



O lugar já estava vazio fazia anos, mas, ainda assim,
as pessoas insistiam em ter medo dele. A grande cidade de St. Thountd tinha sua
população distribuída entre as partes Norte, Sul e Oeste. Mas na parte Leste da
cidade quase não havia movimento. Há anos, haviam acontecido desaparecimentos
estranhos naquela região e até hoje, as pessoas pareciam achar que
desapareceriam sem deixar rastros se chegassem perto demais.
Na época em que aconteceram os desaparecimentos,
surgiram muitas histórias mirabolantes a respeito deles. Durante semanas; não
havia um jornal, fosse impresso ou televisionado; que não contasse as novidades
sobre os desaparecimentos. Mas nunca novidades boas.
A polícia investigou a fundo os acontecimentos, mas
toda vez que pareciam estar chegando a algum lugar, os policiais que comandavam
a operação desapareciam. Aos poucos até a polícia começou a perder a vontade de
chegar a uma conclusão. O caso, então, foi arquivado.
Sem dúvida, a pior parte de tudo isso foi quando John
Nikkin, uma vítima do desaparecimento voltou. O país parou para assistir quando
ele apareceu no meio da estrada, saindo da parte Leste da cidade. Suas roupas
sujas e rasgadas, com grandes feridas em seu corpo. Para piorar, ele não se lembrava
nem de quem era. Disse ao vivo para o país inteiro que só se lembrava de uma
coisa grande e brilhante descendo do céu.
A NASA bem que tentou abafar o caso, mas não dava
mais tempo. Uma pessoa desaparecida aparecer do nada dizendo que se lembrava somente
de “uma coisa grande e brilhante descendo do céu”, não era boa coisa. Não era
boa coisa mesmo.
Mas aquilo tudo não preocupava Pedro no momento. O
garoto estava sentado em sua cama, com um caderno de desenho à sua frente,
dando os últimos retoques no desenho de um anjo tocando guitarra. Por um
momento ele fixou o desenho, analisando-o. Seus olhos percorreram desde as asas
até o braço da guitarra. Então, Pedro pousou o lápis em cima da cama e ficou em
pé.
Um pouco alto para um garoto de apenas quinze anos de
idade, Pedro agitou seus cabelos despenteados para longe da testa e olhou no
relógio, na parede. Já era uma hora da manhã.
Desejando ter ficado um pouco menos acordado, Pedro
se deitou em sua cama, contemplando o quarto à sua volta. Na parede da esquerda,
em que sua cama estava encostada, havia desenhos feitos pelo garoto. Na parede
em sua frente havia um guarda-roupa antigo, de cor escura. Já na parede da
direita, se concentravam os maiores tesouros de Pedro. No canto estava uma
escrivaninha com seu computador, onde Pedro guardava todos os desenhos que
havia feito até hoje. Ao lado do PC, havia uma estante com muitos e muitos
livros, sendo a maioria sobre desenhos. Na estante também havia uma porta cheia
de CDs e LPs, em sua maioria de rock. Mais ao lado da estante, havia um rádio
antigo que tocava tanto CDs quanto LPs.
Pedro ficou deitado por um tempo, pensando em seus
desenhos, até pegar no sono.
No outro dia, de manhã, Pedro acordou como se não
tivesse dormido. Parecia que só havia fechado os olhos por alguns instantes,
mas o despertador ao lado de sua cama discordava.
O garoto se levantou, pensando no tédio que seria seu
dia. Mal sabia ele que aquele dia marcaria toda a sua vida.
[Voltar]
Juliana acordou assustada com seu despertador. Por um
instante, a garota teve o pensamento horrível de estar atrasada para a escola.
Só depois que se lembrou de que estava de férias. Isso a deixou mais aborrecida
do que estaria se estivesse atrasada. Afinal, Juliana odiava as férias.
Ela não sabia ao certo o porquê de tanta raiva deste
período do ano que todos adoravam. Talvez pela falta de amigos com quem compartilhá-lo.
Ou talvez pela monotonia que era ficar em casa, sem ter nenhuma tarefa para
fazer. Juliana só sabia que não gostava das férias. E não escondia isso de
ninguém.
A garota fazia o tipo “certinha”. Só tirava notas altas,
gostava de participar nas aulas e ajudar o professor. Isso, de certa forma,
contribuía para que Juliana fosse “a nerd excluída”. Claro que a garota tinha
amigas, mas eram apenas duas, tão certinhas quanto Juliana. Elas se chamavam
Bárbara e Aretha.
Bárbara era alta, magra e ruiva, especialista em Geografia.
Juntara-se à turma há pouco tempo, mas já era querida pelas amigas. Nas férias,
Bárbara gostava de viajar com seu pai (seus pais eram separados) que morava em
Manaus e era biólogo.
Já Aretha era baixa, morena com traços asiáticos e
usava óculos. Gostava muito de História, sendo fanática por livros antigos e
mitologia grega. Conhecia Juliana a mais tempo do que Bárbara, cerca de cinco
anos. Naqueles dias, a garota estava viajando para o Canadá, coisa que sempre
fazia com a família. Era como uma tradição. Juliana, então, ficava sozinha nas
férias.
A garota, apesar de muito bonita, tinha a mania de se
achar feia. Ela era morena com traços indígenas, não tão marcantes quanto os de
Aretha. Tinha longos cabelos negros que iam até a cintura. Não era muito alta,
tinha cerca de um metro e sessenta. Na escola, amava Matemática e Desenho Geométrico.
Na base, amava cálculos.
Juliana, após algum tempo, já não sabia se estava
sonhando ou apenas pensando. Quando teve quase certeza de que já estava
sonhando novamente, resolveu se levantar.
As horas se estendiam à medida que o tédio assolava
Pedro. A única coisa interessante que acontecera foi seu irmão do meio, Lucas,
ter tropeçado e batido a cabeça (que era um pouco maior do que o normal).
Pedro sentia falta da galera da escola, mas naquele
dia, por ser um domingo, a maioria estava fora, em churrascos e festas na
piscina. Os pais de Pedro; Paulo e Ana eram pessoas respeitáveis da sociedade.
Paulo trabalhava com biologia na faculdade ao lado do colégio onde Pedro
estudava. Ana era astrônoma numa grande empresa que mandava informações sobre o
espaço para a NASA, mas agora estava de férias em casa. Agora, se estava
levando isso a sério, ninguém poderia dizer. Não saia do telefone por um minuto
sequer, passando instruções para seu substituto no trabalho. Ela dizia que não trabalhar
a deixava estressada.
Por essas e outras razões, como ser o mais velho dos
três irmãos, Pedro não podia ir a nenhuma festa das que seus amigos o convidavam.
Hora tinha que cuidar de Rebeca (sua irmã mais nova), hora tinha que fazer
compras para sua mãe. Somente em um dia das férias Pedro conseguira ver alguém
da turma da sala.
Rhenan, seu primo e colega de classe, fora em sua
casa para Ana e Paula – mãe do Rhenan – se encontrarem. Mesmo com os dois
primos juntos na mesma casa, por mais incrível que pareça, não houve muita
agitação. Ambos ficaram no quarto de Pedro ouvindo músicas e conversando sobre
as pessoas da sala. Passaram o dia inteiro assim, tirando a sagrada parte em
que saíram para o quintal para jogar um pouco de futebol. Tirando esse dia, as férias
de Pedro foram um tédio.
Esses pensamentos voavam na mente do garoto, sentado
numa cadeira na frente da sua escrivaninha, tentando terminar o desenho do
anjo. A música Back In Black do AC/DC soava ao fundo. Quando o garoto estava
“curtindo”, cantando junto e tudo, a música parou.
