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| Trajetória da Psicopedagogia no Brasil | |||||||||||||||||||||
| Por Nina Rocha | |||||||||||||||||||||
| - Primeira Parte | |||||||||||||||||||||
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Projeto de Lei para a regulamentação da profissão
do psicopedagogo, foi um trabalho exaustivo que contou com a
colaboração de todas as seções lideradas
por suas respectivas presidentes, Conselho Nacional e Nato da ABPp.
O início do caminho percorrido pela Associação Brasileira de Psicopedagogia, foi marcado pelo convívio com pontos polêmicos, como por exemplo, alguns questionamentos que eram formulados sobre o verdadeiro papel desta ciência. Uma das primeiras indagações neste período, seria acerca das dúvidas sobre a consistência, fortalecimento e autonomia da Psicopedagogia. - Será que esta profissão continuaria o seu trajeto por área de conhecimento “estanque” ou será que se esforçaria para articular-se em áreas afins, complementando-se e descobrindo novas “verdades”? Tais preocupações refletiam a temeridade de que a profissão continuasse se mantendo em competições excludentes. Ou seja, precisariam desenvolver um trabalho integrado de argumentos sólidos e eficientes, comprometido em apontar a necessidade e a relevância social e científica do Psicopedagogo. O desenvolvimento desse trabalho para o reconhecimento da profissão a fim de se atingir maior consistência, foi liderado do ponto de vista acadêmico, pelos Psicopedagogos e ABPp, enquanto que a liderança política, pelo Deputado Federal Barbosa Neto. No ano de 1995 e 1996, os Psicopedagogos elaboraram vários documentos explicitando suas atribuições, seu campo de atuação, sua área científica e seus critérios de formação acadêmica. Conteúdos estes, vistos como indissociáveis no desenvolvimento deste trabalho. Deste modo, iniciamos neste momento, um breve resgate da Psicopedagogia no Brasil. A ciência Psicopedagogia, apresenta um campo de atuação extremamente vasto, restando ao profissional a tarefa imensa e complexa de assumir a sua colocação com discernimento e compromisso, construídos sob uma base sólida de formações teórico-práticas. Segundo Bossa, o caminho da Psicopedagogia no Brasil, é árduo. O Psicopedagogo, profissional pós-graduado, precisa ser um multi-especialista em aprendizagem humana, congregando conhecimentos de diversas áreas técnicas e científicas, com o objetivo de intervir nesse processo, tanto com o intuito de potencializá-lo, quanto de tratar dificuldades, utilizando instrumentos próprios para este fim. A referida autora, cita que a Psicopedagogia surgiu da necessidade de atendimento às crianças com dificuldades de aprendizagem. Sendo que este problema apresentado por algumas crianças, tornavam-nas inaptas dentro do sistema convencional de educação e eram vistos como uma situação desencadeadora de outros problemas, inclusive o fracasso e a evasão escolar. O que se comprova, perante os comportamentos negativos com relação ao desenvolvimento das atividades pedagógicas. Uma vez estabelecido que a Psicopedagogia surgiu devido a necessidade de atender crianças com dificuldades de aprendizagem, consegue-se firmar o seu principal enfoque, ou seja, algo que se traduz em ser o seu objeto de estudo. No início do processo histórico, já podemos observar a Psicopedagogia como uma ciência norteadora dos procedimentos necessários ao trabalho com crianças que apresentavam algum tipo de barreira intransponível à sua aprendizagem, objetivando o reconhecimento das capacidades individuais e procurando eliminar os obstáculos que a impediam de aprender. Esta difícil tarefa, fez com que a Psicopedagogia, se unisse às demais áreas que lidam com o ser humano, procurando maiores fundamentações teórico-práticas, hoje tidas veementemente como subsídios indispensáveis à todo e qualquer tratamento Psicopedagógico. Assim, dada a vasticidade de seu quadro teórico, a Psicopedagogia