Também levo de vós muita
saudade!"
Não direi, depois, como João de Deus: "E
em lá chegando à outra vida...escrevo".
É que este grande Poeta, Pedagogo e
Humanista faleceu um ano depois de ter proferido estas palavras. E eu, meus Amigos, não
tenho pressa nenhuma de dar o último suspiro...
Eu sabia que esta tarefa ia ser difícil...
Só não sabia é que ia ser mais difícil do que
eu sabia que ia ser. Mais ou menos como aquela do "o Senhor sabe que eu sei ...
etc".
Olho para vós com imensa emoção.
E sinto, numa perspectiva global e certamente
superficial, na vossa presença, sentimentos de dever social, dever profissional,
dedicação, amizade, amor...
Mas vejo sobretudo Amigos, que vieram prestar-me
uma imerecida homenagem. Eu não sou mais, nem fiz mais do que qualquer um de vós. Fiz
talvez diferente. Todos fazemos diferente. Um Homem vai-se fazendo, qualquer actividade
faz-se a si própria, enquanto o Homem realiza e se realiza.
Enquanto escrevia estas palavras, ia pensando que
neste momento eu estaria aqui, assim como que a dar respostas, antes de serem feitas as
perguntas. E agora sinto-me como um aluno que, num exame, sem estar preparado, ao ler o
enunciado dum teste de Endocrinologia diz: - "Estou perdido!"
Este teste é bem mais difícil...
Vejo nos vossos olhos, sinto no vosso respirar
uma expectativa a que eu não saberei decerto corresponder. É que a tentação, nestas
coisas da palavra, é querer meter lá tudo. Só que não cabe. E além disso, meus
amigos, às vezes as coisas interessantes que temos para dizer... não são coisas que se
digam...
Não sei se hei-de começar por me apresentar na
minha relação com a vida, essa estrada que se vai percorrendo sabe-se lá até onde e
até quando, se na minha relação com a Medicina duma forma geral e, aqui, incluindo
naturalmente a Docência e a sub-especialidade médica a que me dediquei - a
Aterosclerose.
É que o entrosamento entre elas, a estrada da
vida e a Medicina, é de tal forma, que não há hipótese de perceber onde começa uma e
acaba a outra, e qual a maior ou menor importância de cada uma. Não há dúvida que, na
minha vida, cabem demais as outras, até porque na vida, melhor ou pior, tudo tem que,
imperiosamente, ir cabendo...
É por isso que eu às vezes me lembro de ter
lido algures que a nossa vida é como um queijo gruyère - tem muitos buracos, tem muitos
nadas...
Como sou relativamente indiferente à política,
sem interesse pelas "grandes causas", aquelas que, geralmente, são aproveitadas
demagogicamente por alguns e acabam por se transformar em pequenas, ou nenhuma causa, lá
vim preenchendo esses buracos do queijo gruyère, que também sou, com a sensibilidade
pelas verdades quotidianas, mesmo triviais.
Mas isto é afinal, ou não é, uma Lição, uma Última
Lição?
Ora bem: Lição significará, segundo o
dicionário, exposição didáctica, oral, de determinado assunto ou matéria, feita por
um Mestre perante um Auditório, para instrução deste".
Mas eu estou aqui, agora, para instruir, ensinar,
quem? E como?
Não, não vim para ensinar nada, meus Amigos.
Vim, uma vez mais, para aprender, aprender
com o vosso exemplo de solidariedade e amizade.
Penso sobretudo que neste universo tão
diversificado, tanto em termos profissionais como afectivos, a descrição pormenorizada e
certamente fastidiosa do meu Curriculum será desnecessária. Reparem:
Os meus Mestres foram obrigados a lê-lo para me
examinar. Os meus Pares na Universidade, os meus Colegas no Hospital, os meus
Colaboradores em toda a sua extensão e diversidade, nomeadamente geográfica, sabem onde
procurar algum fruto do trabalho em que sempre me empenhei, sobretudo no campo da doença
vascular... e os que não sabem... bom, esses certamente adivinham, ou ouviram dizer.
Por último, e aqui, como muitas vezes, os
últimos são os primeiros, os Doentes não leram, nem precisam de conhecer o meu
Curriculum. Até porque nele pouco se fala daquilo que eu mais privilegio nas minhas
funções de Médico - a relação médico/doente, a importância do Outro,
como entidade una, que vem até nós, médicos, cheio de esperança numa palavra de
confiança, neste saber milenar...
Portanto, nada de pormenores curriculares.
Também não terá sentido uma Lição Académica
porque a última do programa já a dei no dia 7, aos alunos.
Farei então um Discurso?
Na realidade... o Discurso mais verdadeiro
é o discurso paradoxal do mundo O Homem, para crescer, quando crescer significa ter
força para enfrentar as dificuldades e ultrapassar as frustrações, dizia eu, o Homem
para crescer precisa, antes de mais, de conhecer o valor dos paradoxos da existência,
isto é, dos seus próprios paradoxos.
