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Um documentário, por um triz, uma crônica

Miriam Chnaiderman

Em meu primeiro documentário, estranhas paisagens se descortinaram a partir dos olhares daqueles que a cidade rotula como sendo o "louco de rua". Meu filme "Dizem que sou louco" mostra usos singulares da cidade, estranhas perambulações inusitadas. Seus personagens vão brotando de asfaltos arranhados e muros grafitados.

Flanar pelas ruas de uma cidade como São Paulo já é algo que soa estranho. São Paulo é cinzenta, os vidros fumés dos edifícios colocam o negrume como algo do dia a dia de todos nós - a poluição introduz tons multifacetados nisso tudo, fazendo com que o ar seja metálico. Roque pauleira, agudo zunido permanente em ritmos amalucados. Os caminhões e ônibus soltam fumaça fedida e estranhos ruídos de entranhas apodrecidas arranham a cada farol vermelho. A não brisa abafa corpos suarentos e carrancudos rostos enfeados pela tensão de um minuto a minuto imperdível, passos sempre apressados, tique-taques infernais.

Em meio a isso tudo, os cemitérios são oásis benfazejos - lugares arborizados, o burburinho fica do lado de fora, o tempo é outro. Há uma tranqüilidade serena nos cemitérios - a terra, o verde, os trabalhadores com suas enxadas passando aqui e ali, o bate-papo na porta da administração. Um certo clima de roça, de campo, dá prá se acocorar e fumar um cigarrinho. Depois, pegar a pá e limpar os túmulos das folhas que neles se amontoam, caídas das árvores. Cada funcionário é responsável por um setor do cemitério e tem que manter tudo bonito. Os jardineiros fazem verdadeiras obras de arte, com um esmero enorme, escolhendo as cores das plantas, as flores e folhas em lindos ramalhetes que poderiam enfeitar a roupa de uma princesa. Como se de cada túmulo fosse despontar uma Branca de Neve ou um príncipe encantado.

Quando comecei a trabalhar no documentário "Artesãos da Morte", um pudor diante da questão me tomava – era difícil imaginar a filmagem no cemitério, as conversas com técnicos de necropsia. No projeto que encaminhei à Secretaria de Cultura do Estado apontava o quanto em nosso mundo não há espaço para a reflexão sobre a morte. Destacava então: "é uma sociedade que circula em torno da promoção do narcisismo, uma sociedade onde a violência atinge inclusive a possibilidade de enterrar os mortos". Depois, na elaboração do projeto de pesquisa que nortearia a produção do documentário, o historiador Philippe Ariès me forneceu conceitos que me ajudaram na compreensão das sensações que eu e minha equipe de pesquisa sentíamos em relação à morte. Ariés, em vários de seus trabalhos, mostra como a morte acabou por ser banida, ocultada, proibida das preocupações do homem ocidental de nosso século: ela chega a ser até algo obsceno, um verdadeiro tabu. Ariés fala de uma morte domesticada e de uma morte selvagem. Até meados da Idade Média a morte era domesticada – lutava-se menos contra a natureza, a morte era um fato natural. O quarto do moribundo enchia-se de gente, inclusive crianças, e o ritual era conhecido de todos. Depois, Ariés vai mostrando como a morte foi se tornando selvagem, estranha.

Era bem esse o sentimento que nos invadia – a estranheza, a sensação de estar entrando em um outro mundo, o pudor com os cheiros, com o podre, com aquilo que afronta a ordem da cultura.