apresenta fundamentação em estudos da área da Medicina, Pedagogia, Sociologia, Filosofia, Odontologia, Fonoaudiologia, Neurologia, Psicologia e Lingüística, entre outras. Podendo ainda contar com a contribuição da epistemologia genética. Esta fundamentação, buscada através de outras áreas do conhecimento, embasam e fortificam o corpo Psicopedagógico, que já possui a sua especificidade, tanto quanto área de estudo, como especificidade de seu objeto de estudo, constituindo uma nova área com corpo teórico próprio. De acordo com Bossa, o objeto de estudo da Psicopedagogia é o próprio processo de aprendizagem e seu desenvolvimento normal e patológico em contexto. Sejam estes relacionados com a realidade interna ou com a realidade externa, sem deixar de lado os aspectos cognitivos, afetivos e sociais que mesmo de forma implícita, estão inseridos em tal processo do trabalho com as questões de aprendizagem. A autora propõe que o objeto de estudo deve ser entendido a partir de dois enfoques: o enfoque de caráter preventivo, que corresponde ao ser humano em desenvolvimento e as alterações desse processo podendo esclarecer sobre as características das diferentes etapas do desenvolvimento; e o enfoque de caráter terapêutico, que é a identificação, análise e a elaboração de uma metodologia de diagnóstico e tratamento das dificuldades de aprendizagem. Podemos perceber através do trabalho de pesquisa, que embora seja ainda um campo jovem de atuação no Brasil, a Psicopedagogia parece já possuir sua identidade como um todo. Segundo Scoz, a identidade do psicopedagogo, muito atrelada à sua atuação, remete-se ora à identidade clínica, ora à institucional, mas explicita que ambas estão vinculadas ao processo de aprendizagem. De acordo com esse sentido, encontra-se o Psicopedagogo como sendo um profissional ligado historicamente à educação. Segundo Moojen, ao conceituarmos a Psicopedagogia, deveremos proceder com cautela, pois um conceito teórico deve atender a determinadas características, devendo ser: dinâmico, histórico, flexível e contextualizado. Diferentemente do que ocorre na conceitualização apresentada pelo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Pois, segundo o dicionário, A Psicopedagogia é “a aplicação da psicologia experimental à Pedagogia”. E, segundo a autora, esta definição é restrita para a ação Psicopedagógica, mas, que foi originada como um reflexo das concepções iniciais da Psicopedagogia na década de 1950 e de 1960. Esclarecendo ainda que mesmo com a falta de nitidez conceitual e de identificação do corpo teórico psicopedagógico, encontra-se em nosso país, uma prática psicopedagógica bastante eficaz. A Psicopedagogia é uma área de estudos preocupada em conhecer o ser que conhece e produz conhecimento e, para tal, necessita superar a visão clássica que separa o objetivo do seu meio, separa o físico do biológico, o biológico do humano, as categorias, a disciplina etc. Caracterizando com isso, a necessidade de enquadrar-se em uma totalidade que abrange todos os elos de ligação que ancoram o ser humano ao mundo. O Objetivo da Psicopedagogia vai além de processos de aprendizagem. Refere-se a um sujeito que aprende, sendo este muito mais do que um aprendiz, um ser capaz de se conhecer e conhecer sobre o meio ambiente do qual faz parte. Visca, 1987, foi um dos primeiros psicopedagogos que se preocupou com a epistemologia da psicopedagogia e propôs estudos baseados no que se chamou de epistemologia convergente, resultado da assimilação recíproca de conhecimentos fundamentados no construtivismo, estruturalismo construtivista e no interacionalismo. Essas contribuições influenciaram a psicopedagogia brasileira, mas diferenciam-se dependendo da região. O autor acima citado, merece muita consideração neste trabalho, entendendo-se que a Psicopedagogia nasceu na Argentina, e que Jorge Visca é considerado pela literatura dos profissionais da área, como sendo “o Pai