Perde-se algo, adquire-se algo. Tranquilidade,
bem estar, por exemplo.
É por isso que é tão importante fazermos o
luto definitivo (que mais definitivo que a morte) de algumas penas (pesadas, quase
sempre), de outros tantos sonhos, de muitas fantasias...
Fazer o luto de alguém ou de alguma coisa é
extremamente duro, é perder algo que fazia parte de nós, é isso, é perder.
O Homem não gosta de perder. Seja o que for. Nem
o porta-chaves ou um simples papel onde tinha escrito um número de telefone. Até quando
joga... nem que seja a feijões.
O que dizer da perda de algo que se construiu ao
longo dos anos e que poderá transformar-se lentamente em nuvem, prado, estrela, sonho,
quimera, mito?
Fazer o luto, assim, é mesmo, mesmo doloroso.
Fazer qualquer luto, perder um pouco de nós
próprios, é rasgar a alma, devagar, deliberadamente, sem pressas, ver o sangue-desgosto
a esvair-se, um pouco-muito de nós, uma fatia da nossa vida...
E esse espaço fica vazio?
Não, daí o paradoxo humano: perde-se algo,
adquire-se algo.
Mas voltemos à vida, essa estrada que neste
momento percorro convosco. A vida não é mais do que uma sucessão de pequenas coisas.
Por isso é que de pequenas coisas se constrói o amor, a amizade, o respeito, a
dedicação.
Só que também são as pequenas coisas que
destroem todos esses valores.

Ocorreu-me então que certas pequenas coisas da
minha vida profissional e humana (nunca uma desligada da outra) talvez pudessem
interessar-vos mais.
Deixem-me recordar e tirar do fundo da minha
memória, alguns retalhos da minha vida. Começarei pela minha vida académica:
Naquele tempo, no meu tempo de aluno da nossa
Universidade, o primeiro ano do curso de Medicina era o chamado FQN (Física, Química,
Naturais) e o primeiro exame que fiz foi Fisico-Química com os Professores Sampaio e
Viana de Lemos como examinadores. Estava muito bem preparado para esta Cadeira, porque
pretendera cursar Engenharia e o meu ingresso em Medicina devera-se a um triste
acontecimento - a morte inesperada e prematura de minha Mãe.
Acontece que, não obstante ter demonstrado o
teorema de Carnot, que o Professor Sampaio dissera só perguntar a quem estivesse a fazer
exame para mais de 18 valores, o Professor Viana de Lemos queria chumbar-me por eu não
saber, unicamente, o método electrométrico da determinação do pH.
Nesse tempo estudante sofria...
Em 1956, no meu 5º ano médico, fui uma
espécie de administrador sem salário de várias "Empresas": Vice-Presidente da
Direcção Geral da Associação Académica, Presidente da Comissão Central da Queima das
Fitas, Presidente da Tuna Académica da Universidade de Coimbra e fiz parte de vários
outros agrupamentos musicais académicos, tendo sido várias vezes encarregado de tratar,
em Lisboa, de assuntos de interesse para o Curso, nomeadamente tentar a revogação da
obrigatoriedade da Tese de Licenciatura.
Era então Ministro da Educação Nacional o
Professor Leite Pinto. Como, mercê de tanto cargo directivo, eu me deslocava
frequentemente ao seu Ministério, era vulgar Leite Pinto começar as reuniões,
indagando: "- Então, Polybio, hoje na qualidade de quê?"
Certa vez, a pequenez do gabinete em que fomos
recebidos para tratar de assuntos relacionados com o Curso, obrigou-me a partilhar com Sua
Excelência um acanhado sofá que me impôs um constante "bailado nadegal" a
cada movimento do Senhor Ministro; à saída, à pergunta do Rocha Alves: "- Então,
Polybio, como decorreu a entrevista?" Eu respondi: "- Ó pá, tu já sabes que
eu, com os Ministros, sou "cu" cá "cu" lá!"
Curiosamente, neste ano de tanta actividade
académica, o que mostra que quanto mais coisas temos para fazer, de mais tempo dispomos,
consegui elevar a minha média 2 valores.
Logo após a Licenciatura, exerci clínica no
Tramagal e nas Minas da Panasqueira. Mais tarde abandonei a clínica rural, iniciando um
período de trabalho, como médico tirocinante, no Laboratório de Radioisótopos da
Faculdade de Medicina de Coimbra.
A remuneração auferida por semelhante trabalho
era choruda. Paga através de cheque, generosamente preenchido pelo Professor Vaz Serra, e
correspondente ao ordenado duma auxiliar de limpeza, cheque que, irmãmente, eu dividia
com o colega Manuel do O' Gomes Pepe.
Pelo menos chegava, bem poupadinho, claro, para
os transportes ou para as "bicas"...
E, por último, acerca da falta de condições de
trabalho que então se vivia no Hospital Velho, vou ler-vos um texto que eu escrevi e que
o Enfermeiro Alberto Mourão incluiu no livro "Crónica dos Hospitais da Universidade
de Coimbra". É um texto naturalmente irónico, pois sempre tive para mim que a
ironia poderá ser uma forma de tomar as coisas feias... ao menos divertidas.
