O Traje Académico no Porto



O governo saído da Revolução de Setembro de 1836, através do seu Ministro do Reino, Manuel da Silva Passos (Passos Manuel), procedeu a uma das mais profundas reformas na história do ensino em Portugal. Deve-se a essas reformas a multiplicação das "academias" no nosso país na segunda metade do século XIX.

De facto, foi Passos Manuel quem criou, em 1836/37, a Academia Politécnica do Porto, a Escola Politécnica de Lisboa, as Escolas Médico-Cirúrgicas do Porto e Lisboa, as Academias de Belas-Artes destas cidades e (pelo menos "no papel") os liceus, nas capitais de distrito. Estas escolas, à excepção dos liceus, baseavam-se em pequenas escolas já existentes. Mas foram estas reformas que, para além de ampliarem o âmbito dos seus estudos, permitiram o aumento do número dos seus alunos, o que levou ao aparecimento de comunidades académicas (i.e., academias) em Lisboa e Porto. Os liceus, por outro lado, foram sendo instituídos na prática muito lentamente, mas cada novo liceu, fora de Lisboa, Porto e Coimbra, trazia uma nova população estudantil numa nova cidade, i.e., uma nova academia.[1]

Em diferentes momentos até à I República estas novas academias foram adoptando diversas tradições associadas à Universidade de Coimbra, nomeadamente a Capa e Batina. Já se tentou explicar isto pelo seguinte facto: até 1880 o Liceu de Coimbra esteve dependente da Universidade e consequentemente os seus alunos eram obrigados a usar Capa e Batina. Assim, o Liceu de Coimbra teria influenciado os outros liceus no traje.[2] Mas esta teoria não explica o caso do Porto, em que parecem ter sido as escolas superiores a começar a usar a Capa e Batina. É mais verosímil que a influência tenha vindo directamente da Universidade de Coimbra, da imagem romântica e algo mítica do estudante de Coimbra, que os estudantes do resto do país admirariam e na qual quereriam participar. No caso do Porto (e no de Lisboa) existiria possivelmente mais uma motivação: as escolas superiores de Lisboa e do Porto eram, à partida, inferiores à Universidade, pelo simples facto de não serem universitárias (principalmente as do Porto, longe do Terreiro do Paço). E isto apesar de o seu ensino não ser de tipo essencialmente diferente do universitário. As Escolas Médico-Cirúrgicas eram, aliás, concorrentes directas da Faculdade de Medicina de Coimbra.

Resumindo, a Academia do Porto não quereria ser uma academia de segunda, quer nos aspectos de ensino, quer nos aspectos, digamos, extra-curriculares. (Ressalve-se, no entanto, que tudo isto é um pouco conjectural. Não sabemos ao certo as motivações que terão levado os académicos portuenses a decidir usar o Traje Académico. A Escola Médico-Cirúrgica desempenharia, aliás, um papel ambíguo nesse processo, como veremos.)

Neste contexto, em Novembro de 1858, os estudantes da Academia Politécnica pedem ao governo para usar Capa e Batina, tal como os seus colegas da Universidade de Coimbra.[3]

Será talvez pertinente notar que por essa altura a Academia Politécnica começava a sair dum período de intensos ataques por parte do poder central, em que se chegou a propôr a sua extinção, e ainda em 1863 se propunha uma reforma pela qual na prática se tornaria uma escola de Engenharia de Minas (e nada mais!).[4]

Não consta, no entanto, que o Governo tenha aceite o pedido, ou que algum estudante da Politécnica tenha usado a Capa e Batina nesta altura.

A primazia caberia a um grupo de estudantes da Escola Médico-Cirúrgica, 30 anos mais tarde. Uma outra geração. Mas que geração? Sem dúvida uma geração bastante activa a nível académico e a nível político. A geração do Ultimatum.