Radmila Zygouris, como sensível psicanalista que é, soube falar bem dessa nossa sensação. Assim escreve no ensaio "No instante seguinte", publicado em português como parte do livro Ah!As belas lições!"(Ed. Escuta, 1995):

"...hoje em dia, não sabemos mais muito bem o que fazer dos mortos. O que fazer dos cadáveres. (...) Sinistras as cerimônias religiosas, quando não possuímos nenhuma crença. (...) Sinistra a ausência de cerimônia. Enterros leigos, enterros furtivos. Nós nos livramos dos mortos. (...) Faltam-nos festas funerárias capazes de se encarregar da vida deixada vaga, das libidos desorganizadas, das pulsões deconectadas pela perda, dos espíritos à procura de uma representação unificadora e portadora de sublimações aceitáveis. (...) Cada vez mais, em nossas inevitáveis decadências, se não reencontramos a festa que celebra o morto e a morte, que permite a uns chorar, a outros se repensar e se projetar a si próprio como morto, cada vez mais, por desespero, treparemos ao lados dos túmulos.

Esta é a crise de uma civilização: quando as palavras começam a faltar, quando os gestos se tornam insignificantes para representar a morte aos sobreviventes. (...)

Túmulos, latas-de-lixo do humano."

Entrevistar aqueles que no seu cotidiano manuseiam o cadáver - buscar entender como é a vida dessas pessoas, como lidam com um dia a dia em que a morte não pode ser ignorada – quem sabe poder abrir um espaço para pensar sobre a morte, buscar a construção de rituais, poder ter instrumentos para lidar com o que nos constitui como humanos, a tragicidade de nossa condição que é a da consciência da morte.

Um coveiro de um imponente cemitério onde estão os jazigos das famílias mais tradicionais de São Paulo, o Cemitério da Consolação, afirmava: "Nós somos os abutres da sociedade". Depois corrigia-se: "Os abutres ao contrário". Em São Paulo, o uniforme dos coveiros é o mesmo que o dos lixeiros – o que está em questão são os detritos, os restos. Em um bairro mais longínquo, o Cemitério de Vila Formosa é rotativo – depois de três anos, se a família não transfere o cadáver para o muro, o túmulo é reaberto, os restos são enterrados mais fundo, e outro cadáver é colocado por cima. O Cemitério de Vila Formosa é cheio de eucaliptos, lindas árvores longilíneas em meio aos túmulos azuis e cor-de-rosa, as mesmas cores que são usadas para identificar os bebês meninos e meninas. Cinzentos são os túmulos dos indigentes, dos que não puderam ser nomeados.

 

Não teriam os psicanalistas, entre os quais me incluo, a partir da afirmação de Freud sobre o não simbolizável que é a morte, se transformado em cúmplices do silêncio que nosso mundo contemporâneo traçou em torno dessa questão?

Foi a partir de uma supervisão que me veio a idéia de pesquisar como vivem aqueles que manuseiam o concreto da morte em seu dia-a-dia. Minha supervisionanda me trouxe um caso de um pedreiro de cemitério e fiquei tocada sobre o que é a vida e a morte em alguém que tem o minuto a minuto da vida permeado pela morte. Esse pedreiro tentara suicídio em uma árvore do cemitério.

Iniciamos o trabalho escutando técnicos de necropsia – o encontro com um casal em uma pizzaria: ele trabalhara anos no Instituto Médico Legal e ela é papilocopista, tira impressões digitais de cadáveres. Haviam se conhecido no trabalho e, rindo, contam que adoram ver filmes de terror. Depois, outro encontro, agora já com equipamento de som montado, na mesma pizzaria, um outro técnico de necropsia, batalhando pela regulamentação da sua profissão. Comeu pizza calabreza com um prazer enorme enquanto dava detalhes de seu trabalho. Fomos à casa da maquiadora de cadáveres, uma linda e exuberante mulher que adora dançar.

Então, com Hugo Kovenski, premiado diretor de fotografia ( trabalha com Tata Amaral, Eliane Caffé, ganhou prêmio de direção de fotografia com o filme "Bicho de Sete Cabeças" de Laís Bodanski) partimos para nossas visitas aos cemitérios e nossas conversas com coveiros, jardineiros, administradores.