"O Gabinete
Lá fui parar à 2a M.M. e M.H., Serviço com
pergaminhos a defender, dados os Directores que me haviam antecedido.
Era uma Enfermaria em T, em que o braço maior
era ocupado pelos homens e o menor pelas mulheres. Ao longo do dos homens um estreito
corredor que desembocava no das mulheres. O espaço ocupado por estas era uma acanhada
sala única, enquanto que o ocupado por aqueles era compartimentado com separadores de
vidro martelado.
A meio do sector de homens, três únicos e mal
cheirosos buracos que, orgulhosamente, aceitavam os rótulos de W.C. de homens, mulheres e
pessoal. Em frente, a Copa!!! E tudo isto partilhado pela Endocrinologia!
Uma primeira inspecção mostrou-me logo as
muitas carências de que todos falavam e mais aquela a que ninguém se referia: não havia
Gabinete para o Director dos Serviços!
Como o tempo não era de reivindicações, com a
tomada de posse começaram, sim, as lamentações: - porque o Gabinete era
imprescindível, porque havia muita papelada que corria o risco de se extraviar, porque
era uma vergonha receber no corredor da Enfermaria quem desejava falar com o Director,
enfim, porque torna e porque deixa...! A resposta, sempre a mesma interrogação: - fazer
o Gabinete onde, se não havia espaço sequer para umas semidignas casas de banho?
Até que se fez luz no cérebro de alguém que
alvitrou: - que diabo, a Enfermaria tem uma pequena superfície mas uma grande cubicagem;
reparem no enorme pé direito! E se já as arrumações aqui são feitas em regime de
tecto intermediário, porque não arrumar o Director em Gabinete semelhante, tipo
"Jardim Suspenso"?
E, se bem pensado melhor feito.
Obras, balbúrdia, em pleno coração duma
Enfermaria decrépita.
Terminadas as obras olhei-as, cá de baixo, com
uma dupla sensação: a do Maestro que vai trepar ao Coreto para reger a Banda, e a do
Padre Cura que sobe ao púlpito para a homília dominical!
Rejubilei: - já tenho um Gabinete, à
"altura"!
A vida continuou na Enfermaria, agora com o
matinal exercício físico da minha ascensão à "Casa lacustre". Com o credo na
boca, não fosse aquilo tudo cair, lá subia a escada encaracolada, abria a porta em tom
discreto e dizia sempre: - senhor tecto... por favor deixe-me entrar!
E já dentro do meu Gabinete, com muita atenção
ao tecto que, carinhosamente, afagava os meus cabelos e mais atenção ainda ao soalho
que, com o resultado último da alimentação dos gatos que comigo co-habitavam, se
tornava escorregadio, meio sufocado pelo irrespirável ambiente bafiento, então
vaidosamente espreitava pela fresta que me permitia deleitar a vista pelos meus domínios
e facilmente me aperceber se a injecção endovenosa era dada, de facto, na veia e se o
enteroclitor era carinhosamente introduzido.
Era como se de helicóptero fizesse a visita à
Enfermaria. Afinal, muito adiantado no tempo!"
Já vos disse então alguma coisa do que fiz e do
que sou.
Afinal, eu sou apenas um Homem. Como diz Gaarder,
o importante é a existência do indivíduo. Só quando agimos - e sobretudo quando
fazemos uma escolha importante - agimos em relação à nossa existência.
Também não é indiferente o que pensamos ou
aquilo em que acreditamos. As verdades realmente importantes são pessoais. Só essas
verdades são "verdades para mim".
Não podemos, por exemplo, saber se alguém gosta
de nós. Podemos é acreditar ou esperar que goste. No entanto, isso é mais importante
para nós do que saber que o quadrado da hipotenusa é igual à soma do quadrado dos
catetos, ou que 8x4 são 32.
Entretanto, como numa sessão de magia em que o
mágico não tira o coelho do chapéu, vocês interrogam-se: "-Isto"... a
Última Lição?
Então voltemos a esta coisa da Última
(Lição, claro).
Ora bem: "Último", no
dicionário (como vêem parece ter sido ultimamente o meu livro de cabeceira), poderá ter
valores semânticos absolutamente contraditórios. Tanto pode ser o mais moderno e recente
em termos cronológicos, o mais recente duma série, de uma classe, como pode ser o que
está situado ou colocado depois de todos os outros, o fim, o remate duma série (uma
grande série, diga-se de passagem). Juro-vos que isto não estava no dicionário, o que
considero, aliás, uma grande falha.
Enfim, o português é muito traiçoeiro, não é
verdade?
E digo-vos mais: Esta não é a minha última
vontade nem o meu último suspiro.
À última hora, e em última
análise, e também em última instância porque não me considero nas últimas,
uma última palavra, ou seja, a Última Lição que
esperavam. Primeiro, naturalmente, o SUMÁRIO: