Estrelas Cadentes

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Capítulo 1

O lugar já estava vazio fazia anos, mas, ainda assim, as pessoas insistiam em ter medo dele. A grande cidade de St. Thountd tinha sua população distribuída entre as partes Norte, Sul e Oeste. Mas na parte Leste da cidade quase não havia movimento. Há anos, haviam acontecido desaparecimentos estranhos naquela região e até hoje, as pessoas pareciam achar que desapareceriam sem deixar rastros se chegassem perto demais.

Na época em que aconteceram os desaparecimentos, surgiram muitas histórias mirabolantes a respeito deles. Durante semanas; não havia um jornal, fosse impresso ou televisionado; que não contasse as novidades sobre os desaparecimentos. Mas nunca novidades boas.

A polícia investigou a fundo os acontecimentos, mas toda vez que pareciam estar chegando a algum lugar, os policiais que comandavam a operação desapareciam. Aos poucos até a polícia começou a perder a vontade de chegar a uma conclusão. O caso, então, foi arquivado.

Sem dúvida, a pior parte de tudo isso foi quando John Nikkin, uma vítima do desaparecimento voltou. O país parou para assistir quando ele apareceu no meio da estrada, saindo da parte Leste da cidade. Suas roupas sujas e rasgadas, com grandes feridas em seu corpo. Para piorar, ele não se lembrava nem de quem era. Disse ao vivo para o país inteiro que só se lembrava de uma coisa grande e brilhante descendo do céu.

A NASA bem que tentou abafar o caso, mas não dava mais tempo. Uma pessoa desaparecida aparecer do nada dizendo que se lembrava somente de “uma coisa grande e brilhante descendo do céu”, não era boa coisa. Não era boa coisa mesmo.

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Capítulo 2

Mas aquilo tudo não preocupava Pedro no momento. O garoto estava sentado em sua cama, com um caderno de desenho à sua frente, dando os últimos retoques no desenho de um anjo tocando guitarra. Por um momento ele fixou o desenho, analisando-o. Seus olhos percorreram desde as asas até o braço da guitarra. Então, Pedro pousou o lápis em cima da cama e ficou em pé.

Um pouco alto para um garoto de apenas quinze anos de idade, Pedro agitou seus cabelos despenteados para longe da testa e olhou no relógio, na parede. Já era uma hora da manhã.

Desejando ter ficado um pouco menos acordado, Pedro se deitou em sua cama, contemplando o quarto à sua volta. Na parede da esquerda, em que sua cama estava encostada, havia desenhos feitos pelo garoto. Na parede em sua frente havia um guarda-roupa antigo, de cor escura. Já na parede da direita, se concentravam os maiores tesouros de Pedro. No canto estava uma escrivaninha com seu computador, onde Pedro guardava todos os desenhos que havia feito até hoje. Ao lado do PC, havia uma estante com muitos e muitos livros, sendo a maioria sobre desenhos. Na estante também havia uma porta cheia de CDs e LPs, em sua maioria de rock. Mais ao lado da estante, havia um rádio antigo que tocava tanto CDs quanto LPs.

Pedro ficou deitado por um tempo, pensando em seus desenhos, até pegar no sono.

No outro dia, de manhã, Pedro acordou como se não tivesse dormido. Parecia que só havia fechado os olhos por alguns instantes, mas o despertador ao lado de sua cama discordava.

O garoto se levantou, pensando no tédio que seria seu dia. Mal sabia ele que aquele dia marcaria toda a sua vida.

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Capítulo 3

Juliana acordou assustada com seu despertador. Por um instante, a garota teve o pensamento horrível de estar atrasada para a escola. Só depois que se lembrou de que estava de férias. Isso a deixou mais aborrecida do que estaria se estivesse atrasada. Afinal, Juliana odiava as férias.

Ela não sabia ao certo o porquê de tanta raiva deste período do ano que todos adoravam. Talvez pela falta de amigos com quem compartilhá-lo. Ou talvez pela monotonia que era ficar em casa, sem ter nenhuma tarefa para fazer. Juliana só sabia que não gostava das férias. E não escondia isso de ninguém.

A garota fazia o tipo “certinha”. Só tirava notas altas, gostava de participar nas aulas e ajudar o professor. Isso, de certa forma, contribuía para que Juliana fosse “a nerd excluída”. Claro que a garota tinha amigas, mas eram apenas duas, tão certinhas quanto Juliana. Elas se chamavam Bárbara e Aretha.

Bárbara era alta, magra e ruiva, especialista em Geografia. Juntara-se à turma há pouco tempo, mas já era querida pelas amigas. Nas férias, Bárbara gostava de viajar com seu pai (seus pais eram separados) que morava em Manaus e era biólogo.

Já Aretha era baixa, morena com traços asiáticos e usava óculos. Gostava muito de História, sendo fanática por livros antigos e mitologia grega. Conhecia Juliana a mais tempo do que Bárbara, cerca de cinco anos. Naqueles dias, a garota estava viajando para o Canadá, coisa que sempre fazia com a família. Era como uma tradição. Juliana, então, ficava sozinha nas férias.

A garota, apesar de muito bonita, tinha a mania de se achar feia. Ela era morena com traços indígenas, não tão marcantes quanto os de Aretha. Tinha longos cabelos negros que iam até a cintura. Não era muito alta, tinha cerca de um metro e sessenta. Na escola, amava Matemática e Desenho Geométrico. Na base, amava cálculos.

Juliana, após algum tempo, já não sabia se estava sonhando ou apenas pensando. Quando teve quase certeza de que já estava sonhando novamente, resolveu se levantar.

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Capítulo 4

As horas se estendiam à medida que o tédio assolava Pedro. A única coisa interessante que acontecera foi seu irmão do meio, Lucas, ter tropeçado e batido a cabeça (que era um pouco maior do que o normal).

Pedro sentia falta da galera da escola, mas naquele dia, por ser um domingo, a maioria estava fora, em churrascos e festas na piscina. Os pais de Pedro; Paulo e Ana eram pessoas respeitáveis da sociedade. Paulo trabalhava com biologia na faculdade ao lado do colégio onde Pedro estudava. Ana era astrônoma numa grande empresa que mandava informações sobre o espaço para a NASA, mas agora estava de férias em casa. Agora, se estava levando isso a sério, ninguém poderia dizer. Não saia do telefone por um minuto sequer, passando instruções para seu substituto no trabalho. Ela dizia que não trabalhar a deixava estressada.

Por essas e outras razões, como ser o mais velho dos três irmãos, Pedro não podia ir a nenhuma festa das que seus amigos o convidavam. Hora tinha que cuidar de Rebeca (sua irmã mais nova), hora tinha que fazer compras para sua mãe. Somente em um dia das férias Pedro conseguira ver alguém da turma da sala.

Rhenan, seu primo e colega de classe, fora em sua casa para Ana e Paula – mãe do Rhenan – se encontrarem. Mesmo com os dois primos juntos na mesma casa, por mais incrível que pareça, não houve muita agitação. Ambos ficaram no quarto de Pedro ouvindo músicas e conversando sobre as pessoas da sala. Passaram o dia inteiro assim, tirando a sagrada parte em que saíram para o quintal para jogar um pouco de futebol. Tirando esse dia, as férias de Pedro foram um tédio.

Esses pensamentos voavam na mente do garoto, sentado numa cadeira na frente da sua escrivaninha, tentando terminar o desenho do anjo. A música Back In Black do AC/DC soava ao fundo. Quando o garoto estava “curtindo”, cantando junto e tudo, a música parou.