Como se seguisse o exemplo da música, A lâmpada que
ficava em cima da escrivaninha apagou. Logo depois, a luz do quarto também
apagou.
Pedro se levantou, olhando furtivamente para os lados, como se tivesse certeza
de que alguém estava pregando uma peça de mau gosto nele. Foi até a porta, e
chamou sua mãe. Nada. Chamou por seus irmãos e ouviu a voz fina de Rebeca,
chamando-o.
Caminhando lentamente e se apoiando nas paredes como
um cego para não cair, Pedro foi até o quarto de sua irmã. Lá estavam Rebeca e
Lucas, ambos encolhidos a um canto. No caso de Rebeca, chorando.
— O que aconteceu? – perguntou Lucas, quando Pedro se
aproximou para fazer Rebeca parar de chorar.
— Sei lá. – disse o garoto, pegando Rebeca no colo –
Acho que um fusível queimou.
— Pedro, se um fusível queimasse, a luz não apagaria
toda de uma vez? – questionou Lucas, olhando para o irmão, que consolava a
pequena Rebeca.
— Aqui, o rádio começou a fazer umas coisas estranhas,
tipo falar uma outra língua. Era de arrepiar.
— Pêdo, o ádio feiz bauiu itanhu. – disse a voz de
Rebeca, ao ouvido do irmão mais velho. – Tô cum medu! – e recomeçou a chorar.
— Calma. – disse Pedro em resposta para Rebeca. –
Lucas, cadê a mãe?
— Sei lá.
— Vai procurar!
O pequeno garoto, naquela hora, morreu de vontade de
dar uma resposta super mal-educada para o irmão, mas, segundo sua mãe, ele
tinha de obedecer a seu irmão mais velho. E assim fez.
[Voltar]
Juliana passou as longas horas da tarde lendo o livro
que a escola mandou. Um livro clássico de literatura brasileira, Triste Fim de
Policarpo Quaresma, nada que interessasse muito. Tinha uma linguagem muito
difícil, tanto que a garota teve que ler três vezes a primeira página para
entender. Afinal, Juliana achava que ia pegar o resumo do livro na Internet.
Não era do feitio da garota fazer isso, mas seus colegas de classe sempre
faziam e se davam bem, por que ela não podia?
Quando já escurecia, a garota simplesmente desistiu. Fez
um trato consigo mesma que não leria o livro. A idéia do resumo finalmente a
convencera.
Quando estava guardando o livro na mochila, o telefone tocou. Juliana já sabia
quem era, provavelmente seu pai dizendo que não poderia pegá-la para passar a
semana juntos. A garota foi andando sem presas em direção ao aparelho e
atendeu. Logo que ouviu a voz de seu pai, já teve certeza de que sua tese era
real.
— Alô, pai? – disse Juliana.
— Oi, Ju. Tudo bom? – e sem esperar resposta, continuou
– Filha, papai ‘tá te ligando pra dizer que não vai dar pra te pegar aí amanhã.
— Ah, pai... Por quê?
— Papai tem muita coisa pra fazer no trabalho filha.
Mas agente se vê na quarta ou na quinta-feira.
— Tá bom.
—Você não vai fic... – a voz do pai da garota falhou.
— Pai?
Por alguns instantes, Juliana só ouviu chiados na linha.
Ela já ia desligar o telefone quando ouviu uma voz estranha, numa língua
estranha. Não se parecia com nada que a garota conhecia ou já ouvira. Na
verdade, a voz que vinha do telefone chegava até a ser assustadora.
— Pai, pára de brincar. – disse Juliana, séria – Tá
me assustando!
As luzes se apagarem e, como já estava à noitinha,
tudo ficou muito escuro. A garota ouviu um apito muito estranho soando em algum
lugar e desligou o telefone, assustada. Seguiu o som de apito e chegou até seu
quarto, onde havia um aparelho que media a radiação no ar. Juliana mesma
construíra o equipamento, para um trabalho escolar, mas não achava que a
máquina funcionaria mesmo. Geralmente, o índice de radiação ficava entre 0,25 e
0,50. Hoje estava marcando 5,74. Aquilo assustou a garota mais ainda. Pelo que
parecia, algo como uma onda de radiação estava passando por sua casa. Isso era
decididamente perigoso.
[Voltar]
— Bom, finalmente conseguimos. Passamos pela densa
camada envolvente. Será que entenderam nosso contato?
— Creio que sim, senhor.
— Bom, ao menos sei que nosso trabalho não foi em
vão.
— Claro.
— E... você tem absoluta certeza de que, pelo menos,
ouviram nossa mensagem?
— Absoluta, senhor.
— Pelo menos isso. Bem, só isso já começará a pôr em
prática os nossos planos. Tomara que eles entendam o que queremos. Afinal, a
última coisa que queremos agora é começar outra Grande Guerra.
— Tenho certeza que não, senhor.
— Ótimo. Informe aos soldados que conseguimos e diga
para eles descansarem.
— Sim, senhor. Só tenho uma pergunta. Será que vão conseguir
chegar até nós?
— Passamos as coordenadas corretas na mensagem. Creio
que conseguirão.
— Ela não está aqui. – disse Lucas, assustado,
voltando ao quarto onde o irmão mais velho cuidava da pequena Rebeca.
— O quê? – perguntou Pedro em resposta.
— Ela deve ter saído, mas em casa ela não está.
Pedro permaneceu parado, em silêncio, enquanto aquelas informações adentravam
em sua mente. Então decidiu.
— Lucas, você fica aqui e toma conta da Rebeca. –
disse com a voz firme. Não sabia se era uma boa atitude deixa os irmãos
sozinhos numa hora daquela, mas teria de arriscar. – Eu vou atrás da mãe.
Então, Pedro pôs um tênis, um casaco, pegou sua chave
da casa e saiu, trancando a porta ao sair.
A rua estava um alvoroço. Os vizinhos estavam todos para fora de casa, alguns
com uma expressão horrorizada. Outros não tão atemorizados. Pedro chegou a um
deles, André, e perguntou:
— Cara, ‘cê viu minha mãe?
— Não a vejo faz algumas horas... Por quê?
— Ela sumiu!
— Não vi. De verdade. Só de manhã...
Pedro saiu correndo para o final da rua, perguntando
para cada uma que via em seu caminho. Ninguém vira sua mãe.
Desesperado, o garoto rumou de volta para casa,
absorto em seus pensamentos. Onde estaria sua mãe?
Quando chegou perto da porta da sua casa, Pedro
encontrou Lucas e Rebeca na varanda, olhando abobados para o garoto.
— E aí? – disse Lucas – Achou?
— Não. – respondeu o irmão, franzindo a testa. –A rua
toda, ninguém a viu. Isso aqui ‘tá o maior caos. Acho melhor nós ficarmos lá
dentro.
Lucas e Rebeca entraram e Pedro ia entrando quando
ouviu chamarem seu nome. Virou-se e se deparou com André, parecendo assustado.
— Que foi, cara? – perguntou Pedro, erguendo uma
sobrancelha.
— Você não vai acreditar. – respondeu o garoto. –
Minha mãe também sumiu.
Sem recursos mais precisos, a única saída para
Juliana saber a radiação era aquele pequeno aparelhinho, feito à mão. Sem
dúvida, se aquele aparelho antigo ainda estivesse funcionando, a garota e todos
as outras pessoas estavam correndo perigo de vida. Juliana sabia que a radiação
era mortal.
A
garota estava apenas um pouco preocupada.