"A Academia do meu tempo era convicta e entusiasticamente republicana, sob o impulso duma fé ardente nos destinos gloriosos da Pátria, mas a sua intervenção, mais teórica do que prática, mais de reacção do que de acção, era essencialmente doutrinária e evolutiva. [...]
Estava eu no meu 2º ano médico quando se desencadeou, em 1889, o chamado movimento do Ultimatum que nascido gloriosamente na Academia do Porto rápido alastrou pelas demais Academias, numa onda de brio, de exaltação e de redenção.[5]
Iniciada pelos académicos maiorais dos últimos anos dos cursos e dirigido por um quintanista de medicina, o Dr. Reis Santos[6], vincou-se no meu, como no espírito da minha geração, a admiração profunda por quem tão enérgica, disciplinada e inteligentemente dirigiu e orientou a esse movimento até o entregar à alta personalidade de Antero de Quental.
Lembro-me nitidamente da elevada consideração, respeito e acatamento com que Reis Santos era acolhido na Academia que, mercê dele, se elevou no conceito da nação como força disciplinadora, nobre, progressiva e persistente, como até então não fora nenhuma outra manifestação académica.
Foi um dos períodos áureos da Academia, cheio de elevação, nobreza e sequência: não teve como muitos outros movimentos académicos, a fugacidade duma explosão que tanto menos dura quanto mais intensa nasce e mais rápido deflagra [...].
Recordo com admiração num misto de saudade e fé patriótica a acção de Reis Santos sempre na brecha, activo, firme e progressivo e associo-lhe os nomes de tantos outros, como [...] Scipião José de Carvalho[7] que continuamente alegre e de bem e humorada eloquência, aproveitava todas as oportunidades para animar o movimento, aligeirando-lhe ou solucionando-lhe as responsabilidades mais graves [...]."[8]

Embora isso mereça ser mais estudado, é defensável que foi nos anos 80 do século XIX que surgiu, de facto, a Academia do Porto. Já existiam antes nesta cidade estudantes do que pode chamar-se ensino superior, pelo menos desde a fundação da Real Academia de Marinha e Comércio em 1803.  Há mesmo referências desde os meados do século a pensões de estudantes, a cafés ou outros locais frequentados por estudantes, o que indicia que eles já seriam, como seria de esperar, um (sub)grupo social. No entanto tudo isto é um pouco "visto de fora". Nos anos 80 os académicos portuenses têm iniciativas que mostram uma assunção ("interna") da ideia de Academia do Porto: o Hino Académico do Porto,  com letra de José Leite de Vasconcelos e música de Aires Borges, que parece ter sido estreado em 1881; a Tuna Académica do Porto, de que há notíca certa só em 1891, mas da qual se sabe, como já vimos, que Reis Santos, finalista em 1890, foi regente; a própria Capa e Batina. Em 1888 um grupo de estudantes portuenses (da Academia Politécnica, Escola Médica e Liceu do Porto) envia uma felicitação aos colegas da Escola Politécnica do Rio de Janeiro saudando a abolição da escravatura no Brasil.[9]

Paralelamente, e coerentemente com estas actividades, surgiram nessa época diversos jornais. Um em especial nos interessa agora: A Mocidade de Hoje, publicado em 1883. 

"Era este um jornal académico, que tinha como redacção um modesto quarto de estudante, alcandorado no 2º andar, frente, do prédio n.º 137 da rua dos Caldeireiros, onde a mocidade académica desse tempo se reunia, numa ânsia fremente de liberdade, disposta a lutar por todas as ideias generosas, num adorável convívio de quase irmãos. [...]
De entre os periódicos académicos que nesta cidade do Porto viram a luz da publicidade por aquele tempo, e não poucos foram eles [...], logrou A Mocidade de Hoje ser o que teve mais longa próspera existência, chegando a publicar 32 números [...]."[10]

Este jornal teve colaboração de nomes que seriam mais tarde famosos, como António Nobre, Alexandre Braga e José Leite de Vasconcelos. 