Como se seguisse o exemplo da música, A lâmpada que ficava em cima da escrivaninha apagou. Logo depois, a luz do quarto também apagou.
Pedro se levantou, olhando furtivamente para os lados, como se tivesse certeza de que alguém estava pregando uma peça de mau gosto nele. Foi até a porta, e chamou sua mãe. Nada. Chamou por seus irmãos e ouviu a voz fina de Rebeca, chamando-o.

Caminhando lentamente e se apoiando nas paredes como um cego para não cair, Pedro foi até o quarto de sua irmã. Lá estavam Rebeca e Lucas, ambos encolhidos a um canto. No caso de Rebeca, chorando.

— O que aconteceu? – perguntou Lucas, quando Pedro se aproximou para fazer Rebeca parar de chorar.

— Sei lá. – disse o garoto, pegando Rebeca no colo – Acho que um fusível queimou.

— Pedro, se um fusível queimasse, a luz não apagaria toda de uma vez? – questionou Lucas, olhando para o irmão, que consolava a pequena Rebeca.

— Aqui, o rádio começou a fazer umas coisas estranhas, tipo falar uma outra língua. Era de arrepiar.

— Pêdo, o ádio feiz bauiu itanhu. – disse a voz de Rebeca, ao ouvido do irmão mais velho. – Tô cum medu! – e recomeçou a chorar.

— Calma. – disse Pedro em resposta para Rebeca. – Lucas, cadê a mãe?

— Sei lá.

— Vai procurar!

O pequeno garoto, naquela hora, morreu de vontade de dar uma resposta super mal-educada para o irmão, mas, segundo sua mãe, ele tinha de obedecer a seu irmão mais velho. E assim fez.

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Capítulo 5

Juliana passou as longas horas da tarde lendo o livro que a escola mandou. Um livro clássico de literatura brasileira, Triste Fim de Policarpo Quaresma, nada que interessasse muito. Tinha uma linguagem muito difícil, tanto que a garota teve que ler três vezes a primeira página para entender. Afinal, Juliana achava que ia pegar o resumo do livro na Internet. Não era do feitio da garota fazer isso, mas seus colegas de classe sempre faziam e se davam bem, por que ela não podia?

Quando já escurecia, a garota simplesmente desistiu. Fez um trato consigo mesma que não leria o livro. A idéia do resumo finalmente a convencera.
Quando estava guardando o livro na mochila, o telefone tocou. Juliana já sabia quem era, provavelmente seu pai dizendo que não poderia pegá-la para passar a semana juntos. A garota foi andando sem presas em direção ao aparelho e atendeu. Logo que ouviu a voz de seu pai, já teve certeza de que sua tese era real.

— Alô, pai? – disse Juliana.

— Oi, Ju. Tudo bom? – e sem esperar resposta, continuou – Filha, papai ‘tá te ligando pra dizer que não vai dar pra te pegar aí amanhã.

— Ah, pai... Por quê?

— Papai tem muita coisa pra fazer no trabalho filha. Mas agente se vê na quarta ou na quinta-feira.

— Tá bom.

—Você não vai fic... – a voz do pai da garota falhou.

— Pai?

Por alguns instantes, Juliana só ouviu chiados na linha. Ela já ia desligar o telefone quando ouviu uma voz estranha, numa língua estranha. Não se parecia com nada que a garota conhecia ou já ouvira. Na verdade, a voz que vinha do telefone chegava até a ser assustadora.

— Pai, pára de brincar. – disse Juliana, séria – Tá me assustando!

As luzes se apagarem e, como já estava à noitinha, tudo ficou muito escuro. A garota ouviu um apito muito estranho soando em algum lugar e desligou o telefone, assustada. Seguiu o som de apito e chegou até seu quarto, onde havia um aparelho que media a radiação no ar. Juliana mesma construíra o equipamento, para um trabalho escolar, mas não achava que a máquina funcionaria mesmo. Geralmente, o índice de radiação ficava entre 0,25 e 0,50. Hoje estava marcando 5,74. Aquilo assustou a garota mais ainda. Pelo que parecia, algo como uma onda de radiação estava passando por sua casa. Isso era decididamente perigoso.

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Capítulo 6

— Bom, finalmente conseguimos. Passamos pela densa camada envolvente. Será que entenderam nosso contato?

— Creio que sim, senhor.

— Bom, ao menos sei que nosso trabalho não foi em vão.

— Claro.

— E... você tem absoluta certeza de que, pelo menos, ouviram nossa mensagem?

— Absoluta, senhor.

— Pelo menos isso. Bem, só isso já começará a pôr em prática os nossos planos. Tomara que eles entendam o que queremos. Afinal, a última coisa que queremos agora é começar outra Grande Guerra.

— Tenho certeza que não, senhor.

— Ótimo. Informe aos soldados que conseguimos e diga para eles descansarem.

— Sim, senhor. Só tenho uma pergunta. Será que vão conseguir chegar até nós?

— Passamos as coordenadas corretas na mensagem. Creio que conseguirão.

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Capítulo 7

— Ela não está aqui. – disse Lucas, assustado, voltando ao quarto onde o irmão mais velho cuidava da pequena Rebeca.

— O quê? – perguntou Pedro em resposta.

— Ela deve ter saído, mas em casa ela não está.
Pedro permaneceu parado, em silêncio, enquanto aquelas informações adentravam em sua mente. Então decidiu.

— Lucas, você fica aqui e toma conta da Rebeca. – disse com a voz firme. Não sabia se era uma boa atitude deixa os irmãos sozinhos numa hora daquela, mas teria de arriscar. – Eu vou atrás da mãe.

Então, Pedro pôs um tênis, um casaco, pegou sua chave da casa e saiu, trancando a porta ao sair.
A rua estava um alvoroço. Os vizinhos estavam todos para fora de casa, alguns com uma expressão horrorizada. Outros não tão atemorizados. Pedro chegou a um deles, André, e perguntou:

— Cara, ‘cê viu minha mãe?

— Não a vejo faz algumas horas... Por quê?

— Ela sumiu!

— Não vi. De verdade. Só de manhã...

Pedro saiu correndo para o final da rua, perguntando para cada uma que via em seu caminho. Ninguém vira sua mãe.

Desesperado, o garoto rumou de volta para casa, absorto em seus pensamentos. Onde estaria sua mãe?

Quando chegou perto da porta da sua casa, Pedro encontrou Lucas e Rebeca na varanda, olhando abobados para o garoto.

— E aí? – disse Lucas – Achou?

— Não. – respondeu o irmão, franzindo a testa. –A rua toda, ninguém a viu. Isso aqui ‘tá o maior caos. Acho melhor nós ficarmos lá dentro.

Lucas e Rebeca entraram e Pedro ia entrando quando ouviu chamarem seu nome. Virou-se e se deparou com André, parecendo assustado.

— Que foi, cara? – perguntou Pedro, erguendo uma sobrancelha.

— Você não vai acreditar. – respondeu o garoto. – Minha mãe também sumiu.

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Capítulo 8

Sem recursos mais precisos, a única saída para Juliana saber a radiação era aquele pequeno aparelhinho, feito à mão. Sem dúvida, se aquele aparelho antigo ainda estivesse funcionando, a garota e todos as outras pessoas estavam correndo perigo de vida. Juliana sabia que a radiação era mortal.