Principalmente porque o aparelho em questão era velho, feito
à mão para uma
Feira de Ciências na escola. A intenção inicial do
grupo que fizera o “radiaçômetro”
, como costumavam chamar entre si, era que funcionasse realmente. Mas
nunca
chegaram a comprovar que funcionava. Não tinham um poder de
radiação muito
grande para testar, nem equipamentos para isso.
O desânimo de não ter o que fazer para estudar aquilo
mais profundamente tomou a mente da garota. Afinal, o que ela mais amava era
estudar. Como podia agüentar não fazer isso?
Angustiada, a garota se levantou, decidida a fazer
alguma coisa. Olhou para os lados furtivamente, como se procurasse algo útil
para fazer.
Afinal, sua angústia durou pouco. Como se fosse atingida
por uma marreta invisível, Juliana foi ficando com muito sono. Suas pálpebras
foram descendo vagarosamente, como se fossem uma.
Juliana caiu no chão, desacordada. Parecia estar
dormindo, meiga como uma criança.
[Voltar]
Amedrontado e confuso, Pedro chamou André para
entrarem em sua casa. Ambos extremamente horrorizados com o que acontecia do
lado de fora da casa. Um caos total tomara conta da rua, as mães sumiram, Lucas
estava sentado no sofá, lendo e Rebeca ao seu lado, soluçando de tanto chorar.
Pedro e André foram para o quarto de Pedro e,
chegando lá, trancaram a porta. Não ia ser bom se Lucas ou Rebeca soubessem que
as mães haviam sumido. Sério, o garoto olhou para André.
— O que você acha que aconteceu?
— Não faço idéia. – respondeu o outro, também sério e
parecendo desolado. – Elas podem ter apenas saído juntas, sei lá.
— Não sei, cara. – contestou Pedro, em nível de
conversa – acho que não. Elas não são tão amigas assim. Tudo bem fofocam juntas
e tudo, mas não são de sair juntas.
— Talvez, mas então por que as duas sumiram?
— Agora você me pegou.
Não importava a situação em que estivesse, estar com
um amigo sempre confortava Pedro por dentro. Ele se sentia feliz por ter uma
companhia amigável naquele momento. Era como se não fosse o único a estar
horrorizado com a situação, e não era mesmo o único.
André estava parado, pensando. Isso fazia o garoto
ficar com uma incrível cara de bobo. André era alto, não era muito magro e
tinha cabelos loiros e curtos, penteados no estilo moicano. Tinha 15 anos como
Pedro, mas tinha repetido um ano na escola, o que fazia com que se vissem mais
na rua do que na escola. Eram amigos desde a infância, o que contribuía para
que Pedro sempre estivesse em contato com o amigo, fosse por telefone (o que
era incrível por morarem tão perto), fosse por MSN (aqui era onde mais se
falavam) ou fosse pessoalmente mesmo.
Naquele momento, Pedro ouviu sua irmã gritar:
— Pedrooooooo!
Os dois garotos saíram correndo do quarto e foram
para a sala, onde os irmãos de Pedro estavam.
Foi como se uma imensa corrente circulasse pelo corpo de Pedro. Ele nem mesmo
chegou a ver o que o atingira. Seu corpo todo doía, o garoto se sentia mole,
engolfado por uma escuridão irresistível. Sentia André ao seu lado, mas aquilo
não era muito reconfortante. A dor foi passando aos poucos até acabar, deixando
Pedro inconsciente, no chão da sala.
[Voltar]
— Conseguiu? – disse uma voz grave.
— Sim, senhor. – disse uma outra voz vacilante.
— Com sucesso total? – perguntou a primeira voz,
parecendo incrédula.
— Com certeza, senhor. – a segunda voz parecia estar
fortemente subordina à primeira.
— E a desfragmentação molecular? – questionou a
primeira voz, como se precisasse saber de mais detalhes daquilo.
— Não aconteceu. – pela primeira vez, a segunda voz
pareceu triunfante.
— Bom. – continuou a primeira voz – Coloque-me em
contato com eles. São os únicos que podem fazer algo a respeito. Tomara que
aceitem.
— Eles irão, senhor.
[Voltar]
— Onde eu estou? – disse Pedro, levantando-se vagamente.
O aposento em volta do garoto era mal-iluminado,
estranho e aparentava não sofrer uma boa limpeza há anos.
Com os olhos doendo muito, Pedro se levantou.
Automaticamente, sentiu que o observavam.
Olhou furtivamente para os lados e logo depois percebeu
que não era o único que estava confuso ali. Num canto, uma menininha de no
máximo 10 anos, chorava copiosamente. Do outro lado, um garoto com mais ou
menos sua idade, estava agachado, obviamente pensando e quase chorando. Mais
para a direita, uma outra garota, que aparentava ser quase um ano mais nova do
que Pedro, ainda estava desacordada.
Pedro ficou sem ação por um instante. Então olhou
para trás e, para seu alívio, viu uma figura conhecida. André estava sentado e
parecia estar seriamente em estado de choque.
Sentando-se ao lado do amigo, Pedro disse:
— Você sabe onde agente está?
— Não. – disse André, sem olhar para o amigo. Continuava
a fixar o vazio no extremo oposto da sala escura onde estavam. – Sei tanto
quanto você.
— Há quanto tempo você está acordado? – perguntou Pedro,
agora fixando o mesmo ponto distante que o amigo.
— Sei lá, tipo uma meia hora. – respondeu André,
virando para encarar o amigo.
Pedro balançou a cabeça vagarosamente, pensando. Onde
eles estariam? O que acontecera com sua irmã, Rebeca? Essas dúvidas permaneciam
aparecendo na mente de Pedro.
O garoto de cabelos negros que estava do outro da
sala se levantou e foi até os dois amigos.
— Oi. – disse ele. Sua voz era fina como a de um
garotinho. Agora que estava mais perto e de pé, Pedro pôde notar com exatidão o
corpo do garoto. Ele era alto e não era exatamente o que se podia chamar de magro.
— E aí, cara. – cumprimentou André.
— Eu sou Henrique. – continuou o garoto. Sacudindo
seus cabelos negros da testa. – E vocês são...
— Eu sou André e este aqui é Pedro.
— Legal. – o garoto parecia estar ansioso por alguma
coisa. – Aquela garota ali no canto é a Amanda. Ela realmente está muito
abalada.
— É, dá pra notar. – disse André, levantando as
sobrancelhas. – Escuta, você tem alguma idéia do que está acontecendo por aqui?
— Não faço a mínima idéia. É tudo muito estranho por
aqui.
— Como assim? – disse Pedro, como se acordasse de um
transe.
— Você acha que este lugar tem paredes? - perguntou
Henrique, com um sorriso zombeteiro esculpido em seus lábios.
— Claro que sim! – respondeu Pedro, incrédulo. – E
não tem?
— Desculpa a decepção, amigo. – respondeu Henrique, tocando
em uma das “paredes”.
Pedro ouviu um zumbido estranho, como se algo fizesse
um som computadorizado. Por um breve instante, as paredes sumiram e alguns
filetes de luz azul adentraram na sala.
— Holográficos? – perguntou André, levantando uma
sobrancelha.
— É. – respondeu Henrique.
— Sinistro... – disse Pedro, com cara de bobo.
Por um breve momento, as questões insistentes haviam
saído da sua cabeça, mas por quanto tempo o garoto teria esta paz? Essa é uma
das perguntas que em breve seria respondida. E de um jeito nada sutil.
[Voltar]
A cabeça de Juliana doía intensamente quando a garota
acordou, repentinamente. Olhando para os lados, assustada, conseguiu distinguir
algumas formas estranhas que pareciam estar encolhidas na sala escura em que se
encontravam.