da Psicopedagogia”. Moojen, 1998, escreve que a partir de trabalhos de pesquisa e da prática nas áreas clínica, institucional, preventiva ou curativa, busca-se o conceito implícito que se delineia na teoria e na prática psicopedagógica brasileira. Esta mesma autora, descreve uma visão evolutiva da Psicopedagogia através de três momentos históricos, sendo que justifica a pertinência das contribuições de autores de outras nacionalidades, pois conforme supracitado, a Psicopedagogia não é uma “invenção” brasileira. A autora justifica ainda, a complexidade desta tarefa por coexistirem no Brasil diversos perfis de psicopedagogos. Sendo que isso se deve, em parte, à nossa grande extensão territorial e ao “caldeirão de culturas” em que estamos submersos. De outra parte, a formação do profissional, em nível de pós-graduação, recebe graduados de Pedagogia, Psicologia e Fonoaudiologia, além de outras áreas afins, o que acaba justificando perfis de atuação diferentes. De acordo com Lino de Macedo, in Moojen, 1998, “a Psicopedagogia é uma descoberta invenção, como área de conhecimento, que alcançou sua especificidade (objeto, método, campos de aplicação, critérios de formação, etc.) apenas neste século. Ela reuniu e deu estatuto científico e profissional a conhecimentos antes produzidos e disseminados em muitas outras áreas”. Com relação à citação de Moojen sobre os três momentos históricos, temos que: O primeiro momento é descrito pelo nascimento da Psicopedagogia na década de 60 na fronteira entre a Pedagogia, a Psicologia e a Medicina (mais especificamente a Neurologia) e visava ao atendimento de crianças com “distúrbios” de aprendizagem e, portanto, inaptas dentro do sistema educacional convencional. Naquela época a Psicopedagogia, síntese simplificada de múltiplos conhecimentos psicológicos, pedagógicos e neurológicos, tinha como objeto de estudo os distúrbios de aprendizagem e sua etiologia. Eram freqüentes os encaminhamentos a neurologistas, psicólogos e aos “reeducadores”, visto que o indivíduo com distúrbios poderia realizar tratamentos nessas três áreas concomitantemente. Tais distúrbios eram analisados de forma individual, com perspectiva de origem psiconeurológica, e a prática psicopedagógica, segundo Edith Rubinstein, “estava voltada para o desenvolvimento de metodologias que melhor atendessem aos portadores de dificuldades, tendo como objetivo fazer a reeducação ou remediação e desta forma promover o desaparecimento do sintoma” (Rubinstein, apud Bossa, 1994, p.9). Com relação ao aspecto reeducativo, daquela época, retratava-se uma sobrevalorização quanto aos desenvolvimentos perceptivos e motor. O segundo momento, nas décadas de 70 e 80, a preocupação da Psicopedagogia voltava-se para o aspecto da aprendizagem. De acordo com Nádia Bossa, “o reconhecimento do caráter interdisciplinar significa admitir a sua especificidade, uma vez que a Psicopedagogia, na busca de conhecimentos de outros campos, cria o seu próprio objeto, condição essencial da interdisciplinariedade”. (1994, pp.5-6). Segundo Bossa, “é uma ilusão pensar que tal processo nos conduza, a todos, a um único caminho. O tema da aprendizagem apresenta tamanha complexidade que tem a dimensão da própria natureza humana”. (1994, p.9). Nessas décadas de 70 e 80, a prática psicopedagógica é bastante variada e depende das articulações feitas pelos psicopedagogos com as demais ciências. O resultado é o Psicopedagogo com uma visão predominantemente psicológica ou psicanalítica, o psicopedagogo com uma visão predominantemente fonoaudiológica, o psicopedagogo com uma visão predominantemente psicomotricista, o psicopedagogo especialista em Matemática, etc. O terceiro momento, reconhecido por estar ainda bem ligado ao segundo, é marcado pela preocupação do ser em processo de construção do conhecimento. Assim, de acordo com as pesquisas efetuadas e de acordo com estes autores que descrevem o processo histórico da ciência