A garota estava apenas um pouco preocupada. Principalmente porque o aparelho em questão era velho, feito à mão para uma Feira de Ciências na escola. A intenção inicial do grupo que fizera o “radiaçômetro” , como costumavam chamar entre si, era que funcionasse realmente. Mas nunca chegaram a comprovar que funcionava. Não tinham um poder de radiação muito grande para testar, nem equipamentos para isso.

O desânimo de não ter o que fazer para estudar aquilo mais profundamente tomou a mente da garota. Afinal, o que ela mais amava era estudar. Como podia agüentar não fazer isso?

Angustiada, a garota se levantou, decidida a fazer alguma coisa. Olhou para os lados furtivamente, como se procurasse algo útil para fazer.

Afinal, sua angústia durou pouco. Como se fosse atingida por uma marreta invisível, Juliana foi ficando com muito sono. Suas pálpebras foram descendo vagarosamente, como se fossem uma.

Juliana caiu no chão, desacordada. Parecia estar dormindo, meiga como uma criança.

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Capítulo 9

Amedrontado e confuso, Pedro chamou André para entrarem em sua casa. Ambos extremamente horrorizados com o que acontecia do lado de fora da casa. Um caos total tomara conta da rua, as mães sumiram, Lucas estava sentado no sofá, lendo e Rebeca ao seu lado, soluçando de tanto chorar.

Pedro e André foram para o quarto de Pedro e, chegando lá, trancaram a porta. Não ia ser bom se Lucas ou Rebeca soubessem que as mães haviam sumido. Sério, o garoto olhou para André.

— O que você acha que aconteceu?

— Não faço idéia. – respondeu o outro, também sério e parecendo desolado. – Elas podem ter apenas saído juntas, sei lá.

— Não sei, cara. – contestou Pedro, em nível de conversa – acho que não. Elas não são tão amigas assim. Tudo bem fofocam juntas e tudo, mas não são de sair juntas.

— Talvez, mas então por que as duas sumiram?

— Agora você me pegou.

Não importava a situação em que estivesse, estar com um amigo sempre confortava Pedro por dentro. Ele se sentia feliz por ter uma companhia amigável naquele momento. Era como se não fosse o único a estar horrorizado com a situação, e não era mesmo o único.

André estava parado, pensando. Isso fazia o garoto ficar com uma incrível cara de bobo. André era alto, não era muito magro e tinha cabelos loiros e curtos, penteados no estilo moicano. Tinha 15 anos como Pedro, mas tinha repetido um ano na escola, o que fazia com que se vissem mais na rua do que na escola. Eram amigos desde a infância, o que contribuía para que Pedro sempre estivesse em contato com o amigo, fosse por telefone (o que era incrível por morarem tão perto), fosse por MSN (aqui era onde mais se falavam) ou fosse pessoalmente mesmo.
Naquele momento, Pedro ouviu sua irmã gritar:

— Pedrooooooo!

Os dois garotos saíram correndo do quarto e foram para a sala, onde os irmãos de Pedro estavam.
Foi como se uma imensa corrente circulasse pelo corpo de Pedro. Ele nem mesmo chegou a ver o que o atingira. Seu corpo todo doía, o garoto se sentia mole, engolfado por uma escuridão irresistível. Sentia André ao seu lado, mas aquilo não era muito reconfortante. A dor foi passando aos poucos até acabar, deixando Pedro inconsciente, no chão da sala.

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Capítulo 10

— Conseguiu? – disse uma voz grave.

— Sim, senhor. – disse uma outra voz vacilante.

— Com sucesso total? – perguntou a primeira voz, parecendo incrédula.

— Com certeza, senhor. – a segunda voz parecia estar fortemente subordina à primeira.

— E a desfragmentação molecular? – questionou a primeira voz, como se precisasse saber de mais detalhes daquilo.

— Não aconteceu. – pela primeira vez, a segunda voz pareceu triunfante.

— Bom. – continuou a primeira voz – Coloque-me em contato com eles. São os únicos que podem fazer algo a respeito. Tomara que aceitem.

— Eles irão, senhor.

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Capítulo 11

— Onde eu estou? – disse Pedro, levantando-se vagamente.

O aposento em volta do garoto era mal-iluminado, estranho e aparentava não sofrer uma boa limpeza há anos.

Com os olhos doendo muito, Pedro se levantou. Automaticamente, sentiu que o observavam.

Olhou furtivamente para os lados e logo depois percebeu que não era o único que estava confuso ali. Num canto, uma menininha de no máximo 10 anos, chorava copiosamente. Do outro lado, um garoto com mais ou menos sua idade, estava agachado, obviamente pensando e quase chorando. Mais para a direita, uma outra garota, que aparentava ser quase um ano mais nova do que Pedro, ainda estava desacordada.

Pedro ficou sem ação por um instante. Então olhou para trás e, para seu alívio, viu uma figura conhecida. André estava sentado e parecia estar seriamente em estado de choque.

Sentando-se ao lado do amigo, Pedro disse:

— Você sabe onde agente está?

— Não. – disse André, sem olhar para o amigo. Continuava a fixar o vazio no extremo oposto da sala escura onde estavam. – Sei tanto quanto você.

— Há quanto tempo você está acordado? – perguntou Pedro, agora fixando o mesmo ponto distante que o amigo.

— Sei lá, tipo uma meia hora. – respondeu André, virando para encarar o amigo.

Pedro balançou a cabeça vagarosamente, pensando. Onde eles estariam? O que acontecera com sua irmã, Rebeca? Essas dúvidas permaneciam aparecendo na mente de Pedro.

O garoto de cabelos negros que estava do outro da sala se levantou e foi até os dois amigos.

— Oi. – disse ele. Sua voz era fina como a de um garotinho. Agora que estava mais perto e de pé, Pedro pôde notar com exatidão o corpo do garoto. Ele era alto e não era exatamente o que se podia chamar de magro.

— E aí, cara. – cumprimentou André.

— Eu sou Henrique. – continuou o garoto. Sacudindo seus cabelos negros da testa. – E vocês são...

— Eu sou André e este aqui é Pedro.

— Legal. – o garoto parecia estar ansioso por alguma coisa. – Aquela garota ali no canto é a Amanda. Ela realmente está muito abalada.

— É, dá pra notar. – disse André, levantando as sobrancelhas. – Escuta, você tem alguma idéia do que está acontecendo por aqui?

— Não faço a mínima idéia. É tudo muito estranho por aqui.

— Como assim? – disse Pedro, como se acordasse de um transe.

— Você acha que este lugar tem paredes? - perguntou Henrique, com um sorriso zombeteiro esculpido em seus lábios.

— Claro que sim! – respondeu Pedro, incrédulo. – E não tem?

— Desculpa a decepção, amigo. – respondeu Henrique, tocando em uma das “paredes”.

Pedro ouviu um zumbido estranho, como se algo fizesse um som computadorizado. Por um breve instante, as paredes sumiram e alguns filetes de luz azul adentraram na sala.

— Holográficos? – perguntou André, levantando uma sobrancelha.

— É. – respondeu Henrique.

— Sinistro... – disse Pedro, com cara de bobo.

Por um breve momento, as questões insistentes haviam saído da sua cabeça, mas por quanto tempo o garoto teria esta paz? Essa é uma das perguntas que em breve seria respondida. E de um jeito nada sutil.

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Capítulo 12

A cabeça de Juliana doía intensamente quando a garota acordou, repentinamente. Olhando para os lados, assustada, conseguiu distinguir algumas formas estranhas que pareciam estar encolhidas na sala escura em que se encontravam.

A garota se levantou, esfregando furiosamente os olhos. Aquilo não parecia ser um sonho, nem chegava perto disso. Ao contrário, aquilo era mais real do que o normal.