A garota se levantou, esfregando furiosamente os
olhos. Aquilo não parecia ser um sonho, nem chegava perto disso. Ao contrário,
aquilo era mais real do que o normal.
O chão em que a garota estava apoiada era cinza
escuro, como se fosse de concreto, mas era algo leve e um pouco mole. Como se
fosse um enorme colchão cinza com aparência nojenta.
De repente, uma das formas que estavam junto com ela
no aposento escuro se mexeu e Juliana pode distinguir um rosto humano, de um
garoto. Vagarosamente, a garota foi até a estranha figura. Cutucou-a
lentamente, tomando o cuidado de não pegar muito pesado com aquilo.
— Olá...
— Oi – disse a figura, que agora Juliana reconhecia
definitivamente como sendo um garoto. – meu nome é Pedro.
— Eu sou Juliana. – disse a garota, olhando para o
menino. Seus cabelos lisos escorriam delicadamente para a testa. Os olhos do
garoto eram angelicalmente lindos. A garota nunca conhecera ninguém como ele. Ela
estava simplesmente deslumbrada com a beleza dele.
— Você demorou para acordar. – comentou Pedro, com um
sorriso tímido.
— Mas não tem ninguém acordado... – disse a garota.
— Não agora, mas há algumas horas todos estavam de
pé. – continuou o garoto. – E, aliás, você está bem menos desesperada do que a
maioria deles.
— É que ainda não deu tempo de atualizar últimos
acontecimentos na minha mente...
— Eu sei, eu estava assim também. – comentou Pedro,
de sobrancelhas erguidas.
Juliana não achou mais nada pra dizer, então só deu
um sorrisinho tímido, que foi retribuído prontamente por Pedro.
— Bom, eu vou deixar você voltar a dormir. – disse
Juliana, continuando a sorrir.
— Agora eu já perdi o sono. – replicou o garoto, encolhendo
os ombros.
— Então vamos conversar. – decidiu Juliana. – Quantos
anos você tem?...
[Voltar]
Apesar de estar preso em um lugar que não conhecia,
sem saber o que tinha acontecido com seus irmãos, sem saber o que tinha acontecido
com sua própria mãe, Pedro estava, de certa forma, confortável. Tirando tudo de
ruim, estava tudo ótimo. Tinha um bom amigo ao seu lado e acabara de conhecer
uma garota incrível.
Juliana era, na opinião de Pedro, muito bonita.
Também era muito legal, parecia ser muito inteligente. Era, de um jeito muito
estranho, sua única amiga mulher naquele estranho lugar.
A outra garota, Amanda, passava horas e horas
chorando incansavelmente. Nos poucos momentos em que conversaram, Pedro pôde
notar que ela sentia muita falta de casa. E, ao contrário do que pensavam, ela
não tinha 10 anos, e era um ano mais velha do que os garotos.
Em algum momento do que Pedro julgava ser à tarde
(porque seu relógio parara inexplicavelmente de trabalhar), apareciam, no
centro da sala circular, pratos com comida e uma jarra com água, junto com uma
porção de copos e talheres.
A comida era estranha, não se parecia com nada que
Pedro já havia comido. Era muito boa, apesar do gosto estranhamente novo.
No terceiro dia que estava ali, aconteceu algo muito
estranho. Depois que comeram, as estranhas “paredes” se tornaram vermelhas. Do
nada, atrás de Henrique, elas se abriram, formando uma pequena porta. De lá
entraram três formas encapuzadas. As três muito altas e magras.
— Bem-vindos a bordo. – disse a figura do meio. – Meu
nome é Scarbloom. Sou o comandante.
— Comandante...? – disse Juliana, sem conseguir se
conter.
— Vocês estão a bordo da nave Cruser. – dessa vez foi
à figura da direita que falou.
Uma quarta figura encapuzada entrou na sala, essa,
porém era mais baixa do que as outras. Chegou perto da figura do meio e disse
algo que os garotos não puderam ouvir.
— Fui informado de que acabamos de sair da sua
galáxia, a Via Láctea. Creio que os senhores merecem uma explicação do que está
acontecendo. – disse Scarbloom ao ver a cara de espanto de Pedro.
A figura se arrumou ligeiramente e prosseguiu:
“O nosso planeta, Hudje, localizado na galáxia Zhob,
é um dos maiores fornecedores de ácido combustível do universo. Por muito
tempo, vivemos em paz, fornecendo para todos os planetas. Mas um dia, tudo deu
errado. Um dos planetas para quem fornecíamos, se revoltou com outro e começou
uma guerra. Como se fôssemos culpados pelo que aconteceu, o planeta que foi
atacado nos atacou. Um ataque e nosso planeta todo ficou destruído”.
Scarbloom hesitou por um momento.
“Então,
quase toda a vida desapareceu. Sobramos nós,
alguns poucos renegados, que, lentamente foram morrendo. Os
últimos da nossa
raça somos nós três. O único problema,
é que, depois de nos atacarem, não pararam”.
A figura da esquerda se mexeu e continuou as palavras
de Scarbloom.
“Os planetas continuam atacando outros planetas, e
agora estão apostando quem destrói mais. Aos poucos, nos vimos como os únicos
que poderiam fazer alguma coisa”.
Scarbloom continuou:
“Viajamos por muitas galáxias, tentando encontrar o
ser perfeito para lutar contra os Arteronianos, do planeta Arteron que atacou
primeiro e os Gnynianos do planeta Gnya que nos atacou”.
“Depois de muita procura, encontramos um pequeno
planeta numa galáxia muito longínqua. O terceiro planeta do sistema solar,
chamado de Terra. Lá, os humanos, eram criaturas puras e, a maioria, de bom
coração”.
Quem terminou tudo foi à criatura da direita.
“Ficamos muito tempo observando o planeta e então, há
dezesseis anos decidimos pôr nossos esforços em crianças recém-nascidas. Ou
seja, vocês quatro. No crescimento de vocês, nós mandamos as melhores vitaminas
do universo para vocês, enquanto dormiam. Algumas horas antes de trazermos
vocês para a nave, os Gnynianos seqüestraram as mães de vocês. Acho que vocês
notaram isso. Agora, eu peço que descansem, pois amanhã será um dia muito cansativo.”
— Mas... – disse André, desesperado por mais informação.
— Amanhã poderão perguntar o que quiserem. Agora descansem.
[Voltar]
É óbvio, que, depois daquilo nenhuma alma viva
naquela sala dormiu ou descansou. Como assim, estavam numa nave? Como seqüestraram
suas mães? Como assim “seres perfeitos?”.
Os cinco humanos formaram um círculo no centro da
sala no qual falavam sobre o que tinham acabado de ouvir. André tomou a voz.
— Vamos supor que aquilo que estava aqui agora a
pouco estava falando a verdade. – disse, calmo. – O que ele quis dizer com
“suas mães foram seqüestradas?”.
— Peraí. – disse Juliana. O cérebro da garota já
estava muito cansado com aquele tanto de informação repentina. – Como assim
“vamos supor que ele estava falando a verdade?” Você acha que é tudo mentira?
— Pode ser. – continuou André, olhando para a garota.
– Isso tudo pode ser uma brincadeira de mau-gosto.
— E quem faria isso com a gente? – perguntou Pedro,
virando-se para encarar o amigo.
— Qualquer um – disse Amanda com sua voz fina. –
Podem ser seqüestradores que nos seqüestraram para pedir resgate. Contaram essa
história toda de galáxias e alienígenas simplesmente para nós não tentarmos
sair.