"Pois foi neste mesmo quarto de estudante e redacção de A Mocidade de Hoje que a mesma geração de imberbes moços, como lhe chamou Raúl Sampaio, passados 4 anos realizou as reuniões preparatórias para a substituição das irrisórias casacas por um uniforme académico mais consentâneo com o espírito moderno, nos actos a realizar.[11]
Ali apareceram vários modelos de uniformes com desenhos do ilustre pintor visiense José de Almeida e Silva, então aluno da Academia de Belas-Artes e redactor do Charivari, optando-se alfim pela capa e batina, em virtude das tradições que lhe andavam ligadas.
Depois de devidamente aprovada pelo Conselho da Escola Médica-Cirúrgica, onde a defendeu com entrain o célebre Urbino de Freitas, foi enfim esta autorizada, embora apenas facultativamente, sendo pela primeira vez usada no ano de 1889 pelos alunos da Escola Médica-Cirúrgica do Porto, sendo os estudantes do 3º ano médico dessa referida data quem, para dar o exemplo, se antecipou a romper com o preconceito citadino, envergando pela primeira vez no Porto, roçando pelo escândalo, o tradicional uniforme académico da velha universidade coimbrã.
Entre esses terceiranistas reformistas, contam-se José de Oliveira Serrão de Azevedo, Aníbal Barbosa de Pinho Lousada, Scipião José de Carvalho, José Jorge Pereira, Francisco da Silva Garcia, João Leite de Castro, Francisco Xavier Couto de Amorim Novais e o autor desta pequenina memória - sem dúvida um dos mais entusiastas apóstolos de tal ideia."[12]

Mas até que ponto se impôs a Capa e Batina no Porto, no período até aos primeiros anos da República? É difícil dizer. Não há grande informação escrita que caracterize o seu uso nesta altura. Há algumas indicações de uso:

- A capa da pauta do pasa-calle “Amor da Pátria”, “Brinde aos Académicos do Porto” (referência ao movimento do Ultimatum), de Eduardo da Fonseca, apresenta um desenho com vários estudantes, de Capa e Batina.

- Em 1891 a quintanista de Medicina Maria Paes Moreira aparece numa fotografia de final de curso com um vestido (aparentemente negro) e uma capa de estudante traçada "à tricana".

- Em 1895 o Conselho Escolar da Academia Politécnica discute o pedido dos alunos das Escolas Superiores para ser decretado o uso obrigatório da capa e batina. O Conselho decide considerar o vestuário dos alunos indiferente.[13]

- Há fotografias de turmas do Liceu em que todos os alunos aparecem de Capa e Batina.

- Há uma fotografia de um aluno do Instituto Industrial e Comercial (Raul Dória) de Capa e Batina.

- As fotografias da Tuna de 1897 e 1909 e um desenho de tunos (?) de 1902 mostram os tunos de Capa e Batina.

- O Orfeão Académico do Porto, fundado em 1912, adoptou imediatamente a Capa e Batina (com a excepção dos alunos militares, que usavam farda).

No entanto, as fotografias de estudantes da Escola Médico-Cirúrgica, nomeadamente as de grupos de finalistas, mostram-nos à futrica[14], embora esses finalistas apareçam sempre com as suas pastas com fitas.

Uma outra indicação de escasso uso da Capa e Batina é o depoimento do dr. Artur Cunha Araújo (estudante de medicina, provavelmente entre 1907 e 1913) sobre os estudantes do seu tempo:

"Não curava de dandismos a mocidade de então. Toda a sua indumentária se reduzia a um amplo gabão de Aveiro, chapéu braguês, "lavaliére" preta e no braço o gancho dum cerquinho ferrado."[15]

Cunha Araújo, activo participante nas iniciativas académicas do seu tempo, não via com muito bons olhos a Capa e Batina. De facto, falando já da época em que escreve (1937), e criticando os académicos que vê, diz:

"Na promiscuidade dos trajes aparece também um ou outro estudante de capa e batina a destoar nos hábitos tripeiros, como borrão de tinta em álbum de costumes."[16]

O que se pode concluir? Concerteza a adopção do simbolismo da Capa e Batina, com consequente uso por parte de organismos académicos como a Tuna; mas as fotografias dos finalistas da Médica parecem indicar pouco uso efectivo. De qualquer forma parece poder concluir-se sem grande perigo que a Capa e Batina era muito mais usada no Liceu do que na Médica. Quanto às outras escolas...?


