PAULO THIAGO DE MELLO
A voz crítica do sistema
(Transcrito do Jornal do Brasil de 24/10/99)
Economista francês defende taxação do capital especulativo
O economista e professor da Universidade de Paris-Nord, François
Chesnais, é uma das vozes críticas do processo de globalização,
o qual, segundo ele, não é uma tendência natural, mas
o resultado de "uma construção política em escala
mundial, em cujo cerne há uma concentração de poder
econômico e político". Chesnais esteve no Rio para o lançamento
de seu livro Tobin or not Tobin, no qual retoma a proposta do economista
James Tobin, feita em 1972, de taxação do capital especulativo.
Em entrevista ao JORNAL DO BRASIL, Chesnais reconhece que a Taxa Tobin,
como está sendo chamada, não é uma medida de proteção
para os países vítimas da especulação financeira,
que sofrem com a súbita saída do chamado capital de 48 horas,
"apenas o controle do câmbio pode impedir esta situação".
Mas, segundo o economista, a cobrança da taxa serviria como um alerta
sobre os riscos que o atual sistema traz, sobretudo para os países
emergentes, que seriam os principais destinatários do dinheiro arrecadado
pelo imposto. Chesnais lembrou que, 70 anos depois do crack de 29, um novo
colapso financeiro teria um impacto muito mais grave devido à mundialização
do sistema financeiro, "embora seja difícil prever as conseqüências".
O economista criticou o primeiro-ministro francês Lionel Jospin por
ter sido contra a Taxa Tobing. "Ele é igual ao Fernando Henrique
Cardoso", disse.
RADIOGRAFIA DA ECONOMIA
CRACK DE 29
"Há muitas diferenças entre a crise de então e
a conjuntura atual. Em primeiro lugar, a crise bolsista de 1929 foi meramente
uma crise ao fim da fase expansionista de um ciclo clássico. Em
segundo lugar, aconteceu em uma economia mundial muito menos internacionalizada
do que hoje. O dano potencial, portanto, era menor do que seria hoje. Ao
mesmo tempo, é certo que atualmente há um acúmulo
de experiências para combater uma crise desse tipo. Nos Estados Unidos,
o papel do estado hoje é mais importante hoje do que em 1929. Assim,
dentro do espaço controlado pelo estado, há possibilidades
de medidas contra a crise. Portanto a situação é tão
distinta que não se pode prever a amplitude, as conseqüências
e nem a eficácia das medidas para combater uma crise. Por tudo que
se sabe da interconexão dos sistemas financeiros e pela cadeia mundial
de dívidas as conseqüências hoje serão mais graves.
Mas é difícil dizer algo preciso acerca disso. Para mim,
as conseqüências do modelo atual são as coisas mais graves
e não a crise futura. É preciso combater isso fora da perspectiva
de crise."
TAXA TOBIN
"A taxa Tobin pode até representar uma pequena penalização
a esse tipo de movimentação de capital chamado ida-e-volta
em 48 horas. Também permitira recolher recursos como toda taxação,
que poderiam ser utilizados de forma socialmente útil. O mecanismo
da taxa supõe que os primeiros países que a adotem sejam
os mais avançados. É uma demanda que se tem que pôr
frente a esses governos, porque essa taxa não é uma medida
de proteção para os países atacados pelas especulações
financeiras ou que sofrem com a saída súbita de capital.
A Taxa Tobin não pode nada frente a isso. Apenas o estabelecimento
do controle de câmbio pode impedir essa situação."
BRASIL
"As estatísticas agora demonstram que para um país como
o Brasil, a década de 90 será uma década muito mais
perdida do que a década de 80. E dizem que isso é porque
o país não se liberalizou o suficiente. Isso significa que
estamos em uma corrida sem fim, porque na medida em que um país
busca soluções lá fora, perde o interesse pelo seu
mercado interno. E apesar da liberalização feita nos anos
80, e mais ainda nos anos 90, temos tido uma subversão do que deveria
ser o comércio exterior."
COMÉRCIO EXTERIOR
"O comércio exterior só se justifica quando se busca
algo que não se tem e que não se pode produzir internamente.
Nesse caso de complementaridade, o comércio é algo positivo.