— Sei. – disse Pedro, agora olhando para a garotinha.
– Mas seqüestradores comuns não usam holográficos nas paredes, usam? – o garoto
tocou na parede que imediatamente emitiu o zumbido estranho.
— É verdade. – concordou Henrique, que até agora
permanecera calado. – Nenhuma pessoa com grana o suficiente para ter paredes
holográficas ia seqüestrar um bando de garotos de classe média.
— Bom, voltando ao assunto. – disse André, que começara
a ficar irritado com o rumo que a conversa estava levando. – O que eles fizeram
conosco?
— Eu acho que nós somos, tipo, a salvação pra eles. –
disse Juliana, lembrando-se de um filme que vira há muitos anos. – Scarbloom
disse que eles acharam o “ser perfeito” na Terra, isto é, somos nós. Parece-me
que eles querem que nós combatamos os Arteronianos e os Gnynianos. Eles até
falaram que nos injetaram vitaminas enquanto dormíamos!
— É uma boa idéia. – disse Henrique. – Mas, como será
que eles esperam que nós façamos isso?
O grupo todo balançou a cabeça, em sinal negativo. Pedro concordava plenamente.
Não sabiam o que viria. Aquele podia ser o começo ou o fim da vida deles. Só o
que sabiam é que um alienígena chamado Scarbloom tinha os seqüestrado para
lutar contra outros.
Pedro encarou o grupo, por um momento. Depois,
decidindo seguir o conselho de Scarbloom, disse:
— Eu vou dormir um pouco.
O grupo, pelo que Pedro observou, se desfez logo. As
garotas foram se deitar e André e Henrique ficaram conversando. Aos poucos,
porém, o sono foi chegando. Logo, todos estavam dormindo calmamente, como se
nada estivesse acontecendo.
— Você acha que eles acreditaram? – disse o vulto da
direita. Os três alienígenas agora se dirigiam para a ponte de comando.
— Claro que sim. – disse Scarbloom. – Ao menos se nós
pudéssemos contar o que eles não sabem...
— Você acha que isso ajudará no desempenho deles?
— Claro que não. Se eles descobrirem, será melhor
para todos inclusive para eles.
— Nós não devemos contar, então?
— Eu proíbo ambos de contarem a verdade aos
convidados. Eles terão de descobrir a verdade sozinhos. Será muito melhor que
eles aprendam a se controlar sozinhos.
— Se você diz... – a voz do vulto da esquerda pareceu
falhar. – Ainda acho que devíamos contar pelo menos um pouco. Não tudo, só uma
parte.
— Não. E essa é minha última palavra.
A sala estava extremamente silenciosa. O único
possível som era o das estrelas, ao longe, passando por eles como pássaros
velozes e luminosos. Agora, com uma pequena janela circular na sala, como a de
um submarino, Pedro podia ver e comprovar que realmente, estavam no espaço.
Os tripulantes involuntários da nave haviam sido
transferidos, dois dias depois da conversa com Scarbloom, para algo que, sem
dúvida, poderiam chamar de quarto.
Uma sala circular e branca, com várias luminares no teto,
apresentando um incrível choque de cores com o antigo aposento escuro que mais
parecia uma masmorra.
Ali, no novo “quarto” dado aos terráqueos, estavam enfileiradas cinco camas brancas, se é que poderiam
ser chamadas assim.
A primeira vista, ninguém diria que eram camas. Estavam
mais pra casulos brancos. Ao lado, no que parecia ser uma mesinha, havia um
grande e amarelo que, quando apertado, fazia o “casulo” se abrir. Os
tripulantes entravam e se deitavam ali, num ambiente almofadado, onde estavam
dispostos vários equipamentos que falavam, em português, sobre a história do
universo. Não é nem preciso dizer que Juliana estava se deliciando com aquele
tanto de conhecimento a seu dispor a qualquer momento.
Para Pedro, aquilo tudo estava perfeito demais. E isso o incomodava muito. Algo lhe dizia
claramente que alguma coisa estava errada. Era como se houvesse um vazio em
algum lugar. Nada fazia sentido. O garoto não sabia se era sua imaginação ou
seu coração dizendo-lhe que acabara de entrar em uma séria enrascada. Mas
apesar de todos esses sentimentos estranhos, Pedro estava feliz. Tinha feito novos
amigos e isso incluía uma menina que estava sendo uma das melhores companhias
do mundo. Juliana.
Pedro passava a maior parte do seu tempo com a
garota. Conversavam muito sobre muitas coisas. A amizade dos dois crescera
tanto em dois dias quanto a amizade de Pedro com André em 14 anos. O garoto
sentia como se conhecesse Juliana, ou Ju, como a chamava, desde que nascera. E,
apesar de serem amigos, Pedro não sentia atração alguma pela menina. Sim, ela
era bonita, mas Pedro gostava muito da amizade que tinham para tentar algo com
a garota.
Já Juliana, desde o primeiro momento, se sentira
atraída pelo garoto. Mas a amizade dos dois estava fluindo tão bem que a garota
não sentia a mínima vontade de seduzi-lo. Os melhores momentos de sua vida
estavam indo e vindo de um jeito que a menina nunca esperara.
André estava vivendo um dilema. Gostava muito de
Pedro, mas agora estava muito amigo de Henrique e Amanda. Um lado do garoto
dizia que devia ignorar um pouco os novos amigos e voltar a passar a maioria do
seu tempo ao lado de Pedro. O outro lado do garoto dizia que isso não era
preciso e que Pedro já estava se divertindo muito com Juliana. O que André não
sabia é que aquele dilema o levaria a um estado muito pior do que jamais
imaginara.
[Voltar]
Os tripulantes da nave estavam acordando. Como não havia mais manhã, tarde e noite, os garotos não tinham um horário fixo para acordar. Mas daquela vez foi diferente.
Batidas fortes na porta da cabine informaram aos passageiros
que alguém estava lá fora e pretendia entrar. A porta de correr se abriu quase
silenciosamente.
Na porta estava Scarbloom, muito diferente agora sem
o capuz. Usava algo que Pedro associou a roupas de um capitão de exército
terrestre com motoqueiro. Se o garoto não soubesse que a figura se tratava de
um alienígena, Pedro julgaria como um humano comum. Uma longa capa preta descia
dos seus ombros até seus calcanhares. O alien usava botas pretas de cano longo.
Seu rosto estava oculto por um capacete preto de motoqueiro. André achou que
aquilo o fazia parecer comicamente com um membro da Daft Punk. Teve que conter o riso quando seu olhar encontrou o
de Pedro.
— Olá, tripulantes. – disse Scarbloom.
Alguns garotos murmuraram um “olá” em resposta. Pelo
jeito, o alien não esperava resposta, pois continuou:
— Vejo que estão com sono. Não há mais tempo para
dormir. O treinamento de você começa hoje.
— O quê? – perguntou Henrique que tentava entender as
palavras em meio ao sono.
— O treinamento de vocês – repetiu o alien. – é claro
que vocês não esperavam combater dois exércitos de planetas diferentes sem
treinar.
— Nós imaginávamos que vocês teriam armas muito
avançadas. – disse Juliana, olhando para os colegas.
— Nenhuma arma faz efeito sem o treinamento específico.
– disse Scarbloom, ríspido. – E por que vocês ainda estão com essas roupas?
— Não temos outra opção, temos? – perguntou Amanda,
que parecia ter acordado agora de um transe.
— Claro que têm. – respondeu o alienígena. - vocês
não abriram os armários ainda?
— E como nós fazemos isso? – perguntou André.
