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A BORDA
Diálogo: Jerusa Pires Ferreira e
Amálio Pinheiro, na PUC - São Paulo, em 06.04.2001.
Transcrição e edição: Edil
Silva Costa
Questão: O que é a "cultura
das bordas"?
Jerusa Pires Ferreira: Amálio
e eu, desde que começamos a trabalhar juntos e que traduzimos o livro do Paul Zumthor (A
letra e a voz; a "literatura medieval". São Paulo: Cia das Letras,
1993), nós começamos um diálogo que não se interrompeu. Além de afinidades pessoais,
temos em comum o modo de pensar a cultura não estabelecendo marcos, limites
instransponíveis, estabelecendo zonas imantadas na passagem de alguns estratos para
outros. Sem uma visão segregante da cultura, a gente procura, cada um de acordo com sua
formação, em vez de coibir traços desses universos de personalidades, transformar o que
hoje se chama "núcleo duro", que é a teoria em si, próprio de uma coisa
segregada, trazendo elementos dessa nossa constituição cultural. Porque os estratos
existem, naturalmente. Você tem públicos e modos de construção da cultura diferentes.
Não se pode dizer que acabou a diferença, senão não estaríamos nem falando em cultura
popular. Mas ao invés de considerar popular versus erudito, urbano versus rural, nós
enxergamos processos móveis. Eu acredito nesses processos com zonas fortemente imantadas,
carregadas signicamente. É nesse universo que se situa a Cultura das Bordas. Foi uma
denominação que eu andei forjando em razão de em geral se tratar ou da indústria
cultural ou das culturas tradicionais que são chamadas culturas de folk, culturas
arcaicas. Não há maneira de não delimitar, a gente sempre delimita. A gente sempre usa
conceitos escravizantes porque qualquer palavra, qualquer nomenclatura, ela em si é
escravizante. Quando você fala "cultura das bordas", você imagina "bordas
de quê"? E esse é que é o grande problema. Essa é uma questão que vem há muitos
anos me preocupando.
Quando eu cheguei aqui em São
Paulo, eu vinha de uma graduação em Letras e de uma formação do que se chama erudita,
que era uma formação de medievalista. Era professora de literatura portuguesa,
trabalhava com novelas de cavalaria. Eu fiz o Mestrado sobre o tema do sertão em
História Social, na Universidade Federal da Bahia com José Calasans. Quer dizer, isso
recuperou a Idade Média, sob outra perspectiva; recuperou ciclos narrativos e um
compromisso maior com a oralidade. Depois eu fiz o Doutoramento no Departamento de
Ciências Sociais da USP, com um pensador absolutamente livre que pouca gente entendeu.
Muita gente apreciava os cursos dele, mas de fato pouca gente entendeu Rui Galvão de
Andrada Coelho. Ele era do Departamento de Sociologia, mas me chamou a atenção para a
questão da dificuldade de delimitar os processos culturais. Eu diria que eu tive alguns
mestres, porque todo mundo tem. Algumas pessoas que me convidaram a pensar nessa
dificuldade conceitual, nessa coisa vã de aprisionar conceitos e processos de cultura em
caixas ou em rótulos mais estritos. E o Rui tinha teorias próprias sobre o Giordano
Bruno, sobre Dante, ele tinha paixão pelo Melville, estudou o Benito Sereno... e ao mesmo
tempo ele chamava a atenção para textos populares, o livro de São Cipriano,
espiritismo, transe, coisas assim que eram consideradas menores, não dignas, e que
ficavam fora dos portões da universidade. Isso foi o começo de uma relação entre esse
mundo escolar que eu trazia de leituras da Idade Média e essa concepção aberta de
cultura que eu faço questão de conservar e que é um dos fundamentos de constituição
do Núcleo de Poéticas da Oralidade.
Amálio Pinheiro: A idéia de
processo é importantíssima porque sem ela não é possível se ver a cultura de modo
relacional. Termina-se por examinar em certos períodos a cultura de modo encaixotado
quantitativamente e se atribui a prevalência a determinados fenômenos que se transformam
em modismos acadêmicos. Não se faz o trânsito de uma série para outra e corre-se o
risco de se atribuir significado excessivo a um determinado momento da cultura sem
perceber que ele já tinha se dado antes. Um exemplo claro que eu tenho observado é o do
pessoal que lida com as mídias digitais, que é um fenômeno importante da cultura.