O chão em que a garota estava apoiada era cinza escuro, como se fosse de concreto, mas era algo leve e um pouco mole. Como se fosse um enorme colchão cinza com aparência nojenta.

De repente, uma das formas que estavam junto com ela no aposento escuro se mexeu e Juliana pode distinguir um rosto humano, de um garoto. Vagarosamente, a garota foi até a estranha figura. Cutucou-a lentamente, tomando o cuidado de não pegar muito pesado com aquilo.

— Olá...

— Oi – disse a figura, que agora Juliana reconhecia definitivamente como sendo um garoto. – meu nome é Pedro.

— Eu sou Juliana. – disse a garota, olhando para o menino. Seus cabelos lisos escorriam delicadamente para a testa. Os olhos do garoto eram angelicalmente lindos. A garota nunca conhecera ninguém como ele. Ela estava simplesmente deslumbrada com a beleza dele.

— Você demorou para acordar. – comentou Pedro, com um sorriso tímido.

— Mas não tem ninguém acordado... – disse a garota.

— Não agora, mas há algumas horas todos estavam de pé. – continuou o garoto. – E, aliás, você está bem menos desesperada do que a maioria deles.

— É que ainda não deu tempo de atualizar últimos acontecimentos na minha mente...

— Eu sei, eu estava assim também. – comentou Pedro, de sobrancelhas erguidas.

Juliana não achou mais nada pra dizer, então só deu um sorrisinho tímido, que foi retribuído prontamente por Pedro.

— Bom, eu vou deixar você voltar a dormir. – disse Juliana, continuando a sorrir.

— Agora eu já perdi o sono. – replicou o garoto, encolhendo os ombros.

— Então vamos conversar. – decidiu Juliana. – Quantos anos você tem?...

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Capítulo 13

Apesar de estar preso em um lugar que não conhecia, sem saber o que tinha acontecido com seus irmãos, sem saber o que tinha acontecido com sua própria mãe, Pedro estava, de certa forma, confortável. Tirando tudo de ruim, estava tudo ótimo. Tinha um bom amigo ao seu lado e acabara de conhecer uma garota incrível.

Juliana era, na opinião de Pedro, muito bonita. Também era muito legal, parecia ser muito inteligente. Era, de um jeito muito estranho, sua única amiga mulher naquele estranho lugar.

A outra garota, Amanda, passava horas e horas chorando incansavelmente. Nos poucos momentos em que conversaram, Pedro pôde notar que ela sentia muita falta de casa. E, ao contrário do que pensavam, ela não tinha 10 anos, e era um ano mais velha do que os garotos.

Em algum momento do que Pedro julgava ser à tarde (porque seu relógio parara inexplicavelmente de trabalhar), apareciam, no centro da sala circular, pratos com comida e uma jarra com água, junto com uma porção de copos e talheres.

A comida era estranha, não se parecia com nada que Pedro já havia comido. Era muito boa, apesar do gosto estranhamente novo.

No terceiro dia que estava ali, aconteceu algo muito estranho. Depois que comeram, as estranhas “paredes” se tornaram vermelhas. Do nada, atrás de Henrique, elas se abriram, formando uma pequena porta. De lá entraram três formas encapuzadas. As três muito altas e magras.

— Bem-vindos a bordo. – disse a figura do meio. – Meu nome é Scarbloom. Sou o comandante.

— Comandante...? – disse Juliana, sem conseguir se conter.

— Vocês estão a bordo da nave Cruser. – dessa vez foi à figura da direita que falou.

Uma quarta figura encapuzada entrou na sala, essa, porém era mais baixa do que as outras. Chegou perto da figura do meio e disse algo que os garotos não puderam ouvir.

— Fui informado de que acabamos de sair da sua galáxia, a Via Láctea. Creio que os senhores merecem uma explicação do que está acontecendo. – disse Scarbloom ao ver a cara de espanto de Pedro.
A figura se arrumou ligeiramente e prosseguiu:

“O nosso planeta, Hudje, localizado na galáxia Zhob, é um dos maiores fornecedores de ácido combustível do universo. Por muito tempo, vivemos em paz, fornecendo para todos os planetas. Mas um dia, tudo deu errado. Um dos planetas para quem fornecíamos, se revoltou com outro e começou uma guerra. Como se fôssemos culpados pelo que aconteceu, o planeta que foi atacado nos atacou. Um ataque e nosso planeta todo ficou destruído”.

Scarbloom hesitou por um momento.

“Então, quase toda a vida desapareceu. Sobramos nós, alguns poucos renegados, que, lentamente foram morrendo. Os últimos da nossa raça somos nós três. O único problema, é que, depois de nos atacarem, não pararam”.

A figura da esquerda se mexeu e continuou as palavras de Scarbloom.

“Os planetas continuam atacando outros planetas, e agora estão apostando quem destrói mais. Aos poucos, nos vimos como os únicos que poderiam fazer alguma coisa”.

Scarbloom continuou:

“Viajamos por muitas galáxias, tentando encontrar o ser perfeito para lutar contra os Arteronianos, do planeta Arteron que atacou primeiro e os Gnynianos do planeta Gnya que nos atacou”.

“Depois de muita procura, encontramos um pequeno planeta numa galáxia muito longínqua. O terceiro planeta do sistema solar, chamado de Terra. Lá, os humanos, eram criaturas puras e, a maioria, de bom coração”.

Quem terminou tudo foi à criatura da direita.

“Ficamos muito tempo observando o planeta e então, há dezesseis anos decidimos pôr nossos esforços em crianças recém-nascidas. Ou seja, vocês quatro. No crescimento de vocês, nós mandamos as melhores vitaminas do universo para vocês, enquanto dormiam. Algumas horas antes de trazermos vocês para a nave, os Gnynianos seqüestraram as mães de vocês. Acho que vocês notaram isso. Agora, eu peço que descansem, pois amanhã será um dia muito cansativo.”

— Mas... – disse André, desesperado por mais informação.

— Amanhã poderão perguntar o que quiserem. Agora descansem.

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Capítulo 14

É óbvio, que, depois daquilo nenhuma alma viva naquela sala dormiu ou descansou. Como assim, estavam numa nave? Como seqüestraram suas mães? Como assim “seres perfeitos?”.

Os cinco humanos formaram um círculo no centro da sala no qual falavam sobre o que tinham acabado de ouvir. André tomou a voz.

— Vamos supor que aquilo que estava aqui agora a pouco estava falando a verdade. – disse, calmo. – O que ele quis dizer com “suas mães foram seqüestradas?”.

— Peraí. – disse Juliana. O cérebro da garota já estava muito cansado com aquele tanto de informação repentina. – Como assim “vamos supor que ele estava falando a verdade?” Você acha que é tudo mentira?

— Pode ser. – continuou André, olhando para a garota. – Isso tudo pode ser uma brincadeira de mau-gosto.

— E quem faria isso com a gente? – perguntou Pedro, virando-se para encarar o amigo.

— Qualquer um – disse Amanda com sua voz fina. – Podem ser seqüestradores que nos seqüestraram para pedir resgate. Contaram essa história toda de galáxias e alienígenas simplesmente para nós não tentarmos sair.

— Sei. – disse Pedro, agora olhando para a garotinha. – Mas seqüestradores comuns não usam holográficos nas paredes, usam? – o garoto tocou na parede que imediatamente emitiu o zumbido estranho.

— É verdade. – concordou Henrique, que até agora permanecera calado. – Nenhuma pessoa com grana o suficiente para ter paredes holográficas ia seqüestrar um bando de garotos de classe média.