— Girem o botão na cabeceira da cama de vocês. Roupas
para a direita e acessórios para a esquerda.
Pedro andou em direção ao botão, olhando-o
desconfiado. Girou-o para a direita e, para sua surpresa, sua “cama” levantou,
ficando na vertical. Aos poucos, ela se abriu, revelando um conjunto de roupas
iguais as que ele imaginara para um futuro high-tech:
um tipo de paletó que ia até os pés, uma camiseta preta de algodão e calças pretas.
Virando-se maravilhado para o botão amarelo, girou-o
dessa vez para a esquerda.
A porta do “casulo” se fechou e um instante mais
tarde se abriu. Olhando para dentro, Pedro viu botas pretas exatamente do
tamanho que ele usava, óculos escuros, relógios enormes e luvas de meio-dedo. Caraca, acho que eu acabei de entrar no
Matrix!
Juliana também tinha testado o botão. O resultado foi
quase o mesmo de Pedro, sobre-tudo com botas de cano longo.
— Se troquem e em alguns minutos estarei de volta. –
disse Scarbloom. – Para colocar a roupa é só apertar o botão vermelho dentro
dela.
[Voltar]
Aquilo, sem dúvida era muito estranho. Pôr roupas apertando um botão? Sobre-tudo e
botas?
Após vasculhar um pouco mais o “guarda-roupa”, Pedro
descobriu outros tipos de roupas. Uma grande peça que ia do pescoço aos pés e
botas que pareciam sapatilhas de tão finas. Na frente da roupa, que era de
borracha, estava escrito “ROUPA DE TREINAMENTO” em branco para um contraste
melhor com a borracha laranja fluorescente.
Depois de apertarem os pequenos botões vermelhos na
frente das roupas, os tripulantes sentiam uma ligeira tontura no corpo. No
instante seguinte, estavam vestidos com a roupa escolhida e a que antes usavam
agora estava pendurada no “guarda-roupa” com um botão vermelho na frente.
Após estarem todos vestidos com a roupa de treinamento
(exceto André, que havia posto o pijama), Scarbloom apareceu na porta do
aposento.
— Estão prontos? – perguntou.
— Sim. – responderam os tripulantes em uníssono (André
havia colocado a roupa de treinamento).
— Me acompanhem.
Essa simples frase foi à causa de grande apreensão. Apesar
de terem sido movidos para um novo aposento, a porta estava sempre trancada,
impedindo a passagem dos garotos para qualquer outra parte da nave.
Um a um foram saindo do aposento: primeiro Pedro, com
seus cabelos lisos esvoaçando sobre a testa; depois Juliana, parecendo tão
distante que poderia te saído por acaso; então André, parecendo assustado de
ver o longo corredor a sua frente; depois saíram Henrique e Amanda, a garota
agarrada ao amigo, como se fossem irmãos.
Seguiram pelo corredor fazendo várias curvas: uma
para a esquerda, outra para a direita, depois duas para a esquerda... Nossa, essa nave deve ser grande mesmo!
Parece que estamos andando centenas de metros!
Pedro seguia bem atrás de Scarbloom, que aumentara o
passo, indo ainda mais rápido. O garoto estava com dificuldades para acompanhar
o alien, tendo quase que correr. Ao olhar para trás, viu que a última pessoa
que os seguia era Amanda, que vinha correndo para acompanhar os colegas.
Agora, o garoto só via um pedaço da capa de Scarbloom,
sumindo nas curvas. Pedro fazia força para acompanhá-lo, mas era difícil.
Olhando para trás novamente, só viu Juliana e André, os outros tinham ficado
para trás. Ao olhar para frente, não achou nenhum vestígio de Scarbloom. Ele
desaparecera.
Pedro parou, com dificuldade para respirar. Atrás
dele, Juliana e André também pararam, olhando para o garoto com curiosidade nos
olhos.
— O que foi? – perguntou André, pondo a mão nas costas
do amigo.
— Scarbloom sumiu. – respondeu o garoto, sentando no
chão, encostado na parede. De repente, sentia-se exausto. Era como se tivesse
corrido quilômetros.
— A Amanda e o Henrique também. – acrescentou Juliana,
agora se sentando ao lado de Pedro. O garoto conseguia ver as gotas de suor em
sua testa.
Um silêncio se seguiu enquanto André se sentava do
outro lado de Pedro. Os três adolescentes ofegavam como se tivessem acabado de
correr vários quilômetros debaixo de sol quente.
— E agora – disse André, olhando para os amigos. – o
que a gente vai fazer?
— Sei lá... – respondeu Pedro, encarando-o de volta –
esperar?
— Vocês lembram do caminho que nós pegamos para vir
pra cá? – perguntou Juliana.
— Eu não – disse prontamente André. – E você Pedro?
Mas Pedro não estava prestando atenção. Tinha visto
uma coisa que o preocupava muito mais do que o caminho de volta para o quarto.
Algo grande vinha na direção dos garotos. Pedro
tentava identificar o que era aquilo. Uma sombra enorme. Por um instante, o
garoto achou que poderia ser Scarbloom, mas logo descartou esta hipótese.
Scarbloom era decididamente menor. E, pelo jeito, menos perigoso.
Juliana e André nada tinham percebido. Ao verem que
Pedro não respondia, olharam na mesma direção que o garoto.
— O que é isso? – perguntou Juliana, assustada.
Como se respondesse à pergunta da menina, a estranha
forma saiu das sombras. Uma aranha enorme de metal, com oito olhos vermelhos e
brilhantes.
— Que diabos...
— CORRAM! – berrou Pedro.
Henrique estava perdido. Ele e Amanda haviam se distanciado dos outros e
agora não sabiam onde estavam, nem como voltar para o quarto.
A pequena garota a seu lado estava chorando. Na
opinião de Henrique, ela era muito “Manteiga derretida”, ou seja, chorava por
qualquer coisa. E o pior é que o choro da amiga impedia o garoto de pensar, era
como se tivesse o cérebro bloqueado. Decidiu então pela coisa mais fácil:
começou a gritar.
— André!
Silêncio.
— Pedro!
Novamente silêncio.
— Juliana!
Então ele ouviu. Bem ao longe, alguém gritava
desesperadamente. Era um grito agudo de garota. Amanda também ouviu. Em meio ao
choro, balbuciou:
— Parece uma garota...
— E é uma garota – disse Henrique com a voz firme.
Por um lado, aquilo era bom, pois encontrariam os
colegas. Por outro lado, alguma coisa havia assustado Juliana e, ao que tudo
indicava, a garota estava vindo em sua direção, com a coisa atrás dela.
Os gritos foram ficando cada vez mais altos, até que,
no final do longo corredor em que se encontravam, apareceu Pedro. Por um
momento, o garoto pareceu totalmente idiota, molhado de suor, os cabelos
colados na testa e com uma expressão assustada. Logo, a expressão do menino foi
explicada.
Logo atrás de Pedro surgiram Juliana e André, ambos
com a mesma expressão assustada. Atrás deles uma enorme aranha de metal, seus
oito olhos vermelhos brilhando, suas pinças metálicas batendo loucamente.
Henrique e Amanda ficaram petrificados. Não
conseguiam se mexer. Seus instintos lhe diziam que era hora de correr, mas suas
pernas pareciam ser de chumbo.
Quando os outros três garotos passaram por eles, Amanda finalmente saiu de transe e começou a correr com eles. Henrique ficou.
Tudo aconteceu num breve instante. Pedro passou
correndo por Henrique e Amanda. A garota seguiu o pequeno grupo de
adolescentes, mas Henrique não. Ficara para trás.