Psicopedagogia, podemos observar, que a interdisciplinariedade e a transdisciplinariedade, aliadas à reflexão da prática profissional, são elos que contribuem para que a Psicopedagogia se mantenha nessa caminhada junto às demais ciências. De acordo com Maria Irene Siqueira Castanho, a Psicopedagogia como área interdisciplinar de conhecimento e de atuação prática pode posicionar-se frente à emergência de uma nova forma de enfrentamento da realidade, de integração e articulação dos diferentes tipos de conhecimentos disponíveis sobre o ensinar e o aprender. Com isso, cumpre com as prerrogativas de uma educação para o terceiro milênio, pela qual o aprender significa a integração entre o conhecer, o fazer, o conviver e o ser. Sendo que isso requer trabalho coletivo em direção à superação de leituras reduzidas e fragmentadas pela especialização. Os obstáculos a serem superados são de ordem pessoal, de ordem teórico-metodológica e do investimento de recursos na área da educação, que visem à qualidade dos processos a serem desenvolvidos. Assim, se o conhecimento é a construção que os homens fazem como decorrência de relações concretas de vida, acerca de si e do outro, diante da complexidade do mundo vivido hoje, as ciências em geral e as ciências humanas e sociais, em particular, obrigam-se a organizar um conhecimento que dê conta de pensar o homem em sua vivência da contradição que o coloca frente a inúmeros desafios que ameaçam sua própria possibilidade de compreensão e de auto-sustentação no mundo. Atualmente, a Psicopedagogia integra com propriedade as prerrogativas de educação para o terceiro milênio, sendo que as dificuldades a serem superadas resumem-se na disposição de continuar se posicionando frente à realidade, promovendo a integração e a articulação das unidades e dos diferentes conhecimentos sobre o ensinar e o aprender. O que significa a abertura para uma nova forma de produzir conhecimento. No Brasil, muito se ateve, inicialmente, na crença de que os problemas de aprendizagem estavam entrelaçados às questões de ordem orgânica, sendo que um estudo psicopedagógico mais aprofundado, começou a oferecer destaque a partir dos anos setenta, através dos primeiros núcleos de estudos e de aprofundamentos. As conferências proferidas pelo professor argentino, Quirós, muito auxiliaram quanto aos aspectos de leitura e escrita. Seguidamente, em Porto Alegre, surgiram centros de estudos psicopedagógicos, mas, nesse tempo, dava-se como referência uma nomenclatura que destinava-se a Pedagogia Terapêutica. Em 1979, por iniciativa de Maria Alice Vassimon, psicopedagoga e psicodramatista, acontece o primeiro curso de psicopedagogia, realizado no Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo. Nessa época, a característica principal voltava-se ao modelo de atuação clínica individual, incluindo-se mais tarde, a inserção do modelo clínico grupal. Sendo ainda, que a linha de trabalho era composta pelo trabalho de caráter preventivo. Quase nesta mesma época, surgiram cursos de especialização, pós-graduação e mestrado, em instituições como a PUC-SP; PUC-RS e UERJ. Sara Pain, Alícia Fernandéz, Jorge Visca, foram estudiosos de grande destaque que impulsionaram, através da contribuição argentina, publicações de literatura específica sobre a psicopedagogia. Na década de 80, Visca criou os Centros de Estudos Psicopedagógicos (CEP) no Rio de Janeiro, em Curitiba e em Salvador. Sendo que os cursos, traziam a Formação Clínica Psicopedagógica. Ainda em 1980, criou-se a Associação de Psicopedagogos de São Paulo, e, em 1985, a Associação Brasileira de Psicopedagogia. Com relação a esta Associação, podemos dizer que há o objetivo de tornar conhecido o campo de atuação da Psicopedagogia, divulgando, através de publicações, situações de aprendizagem que se destinaram à pesquisas e experiências, nos Boletins e Revistas Psicopedagógicas. |
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