Atribuem muitas vezes questões de perda de autoria às mídias digitais como se elas
tivessem trazido à baila essa questão, sem mencionar o quanto nos estudos de oralidade o
problema da autoria, da perda da autoria, o anonimato, já é colocado. Então, há aí um
risco grande de não se analisar a cultura como um processo relacional, como mosaicos
móbiles que se contaminam. A minha pesquisa, ela tem que ver com o interesse pelo
caráter mestiço das culturas da América Latina. Uma ampla mestiçagem da qual o
fenômeno oral participa ativamente. E de como há uma série de produções que
incluíram nas suas obras mais radicais processos de oralidade dentro da escritura. Mas
esses processos não se dão somente na obra, seja em livro ou em qualquer outro suporte.
São processos que se dão conectados a toda a cultura. Isso tudo para além de qualquer
problemática, para mim já desgastada, a respeito da obra imanente ou obra dependente do
social. Para mim essa discussão já cansou. Ultimamente eu tenho me interessado em
analisar os produtos poéticos, literários, de que tipos sejam, mostrando como eles fazem
reverberar séries culturais em mosaico. Ou seja, superando qualquer análise apenas
interna ou externa. Então eu tenho me interassado ultimamente não só, por exemplo, por
determinados setores poéticos da América Latina, mas me interesso muito pela
arquitetura, pela culinária, etc. desses lugares também. Eu vejo uma intimidade cada vez
maior entre essas séries e cada vez mais percebo que há uma necessidade de uma análise
material dessas conexões.
Questão: é uma pesquisa que não
se restringe apenas ao aspecto literário, mas cultural.
A. P.: sim. Eu demorei para
perceber isso. Isso é uma coisa que há uns dez anos tem me interessado. Sem nenhum risco
de fazer a obra criativa depender de algo que seria distante dela. Absolutamente não há
esse risco até porque os textos da cultura são sistemas de signos. Então, se um poema
pode se comunicar com o cinema, ele pode se comunicar também com uma série
arquitetônica, urbanística, de mobiliário, etc. É claro que a análise fica mais
difícil conforme essas séries são mais distantes e tem que se tomar cuidado para que as
análises não fiquem gratuitas.
J. P. F.: e a análise requer,
apesar dessa conjunção, um conhecimento de especificidades. A gente joga o tempo todo
com a relação com as especificidades das coisas e os modos de conjunção. A nossa
diferença é essa. Porque quando me perguntam se eu sou especialista em alguma coisa, eu
tenho muita dificuldade em me situar como especialista. Claro que eu passei anos estudando
folhetos de cordel considerados como objetos ad despiciendum. Quer dizer,
desprezados, feitos para jogar fora, que não são nada além de pequenas obras em papel
barato, impressas de qualquer maneira. No entanto, passei anos da minha vida estudando
cordel. Para ler um simples folheto você tem que fazer uma viagem de integração de
várias especificidades nesse processo, o que é uma coisa dificílima. Por exemplo, como
é que você vai ler um folheto se você não souber um pouco do que é o indo-europeu?
Como, se você não souber como é o conjunto dessas narrativas no conto popular? São
anos estudando o conto popular, anos estudando os processos transmissíveis de estrutura e
oralidade, anos explicando de que maneira malhas coesas se armam dentro das grandes malhas
da chamada memória coletiva. Quer dizer, para entender um só folheto, foram necessários
anos e anos e anos de investimento, de dispositivos energéticos em cima de uma quantidade
enorme de áreas do saber. A questão é que é necessário perceber, como o Amálio está
falando, o conjunto. Se você refere o seu objeto às outras séries, você tem que ter
conhecimento dessas séries e você tem que ter a relação disso com aquilo, ou por
outra, perceber como se forma esse todo. Eu não gosto muito da idéia de
interdisciplinaridade, não suporto essa palavra!