— Bom, voltando ao assunto. – disse André, que começara a ficar irritado com o rumo que a conversa estava levando. – O que eles fizeram conosco?

— Eu acho que nós somos, tipo, a salvação pra eles. – disse Juliana, lembrando-se de um filme que vira há muitos anos. – Scarbloom disse que eles acharam o “ser perfeito” na Terra, isto é, somos nós. Parece-me que eles querem que nós combatamos os Arteronianos e os Gnynianos. Eles até falaram que nos injetaram vitaminas enquanto dormíamos!

— É uma boa idéia. – disse Henrique. – Mas, como será que eles esperam que nós façamos isso?
O grupo todo balançou a cabeça, em sinal negativo. Pedro concordava plenamente. Não sabiam o que viria. Aquele podia ser o começo ou o fim da vida deles. Só o que sabiam é que um alienígena chamado Scarbloom tinha os seqüestrado para lutar contra outros.

Pedro encarou o grupo, por um momento. Depois, decidindo seguir o conselho de Scarbloom, disse:

— Eu vou dormir um pouco.

O grupo, pelo que Pedro observou, se desfez logo. As garotas foram se deitar e André e Henrique ficaram conversando. Aos poucos, porém, o sono foi chegando. Logo, todos estavam dormindo calmamente, como se nada estivesse acontecendo.

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Capítulo 15

— Você acha que eles acreditaram? – disse o vulto da direita. Os três alienígenas agora se dirigiam para a ponte de comando.

— Claro que sim. – disse Scarbloom. – Ao menos se nós pudéssemos contar o que eles não sabem...

— Você acha que isso ajudará no desempenho deles?

— Claro que não. Se eles descobrirem, será melhor para todos inclusive para eles.

— Nós não devemos contar, então?

— Eu proíbo ambos de contarem a verdade aos convidados. Eles terão de descobrir a verdade sozinhos. Será muito melhor que eles aprendam a se controlar sozinhos.

— Se você diz... – a voz do vulto da esquerda pareceu falhar. – Ainda acho que devíamos contar pelo menos um pouco. Não tudo, só uma parte.

— Não. E essa é minha última palavra.

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Capítulo 16

A sala estava extremamente silenciosa. O único possível som era o das estrelas, ao longe, passando por eles como pássaros velozes e luminosos. Agora, com uma pequena janela circular na sala, como a de um submarino, Pedro podia ver e comprovar que realmente, estavam no espaço.

Os tripulantes involuntários da nave haviam sido transferidos, dois dias depois da conversa com Scarbloom, para algo que, sem dúvida, poderiam chamar de quarto.

Uma sala circular e branca, com várias luminares no teto, apresentando um incrível choque de cores com o antigo aposento escuro que mais parecia uma masmorra.

Ali, no novo “quarto” dado aos terráqueos, estavam enfileiradas cinco camas brancas, se é que poderiam ser chamadas assim.

A primeira vista, ninguém diria que eram camas. Estavam mais pra casulos brancos. Ao lado, no que parecia ser uma mesinha, havia um grande e amarelo que, quando apertado, fazia o “casulo” se abrir. Os tripulantes entravam e se deitavam ali, num ambiente almofadado, onde estavam dispostos vários equipamentos que falavam, em português, sobre a história do universo. Não é nem preciso dizer que Juliana estava se deliciando com aquele tanto de conhecimento a seu dispor a qualquer momento.

Para Pedro, aquilo tudo estava perfeito demais. E isso o incomodava muito. Algo lhe dizia claramente que alguma coisa estava errada. Era como se houvesse um vazio em algum lugar. Nada fazia sentido. O garoto não sabia se era sua imaginação ou seu coração dizendo-lhe que acabara de entrar em uma séria enrascada. Mas apesar de todos esses sentimentos estranhos, Pedro estava feliz. Tinha feito novos amigos e isso incluía uma menina que estava sendo uma das melhores companhias do mundo. Juliana.

Pedro passava a maior parte do seu tempo com a garota. Conversavam muito sobre muitas coisas. A amizade dos dois crescera tanto em dois dias quanto a amizade de Pedro com André em 14 anos. O garoto sentia como se conhecesse Juliana, ou Ju, como a chamava, desde que nascera. E, apesar de serem amigos, Pedro não sentia atração alguma pela menina. Sim, ela era bonita, mas Pedro gostava muito da amizade que tinham para tentar algo com a garota.

Já Juliana, desde o primeiro momento, se sentira atraída pelo garoto. Mas a amizade dos dois estava fluindo tão bem que a garota não sentia a mínima vontade de seduzi-lo. Os melhores momentos de sua vida estavam indo e vindo de um jeito que a menina nunca esperara.

André estava vivendo um dilema. Gostava muito de Pedro, mas agora estava muito amigo de Henrique e Amanda. Um lado do garoto dizia que devia ignorar um pouco os novos amigos e voltar a passar a maioria do seu tempo ao lado de Pedro. O outro lado do garoto dizia que isso não era preciso e que Pedro já estava se divertindo muito com Juliana. O que André não sabia é que aquele dilema o levaria a um estado muito pior do que jamais imaginara.

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Capítulo 17

Os tripulantes da nave estavam acordando. Como não havia mais manhã, tarde e noite, os garotos não tinham um horário fixo para acordar. Mas daquela vez foi diferente.

Batidas fortes na porta da cabine informaram aos passageiros que alguém estava lá fora e pretendia entrar. A porta de correr se abriu quase silenciosamente.

Na porta estava Scarbloom, muito diferente agora sem o capuz. Usava algo que Pedro associou a roupas de um capitão de exército terrestre com motoqueiro. Se o garoto não soubesse que a figura se tratava de um alienígena, Pedro julgaria como um humano comum. Uma longa capa preta descia dos seus ombros até seus calcanhares. O alien usava botas pretas de cano longo. Seu rosto estava oculto por um capacete preto de motoqueiro. André achou que aquilo o fazia parecer comicamente com um membro da Daft Punk. Teve que conter o riso quando seu olhar encontrou o de Pedro.

— Olá, tripulantes. – disse Scarbloom.

Alguns garotos murmuraram um “olá” em resposta. Pelo jeito, o alien não esperava resposta, pois continuou:

— Vejo que estão com sono. Não há mais tempo para dormir. O treinamento de você começa hoje.

— O quê? – perguntou Henrique que tentava entender as palavras em meio ao sono.

— O treinamento de vocês – repetiu o alien. – é claro que vocês não esperavam combater dois exércitos de planetas diferentes sem treinar.

— Nós imaginávamos que vocês teriam armas muito avançadas. – disse Juliana, olhando para os colegas.

— Nenhuma arma faz efeito sem o treinamento específico. – disse Scarbloom, ríspido. – E por que vocês ainda estão com essas roupas?

— Não temos outra opção, temos? – perguntou Amanda, que parecia ter acordado agora de um transe.

— Claro que têm. – respondeu o alienígena. - vocês não abriram os armários ainda?

— E como nós fazemos isso? – perguntou André.

— Girem o botão na cabeceira da cama de vocês. Roupas para a direita e acessórios para a esquerda.

Pedro andou em direção ao botão, olhando-o desconfiado. Girou-o para a direita e, para sua surpresa, sua “cama” levantou, ficando na vertical. Aos poucos, ela se abriu, revelando um conjunto de roupas iguais as que ele imaginara para um futuro high-tech: um tipo de paletó que ia até os pés, uma camiseta preta de algodão e calças pretas.

