneira a compor uma síntese
que proporcione uma nova visão de ambos, considerando-se diversas escolas de
pensamento, não somente para obter um panorama mais amplo como também para
cobrir todos os estágios e níveis do desenvolvimento. Esse trabalho que coloca
o cabalista em contato com o psicólogo, descreve a Epistemologia da Intuição,
que é igualmente compartilhada com a Epistemologia da Mediunidade,
que fundamenta uma Psicologia de Orientação Espírita - Psicologia e Psicanálise,
Espiritismo e Gnose (Cabala e Alquimia), muito possuem a contribuir um com o
outro, temos que concordar. No futuro, isso poderá justificar todo um trabalho
de pesquisa a ser publicado e divulgado ao público. Por enquanto, porém, tal
ultrapassaria dos objetivos do material aqui tratado.
· Sobre as conclusões da contribuição Psicanalítica
Como observamos a
Psicanálise redescobre em uma linguagem científica, muito do que os gnósticos
já conheciam sobre a Alma Humana e o Inconsciente. Com isso, a Psicanálise
fornece uma consistente teoria sobre a personalidade humana, ao discriminar os
elementos psíquicos relativamente estáveis de nossa individualidade, e seus
mecanismos psicodinâmicos.
Assim, com o conceito
de personalidade e a descrição do aparelho psíquico, Freud se tornou o
primeiro autor a abrir caminho a um estudo profundo da Alma Humana, com a fundação
da Psicanálise e a popularização da Psicologia Moderna. Jung veio logo em
seguida, aprofundando e ampliando a contribuição freudiana. Nomes como Alfred
Adler e Wilhelm Reich também fazem parte desse percurso e, não devem ser
esquecidos nesse apanhado histórico. Um detalhamento de suas contribuições,
porém, excederia os limites dessa atual pesquisa.
Por fim, procurou-se
evidenciar a influência do helenismo e do judaísmo (especialmente, da Cabala)
na formação do pensamento freudiano. Freud não assumiu expressamente todas as
implicações dessa influência, apesar de ter aberto um grande caminho, muito
bem aproveitado, posteriormente, por Jung...
Próximo texto: As contribuições da Terceira Grande Força - A psicologia Humanista
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