A. P.: eu nem uso.
J. P. F.: Interdisciplinaridade
pra mim é o seguinte: quando você organiza as pesquisas integradas de um engenheiro, um
físico, um químico, etc. Aí é interdisciplinaridade porque a físico fala sobre um
tema do ponto de vista da física, o químico do ponto de vista da química... Agora, a
nossa pesquisa, o nosso mundo de reflexão, ele é aberto e é o objeto que vai buscar.
Não é a coisa que busca o objeto, não é a disciplina que busca o objeto, é o objeto
que busca a coisa. A conexão, o link, quem pede é o objeto.
A. P.: ele é que materialmente se
mostra como necessitando de uma conexão determinada. E assim você mostra que há um
mecanismo tradutório, digamos.
Questão: e isso recupera o
verdadeiro sentido do que é a universidade, um universo.
A. P.: e aí surge o conhecimento
que não é enciclopédico. Não só meramente de acúmulo de conhecimento, mas de
estabelecimento dessas tramas.
J. P. F.: tramas interativas. O
tempo todo buscando uma interação. Esse exemplo que Amálio deu da internet é um
exemplo muito claro. Quando eu escrevi Cavalaria em cordel há vinte e tantos anos
atrás, eu falei de uma virtualidade quando não se falava em virtual. Eu falei de uma
virtualidade de situações narrativas de temas sempre prontos a serem recuperados quando
houvesse compatibilidade cultural. Então eu chamei de duas matrizes: uma matriz concreta,
de temas medievais concretos e a outra parte era matriz virtual. De fato, aquele livrinho Cavalaria
em cordel estava 50 anos avançado para 1977. Eu estava falando de uma matriz cultural
concreta, com temas medievais do tipo: os textos do Carlos Magno vieram daqui, foram para
aqui. Se transformaram em folguedos, em jogos, em teatro, em folheto. No entanto, havia
uma matriz, que era o hipertexto e que funciona como modelo virtual sempre pronto a se
reatualizar cada vez que houvesse compatibilidade social. Como é que chegam, isso é uma
outra história. Porque eu não vou estabelecer gênese, eu não gosto da gênese, eu
gosto do processo. Como começou, onde terminou ou onde vai terminar, não sei. Mas essa
idéia de hipertexto ela está na cultura oral.
A. P.: nós já mencionamos duas
coisas já pra discutir a respeito da internet: uma da autoria e a outra desse modelo
virtual.
Questão: vocês poderiam retomar
essa idéia da gênese, da impossibilidade ou da falta de importância desses estudos que
sempre ganharam espaço na universidade e que agora o seu discurso nega.
J. P. F.: há uma questão maior,
semântica, ao falar de gênese. Quem trabalha com crítica genética é uma outra coisa,
é a idéia de você pegar um texto e acompanhar como isso virou aquilo. Eu vou dar um
exemplo fantástico disso: eu fui ver uma exposição na Biblioteca do Museu Lasar Segel e
tinha uma primeira edição de Vidas secas de Graciliano Ramos. A obra teve como
primeiro título "Mundo em penas" ou "com penas", uma coisa assim. Na
capa estava esse título, que foi riscado pelo Graciliano, e embaixo escrito "vidas
secas". Quer dizer, aí é a gênese do processo de um escritor. Antes ele não tinha
atinado para a grande síntese poética do seu texto que é "vidas secas" e
tinha dado como título algo que expressasse um mundo penalizado, sofrido. Mas ele fez uma
operação de passar desse texto inicial para a denominação de depois.
A. P.: e aí o conhecimento do
texto anterior favorece a análise material do outro.
J. P. F.: exatamente. Agora, a
gênese de um texto oral, ela é praticamente impossível de detectar. E as pessoas que
seguem só a leitura sociológica se confundem enormemente quanto a atribuir a história
social como definidora dessas marcas do texto antigo. Você tem, claro, uma história. O
texto foi construído na sociedade tal, foi escrito por não sei quem ou por várias
pessoas, é anônimo ou não é anônimo, mas ele não pode ser delimitado como tal porque
há dois tempos que se cruzam. As temporalidades, elas não são as mesmas. Nós temos uma
temporalidade histórica que acompanha qualquer texto, ele em tal sociedade foi feito, em
tal momento, tal... e a temporalidade mítica, a temporalidade arqueológica. Então, um
texto oral, em princípio, ele é mythus, no sentido de que ele é narrativa.