Virando-se maravilhado para o botão amarelo, girou-o dessa vez para a esquerda.

A porta do “casulo” se fechou e um instante mais tarde se abriu. Olhando para dentro, Pedro viu botas pretas exatamente do tamanho que ele usava, óculos escuros, relógios enormes e luvas de meio-dedo. Caraca, acho que eu acabei de entrar no Matrix!

Juliana também tinha testado o botão. O resultado foi quase o mesmo de Pedro, sobre-tudo com botas de cano longo.

— Se troquem e em alguns minutos estarei de volta. – disse Scarbloom. – Para colocar a roupa é só apertar o botão vermelho dentro dela.

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Capítulo 18

Aquilo, sem dúvida era muito estranho. Pôr roupas apertando um botão? Sobre-tudo e botas?

Após vasculhar um pouco mais o “guarda-roupa”, Pedro descobriu outros tipos de roupas. Uma grande peça que ia do pescoço aos pés e botas que pareciam sapatilhas de tão finas. Na frente da roupa, que era de borracha, estava escrito “ROUPA DE TREINAMENTO” em branco para um contraste melhor com a borracha laranja fluorescente.

Depois de apertarem os pequenos botões vermelhos na frente das roupas, os tripulantes sentiam uma ligeira tontura no corpo. No instante seguinte, estavam vestidos com a roupa escolhida e a que antes usavam agora estava pendurada no “guarda-roupa” com um botão vermelho na frente.

Após estarem todos vestidos com a roupa de treinamento (exceto André, que havia posto o pijama), Scarbloom apareceu na porta do aposento.

— Estão prontos? – perguntou.

— Sim. – responderam os tripulantes em uníssono (André havia colocado a roupa de treinamento).

— Me acompanhem.

Essa simples frase foi à causa de grande apreensão. Apesar de terem sido movidos para um novo aposento, a porta estava sempre trancada, impedindo a passagem dos garotos para qualquer outra parte da nave.

Um a um foram saindo do aposento: primeiro Pedro, com seus cabelos lisos esvoaçando sobre a testa; depois Juliana, parecendo tão distante que poderia te saído por acaso; então André, parecendo assustado de ver o longo corredor a sua frente; depois saíram Henrique e Amanda, a garota agarrada ao amigo, como se fossem irmãos.

Seguiram pelo corredor fazendo várias curvas: uma para a esquerda, outra para a direita, depois duas para a esquerda... Nossa, essa nave deve ser grande mesmo! Parece que estamos andando centenas de metros!

Pedro seguia bem atrás de Scarbloom, que aumentara o passo, indo ainda mais rápido. O garoto estava com dificuldades para acompanhar o alien, tendo quase que correr. Ao olhar para trás, viu que a última pessoa que os seguia era Amanda, que vinha correndo para acompanhar os colegas.

Agora, o garoto só via um pedaço da capa de Scarbloom, sumindo nas curvas. Pedro fazia força para acompanhá-lo, mas era difícil. Olhando para trás novamente, só viu Juliana e André, os outros tinham ficado para trás. Ao olhar para frente, não achou nenhum vestígio de Scarbloom. Ele desaparecera.

Pedro parou, com dificuldade para respirar. Atrás dele, Juliana e André também pararam, olhando para o garoto com curiosidade nos olhos.

— O que foi? – perguntou André, pondo a mão nas costas do amigo.

— Scarbloom sumiu. – respondeu o garoto, sentando no chão, encostado na parede. De repente, sentia-se exausto. Era como se tivesse corrido quilômetros.

— A Amanda e o Henrique também. – acrescentou Juliana, agora se sentando ao lado de Pedro. O garoto conseguia ver as gotas de suor em sua testa.

Um silêncio se seguiu enquanto André se sentava do outro lado de Pedro. Os três adolescentes ofegavam como se tivessem acabado de correr vários quilômetros debaixo de sol quente.

— E agora – disse André, olhando para os amigos. – o que a gente vai fazer?

— Sei lá... – respondeu Pedro, encarando-o de volta – esperar?

— Vocês lembram do caminho que nós pegamos para vir pra cá? – perguntou Juliana.

— Eu não – disse prontamente André. – E você Pedro?

Mas Pedro não estava prestando atenção. Tinha visto uma coisa que o preocupava muito mais do que o caminho de volta para o quarto.

Algo grande vinha na direção dos garotos. Pedro tentava identificar o que era aquilo. Uma sombra enorme. Por um instante, o garoto achou que poderia ser Scarbloom, mas logo descartou esta hipótese. Scarbloom era decididamente menor. E, pelo jeito, menos perigoso.

Juliana e André nada tinham percebido. Ao verem que Pedro não respondia, olharam na mesma direção que o garoto.

— O que é isso? – perguntou Juliana, assustada.

Como se respondesse à pergunta da menina, a estranha forma saiu das sombras. Uma aranha enorme de metal, com oito olhos vermelhos e brilhantes.

— Que diabos...

— CORRAM! – berrou Pedro.

Os três se levantaram de um salto e saíram correndo na direção oposta à da aranha, se é que podiam chamar aquele robô enorme de aranha. Aquilo realmente era muito pior do que muitos dos pesadelos que jamais tiveram.

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Capítulo 19 

Henrique estava perdido. Ele e Amanda haviam se distanciado dos outros e agora não sabiam onde estavam, nem como voltar para o quarto.

A pequena garota a seu lado estava chorando. Na opinião de Henrique, ela era muito “Manteiga derretida”, ou seja, chorava por qualquer coisa. E o pior é que o choro da amiga impedia o garoto de pensar, era como se tivesse o cérebro bloqueado. Decidiu então pela coisa mais fácil: começou a gritar.

— André!

Silêncio.

— Pedro!

Novamente silêncio.

— Juliana!

Então ele ouviu. Bem ao longe, alguém gritava desesperadamente. Era um grito agudo de garota. Amanda também ouviu. Em meio ao choro, balbuciou:

— Parece uma garota...

— E é uma garota – disse Henrique com a voz firme.

Por um lado, aquilo era bom, pois encontrariam os colegas. Por outro lado, alguma coisa havia assustado Juliana e, ao que tudo indicava, a garota estava vindo em sua direção, com a coisa atrás dela.

Os gritos foram ficando cada vez mais altos, até que, no final do longo corredor em que se encontravam, apareceu Pedro. Por um momento, o garoto pareceu totalmente idiota, molhado de suor, os cabelos colados na testa e com uma expressão assustada. Logo, a expressão do menino foi explicada.

Logo atrás de Pedro surgiram Juliana e André, ambos com a mesma expressão assustada. Atrás deles uma enorme aranha de metal, seus oito olhos vermelhos brilhando, suas pinças metálicas batendo loucamente.

Henrique e Amanda ficaram petrificados. Não conseguiam se mexer. Seus instintos lhe diziam que era hora de correr, mas suas pernas pareciam ser de chumbo.

Quando os outros três garotos passaram por eles, Amanda finalmente saiu de transe e começou a correr com eles. Henrique ficou.

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Capítulo 20

Tudo aconteceu num breve instante. Pedro passou correndo por Henrique e Amanda. A garota seguiu o pequeno grupo de adolescentes, mas Henrique não. Ficara para trás.

Tomado por uma súbita sensação de heroísmo, Pedro parou derrapando. Olhou para trás e viu Henrique parado, a enorme aranha de metal vinha em sua direção. Pedro respirou fundo uma vez e, sem pensar muito, correu em direção ao monstro.