Façamos aqui um parêntese para notar que os estudantes que usavam nesta época a Capa e Batina no Porto acompanhavam as modificações que se faziam sentir em Coimbra (descritas aqui ao lado). É notória a diferença entre o traje académico que se vê na pauta do pasa-calle Amor da Pátria (em 1890) e aquele que os orfeonistas adoptaram (em 1912). Quanto às imagens destes últimos, espelham bem a falta de "normalização" da Capa e Batina no início da República.

Voltanto à questão do maior ou menor uso da Capa e Batina, já vimos que no início da República se tinha atingido um ponto muito baixo. No entanto as condições iam-se modificando, de maneira a incentivar esse uso: em 1911 é fundada a Associação dos Estudantes do Porto, em 1912 o Orfeão Académico do Porto. De uma maneira geral, a vida académica ia-se enriquecendo. Em Março de 1916:

"Sem prévia consulta à Academia de Coimbra, os estudantes universitários do Porto resolveram, por maioria, usar capa e batina e uma fita na lapela, da cor da respectiva Faculdade."[17]

Segundo Saul A. Pereira, formado em Farmácia por volta de 1918, na sua época "brotou o uso da capa e batina, até então em desuso".[18] E referindo-se aos saraus da Associação, com participação da Tuna e do Orfeão:

"Em todas as terras fomos gentilmente recebidos, [...] apresentando-nos todos rigorosamente trajados com a tradicional capa e batina, ostentando nas lapelas as fitas dos respectivos cursos."[19]

Segundo António Sarmento (infelizmente não é possível precisar os anos em que terá andado na Universidade):

“Era notório que, nessa altura, uma vaga e melancólica capa e batina se via, rara pelas ruas da cidade. Foram os nossos primeiros caloiros, em face a uma legislação muito bem inspirada, que, obrigados a vestir o seu uniforme, por força do decreto e com pena de ficarem sem um pelo, que inundaram de capas negras o velho burgo.”[20]

Assim, o aumento do uso da Capa e Batina parece ter sido desencadeado por uma decisão da maioria dos estudantes da Universidade (em Assembleia Magna?), conjugada com a imposição aos caloiros do acatamento dessa decisão. Mas é claro que se não houvesse condições propícias esse aumento seria transitório e passado um ou dois anos (ou talvez um ou dois meses...)  a Capa e Batina estaria outra vez esquecida. A verdade é que essas condições propícias existiam, e nos anos 20 já não eram invocadas nem a decisão de 1916 nem a "legislação muito bem inspirada".

A geração dos anos 20 foi a vários títulos excepcional, e essa década pode ser considerada a Idade de Ouro da Academia do Porto. Os estudantes da altura tinham consciência de um crescendo de actividade da Academia:

"O uso da capa e batina que [...] tanto se tem vulgarizado entre nós é uma prova bem eloquente de que a nossa Academia procura ressurgir, elevar-se, e consegui-lo-á, disso estou plenamente convencido, exactamente porque para o conseguir emprega todo o entusiasmo, toda a vitalidade da sua alma moça. [Uma homenagem aos poveiros ...], a reorganização da Associação dos Estudantes [...], a criação deste jornal [Porto Académico...], a criação do Orfeon e Tuna [...], essa gloriosa jornada a Madrid [...], a realização do próximo festival e cortejo carnavalesco, a celeuma que produziu determinada ceia oferecida aos representantes das academias que ultimamente nos visitaram, o grande interesse e discussão que têm despertado as próximas eleições da Associação [são] tantas outras provas da vitalidade da nossa Mocidade  académica [...].  A Academia do Porto ressurge hoje daquela apatia para a qual a lançou esse tremendo conflito europeu que não poupou classes nem ideais."[21]