Foi mudando nossa relação com os locais da morte. As falas dessas pessoas passaram a poder ser escutadas de um outro modo. Nosso olhar sobre os cemitérios se transformou – um jardineiro afirmou que era muito mais fácil trabalhar com eles (os mortos). Estranhamente, passou a existir um "estar à vontade" nos cemitérios. Essa possibilidade de misturar a morte com a vida, essa afirmação da vida - não seria esse o único jeito de poder lidar com a morte? Algo que passasse por uma ritualização diária, o cuidado cotidiano com a vida - os coveiros tomam banho quando saem do trabalho, trocam de roupa. No cemitério judaico, quando o ritual do enterro termina, as pessoas lavam a mão. Como são as passagens entre a vida e a morte?

Indo de um canto a outro em meio aos meus afazeres semanais encontro com um senhor uniformizado de motorista que me chama pelo meu nome, quer que eu me lembre, eu não me lembro. Conta que trabalhava com o João, o pintor, que morreu. Haviam pintado não sabia se a minha casa ou o meu consultório. Agora é motorista de uma sinagoga, leva o rabino prá lá e prá cá. Lembro-me então que quando quis ir filmar no cemitério judaico, pediram-me que lesse um livro que foi escrito pelo rabino com quem ele trabalha. Estranhos acasos. Contei-lhe que precisava do livro, para um trabalho meu. Ele me diz que iria conseguir. Depois de quinze dias, passa no meu consultório, que ele pintara há quinze anos, e , orgulhosamente me entrega o livro. O rabino queria saber meu sobrenome. Eu me comovo - encontros de vida propiciados pelo mergulho na questão da morte.

Assim é que, no domingo de carnaval, caminhava gostosamente pelas ruas de São Paulo, com minha família e com meu cachorrinho. Escolhemos fugir do movimento das avenidas, andar por ruas mais sossegadas, buscar algo de verde, de campo, quem sabe uma oculta cidade do interior nessa cidade metálica. Na busca da tranquilidade chegamos nos fundos do Cemitério da Consolação. Meu cachorrinho me puxa para dentro do cemitério atrás de um majestoso gato branco. Sugiro então ir visitar um túmulo onde havia uma linda escultura - o primeiro nu dentro de um cemitério. Achava que ficava próximo àquela entrada. Entrei no cemitério com a maior desenvoltura, como se conhecesse todas as alamedas, como se conhecesse cada túmulo. De repente, um homem com uma enorme arma - quer o relógio de Reinaldo, quer o relógio, está branco, cadavérico., "não me segue senão eu te apago", o homem entre os túmulos e meu cachorrinho me puxando atrás do gato e eu querendo encontrar os meus conhecidos que havia entrevistado, e ninguém, ninguém, a arma cintilando ao sol de um domingo de carnaval, ele não quer o dinheiro, não pede a bolsa, quer o relógio, o relógio. Não morrer por um triz em um passeio por um cemitério deserto. A morte tão rente ali e o cemitério. Como se aquele homem cadavérico viesse me lembrar do aterrador da morte. E me mostrar do sagrado, e me mostrar da necessidade da veneração e do ritual. Esse tênue fio onde a familiaridade elimina o sagrado. E, ao mesmo tempo, se torna necessária em um projeto que implica esse contacto com a morte. Que o meu cachorrinho corresse atrás de um gato que vive no cemitério, que se alimenta de insetos que brotam da terra que aconchega restos humanos, que meu cachorrinho sentisse cheiros de ossaturas mil.... Tudo isso passou a fazer parte de uma normalidade. Lembrei com até o seculo XIV os cemitérios era lugares de feiras, onde se dançava e se vendia de tudo. A mistura da vida e da morte, a morte como parte da vida, o se curvar à natureza. A morte domesticada - como meu cachorrinho. No assalto, ressurgiu a selvageria da morte em nosso mundo. Morrer assim, sem mais. Por nada.

Tudo isso me fez refletir sobre o que é fazer um documentário, a importância de manter a estranheza, o medo, o cuidado para não pasteurizar a morte. Não esvaziar a imagem do seu sentido. Não entrar no inebriamento onipotente que realizar um filme traz. Devo essa reflexão a um assaltante que poderia ter sido um assassino.

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