Abriu-se a porta!
A LENTA OBLIQUIDADE
DA EXISTÊNCIA

O Poema. Espaço absoluto
na lenta obliquidade da existência.
Num limbo flébil e vago,
esgrimem poema e poeta
o em-si do poema.
Sublime extravasar de desígneos estéticos?.
Provável delírio exangue, depurado,
no magma feérico da vida.



Voltar ao mesmo lugar,cirandar em busca da matéria primeira, daquela origem que nos devolve o lugar da esperança.
Vêr-te assim, regressar à génese de mim mesmo, encontrar na raíz mais profunda da minha essencialidade a vertingem, embriagando-me nela, mergulhando irremissívelmente neste espaço sideral que tu tão bem representas.
Vulnerável, na minha constante volatilidade, tremo por ti. Vulnerável, pois na tua presença desvelo a ausência, sentindo-me oprimido por esta circularidade. Se pudesse, ficava toda a vida a contemplar-te, mesmo que exposto à distância, pressentindo o teu cheiro, o teu perfume de odores rubros e ternos, a tua iridescência plácida, envolto em ti como um corpo, cuja extensão simboliza uma imperfeita deveniência da tua existência feroz.
Ao rires, rio contigo como um Douro que nos consome na sua voracidade, se chorares sangro. Ao sentires, respiro o teu ar, pulsante de energia, vivendo como uma sombra perene dos teus passos, que morrem e renascem a cada instante, num mecanismo doloroso e incerto.



Caminhos reversos, transversos, complexos

sugerem nóveis moldes e versos.

Porque escrevo?.

Escrevo na infinidade.

No comprimento da linha

que não lobrigo.

Escrevo, porque quero,

porque preciso.

Serei por isso alguém?.

Não o sei.



Era uma vez um autor,

e este mesmo se perdeu

nas linhas que para si coseu.

Intensificação tirânica da dôr.



Algo fica por dizer.

Uma linha atravessada,

deflagra.

Esta é a estória contada.

Depois, no silêncio inquietante,

tudo acaba por se esbater.

O fulcro da história

já não tem memória.

Quem toma a palavra, agora?!



O movimento convulso,
mero refluxodo espanto.
O véu que transparece
a lucidez de uma tristeza,
plangente e crua.
O veio que conduz ao "nadir",
qual diáfano enquistamento do espírito.
Eis a morte da criação,
enfim anunciada.
Ah pois, que vergada a sulcos caducos
de lânguida decrepitude,
queda moribunda.
Desfaz-se, raíz infértil, depredada.
Rapace erosão que nos comprime.



Relógio.
Hora que perpassa.
Infinita reinvenção
levianamente subtil:
- O eterno retorno ao mesmo.



Há uma unidade em todos nós,
que ressoa fulgurante,
franqueando-nos o espaço terreno
da mundialidade.
No decurso da vida,
fragmentamo-la.
Tudo o que nos resta
são esboços e esquissos
de nós mesmos,
como um espelho
cuja essência vítrea se exauriu.
Apresso-me a gizar
novos arquétipos,
na vã empreitada
de me redimir...
de mim mesmo.
Porém, já não busco
a unidade perdida.
Assemelho-me enfim,
sem no entanto o perceber.


Ser porta-voz
da humanidade mesma;
vão escopo este.
Quando tudo se esboroa
e já ninguém
se cruza, com medo soez
de alguém. Um estado
de indigente aridez,
assalta diligente
os nossos sentidos,
esvaziando-os, terminando-nos!
Uma violenta agonia
derruiu a utopia.


Mulher.
Abismo incontável, absorto na existência.
Muro desmurado sem evidência,
porém sempre presente
na inquietude da alma.
Se alguma vez te olhei...
Ceguei.




André  de Medeiros Palmeiro in "A Lenta Obliquidade da Existência"
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