 

Este texto era uma resposta a dois artigos de Augusto Farinas (sob o pseudónimo de Vasco Gil) no jornal Porto Académico, com o título "A Crise Moral da Academia", em que o autor defendia que

"A maior parte dos estudantes atravessam a sua vida académica ou numa doce paz d'alma, [...] ou então lançam-se numa vida turbulenta, num ridículo snobismo boémio, perdendo o melhor da sua vida numa inutilidade espantosa"[22]

Respondendo depois a Jacinto Andrade, Augusto Farinas diria que quem teve essas iniciativas foi

"um pequeno núcleo de rapazes, quase sempre o mesmo em todas as empresas, uma minoria reduzidíssima, que está muito longe de representar a Academia em número e que até agora não meteu ombros a nenhuma tarefa que não tivesse de lutar contra a má vontade de muitos, contra a inércia de quase todos."[23]

De qualquer forma, dois factos são certos: 1- fosse por iniciativa de uns poucos ou não, a Academia "mexia-se". Noutras épocas, ou esses poucos não existiram, ou a Academia não esteve disposta a segui-los. 2- a generalidade dos estudantes tinha a noção, certa ou errada, de viver um momento alto na Academia. Muitos textos posteriores desses estudantes, de recordações, nos dão conta desse facto. Claro que essas recordações costumam ser exageradas. Todos dizem "bons tempos, aqueles!". Mas as da década de 20 são em maior quantidade e mais entusiastas que as de qualquer outra época. Vejamos as do guitarrista Amândio Marques:

"Tempos melhores, mais tranquilos e despreocupados, quiçá mais felizes! Todos nós usávamos capa e batina, e a boa gente tripeira gostava de a ver e acarinhava-a, passando a ser um elemento decorativo da Cidade, e um cartão de visita onde quer que se apresentasse! A vida decorria tranquila, simples, leal, cheia de franqueza nas relações comuns. Tínhamos a Associação Académica - escola de convivência e de oradores - o Orfeão e a Tuna e, não podia faltar, a nossa Imprensa. A estima e a amizade eram construídas e alicerçadas na sinceridade, alheios de todo em todo, a qualquer concorrência descortês ou egoísta. Tínhamos atravessado a Grande Guerra - 1914-1918 - e esse movimento sacudiu-nos profundamente, e mais nos aproximou para melhor nos compreendermos. Era como se fossemos uma grande família! O estudante procurava manter e reforçar um costume, quer pela sua vida académica própria, quer e principalmente na realização das suas festividades - bem notáveis, vemo-lo agora mais do que nunca! - às quais fazia associar o povo portuense, a Cidade e até o Norte, e criar assim uma tradição estudantil. E conseguiu-o."[24]


Como se vê, o uso intensivo da Capa e batina está intimamente associado a este apogeu da Academia do Porto. Assim, o dr. Amândio Marques podia dizer "todos nós usávamos capa e batina" ou (mais à frente no mesmo texto) "eu sempre de capa e batina - nunca conheci outro traje", e o jornal Porto Académico podia usar e abusar de expressões como "capas negras românticas", referindo-se tão somente aos estudantes do Porto. Complementando agora (pois já é possível) com testemunhos orais de contemporâneos, podemos citar o dr. Serafim Oliveira (estudante da Faculdade de Ciências entre 1927 e 1932, tio-avô do autor), segundo o qual no seu tempo não "íamos a nenhum acto[25] da Faculdade sem ser de Capa e Batina"; ou Fernando Lencart (aluno do Liceu Alexandre Herculano por volta de 1930) que diz que nesse liceu "havia poucos estudantes à futrica"; ou a família do dr. António Correia de Melo (nascido em 1913, também tio-avô do autor) segundo a qual este começou a usar Capa e Batina aos 15 anos (no Liceu Alexandre Herculano), todos os dias, porque os pais não tinham grandes possibilidades financeiras e a Capa e Batina representava uma economia substancial, usando diariamente a mesma roupa sem fazer má figura.