Mas o que se vê reproduzido em escala mundial é uma concorrência
entre empresas que não têm a mesma tecnologia, mesmo know
how, mas que são consideradas iguais. Decorre daí a destruição
das empresas mais fracas. Nesse comércio internacional, o conceito
chave é o de fatias de mercado, que significa um mercado cada vez
mais com o mesmo produto, com pequenas diferenças. O resultado disso
é o desaparecimento de empresas e a destruição do
emprego. Em um processo vicioso como esse, a resposta das empresas são
as fusões e aquisições para ganhar fatias de mercado.
É o que estou começando a chamar de um processo de concentração
tendencial."
GLOBALIZAÇÃO
"Para mim, a globalização que vivemos não tem
nada de natural, é uma construção política
em escala internacional, no cerne da qual há uma concentração
de poder econômico e político. Isto começou no fim
dos anos 70 com a chamada Revolução Conservadora de Margareth
Thatcher e Ronald Reagan e vem tomando um curso cada vez mais rápido,
porque não fez nada mais do que aprofundar algumas das contradições
que pretendia resolver."
MERCADO EMERGENTE
"Esse conceito de mercado emergente é errado. Não se
trata de uma economia em processo de desenvolvimento. É um mercado
em dois sentidos do termo: para comprar as mercadorias do centro, e para
organizar a captação e centralização de riqueza
através de mecanismos financeiros."
CRISE ASIÁTICA
"O enfoque que se deu às crises asiáticas pode ser explicado
nesse quadro de mercado emergente. A crise asiática não acabou.
Quando se derrubou a bolsa de Tóquio, não houve repercussões
internacionais muito fortes. Dizia-se que o processo era japonês,
mas pouco a pouco, pela importância do Japão na economia mundial,
o país entrou em sua primeira década perdida. O mercado japonês
era o único lugar do mundo onde se podia investir e obter empréstimos
dos bancos internacionais aos bancos locais com altas taxas de juros, mas
em condições de perfeita estabilidade, um investimento seguro.
No fim de 1986 e início de 1987, houve na Europa uma campanha extraordinária
apontando a Ásia como o lugar ideal para investir. Mas quem investiu,
perdeu. O que aconteceu? Houve muito investimento, o que tornou a capacidade
produtiva em superprodução. Dentro de uma economia mundial
que cresce lentamente, em contração tendencial, na Ásia,
representou tendência à superacumulação. As
crises asiáticas são claramente crise do sistema na sua totalidade"
CRASH DE 87
"Se diz por aí que o crash de 87 não teve conseqüências
sérias, mas os economistas que estudaram isso a sério, demonstram
que a coisa foi bem séria. Teve problemas em cadeia e as crises
de 1990 e 1991 são na verdade conseqüência de processos
cuja origem estava no crash de 1987."
MILAGRE AMERICANO
"O mercado financeiro americano não é apenas o mercado
de referência, mas de refúgio. Depois das crises asiáticas,
houve um refluxo de capitais da Ásia. Uma fração foi
para a Europa, mas o essencial se dirigiu para os Estados Unidos. Também
houve refluxo do Brasil e da América Latina para Nova Iorque. Os
analistas são unânimes em considerar o consumo como o motor
do crescimento da economia americana. Segundo cálculos recentes,
mais de 20% do consumo interno americano vem do mercado financeiro. Com
isso aumentou o nível de endividamento. A última advertência
de Alan Greenspan (o presidente do Fed) é direcionada aos bancos
americanos. Ele diz que fará o que for possível quando acontecer
a crise na bolsa, mas os bancos terão que tomar medidas para garantir
que o alto grau de empréstimos que concederam não se tornem
em uma cadeia de títulos sem valor. Greenspan disse que pode controlar
uma crise financeira, mas não uma crise bancária."
INJUSTIÇA SOCIAL
Penso que a estrutura da economia mundial ainda está dominado,
dentro desse quadro de concentração tendencial, por mecanismos
deflacionistas desencadeados pelas crises na Ásia, que não
é uma crise asiática, mas a cara asiática de uma crise
mundial, que se propaga de forma lenta, mas firme. E temos essa situação
onde tudo, absolutamente tudo, está sendo negociado na bolsa de
Nova Iorque. Nenhuma economia capitalista pode ter a menor estabilidade,
deixando de lado milhões de pessoas. Estamos diante de um grau altíssimo
de injustiça social e creio que, como cidadãos teremos que
impor uma resistência intelectual e moral a isso."