História da Psicologia
Um breve esboço crítico da história da Psicologia nos apresenta um
percurso evolutivo, que o Espiritismo facilmente identifica com o seu conceito
de Lei do Progresso. A Lei do Progresso, diz respeito a um movimento
organizativo dos acontecimentos no Universo, que postula que os mesmos tendem a
se desenvolver dentro de um percurso de constante progresso construtivo. Na
esfera das relações humanas, tal disposição se processa tanto no campo das
suas relações sociais, como do ambiente físico, e do seu desenvolvimento
psicológico geral e espiritual. Assim, de forma genérica, é possível
apreender a Lei do Progresso em diversos aspectos da natureza e da fenomenologia
humana.
Segundo uma hipótese particular, a Lei do Progresso no percurso histórico
da Psicologia Científica Contemporânea, seria marcada pela transição
gradual de uma posição teórica e conceitual materialista da visão de ser
humano, para uma concepção espiritualista e transcendental do mesmo. A
linha de raciocínio a seguir objetiva clarificar essa proposição.
Tomando como pressuposto a classificação do percurso histórico da
Psicologia proposto por Abraham Maslow e seus colaboradores (Júnior, 1993),
temos que a Psicologia se desenvolveu e contemporaneamente se estabelece a
partir de 4 grandes correntes, ou movimentos articuladores de escolas ou, como
preferiram chamar esses estudiosos, 4 grandes forças. As 4 Forças da
Psicologia, de acordo com essa leitura, são o Behaviorismo (Primeira Força), a
Psicanálise (a Segunda Força), a Psicologia Humanista (Terceira Força) e a
Psicologia Transpessoal (Quarta Força).
Cada uma dessas escolas teóricas em Psicologia possuem uma linha de
fundamentação epistemológica e pressupostos filosóficos que as legitimam
enquanto ciência. No interior de seus corpos doutrinários subjaz uma concepção
específica do ser humano, sua natureza, constituição e organização. Para
cada escola teórica, encontra-se implícito uma visão de mundo, mais ou menos
condicionada pela visão pessoal de mundo e de seres humanos, dos autores que
lhe deram origem. Dessa forma, a Psicologia Científica Oficial não possui um
conceito único que a defina como ciência, nem tão pouco possui de forma
claramente demarcada o seu objeto de estudo.
Existe sim, diversas “Psicologias”, fundamentadas como ciência de
forma bem coordenada, a partir dos seus próprios pressupostos particulares de
origem. Cada qual legítima, segundo os seus pontos de partida, convivendo umas
com as outras, às vezes de forma competitiva e agressiva, outras vezes com
contribuições mútuas, e em outras vezes, fechando-se sobre si mesmas,
formando “igrejinhas” teóricas herméticas.
Para demonstrar que existe uma linha de progressão de uma visão
materialista para uma visão espiritualista na história da Psicologia, será
necessário discorrer brevemente sobre cada uma dessas tendências.
A moderna Psicologia científica em seus primeiros anos de existência
baseava-se num modelo quantificador, atomicista e mecanicista (Figueiredo,
1991). Era um modelo que tentava concordar com os conceitos de ciências exatas
e naturais que surgiam como conseqüência de movimentos sócio-econômicos como
o Renascimento e o Iluminismo. Procurava-se fazer da Psicologia uma ciência
exata e natural.
Essa matriz de pensamento orienta o pesquisador para a busca da ordem
natural dos fenômenos psicológicos e comportamentais na forma de classificações
e leis gerais com caráter preditivo.
Na matriz de pensamento quantificadora as operações caracterizavam-se
pela construção de hipóteses formais (acerca de relações empíricas ou de
mecanismos subjacentes), a dedução exata das conseqüências destas hipóteses,
na forma de previsões condicionais (cálculo), e o teste (mensuração). Esse
processo encontramos nos primeiros esforços da psicometria de Christian Wolff
(filósofo alemão do século XVIII), que esperava elaborar a mensuração dos
graus de prazer e desprazer , perfeição e imperfeição, certeza e incerteza.
Também
é característico, dessa fase, a obra do fisiólogo E. H. Weber
(1795-1878) que, pela primeira vez, efetuou medidas precisas das relações
entre diferenças na intensidade (objetiva) de um estímulo e a sensação
(subjetiva e percebida) destas
diferenças.
G. T. Fechner
(1801-1887) expandiu os trabalhos de Weber, criando um novo ramo científico –
a psicofísica, que é a ciência exata das relações funcionais de dependência
entre o mundo físico e o psíquico, em que o evento físico era medido e
controlado com os instrumentos da física, e o evento psíquico era
indiretamente registrado mediante o relato verbal dos sujeitos experimentais que
recebiam como tarefa discriminar da forma mais precisa possível as variações
quantitativas a que eram submetidos os estímulos em estudos paramétricos.
O estudo experimental das sensações – característico da matriz de pensamento quantificadora na Psicologia – permaneceu na segunda metade do século XIX e continua até hoje uma área de pesquisa muito ativa e rigorosa, onde tem-se produzido os seus melhores resultados. Em acréscimo, a psicofísica tem estimulado áreas adjacentes a adotarem métodos experimentais e de análise semelhantes, o que contribui para a expansão do pensamento matemático na psicologia (Figueiredo, 1991).
Ainda, seguindo uma
matriz de pensamento quantificadora, temos a obra do fisiólogo (convertido em
psicólogo), W. Wundt (1832-1920) que muito contribuiu para a Psicologia
Experimental. Seu objetivo não era estabelecer as equivalências comuns da
psicofísica, mas sim o de medir os fenômenos mentais em si.
Já mais próximo ao
final do século XIX, a aprendizagem associativa esteve submetida ao estudo
experimental quantificado por E. L. Thorndike (1874-1949) em seus trabalhos com
peixes, gatos, pintos, cães e macacos.
A partir da mesma época,
mas numa linha de investigação completamente independente, dois fisiólogos
russos, I. P. Pavlov (1849-1936) e W. M. Bechterev (1857-1927) iniciaram o
estudo experimental do condicionamento por associação entre estímulos.
Os trabalhos dos russos juntos com o de Thorndike estão na origem de toda a psicologia experimental behaviorista nos EUA e representam o pleno estabelecimento dos procedimentos quantitativos no estudo do comportamento e dos processos mentais.
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