Podemos imaginar o académico do Porto desta época usando por norma o Traje Académico. Ao simbolismo da Capa e Batina, que há muito se tinha importado de Coimbra, vem juntar-se um uso efectivo, quotidiano, o que torna a Capa e Batina identificativa também do estudante portuense.


Não se confunda, no entanto, uso generalizado com unanimidade. Em 1928, Alberto Couto, nas páginas do Porto Académico[26], queixava-se de certos tratamentos dados à Capa e Batina, nomeadamente o pouco uso por parte dos estudantes dos anos mais adiantados, chegando a usar fitas à futrica.[27] E a única resposta que obteve foi um artigo[28] em que se criticava a Capa e Batina como símbolo duma tradição boémia e preguiçosa, inimiga do progresso. Apesar disto, saliente-se que este é o único ataque à Capa e Batina que conheço desta época, encontrando-se outros apelos à modernização, avanço cultural e científico, etc. que não associam como este a Capa e Batina ao "passado medievalesco". Quanto às reclamações de Alberto Couto, e comparando com os outros dados, talvez o mais relevante seja o nível de exigência a que se tinha chegado, incluindo o escândalo pelo uso de fitas sem Capa e Batina: lembremo-nos que na época da Escola Médico-Cirúrgica isso era o normal, as pastas de quintanista  eram usadas à futrica com toda a naturalidade.




Depois desses "gloriosos" anos 20, vieram uns anos 30 de nítido recuo na vivência académica portuense. Diversas razões contribuíram para isso: em 1928 a Faculdade de Letras (politicamente indesejável) é extinta pelo governo da Ditadura (continuaria a funcionar até 1932 só para permitir aos alunos inscritos que terminassem os seus cursos); o Orfeão e a Tuna desaparecem em 1930, no rescaldo de sérios confrontos entre estudantes e a polícia, de que resultou a morte de um académico[29]; o Porto Académico deixa de se publicar também nesse ano de 1930; a Associação Académica é extinta por despacho ministerial de 24 de Novembro de 1932. Os organismos que tinham sido os grande bastiões da vida académica, e até uma das cinco faculdades da Universidade, desapareciam.

Em 1937, Artur da Cunha Araújo dizia: "Não sei se ainda há estudantes"; e quanto ao que nos interessa aqui, o vestuário:

"Já não se distingue facilmente um estudante de um caixeiro do Chiado. Ambos rapam a cara, ambos usam o cabelo lambido e lustroso à força das brilhantinas, ambos exibem os fatos desportivos mais ou menos cintados (...)"[30].

[continua...]





[1] Em Lisboa, Porto e Coimbra os estudantes dos liceus seriam considerados por muito tempo parte integrante da Academia.

[2] Esta explicação aparece em António Nunes, "Subsídio para o estudo genético-evolutivo do Hábito Talar na Universidade de Coimbra" (in Universidade(s) - História, Memória, Perspectivas, vol.3, Coimbra, 1991, págs. 399-419), pág. 411.

[3] Cf. O Tripeiro, vol. 1958/59, pág. 196.

[4] V. Artur de Magalhães Basto, Memória Histórica da Academia Politécnica do Porto, Porto, 1937, reimpresso em 1987, cap. XV e págs. 348-352.

[5] Referência à Liga Patriótica do Norte, segundo Rui Ramos "uma mistura de estudantes das escolas superiores do Porto, todos muito extremistas, de jornalistas republicanos e de muitas notabilidades locais do Partido Progressista". A Liga era uma das manifestações de revolta contra a cedência do governo português ao célebre ultimato britânico sobre o "Mapa Cor-de-rosa". Inicialmente dirigida por Reis Santos, Antero de Quental foi rapidamente eleito seu presidente. Cf. Rui Ramos,  A Segunda Fundação (1890-1926) (6.º volume de José Mattoso (dir.), História de Portugal), s.l., Círculo de Leitores, 1994, págs. 43, 182, 301.