E aí não pode datar. Vem da onde? Vem da Índia? Não sei, pode até vir. Aí entram mil
teorias de correspondência e a minha sugestão é que se pense sempre um texto de frente
pra trás. É ele agora, o que é que ele vai querer que a gente explique dele, o que é
que a gente pode buscar. Porque se você vier da Índia, você tem que largar tudo,
estudar o indo-europeu, estudar todas as hipóteses sobre a transmissão, estudar as
escolas mitológicas do século XIX e aí fica impossível. E é como tirar água do mar.
A minha proposta é que, ao julgar qualquer fenômeno de cultura, se julgue a inserção
de dois tempos: do tempo histórico e de outras temporalidades, quer seja míticas, quer
seja psicológicas. Bergson está aí com as durações concretas e tudo o mais. Então,
não dá pra pensar de uma forma também linear a respeito do tempo.
A. P.: se se vai buscar o
primeiro, corre-se o risco de entrar numa sucessão temporal, quando o que interessa é o
encaixe desses temas, em cada obra específica.
J. P. F.: claro. Mas se você vai
trabalhar com a novela de cavalaria como eu trabalhei, o "Palmerim da
Inglaterra", então você vai ter que pegar a história editorial dessa novela,
quando é que ela se publicou e porque. Então entra o tempo histórico. Agora, se você
vai pensar no fenômeno da novela de cavalaria em si, você vai pensar nas heresias
persas, no amor cortês, em coisas que vão vindo pra reunir tudo isso num caudal. E a
minha proposta é desse cruzamento das várias temporalidades em cima de qualquer
fenômeno de cultura.
Questão: vocês falaram na
questão da internet, das novas tecnologias e essa relação com a cultura e com a
literatura. As novas tecnologias também trazem uma nova relação com o espaço e com o
tempo. O Zumthor já coloca essa questão nos textos dele: as novas tecnologias e a
relação com a literatura hoje.
J. P. F.: e até provocam também
uma nova forma de pensar. Isso é um desafio, isso não é uma solução ainda.
A. P.: é um problema que está
aí para ser resolvido. A pergunta que eu tenho feito para as pessoas que conhecem os
mecanismos da internet é a seguinte: o que é que se pode fazer com as obras literárias,
para citar uma das possibilidades, na sua relação com as mídias digitais, levando-se em
conta que para que melhorem a sua densidade de comunicação nesse novo processo, têm que
superar a mera facilidade quantitativa de acesso. Isso é um problema.
J. P. F.: criam-se novos gêneros
também.
A. P.: sim. Gêneros híbridos. E
nós, que vivemos numa sociedade eminentemente híbrida, deveríamos ter mais facilidade
para mexer com esses mecanismos. Nós temos um impulso cultural que nem toda sociedade tem
para lidar com o híbrido. Mas ainda não se sabe. O problema é o seguinte: as pessoas
que mais lidam com a mídia digital sabem que a mídia digital tem um estatuto cujos
parâmetros de produção ainda não estão totalmente definidos. A primeira passagem
complicada que houve na história das mídias foi do livro para o jornal. Veja quanto
tempo levou até perceberem que o jornal podia ter um aumento de densidade de
significação na medida em que se mudasse toda uma diagramação, aumentasse letra,
jogasse com os espaços, etc. etc. etc. Até se chegar na forma que conhecemos hoje levou
muito tempo. Começaram a aparecer escritores que escreviam folhetins. Alguns apareceram e
aproveitaram os meios, as novas possibilidades técnicas do jornal para revitalizar a
literatura a partir do jornal. Veja Memórias póstumas de Brás Cubas e Memórias
em um sargento de milícias escritas em jornal. Títulos engraçados, com jogos de
palavras, mais humor, imagem, capítulos curtos. Porque o jornal é feito pra ler na
cidade, ele tem um manuseio diferente. Então de repente descobriram uma relação entre
técnica, criação e uma relação nova entre livro e jornal. A pergunta é se já se
sabe fazer isso com as mídias digitais. Eu não sei qual é o caminho. Eu tenho
perguntado isso para pessoas que fazem arte nas mídias digitais, mas eles ainda não têm
todo o domínio sobre essas questões.