Os outros três, ao verem Pedro correr na direção oposta, pararam e olharam para trás, estupefatos.

— Henrique! – berrou Pedro enquanto corria. – Vamos!

O colega nem se mexeu.

— Vamos! – a aranha estava a cinco metros.

Ainda assim, Henrique continuou fitando o monstro, que agora estava a quatro metros e diminuía a velocidade, como se tivesse certeza que a presa estava ganha.

Ao ver que Henrique não reagia, Pedro agarrou o braço do amigo e puxou com força para a direção contrária à da aranha. Henrique deu um passo vacilante naquela direção, ainda virado para o gigantesco monstro de metal, agora a apenas dois metros.

André, ao ver que Pedro não conseguiria tirar Henrique dali, correu ao encontro dos dois. Isso é loucura, não sei onde eu estou com a cabeça, Pensava ele.

A aranha alcançara os garotos. Uma de suas patas ágeis perfurou sem dó o joelho de Pedro que instantaneamente berrou de dor. O garoto nunca havia sofrido ferimentos graves como aquele. Ficou parado por um instante, com dificuldade para respirar, a dor era muito forte.

Henrique voltou a si naquele instante. Olhou para o lado e viu Pedro ferido, sangrando muito. Depois olhou para a aranha, seus olhos refletindo o vermelho dos olhos do monstro de metal. Afinal, Pedro se ferira tentando salvá-lo. Muito estranhamente, sentiu-se invadido por um ódio que não reconhecia como seu. Era uma sensação fria que vinha de dentro dele, como se fosse o despertar de um dragão, há muito, adormecido.

De repente, foi tomado por uma força enorme que parecia emanar do dragão em seu peito. André observava ao seu lado. A aranha acabara de tirar a pata de dentro do joelho de Pedro. Agora ia desferir outro golpe. Esse seria mortal.

Ainda com o dragão rosnando em seu peito, Henrique levantou o punho e desferiu um golpe certeiro contra o brilhante olho central da aranha gigante. Com um ruído de trituração, o metal afundou. O garoto, vendo que havia dado certo (a aranha havia parado) levantou o punho e desferiu um segundo golpe agora com mais força (havia eliminado o medo de quebrar os ossos da mão). As pernas da aranha cederam e se quebraram ao meio, fazendo-a diminuir quase meio metro de altura. No terceiro golpe desferido por Henrique, os olhos da aranha se apagaram completamente.

Henrique olhou para os amigos. Pedro havia escorregado pela parede e agora estava largado no chão, quase inconsciente. André estava agachado ao seu lado. Dizia coisas como “agüente firme” ou “vamos, você vai conseguir”. Henrique se lembrou imediatamente da música Stop Crying Your Heart Out, do Oásis. Foi trazido repentinamente de volta a Terra por André, que disse:

— Me ajuda aqui...

Ele e o amigo passaram, cada um, um braço de Pedro por trás de seus pescoços para, assim, carregar o garoto até alcançarem algo ou alguém. Mas isto não foi preciso.

Parado no fim do corredor, atrás das garotas que olhavam para os colegas, estava Scarbloom, com a mesma roupa Daft Punk que usava antes.

— Parabéns. – disse – Passaram pelo primeiro estágio de treinamento.

Pedro sentia-se horrível. Uma dor insuportável habitava agora em sua perna, fazendo com que os pensamentos do garoto ficassem cada vez mais lentos. Tinha dificuldades para respirar, como um rinoceronte abatido, mas não morto. Seu pé direito pingava sangue. Pedro sabia que havia realmente um buraco em seu joelho, mas aquela maldita roupa de borracha não rasgava, nem deixava transparecer seu ferimento.

Mesmo com dificuldade para pensar, Pedro ouviu muito bem quando Scarbloom apareceu dizendo que era tudo um treinamento. Muito ao longe, ouvia os amigos falando com raiva e perplexidade. Lentamente, tentou se levantar, mas a dor foi muita, fazendo com que o garoto tombasse para frente. Viu André e Henrique correndo para ampará-lo. Por um instante contemplou os garotos surpresos olhando para ele. Então tudo apagou.

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Capítulo 21

Estava muito claro. Para qualquer lado que Pedro olhasse, tudo o que via era branco. Seus olhos doíam intensamente, fazendo parecer que o garoto não os usava há dias. Não lembrava de onde estava tampouco o que estava fazendo ali. Aos poucos, porém, junto com a visão que voltava a normalizar, as lembranças dos últimos acontecimentos também voltaram.

Tentou se sentar e não conseguiu: a dor no joelho foi mais forte. Alguma coisa apitou ao longe, fazendo o garoto se sobressaltar. Olhou para os lados e viu que o apito estranho vinha de umas das máquinas que estavam ao seu lado.

Do nada, surgiu algo a um canto. Um ser sem rosto agora vinha na direção da cama. Era como um palito com membros que flutuava. Aquilo que deveria ser a sua pele era uma camada de metal prateado e brilhante, minuciosamente polido.

O ser estranho chegou ao lado de Pedro e virou o rosto para o garoto, que, temeroso, se encolheu quando uma das mãos geladas do alien o tocou, forçando-o a se ficar deitado.

O garoto tentou afastar aquele horrível membro de metal de seu peito, mas, fraco como estava, não afastaria nem uma mosca.

Ao ver que Pedro continuava a resistir bravamente a se deitar, o alien parou. Tirou a mão do peito do garoto e esse sentiu que finalmente havia derrotado aquela coisa. Obviamente, estava enganado.

O alienígena levantou o membro que antes segurava Pedro. Da ponta, uma fina agulha apareceu. Com um movimento rápido, a agulha perfurava a perna direita de Pedro.

O garoto nem tentou lutar. A agulhada o pegou tão de surpresa que este simplesmente se curvou ao doce sono que aparecia de repente dentro dele. Vislumbrou por alguns instantes o rosto vazio que o mirava. Depois disso, pela segunda vez em pouquíssimo tempo, tudo apagou. Dessa vez sem dor. Só o vazio...

 

Capítulo 22


    Juliana, André e Amanda
estavam agrupados na mesa central do quarto. Amanda chorava baixinho. André mantinha seu olhar longe, sem nenhum pensamento estar sequer passando por sua cabeça. Juliana estava quieta, com lágrimas solitárias nos olhos. Não entendia nada do que estava acontecendo e isso a deixava mais do que aborrecida: isso a deixava triste. Principalmente o fato de não entender os próprios sentimentos.

Mesmo quando conhecera Pedro, a garota só tinha se sentido atraída fisicamente por ele. Nunca avaliara a situação com cuidado e agora que percebia, criara um vínculo emocional tão grande com o garoto que não sabia mais se gostava do garoto como um amigo ou se amava o garoto. Só sabia que a falta de Pedro ao seu lado, apoiando-a, era um vazio que a consumia por dentro.

Mas o pior dentre todos os garotos era Henrique.

O garoto se recolhera para sua cama quando chegaram ao quarto (conduzidos por Scarbloom) e não saíra de lá até aquele momento.

Dentre os pensamentos que passavam pela cabeça de Henrique havia um que não o deixava em paz. O fato de já ter visto tudo aquilo, mesmo antes de batalhar com aquela aranha de metal. Já havia sonhado várias vezes com aquilo, mas nunca havia reconhecido os rostos de seu sonho. O que mais o espantava era a força que havia o tomado. Achava que era um monstro, sentia nojo de si mesmo e tinha quase certeza de que os colegas estavam sentindo a mesma coisa. Queria fugir, ir embora. Lágrimas salgadas desciam lentamente de seus olhos para sua roupa, ainda manchada com um pouco de sangue de Pedro.

