"Tempos da fadistação..."
(Carlos Leal, Porto Académico, n.º único de 1938, pág. 12)
Porto Academico,
que mundo de recordações invoca êste nome, já velho, dos tempos da fadistação despreocupada e
irrequieta. Quanta saudade e tristesa vão desenrolando diante dos meus
olhos êsses tempos em que pertenci, pode dizer-se, à última geração dos
veteranos, dos velhos blagueures, impenitentes perseguidores dos
caloiros recenchegados e revestidos ainda da velha casca provinciana e
também dos grandes orientadores das maiores organisações artisticas,
desportivas e jocosas que até hoje a Academia soube realisar.
Dêsde a coroação do Orfeão e Tuna Academica por
terras de Madrid e Galisa em que se glorificaram as figuras do Dr.
Clemente Ramos e Dr. Modesto Osorio, ás inumeras excursões por terras
portuguesas onde brilhavam para uns e irritavam a outros as piadas do
Sobrinho das Barbas, do Mendes, do Zé Moreira, do João Ribeiro; dêsde
as peças teatrais do Mendo e do Fariñas, à Aranha Verde e outras
revistas do Poeta Rabeta, do Perry, do Zeferino com musica do Alberto
David, do Lucena Sampaio, do Alvaro Rodrigues e outros, dêsde os
actores consumados até aos célebres grupos de Girls que arrebatavam as
plateias. Desde aquêle classico bailado das horas dançado pelo grupo
dos barbudos, àquêle colossal bailado do Bravo ali no S. João que
deixou estupefactos todos aquêles que minutos antes o tinham visto
entre-cênas. Desde as primeiras organisações do Carnaval que enchiam a
cidade de gente vinda de tôda a parte, até aquêle célebre roubo da
macaca ali nos Loios que depois de doutorada honoris causa foi entregue com tôda
a solenidade na varanda do antigo Hotel Rainha....[1]
tudo isso passa ainda com saudade diante dos meus olhos. E aquelas
célebres excursões de cursos a terras da Galiza pletoricas de alegria
môça e garotices... Nunca consegui saber quem foi o autôr da piada que
obrigou o Bravo a arrancar o fôrro do bonet de policia com que
desempenhava brilhantemente aquele papel na comédia os Suicidas uma das
peças do reportório da nossa tournée por terras galegas.
Depois o pano desceu... e os antigos actores
passaram a ser engenheiros, medicos, advogados jornalistas, etc.
Mas saudade bem grande, sinto eu ao recordar aquelas
serenatas a horas mortas pelas ruas da cidade com o Aires, o Viamonte,
o Milheiros, o Zé Taveira, o Rogerio, o Amandio Marques, o Pereira
Leite e o Guerra, vulgo tenôr de cabeça. [2]
Ao lado das notas sentimentais, quantas cenas picarescas duma
comicidade natural e expontânea, passam ainda nas minhas retinas. No
regresso das serenatas e depois de tremendas touradas aos gatos vadios,
onde surgiam diestros valorosos, íamos acabar a noite ali no
Transmontano, organisando sessões fadologicas debaixo da orientação do
velho Mouzão já de cabeleira tôda branca, do tenente Simão e outros
carolas do fado e da guitarra...
Depois
o fado morreu... morreu com as grafonolas e com o radio. E foi esta
grafonoloterapia e radioterapia que ministrada em tão altas doses,
provocou a dispepsia e o enjôo a tôda a gente.
.............................................
Nunca
mais se ouviu uma serenata... e aos meus ouvidos, chega ainda o éco da
minha propria voz nas noites luarentas de há dez anos, para arrelia dos
mestres e encantamento dos sonhadores e... das sonhadoras, como o
ultimo boémio duma geração que passou.
Maio
de 38
CARLOS LEAL
[1]
Cf. os textos "Bons tempos" e "O rapto da macaca".
[2]
É possível que este "Guerra, vulgo tenôr de cabeça" fosse o "Guerra da
cabeleira" referido num episódio, contado (anonimamente, e sem qualquer referência à data em que se terá passado) no Porto Académico, n.º único de 1962,
p. 45:
E ASSIM SE PERDEU O CRÉDITO...
O
Morais, dono duma casa de «bons petiscos» na Rua do Almada - casa muito
frequentada, durante a noite, pela Academia de outros tempos -
tinha a fama e... o proveito de deitar água no vinho. Sendo amigo
da rapaziada e tanto assim que até fiava a... longo prazo, o Morais,
que admitia todas as brincadeiras, não suportava, por princípio algum,
que o acusassem de mixordeiro. Pobre daquele que se atrevesse, de cara,
a acusá-lo da mistura!... Nunca mais lhe fiava.
Era
certo e sabido que a boémia académica de então, de regresso de qualquer
serenata, abancava ali a altas horas da madrugada e, certa vez, o
Morais mostrou desejos de ouvir o «fadinho» defronte da sua porta. Os
rapazes resolveram satisfazer-lhe a vontade e, numa madrugada de
Janeiro, com o luar a bater em chapadas, o Morais tinha à sua porta uma
serenata com quatro guitarras, dois violões, três tenores e grande
acompanhamento da Academia.
Tudo
correu muito bem e, para fechar a serenata, ecoou pelo espaço a voz
tenorina do «Guerra da Cabeleira», num fado muito em voga:
O vinho é sangue de Cristo
Que nossas mágoas suaviza
E é, talvez, por causa disto
Que o Morais o
baptiza...
Caiu
Tróia... E o Morais cortou o crédito à Academia...