Tomado por uma súbita sensação de heroísmo, Pedro
parou derrapando. Olhou para trás e viu Henrique parado, a enorme aranha de
metal vinha em sua direção. Pedro respirou fundo uma vez e, sem pensar muito,
correu em direção ao monstro.
Os outros três, ao verem Pedro correr na direção
oposta, pararam e olharam para trás, estupefatos.
— Henrique! – berrou Pedro enquanto corria. – Vamos!
O colega nem se mexeu.
— Vamos! – a aranha estava a cinco metros.
Ainda assim, Henrique continuou fitando o monstro,
que agora estava a quatro metros e diminuía a velocidade, como se tivesse
certeza que a presa estava ganha.
Ao ver que Henrique não reagia, Pedro agarrou o braço
do amigo e puxou com força para a direção contrária à da aranha. Henrique deu
um passo vacilante naquela direção, ainda virado para o gigantesco monstro de
metal, agora a apenas dois metros.
André, ao ver que Pedro não conseguiria tirar
Henrique dali, correu ao encontro dos dois. Isso
é loucura, não sei onde eu estou com a cabeça, Pensava ele.
A aranha alcançara os garotos. Uma de suas patas
ágeis perfurou sem dó o joelho de Pedro que instantaneamente berrou de dor. O
garoto nunca havia sofrido ferimentos graves como aquele. Ficou parado por um
instante, com dificuldade para respirar, a dor era muito forte.
Henrique voltou a si naquele instante. Olhou para o
lado e viu Pedro ferido, sangrando muito. Depois olhou para a aranha, seus
olhos refletindo o vermelho dos olhos do monstro de metal. Afinal, Pedro se
ferira tentando salvá-lo. Muito estranhamente, sentiu-se invadido por um ódio
que não reconhecia como seu. Era uma sensação fria que vinha de dentro dele, como
se fosse o despertar de um dragão, há muito, adormecido.
De repente, foi tomado por uma força enorme que
parecia emanar do dragão em seu peito. André observava ao seu lado. A aranha
acabara de tirar a pata de dentro do joelho de Pedro. Agora ia desferir outro
golpe. Esse seria mortal.
Ainda com o dragão rosnando em seu peito, Henrique
levantou o punho e desferiu um golpe certeiro contra o brilhante olho central
da aranha gigante. Com um ruído de trituração, o metal afundou. O garoto, vendo
que havia dado certo (a aranha havia parado) levantou o punho e desferiu um
segundo golpe agora com mais força (havia eliminado o medo de quebrar os ossos
da mão). As pernas da aranha cederam e se quebraram ao meio, fazendo-a diminuir
quase meio metro de altura. No terceiro golpe desferido por Henrique, os olhos
da aranha se apagaram completamente.
Henrique olhou para os amigos. Pedro havia escorregado
pela parede e agora estava largado no chão, quase inconsciente. André estava
agachado ao seu lado. Dizia coisas como “agüente firme” ou “vamos, você vai
conseguir”. Henrique se lembrou imediatamente da música Stop Crying Your Heart Out, do Oásis.
Foi trazido repentinamente de volta a Terra por André, que disse:
— Me ajuda aqui...
Ele e o amigo passaram, cada um, um braço de Pedro
por trás de seus pescoços para, assim, carregar o garoto até alcançarem algo ou
alguém. Mas isto não foi preciso.
Parado no fim do corredor, atrás das garotas que
olhavam para os colegas, estava Scarbloom, com a mesma roupa Daft Punk que
usava antes.
— Parabéns. – disse – Passaram pelo primeiro estágio
de treinamento.
Pedro sentia-se horrível. Uma dor insuportável
habitava agora em sua perna, fazendo com que os pensamentos do garoto ficassem
cada vez mais lentos. Tinha dificuldades para respirar, como um rinoceronte
abatido, mas não morto. Seu pé direito pingava sangue. Pedro sabia que havia
realmente um buraco em seu joelho, mas aquela maldita roupa de borracha não rasgava, nem deixava transparecer seu
ferimento.
Estava muito claro. Para qualquer lado que Pedro olhasse, tudo o que via
era branco. Seus olhos doíam intensamente, fazendo parecer que o garoto não os usava
há dias. Não lembrava de onde estava tampouco o que estava fazendo ali. Aos
poucos, porém, junto com a visão que voltava a normalizar, as lembranças dos
últimos acontecimentos também voltaram.
Tentou se sentar e não conseguiu: a dor no joelho foi
mais forte. Alguma coisa apitou ao longe, fazendo o garoto se sobressaltar.
Olhou para os lados e viu que o apito estranho vinha de umas das máquinas que
estavam ao seu lado.
Do nada, surgiu algo a um canto. Um ser sem rosto
agora vinha na direção da cama. Era como um palito com membros que flutuava.
Aquilo que deveria ser a sua pele era uma camada de metal prateado e brilhante,
minuciosamente polido.
O ser estranho chegou ao lado de Pedro e virou o
rosto para o garoto, que, temeroso, se encolheu quando uma das mãos geladas do
alien o tocou, forçando-o a se ficar deitado.
O garoto tentou afastar aquele horrível membro de
metal de seu peito, mas, fraco como estava, não afastaria nem uma mosca.
Ao ver que Pedro continuava a resistir bravamente a
se deitar, o alien parou. Tirou a mão do peito do garoto e esse sentiu que
finalmente havia derrotado aquela coisa. Obviamente, estava enganado.
O alienígena levantou o membro que antes segurava
Pedro. Da ponta, uma fina agulha apareceu. Com um movimento rápido, a agulha
perfurava a perna direita de Pedro.
O garoto nem tentou lutar. A agulhada o pegou tão de surpresa que este simplesmente se curvou ao doce sono que aparecia de repente dentro dele. Vislumbrou por alguns instantes o rosto vazio que o mirava. Depois disso, pela segunda vez em pouquíssimo tempo, tudo apagou. Dessa vez sem dor. Só o vazio...
Juliana, André e Amanda estavam agrupados na mesa central do quarto. Amanda
chorava baixinho. André mantinha seu olhar longe, sem nenhum pensamento estar
sequer passando por sua cabeça. Juliana estava quieta, com lágrimas solitárias
nos olhos. Não entendia nada do que estava acontecendo e isso a deixava mais do
que aborrecida: isso a deixava triste. Principalmente o fato de não entender os
próprios sentimentos.
Mesmo quando conhecera Pedro, a garota só tinha se
sentido atraída fisicamente por ele. Nunca avaliara a situação com cuidado e
agora que percebia, criara um vínculo emocional tão grande com o garoto que não
sabia mais se gostava do garoto como um amigo ou se amava o garoto. Só sabia
que a falta de Pedro ao seu lado, apoiando-a, era um vazio que a consumia por
dentro.
Mas o pior dentre todos os garotos era Henrique.
O garoto se recolhera para sua cama quando chegaram
ao quarto (conduzidos por Scarbloom) e não saíra de lá até aquele momento.
Dentre os pensamentos que passavam pela cabeça de
Henrique havia um que não o deixava em paz. O fato de já ter visto tudo aquilo,
mesmo antes de batalhar com aquela aranha de metal. Já havia sonhado várias
vezes com aquilo, mas nunca havia reconhecido os rostos de seu sonho. O que
mais o espantava era a força que havia o tomado. Achava que era um monstro,
sentia nojo de si mesmo e tinha quase certeza de que os colegas estavam
sentindo a mesma coisa. Queria fugir, ir embora. Lágrimas salgadas desciam
lentamente de seus olhos para sua roupa, ainda manchada com um pouco de sangue
de Pedro.