Ao pensar no garoto, Henrique ainda sentia um ódio incandescente dentro de si. Pedro não estava ali naquele momento por sua causa. Ele fora fraco. Não conseguia ao menos lutar contra si mesmo. Não era, como dissera Scarbloom, um ser perfeito. Era apenas mais um humano, com fraquezas e medos como qualquer outro.

Por um instante, o garoto havia acreditado ser algo mais do que só um rosto na multidão. Mas aquele instante de felicidade passara ao encarar os amigos que pareciam temê-lo.

Mas tudo bem pensou o garoto tudo vai se encaixar no final...

Ou pelo menos era isso que pensavam aquelas pessoas cheias de ideais bobos. Mesmo que nada se encaixe eu estarei de pé, seguindo em frente.

Isso sim deixava o garoto mais feliz. Levantou os olhos cheios de lágrimas e soltou um palavrão, baixinho. Não importava o que ia acontecer. Só importava que o garoto fizesse parte do acontecimento.

Capítulo 23

 
Tudo estava estranhamente bom. Sem nem lembrar das últimas imagens que vira antes de perder a consciência, Pedro sonhava calmamente. Era um sonho estranho.

Um imenso gramado se estendia a sua frente e o garoto estava feliz com André. Ambos corriam no gramado, brincando. André ria com Pedro, e este, por sua vez, ria da cara do amigo. Aquele era um dia perfeito.

De repente, um vulto encapuzado aparece à frente. Pedro nem nota a existência do vulto negro, que agora se aproxima. André grita algo e Pedro se vira, avistando a estranha figura.

A figura encapuzada olha para o garoto que não vê perigo algum nela. Pedro olha para André e sorri, balançando a cabeça negativamente. O amigo fica exasperado com alguma coisa.

Uma das mãos do vulto negro segura a mão de Pedro. Suas cabeças se aproximam e o vulto sussurra algo em seu ouvido. Novamente, Pedro sacode a cabeça, agora positivamente. Com um sorriso estranhamente bobo, o garoto vira-se para o amigo e diz algo que André não consegue entender.

Pedro estende a mão e toca o ombro do amigo. Este fica inexplicavelmente bravo e, segurando o braço do amigo, desfere um murro certeiro que atinge a boca do estômago de Pedro, que cai no chão e fica imóvel, observando um sorriso maníaco de satisfação aparecer no rosto do amigo.

Conservando o sorriso maligno, André levanta o punho e desfere outro golpe, agora contra o lado da cabeça do vulto encapuzado.

Sem ação e pego de surpresa, o vulto cai ao lado de Pedro. Num movimento rápido, o capuz cai e o garoto vê o rosto que estava oculto até aquele momento. Era Juliana.

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Capítulo 24

 
Pedro acordou assustado. Demorou alguns instantes para se localizar e perceber que aquilo tudo não passara de um sonho muito esquisito. Não tinha André doido. E, o que pela primeira vez em muitas horas deixou Pedro feliz, não tinha Juliana morta.

O garoto olhou para os lados e contemplou o mesmo aposento luminoso e branco em que estava da última vez que se lembrava de estar acordado. Só havia uma diferença.

Dessa vez, adormecida numa poltrona ao lado da cama do garoto estava Juliana.

Pedro passou alguns segundos mirando-a com certa admiração. O coração do garoto palpitava ligeiramente e ele não sabia se era efeito do sonho ou de ver Juliana ali, ao seu lado. Isso realmente não importava para Pedro.

Passados alguns segundos de emoção, o garoto resolveu acordar a menina. Fez alguns barulhos, mas nada adiantava. Decidiu, então, chamá-la pelo nome:

— Ju?

A garota abriu os olhos lentamente e esfregando-os disse a Pedro:

— Você acordou! Que bom!

Soltou um enorme bocejo e parou, encarando o garoto que se sentiu corar. Por um instante, Pedro pensou seriamente em beijá-la. Após resistir a esse forte impulso, o garoto disse:

— Cadê os outros?

Pelo que pôde perceber, a garota estava realmente esperando que ele a beijasse, pois quando ele desconversou, Juliana pareceu ficar extremamente desapontada.

— Bem, - disse a garota – estão todos no quarto.

Agora que respondera a pergunta, seus pensamentos estavam novamente confusos. Por um instante infinito, Juliana achou notar os olhos de Pedro encararem seus lábios. Tinha quase certeza de que o garoto a beijaria. Mas nada aconteceu e ele ainda fez essa pergunta ridícula.

O garoto tentou se sentar, mas a dor no joelho permanecia. Soltou um gemido baixo, com um medo ridículo de que a garota ouvisse e achasse o menino fraco.

Juliana se inclinou para frente e deu um beijinho tímido na bochecha do amigo. Este não conseguir um sorriso. Sabia que ela gostava dele, e seu coração palpitante lhe dizia que ele também gostava dela.

Mas não sabia exatamente o que fazer. Sabia apenas que estavam ali, juntos, e que se demorassem mais alguns segundos assim, olhando um nos olhos do outro, se beijariam.

Pedro escolheu a coisa mais difícil: optou por não beijar a garota. Virou o rosto para o lado.

A garota, entendendo o gesto como uma rejeição, balançou a cabeça e se levantou. Pedro olhou para o lado em tempo de ver a garota apertar um botão na porta do quarto e sair. Estava chorando.

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Capítulo 25 

— Se preparem. – A voz de Scarbloom saiu firme.

— Pra quê – perguntaram os garotos em uníssono.

— Vamos sair para caminhar.

Agora que estavam todos ali (exceto Pedro, que continuava acamado), Scarbloom julgava uma ótima oportunidade para promover coleguismo entre os tripulantes.

Depois da primeira parte do treinamento, os garotos haviam passado horas olhando para o nada e pensando. Aqueles sentimentos eram complexos demais para serem estudados em laboratório. Então, o alien decidiu que seria mais fácil levar os convidados para fora da nave, parando assim, no primeiro planeta que encontraram.

Os garotos vestiram as estranhas roupas estilo Matrix e saíram, agora acompanhados de seus relógios malucos que, entre outras coisas, continham o mapa da nave. Isso era extremamente útil.

Juliana ainda não se recuperara totalmente da rejeição de Pedro. Sentia como se tivesse perdido seu melhor amigo, como se ele não gostasse mais dela. Era uma estranha sensação.

Henrique, com seus sentidos alterados e ainda se sentindo mais forte do que o natural, voltara a falar com André. E era com ele que dividia todos os seus sentimentos e dúvidas. O garoto era um bom amigo.

Já Amanda se sentia muito excluída pelos amigos. Não tinha ninguém que dividisse com ela os sentimentos. Juliana, a única menina além dela mesma, estava extremamente quieta nos últimos dias. Passara dias trancada em seu “casulo”. André agora só falava com Henrique e vice-versa. Amanda passava a maior parte do tempo sentada de frente para a pequena janela de forma circular. Observava planetas e estrelas passando com extrema velocidade por eles.

Quando Scarbloom falou que iam descer, a atmosfera da sala mudou com a velocidade que a garota associava à de uma lâmpada queimando. Se antes era triste e depressiva, agora ficara alerta e até tensa.

A garota observou que os planetas passavam com menos velocidade do que antes, então estavam mesmo parando. Até que a garota percebeu que paravam diante de um planeta extremamente negro e enorme. Sentiu um mau pressentimento sobre aquilo. Mal sabia ela que estava certa.

 


 

















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