J. P. F.: o Carles Grivel, na
vinda dele aqui, ele apontou pra algumas dessas questões e eu traduzi um texto dele que
está publicado na revista do Programa de História a PUC que aborda essa questão. Além
disso, nós estamos transcrevendo na videoteca da PUC todas as conferências de Grivel,
inclusive uma que se chama "Guerre des arts" que é exatamente isso. Lotman
também tem textos notáveis sobre o assunto. No momento em que surge uma inovação
técnica dessa ordem, há primeiro um desvario, é o que ele chama de "guerra das
artes", os fotógrafos contra os pintores...
A. P.: sim, dizem que o meio
antigo vai acabar. Olha quantas vezes que já acabaram com o jornal!
J. P. F.: é verdade. E o livro! O
livro que nunca esteve tão violentamente editado quanto agora ! (Apesar de as pessoas
não lerem, mas isso é outra história.) Mesmo porque é um erro pensar que cada objeto
só tem uma função. Cada objeto tem uma plurifuncionalidade. Quando se pega um livro,
ele tem uma função de fetiche, tem uma função de status, de conselheiro, de prazer. E
daí eu ser contra completamente àquela dicotomia do Umberto Eco com a noção de
literatura de entretenimento. Eu acho que ele deixa de lado todo um complexo de funções
que atuam sobre os mesmos objetos em diferentes momentos.
A. P.: e completando, esse
complexo faz parte desse processo cultural que eu mencionava. Ou seja, o jornal, quando
você lê, você sai de casa, vai à banca do jornal, pega o jornal, carrega, cumprimenta
as pessoas... enquanto com uma tela de computador não se puder fazer isso, não se vai
poder absolutamente superar esse complexo psico-afetivo-cultural em que o jornal está
imerso. Assim, o livro tem suas peculiaridades como o jornal ou o cinema tem as suas.
J. P. F.: o livro você leva pra
cama... tem livro de ler deitado, como tem livro de ler sentado...
A. P.: veja a complexidade que a
gente está mostrando que muitas vezes é esquecida quando se trata disso. Sem falar na
relação, evidente, de cada meio com os sentidos humanos. Por exemplo, o computador não
resolve o sentido do tato. O grande problema do computador, é que o livro, o jornal, eles
têm essa relação táctil com o corpo humano que de alguma maneira tem que ver com essa
evolução de tantos milhões de anos da mão, do dedo humano, da necessidade de apalpar
coisas, de apalpar asperezas e sinuosidades que é uma outra coisa que tem que se levar em
conta. Embora não tenhamos nada contra a internet, nós só estamos querendo situar.
Questão: Com isso você mostra a
dinâmica cultural. As várias maneiras como as pessoas se relacionam com os objetos da
cultura e descobrem novas formas de relação com esses objetos que surgem.
J. P. F.: por outro lado, voltando
aos gêneros, do mesmo jeito que o jornal atuou para a criação de um gênero ao qual os
grandes escritores como Dostoieviski, Machado de Assis, José de Alencar, aderiram que foi
o folhetim, você tem a criação agora de um gênero que me chama muito a atenção, que
está no jornal e que é próprio para a internet que é o gênero curto e intensificado.
Você tem tido contos curtos com uma intensificação. Nesse ponto, Kafka é de uma
contemporaneidade que não tem tamanho!
A. P.: isso que você está
falando é muito interessante. É curioso porque o chamado conto curto apareceu na
América Latina. O conto curto, rápido, apareceu com Cortazar. Vejam-se as coletâneas do
Cortazar com contos de, às vezes, uma página que você lê vertiginosamente, ou seja,
com uma proposta lúdica extremamente forte, de jogo de palavras e um enredo que se revira
sobre si mesmo.
J. P. F.: como eu passei 3 anos no
júri do Prêmio Jabuti de ficção, eu fui observando como vinha acontecendo esse
encurtamento. Houve, digamos, uma diminuição, uma intensificação e um carregamento
signico de comunicação. E ao mesmo tempo, o conto como uma montagem.
