Refletir também é agir !
Como
mesmo aponta Benn Ake, um bom exemplo do formato diverso que o discurso
neo-nazista pode vir a tomar é a página de
DavidDuke.com. Nada sangrenta, nada violenta e nada
incendiária, pelo menos, aparentemente. Pelo contrário, seu discurso se inicia
pelo caminho oposto, o título: "Teaching Tolerance: A Teacher's Guide to
Understanding and Correcting Racial Hatred in the Classroom." ( Ensinado a tolerância: Um guia para
professores entenderem e corrigirem ódio racial dentro da sala de aula ). Sua
visão, entretanto, não incluí o discurso sobre ‘igualdade da diversidade’ ou
‘igualdade racial e étnica’ conceitos essenciais à base dos direitos humanos (
no que se refere à igualdade de todos
os homens devido à sua qualidade de humanos). Contrário a isso, Duke apóia o
que ele chama de “White Revolution” que deve pôr um fim na idéia de multiculturalismo
e fazer com que a segregação seja a base da ordem social. Duke é um ex-líder da
Ku Klux Klan e ex-deputado de Lousiana. Um homem extremamente
inteligente pregando a segregação racial, o anti-semitismo, a homofobia, o
racismo por meio da internet e
ignorando por completo a declaração dos direitos humanos.
Entretanto, Duke não
está sozinho, junto à ele, uma legião de neonazista se organizam dentro da
internet, da mesma forma ou , na maioria das vezes, de maneira bem mais direta
e menos elaborada. Por outro lado, Duke exerce seu direito de liberdade de
expressão também garantido por lei e não qualifica seu site como um incentivo
para a disseminação do neonazismo. Apenas o caracteriza como uma expressão política. Obviamente que Duke
não apela para determinados instrumentos (como milhares de sites neonazistas,
que chegam ao cúmulo de expor fotos de pessoas negras sendo linchadas ou
baleadas, ou sites voltados para disseminação da idéia da supremacia branca em
crianças por meio de jogos interativos, livros para colorir ( de branco!) e até
histórias infantis especiais. Em um desses site pode-se encontrar a imagem de
Matthew Shepard, um estudante norte-americano que foi morto pois era
homossexual, queimando no inferno.) e isso faz com que a ameaça que o trabalho
de Duke representa se encontre exatamente nessa camuflagem. Então como
identificar um site de ideologia neonazista? Eta tarefa árdua!! Sites também
chamados de ‘Hate sites’, de acordo com
Benn Ake, são geralmente identificados como tais pois ofendem, ameaçam, insultam, isolam ou desfavorecem
grupos baseando-se em critérios como raça, religião, nacionalidade, etnia ou
orientação sexual.
Mas
se pensarmos em meras ideologias, que direito temos de limitar (ou sonhar em
faze-lo) a liberdade de expressão desses que exprimem suas diferentes idéias na
internet? Realmente não podemos esquecer sobre a famosa liberdade de expressão,
sobre a qual várias considerações podem ser feitas. E a primeira deixarei a
cargo de um dos maiores movimentos defensores da não censura na internet:
‘Human
Rights Watch’
http://www.oneworld.org/news/partner_news/hrw/hrw2.htm ( nessa mesma página ) coloca uma
importantíssima observação em relação á única forma de censura que acreditam
que deva via existir na internet:
“
É indispensável que toda e qualquer restrição a material de conteúdo seja
prevista na lei de alguma forma que se limite
a se dirigir à e prevenir apenas incitamentos de ato(s) de violência.”
Obviamente
essa observação no relembra de que incitar a violência, incitar um crime, caso seja reconhecido como algo proposital,
também torna-se um crime. E é baseando-se nisso que David Duke nega rapidamente
que sua página incite qualquer ato violento, discriminação, etc. Não há dúvidas
de que à medida em que ele nega a ‘igualdade humana’ já citada e faz propaganda
da segregação racial, ele incita a discriminação. Entretanto, muitas pessoas
ainda questionam até onde vai a eficácia de uma propaganda, e qual a relação
real das páginas neonazistas na internet com os crimes de mesmo fundo cometidos
atualmente. Até onde a existência de chats, sites, mailing lists e e-groups que
pregam a violência têm papel decisivo na execução da mesma. E o livre arbítrio
dos cidadãos? Bom, esteja ele onde estiver, ele parece não estar funcionando em
parceria com o bom senso ultimamente.