Ao pensar no garoto, Henrique ainda sentia um ódio
incandescente dentro de si. Pedro não estava ali naquele momento por sua causa.
Ele fora fraco. Não conseguia ao menos lutar contra si mesmo. Não era, como
dissera Scarbloom, um ser perfeito. Era apenas mais um humano, com fraquezas e
medos como qualquer outro.
Por um instante, o garoto havia acreditado ser algo
mais do que só um rosto na multidão. Mas aquele instante de felicidade passara
ao encarar os amigos que pareciam temê-lo.
Mas tudo bem
pensou o garoto tudo vai se encaixar no final...
Ou pelo menos era isso que pensavam aquelas pessoas
cheias de ideais bobos. Mesmo que nada se
encaixe eu estarei de pé, seguindo em frente.
Isso sim deixava o garoto mais feliz. Levantou os olhos cheios de lágrimas e soltou um palavrão, baixinho. Não importava o que ia acontecer. Só importava que o garoto fizesse parte do acontecimento.
Tudo estava estranhamente
bom. Sem nem lembrar das últimas imagens
que vira antes de perder a consciência, Pedro sonhava calmamente. Era um sonho
estranho.
Um imenso gramado se estendia a sua frente e o garoto
estava feliz com André. Ambos corriam no gramado, brincando. André ria com
Pedro, e este, por sua vez, ria da cara do amigo. Aquele era um dia perfeito.
De repente, um vulto encapuzado aparece à frente.
Pedro nem nota a existência do vulto negro, que agora se aproxima. André grita
algo e Pedro se vira, avistando a estranha figura.
A figura encapuzada olha para o garoto que não vê
perigo algum nela. Pedro olha para André e sorri, balançando a cabeça
negativamente. O amigo fica exasperado com alguma coisa.
Uma das mãos do vulto negro segura a mão de Pedro.
Suas cabeças se aproximam e o vulto sussurra algo em seu ouvido. Novamente,
Pedro sacode a cabeça, agora positivamente. Com um sorriso estranhamente bobo,
o garoto vira-se para o amigo e diz algo que André não consegue entender.
Pedro estende a mão e toca o ombro do amigo. Este
fica inexplicavelmente bravo e, segurando o braço do amigo, desfere um murro
certeiro que atinge a boca do estômago de Pedro, que cai no chão e fica imóvel,
observando um sorriso maníaco de satisfação aparecer no rosto do amigo.
Conservando o sorriso maligno, André levanta o punho
e desfere outro golpe, agora contra o lado da cabeça do vulto encapuzado.
Sem ação e pego de surpresa, o vulto cai ao lado de Pedro. Num movimento rápido, o capuz cai e o garoto vê o rosto que estava oculto até aquele momento. Era Juliana.
[Voltar]
Pedro acordou assustado. Demorou alguns instantes para se localizar e
perceber que aquilo tudo não passara de um sonho muito esquisito. Não tinha
André doido. E, o que pela primeira vez em muitas horas deixou Pedro feliz, não
tinha Juliana morta.
O garoto olhou para os lados e contemplou o mesmo
aposento luminoso e branco em que estava da última vez que se lembrava de estar
acordado. Só havia uma diferença.
Dessa vez, adormecida numa poltrona ao lado da cama
do garoto estava Juliana.
Pedro passou alguns segundos mirando-a com certa
admiração. O coração do garoto palpitava ligeiramente e ele não sabia se era
efeito do sonho ou de ver Juliana ali, ao seu lado. Isso realmente não importava
para Pedro.
Passados alguns segundos de emoção, o garoto resolveu
acordar a menina. Fez alguns barulhos, mas nada adiantava. Decidiu, então,
chamá-la pelo nome:
— Ju?
A garota abriu os olhos lentamente e esfregando-os
disse a Pedro:
— Você acordou! Que bom!
Soltou um enorme bocejo e parou, encarando o garoto
que se sentiu corar. Por um instante, Pedro pensou seriamente em beijá-la. Após
resistir a esse forte impulso, o garoto disse:
— Cadê os outros?
Pelo que pôde perceber, a garota estava realmente
esperando que ele a beijasse, pois quando ele desconversou, Juliana pareceu
ficar extremamente desapontada.
— Bem, - disse a garota – estão todos no quarto.
Agora que respondera a pergunta, seus pensamentos
estavam novamente confusos. Por um instante infinito, Juliana achou notar os
olhos de Pedro encararem seus lábios. Tinha quase certeza de que o garoto a
beijaria. Mas nada aconteceu e ele ainda fez essa pergunta ridícula.
O garoto tentou se sentar, mas a dor no joelho
permanecia. Soltou um gemido baixo, com um medo ridículo de que a garota
ouvisse e achasse o menino fraco.
Juliana se inclinou para frente e deu um beijinho
tímido na bochecha do amigo. Este não conseguir um sorriso. Sabia que ela
gostava dele, e seu coração palpitante lhe dizia que ele também gostava dela.
Mas não sabia exatamente o que fazer. Sabia apenas
que estavam ali, juntos, e que se demorassem mais alguns segundos assim,
olhando um nos olhos do outro, se beijariam.
Pedro escolheu a coisa mais difícil: optou por não
beijar a garota. Virou o rosto para o lado.
A garota, entendendo o gesto como uma rejeição, balançou a cabeça e se levantou. Pedro olhou para o lado em tempo de ver a garota apertar um botão na porta do quarto e sair. Estava chorando.
[Voltar]
— Se preparem. – A voz de Scarbloom saiu firme.
— Pra quê – perguntaram os garotos em uníssono.
— Vamos sair para caminhar.
Agora que estavam todos ali (exceto Pedro, que
continuava acamado), Scarbloom julgava uma ótima oportunidade para promover
coleguismo entre os tripulantes.
Depois da primeira parte do treinamento, os garotos
haviam passado horas olhando para o nada e pensando. Aqueles sentimentos eram
complexos demais para serem estudados em laboratório. Então, o alien decidiu
que seria mais fácil levar os convidados para fora da nave, parando assim, no
primeiro planeta que encontraram.
Os garotos vestiram as estranhas roupas estilo Matrix e saíram, agora acompanhados de
seus relógios malucos que, entre outras coisas, continham o mapa da nave. Isso
era extremamente útil.
Juliana ainda não se recuperara totalmente da rejeição
de Pedro. Sentia como se tivesse perdido seu melhor amigo, como se ele não
gostasse mais dela. Era uma estranha sensação.
Henrique, com seus sentidos alterados e ainda se
sentindo mais forte do que o natural, voltara a falar com André. E era com ele
que dividia todos os seus sentimentos e dúvidas. O garoto era um bom amigo.
Já Amanda se sentia muito excluída pelos amigos. Não
tinha ninguém que dividisse com ela os sentimentos. Juliana, a única menina
além dela mesma, estava extremamente quieta nos últimos dias. Passara dias
trancada em seu “casulo”. André agora só falava com Henrique e vice-versa.
Amanda passava a maior parte do tempo sentada de frente para a pequena janela
de forma circular. Observava planetas e estrelas passando com extrema
velocidade por eles.
Quando Scarbloom falou que iam descer, a atmosfera da
sala mudou com a velocidade que a garota associava à de uma lâmpada queimando.
Se antes era triste e depressiva, agora ficara alerta e até tensa.
A garota observou que os planetas passavam com menos velocidade do que antes, então estavam mesmo parando. Até que a garota percebeu que paravam diante de um planeta extremamente negro e enorme. Sentiu um mau pressentimento sobre aquilo. Mal sabia ela que estava certa.