Questão: o Amálio falou da falta
de uma relação táctil com o computador. Além dessa questão da condensação que é
típico da internet mesmo, tem outra coisa que é essa relação com o visual. Existe um
apelo muito forte ao visual na internet. Talvez isso seja o mais sedutor. E que também
há no jornal.
A. P.: mas não se pode usar o
computador como se fosse uma página. Ainda se comete muito esse equívoco. A palavra
"page" inclusive denota isso. Se usa ainda o computador como se fosse livro,
como se fosse um lugar, como se tivesse algo topográfico delimitado. Tem que se explorar
a rapidez visual. Quer dizer, imaginem um conto rápido como esse que a Jerusa mencionou
que é bastante ágil e apropriado a esse meio. Como montá-lo na tela sem que seja uma
mera transposição do jornal, por exemplo, para a tela? Que rearranjo ele deveria sofrer?
Deveria entrar piscando? Eu não sei. Não é absolutamente fácil explorar os meios
técnicos a favor de um novo tipo de leitura que não poderia ser feita fora do
computador. Se ela pode ser feita fora do computador, então o computador está sendo
usado de maneira apenas quantitativa. O que não é desagradável, mas é diluidor. Tudo
bem, acumula dados quantitativamente e mais rápido, apesar disso. É a questão de como
traduzir para o novo suporte.
J. P. F.: e uma das questões mais
importantes da leitura de cultura hoje é a questão da tradução em novas linguagens. A
tradução em si é tema central de nossa cogitação sobre cultura. Caetano sacou isso,
há tantos anos, quando ele escreveu, referindo-se a São Paulo, que Rita Lee era a sua
mais perfeita tradução. "Ainda não havia Rita Lee a sua mais perfeita
tradução". Quer dizer, a idéia de traduzir em novas linguagens e esse confronto.
Eu vou usar uma expressão do Lyotard: "espaço figural". O Lyotard usa essa
expressão para designar o espaço da imagem, da figura; o espaço figural como lugar onde
a figura se cumpre enquanto figura, enquanto imagem. Esse espaço, altamente hipnótico,
leva, diante dessa velocidade, à necessidade de decodificar e a uma certa vertigem da
imagem também. Há uma espécie de pulsão rumo à imagem, de um lado, e de outro lado,
um desgaste, um cansaço da imagem que não cessa de se renovar querendo alcançar
plenamente os sentidos que nossa civilização esquizofrenizou. Então, a imagem vai
ficando cada vez mais realista. Basta ver os afixes de rua que eram cartazes, que depois
se iluminam, que depois ganham movimento, que depois ganham vida e que vão terminar como
os de Nova Iorque num hiper realismo imenso que você quase adoece de olhá-los porque
eles estão criando um conceito de hiper-realidade. A idéia de hiper-realidade é
fundamental. Todo mundo está trabalhando hoje com a imagem, ninguém trabalha mais que
não seja com imagem. Quando você não trabalha com imagem, você é um fóssil.
A. P.: e o curioso, junto a isso,
Jerusa, é que se há um continente onde há uma cultura de imagem fortíssima é
justamente a América Latina. O Win Wenders dizia: eu tenho que fazer esses filmes porque
a Alemanha é pobre de imagens. Basta ver com os nossos historiadores todos. Havia desde a
primeira colônia uma cultura de imagens. Todo mundo pedia imagem de santo, as imagens das
igrejas, os azulejos, etc. Agora, era uma cultura da imagem inteiramente relacional,
ligada à cultura, ao processo cultural.
J. P. F.: mas era tão ideológica
quanto essa imagem dagora.
A. P.: nem tanto. Aquela era
lúdico-barroca, descentrada, feita de dobras e dobras... Me incomoda muito quando as
pessoas dizem: "agora estamos numa sociedade da imagem"... Basta andar pela rua
e saber olhar pra ver o que é sociedade de imagem. O que é o México, meu Deus do céu!
O esplendor! A Índia, Marrocos...
J. P. F.: na Índia, uma imagem
não repete a outra. O repertório é infinito. Agora, a utilização da imagem pra fins
hipnóticos, isso é outra coisa. No mundo do Barroco, há o ouro, o esplendor, o incenso,
e tudo isso se liga à voz, à prática, ao gesto, enfim.