Em um site sobre a arte da propaganda
(contendo análises da mesma)
http://carmen.artsci.washington.edu/propaganda/home.htm
Assim
dizendo, se a propaganda é eficaz e hoje , principalmente, é até bitolante, por
que então permitir a propaganda de crimes e assim a incitação dos mesmos na
internet? Entramos aqui então em 2 questões: a prática ( puramente prática no
sentido de que a internet, diferente de outros meios, não pode ser controlada
tão facilmente, se é que pode ser controlada de alguma forma) e a filosófica (
o que exatamente significa limitar, para nós, os sites na internet?). Primeiro
a prática:
* O
que têm se visto em ação são os inteligentes filtros, que selecionam sites a serem visitados. Esses filtros, em sua
maioria, são estabelecidos pelos ISPs ( Internet Service Providers- grandes
servidores e ‘anfitriões’ de sites) mas
há inúmeros outros que podem ser acionados por quem navega, feitos
principalmente, para serem usados pelos pais de quem navega.Uma idéia
inicialmente proposta por Rabi Abraham Cooper e que já tem sido posta em
prática, é o encorajamento do descarte de sites (gatekeeping), que trazem essa ideologia neonazista, pelos
próprios ISPs . Inegável entretanto, o poder que se delega a esses ‘órgãos’! E
qual seria a garantia de que não se faria abuso desse poder? Nenhuma, como em
todos os outros meios de comunicação. Terceiros decidindo o que podemos ver ou
ler ou saber não é novidade alguma, mas a internet parece conter essa promessa
tentadora da democracia dos meios de comunicação, e uma vez a possibilidade de
total liberdade de acesso à informação, temos realmente que pensar no preço
disso. Se é nossa prioridade a liberdade, refletindo no fato de que o acesso
livre à qualquer informação , implica, no cyberespaço, automaticamente à
liberdade da propagação de qualquer espécie de mensagem., o que fazer então
para que crimes aos quais temos assistidos não aumentem , mas decaiam? A
resposta ainda está para nascer ou estamos sendo utópicos demais ao querer que
a internet supra problemas que nenhum outro meio de comunicação jamais
conseguiu? A idéia de Cooper segue uma boa lógica legal. Quando algum processo
de difamação , ofensas, racismo, abuso infantil, etc, é movido com base em um
material impróprio na internet, o ISP é que tem que responder por sua página.
Nesse ponto, nada mais justo que ele escolha o que exatamente entra e permanece
em sua ‘casa’. Logo, por uma perspectiva prática, duas conclusões podem ser
tiradas:
1-
tecnologicamente falando, lei ou boa vontade nenhuma
manteria páginas e informações sem acesso algum na internet, ou seja, uma
censura completa não chega nem perto de ser possivelmente efetivada atualmente,
por questões técnicas do meio; e pelo jeito, isso durará muito tempo. (Fica
claro aqui a impossibilidade lógica de se pensar em uma censura completa em
qualquer momento, e isso sem mencionar as possíveis conseqüências que isso
poderia acarretar, se fosse possível e posto em prática; na medida em que ‘silenciar’
um meio depois que muito já foi dito, nos traria más memórias sobre momentos
históricos extremamente repressores, como os próprios governos fascistas ou
nazistas e assim surpreendentes reações. Exemplo claro de como isso seria grave
e alarmante, são os atentados, agressões e ameaças feitas a jornalistas e
escritores que se expuseram a criticar neonazistas e hoje fogem diariamente
desses mesmos grupos. É a aclamada‘liberdade de expressão’ censurando a
‘expressão da liberdade’, ou melhor, silenciando-a.
2- Filtros são lindos, necessários, mas não resolvem. Precisamos de mais. Fica a sugestão melhorzinha de Cooper, que muito elogia também o contra discurso ( combate do neonazismo na internet através do discurso anti-neonazista, ‘olho por olho, página por página... ’) mas não se esquece de alertar que a sua eficácia se limita ao perfil de cyberusuário que realmente navega em vários mares e bem reconhece vários discursos – mesmo disfarçados como o de Duke - , o que não se encaixa no perfil da maioria dos neonazistas que vêm cometendo crimes horrendos. Então a censura gradual ainda fica melhor proposta com a idéia de Cooper, mas mesmo assim fica a quilômetros de resolver nossos problemas.
E a questão filosófica:
* Quando pensamos na questão da efetivação da censura na
internet, pensamos também na nossa auto- censura, pois estaremos fechando
‘portais’ não só para quem expõe, como para quem vê. Daí a importância de
identificarmos a nossa prioridade. Informações a preço de banana, bomba atômica
Faça Fácil e portas escuras, mas
abertas para entrarmos quando quisermos; ou dificultar nossas pesquisas e
limitar a expressão geral, para assim
tentar evitar que pessoas façam barbaridades diante da falta de julgamento ou
bom senso ? Seja qual for a nossa escolha, a gente sai perdendo e nem sabe
direito o que pode vir a ganhar....
A proposta é refletir, de todos os lados, assim a
discussão leva-nos para algum lugar. Deixo-os então, com uma frase muito sábia
(e tendenciosa quando se trata desse tópico acima deferido) , mas a sabedoria
popular está sempre a me encantar e , infelizmente, também a me assustar:
“ O meu direito de balançar o braço acaba quando o meu punho atinge o seu nariz.”
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