[6] Refira-se que Reis Santos foi também regente da Tuna Académica (Porto Académico, n.º único de 1937, pág. 33).

[7] Enquanto outros nomes citados no original desta passagem são aqui omitidos, o de Scipião de Carvalho, "o endiabrado boémio cujas graciosas partidas mereciam relato especial", é mantido, apenas porque aparecerá também à frente como um dos introdutores da Capa e Batina, o que mostra, com a dupla acção de Reis Santos à frente da Tuna e deste movimento, a interligação entre as movimentações políticas e académicas.

[8] Alberto de Aguiar, "Os académicos do meu tempo", Porto Académico, n.º único de 1937, págs. 31-32.

[9] Cândido dos Santos, "A Academia do Porto e a abolição da escravatura no Brasil", UPorto, n.º 1 (1 de Março de 2000), págs. 28-31. Uma das assinaturas destacadas por Cândido dos Santos é a de Scipião de Carvalho.

[10] José Pinto de Queiroz Magalhães, "A Mocidade de Hoje - A introdução no Porto de capa e batina", Capa e Batina, nº1 (20 de Fevereiro de 1930), págs. 1-2.

[11] A palavra acto era nessa época utilizada com o significado de exame. Era a casaca obrigatória nos exames da Escola Médico-Cirúrgica?

[12] José Pinto de Queiroz Magalhães, "A Mocidade de Hoje - A introdução no Porto de capa e batina".

[13] Artur de Magalhães Basto, Memória Histórica da Academia Politécnica do Porto, pág. 471 (nota (1)).

[14] "À futrica" significa sem capa e batina, isto é com um traje de futrica (termo que por sua vez designa alguém que não é estudante, na gíria académica de Coimbra, mas que chegou ao Porto em época que não sei determinar, quase de certeza não anterior aos anos 1920).

[15] Artur da Cunha Araújo, "Em outros tempos", Porto Académico, n.º único de 1937, pág. 25.

[16] Artur da Cunha Araújo, "Em outros tempos".

[17] António José Soares, Saudades de Coimbra 1901-1916, Coimbra, 1985.

[18] Saul A. Pereira, "Retrospecto Académico", Porto Académico, n.º único de 1937, pág. 33.

[19] Saul A. Pereira, "Retrospecto Académico".

[20] António Sarmento, "O destino “daquela” geração...", Porto Académico, n.º único de 1937, pág. 38.

[21] Jacinto Andrade, "Ressurreição", Porto Académico, nº6 (15 de Janeiro de 1923).

[22] Vasco Gil, "A Crise Moral da Academia", Porto Académico, nº2 (20 de Novembro de 1922).

[23] Augusto Farinas, "Modos de Ver", Porto Académico, nº9 (26 de Fevereiro de 1923).

[24] Amândio Marques, "Carlos Leal «o Rouxinol do Ave»", Porto Académico, n.º único de 1962, págs. 44 e 46.

[25] A palavra "acto" aqui já sem o significado restrito de exame que foi referido na nota [9].

[26] Alberto Couto, "Pobre Capa de Estudante", Porto Académico, 12 e 20 de Janeiro de 1928, págs 2 e 3 (respectivamente).

[27] O maior interesse pela Capa e Batina por parte dos caloiros e segundanistas  e o seu abandono progressivo ao longo dos anos é um fenómeno muito comum, também noutras épocas e em Coimbra.

[28] J. M. Ferreira do Amaral, "O Verdadeiro Estudante", Porto Académico, 12 de Fevereiro de 1928, pág. 5.

[29] Cf. Rebelo Bonito, "Do Orfeão Académico ao Orfeão Universitário (1912-1937)", O Tripeiro, vol. 1962, pág. 114.

[30] Artur da Cunha Araújo, "Em outros tempos".















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