A. P.: a poesia barroca tem esse
ouro nas sílabas, nas letras. Gôngora fazia brilhar as letras nos poemas em que ele
falava do ouro. Ele escolhia as sílabas, um hemistíquio no meio do verso que é onde o
verso se levanta, ele colocava palavras que ele fazia brilhar como ouro.
J. P. F.: se você tem isso por um
lado, você tem, por outro lado, o uso de uma imagem estereotipada e chapada para captar
adeptos que de adeptos viram cúmplices, como eu digo no livro de São Cipriano.
A. P.: e essa imagem aí é
retirada do processo relacional da cultura e fica algo postiça porque pertencente a outra
linha, a essa linha hipnótica. Se você reparar tudo o que a gente está falando, desse
massacre, vê que todo o processo cultural, ele é espezinhado, retirado. Toda essa
interligação relacional da cultura se perde porque começa a aparecer a proliferação
de simulacros postiços, sem conexão com a cultura.
J. P. F.: é o minar das
conexões. É transformar em estilhaços.
A. P.: sim, porque as conexões é
que aumentam a significação. Isso é uma questão básica da teoria da comunicação: é
necessário haver uma fricção entre elementos heterogêneos para que a significação
aumente. Bakhtin fala isso e vale para toda a cultura, não só para palavras colocadas
num poema.
Questão: essa fragmentação
seria um problema da contemporaneidade ou seria algo que já vem de mais tempo?
A. P.: isso é um problema muito
antigo, não apareceu agora. Agora, a escala dos mecanismos de reprodução e os problemas
sócio-políticos contribuem para intensificar o processo. As primeiras sociedades
neoliberais que começaram no sul da Europa com a hanseática, na Alemanha, começaram a
estabelecer o livre comércio. Isso se dava com dificuldades de comunicação muito
grandes, mas já estava se formando ali lentamente esse espírito de uma classe média
globalizante que justamente aceita esse tipo de consumo desligado das conexões, digamos
assim. Se você for ler Thomas Mann e Tolstoi, vai ver como é que eles nos seus livros
já criticam esse tipo de sociedade. Você pega Guerra e Paz, do Tolstoi. Ele
mostra aquela nobreza decadente russa, os russos falando francês sempre que podiam. Pode
imaginar o que é pra um russo falar francês? Ou seja, uma espécie de afetação
postiça na cultura que tem que ver com uma sorte de planificação geral dos modos de
convivência. Thomas Mann nOs Buddenbrook, a nobreza alemã fazendo alianças
com os comerciantes. Falavam francês, esticavam o lábio inferior para fazer uma
determinada pose, dizer uma palavra... Era uma metalinguagem que o autor fazia através da
forma. Esses mecanismos agora foram levados às últimas conseqüências...
J. P. F.: a escala é perversa. A
escala e a intensidade dos mecanismos. Eu queria falar um pouquinho sobre cultura das
bordas que é o seguinte: diante do que nós estamos discutindo quase nem faz sentido
falar em bordas.
A. P.: eu acho muito boa a
palavra, muito melhor que "margem".
J. P. F.: é, "margem"
dá idéia de você ser posto em condição marginal, em ser expulso...
A. P.: e implica numa
classificação e em uma hierarquia, mesmo que seja a partir da vítima.
J. P. F.: é verdade. Na
Universidade de Limoge, há um grande centro de Cultura Popular, com uma biblioteca
fantástica do Jean Claude Vareille e a coordenação do Jacques Migozzi. Lá eles têm
uma série chamada Littérature en marge. Isso é outra coisa, é a literatura que
é desqualificada e posta de fora. Eu detesto a denominação paraliteratura, não uso,
mas a idéia "littérature en marge" é um pouco isso. A questão dos limites me
interessa muitíssimo. Você chama de classes populares um grupo instituicionalizado,
reconhecido por manter as tradições, o folclore; do outro lado, a indústria cultural
com seus efeitos. E você tem uma camada que se nutre de um lado daquela tradição e de
outro da contemporaneidade. É o caso, por exemplo, de um escritor chamado Rubem Luchetti,
de Ribeirão Preto. Ele é síntese. Basta saber que ele é o que existe de mais vanguarda
e mais síntese. Em tudo isso que nós estamos falando ele cabe. Ele tem a maior
biblioteca de livros populares do Brasil e é o maior conhecedor desse tema, ampliando o
conceito de popular para tudo também que se popularizou e que caiu numa espécie de
pré-literatura de massas. Ele é o autor dos roteiros do Zé do Caixão, autor de
revistas de terror, da Cripta, escreveu muito para a X9, da pulp
literature que depois no cinema teria tanto prestígio. Então, o Luchetti desenvolveu
um tipo de trabalho, escrevendo para as editoras populares centenas de textos e entrando
nessas conexões entre aquele mundo tradicional e o mundo contíguo, como eu chamo, da
cultura de massas. Demorou anos pra eu entender o que era isso, e eu conheço Luchetti já
há 20 anos. Carlos Adriano ganhou agora o prêmio para fazer o filme sobre o ele e nós
vamos fazer um simpósio sobre o Rubem Luchetti aqui no segundo semestre. Vamos mostrar
essa guerra inter-artes, essa idéia da imagem como urgência num homem como Luchetti, que
vive numa cidadezinha chamada Jardinópolis, no interior de São Paulo, produzindo
roteiros para esse cinema en marge. Aí sim, foi isso que eu chamei de cultura das
bordas. Ele não tem nem o necessário reconhecimento para ser um roteirista da Globo, da
indústria cultural, mas ele é aquele que faz roteiros pra essa espécie de submundo,
porém com uma grandeza...! E eu não tenho dúvida: existe toda uma cultura que está às
bordas do grande sistema, na beira.
A. P.: e essa cultura das bordas
é muito importante quando a gente observa nas análises dos textos produzidos, que
contém formas construtivas da cultura. O hiperbólico, o humor, o grotesco. Quer dizer,
há uma construção séria onde se recuperam os elementos anônimos da cultura, de
maneira produtiva, incisiva, exagerada. E de alguma maneira, essas obras recuperam algo
que é fundamental na cultura da América Latina: o hiperbólico grotesco.
J. P. F.: o Luchetti faz mais
porque ele é um criador excepcional. A primeira vez que eu fui entrevistá-lo, surgiu uma
amizade, um diálogo. Eu tenho muito material comigo, devo escrever um livro sobre ele.
Esse material dele tem uma linguagem própria também. É a linguagem da colagem. Ele faz
uma revista onde há toda essa colagem vertiginosa, internética. A colagem é o principal
processo de construção de linguagem dessa cultura das bordas.
A. P.: essas figuras como o Rubem
Luchetti têm a capacidade de ser ágeis para captar esses agregados provisórios de uma
sociedade ágil como a brasileira. O Paul Zumthor, fala de sociedades em estilo lento
e sociedades em estilo rápido. Não é rapidez, velocidade quilométrica isso.
Trata-se de agilidade para montar e remontar códigos. Até queimando etapas. É uma
sintaxe. Precisa ser perito em uma sintaxe, porque há sociedades que tendem menos para
esses conjuntos, esses mosaicos de agregados provisórios, e são sociedades que se
remetem mais no fio do passado, na direção retilínea do presente. São sociedades mais
metafóricas e da substituição. Nós somos sociedades mais metonímicas e da moldagem.
Então, a sintaxe para nós é muito importante. Evidentemente, o que nós temos é que
organizar esse material colocado sincronicamente à nossa frente. Às vezes de um modo que
assusta, que parece erro, parece deformidade, todas as acusações que sempre fizeram à
América Latina. O Hegel diria que nós somos "pouco apertados". Parece com um
termo erótico, mas não é. É uma expressão alemã que ele usa para dizer que a Europa
chegou à apoteose da idéia, da resolução da idéia.
J. P. F.: a idéia que se pensa a
si mesma. E você tem exatamente essa intensidade e essa prolixidade também.
A. P.: eu estou falando da
América Latina, mas é evidente que é um processo que vem de muito longe, passa por
muitas outras regiões e países.

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