Censura ?

 

Gueixas ocidentais

 

        “Três quartos do universo podem considerar agradável o cheiro de uma rosa, sem que isso possa servir de prova, nem para condenar o outro quarto que poderá acha-lo desagradável, nem para provar que esse odor é verdadeiramente agradável.”

 Mário Cesariny, introdução a uma obra de Sade.

        A censura vem acompanhando a história do homem desde os primórdios dos tempos, castrando o conhecimento e o direito de acesso à informação que seria delegada ao povo. Temos infinitos exemplos de censura que atrasaram o desenvolvimento científico cultural social, etc. Tomaremos a Igreja como pretexto para essa interminável discussão: A Igreja censurou Aristóteles. Teria alguém o direito de privar a humanidade de Aristóteles? Quantos outros grandes ‘Aristóteles’ não sucumbiram no fogo sacro da ignorância, e sem deixar uma vírgula sequer do que ainda não descobrimos?
   
     Não cabe aqui um tratado sobre a censura, pois a questão é única e simples: Quem tem o direito de censurar quem?            Censurar é coibir uma forma de pensamento diferente (ou conflitante) da de quem censura. Partindo disso devemos discutir o que é o certo. Existe o ‘certo’? Mas antes de tentar responder a essa pergunta discutiremos o que é a liberdade. Aristóteles propôs um conceito individual de liberdade, onde o indivíduo é livre tendo em si mesmo o princípio para agir ou não agir, inexistindo constrangimentos internos e externos. Marx diria que a liberdade está na atividade do todo, do qual todos os indivíduos são partes, e por conseqüência cria-se leis e normas necessárias para suas partes. Assim vemos duas formas de liberdade: a liberdade individual, e a coletiva, e que apesar de toda a ambigüidade se completam, pois não existem indivíduos isolados e tampouco sociedade sem indivíduos. Na verdade o ‘certo’ é a própria liberdade, independente de qual seja ela. E o ‘errado’ é a ausência dessa. Individualmente, agir certo, é agir sem auto-censura. E coletivamente, é agir sem ser censurado.
   
    Mas por que existe essa censura (interna e externa)? Puramente por uma questão moral. A censura interna é uma reflexão da censura externa. Citemos o exemplo: Quando uma criança chora, a mãe a repreende. Internamente, a criança aprende que é ‘errado’ chorar. Quando adulta, essa criança já tem implantado em sua formação uma moral social que a censura de tal ato. Vemos que a censura interna somente existiu após a influência da censura externa. A moral (o certo coletivo) nada mais é do que limites impostos para a contenção de, talvez, uma ‘anarquia pandemônica’, não restrita à política. Mas seria ‘errado’ essa anarquia? Como no exemplo da criança, essa moral ou  o ‘certo coletivo’ foi-nos implantada, passando a fazer parte do indivíduo, que dificilmente aceitaria algo que ferisse sua moral, como tal anarquia. Vemos então que a moral é algo criado pelo homem, que pode ser recriado, ou até mesmo estar ‘errado’. E mesmo a própria Igreja já viveu seus conflitos, e alterou seus princípios morais ao longo da história.
   
     Chegamos em um ponto em que a palavra censura não é capaz de especificar. Tomaremos então dois tipos: a censura social, e o órgão censor. A primeira reflete toda a discussão da moral coletiva antes relatada. E a segunda, o órgão censor, é a ‘censura’, discutida nesse trabalho, propriamente dita. O órgão censor teoricamente é o executor para o cumprimento da censura social. E por que teoricamente? Não por ele não executar o seu papel, mas por representar algo além da censura social, a própria moral do censor que pode diferir da coletiva. Daí o absurdo da censura, tanto social, pela incerteza da moral, como o órgão censor, pelo excesso de poder.
   
     Através de tantos argumentos, talvez simplórios, propomos o questionamento do leitor dos próprios valores. Batalhamos para manter valores que nem mesmo sabemos a ‘verdade’, somente os aceitamos. Valores cristãos de que ‘roubar é errado’ se contrapõem à mesmo idéia na visão dos bárbaros de que roubar é só mais um meio. A pergunta é: Ao considerarmos algumas idéias absurdas e erradas, quem nos garante que a nossa própria moral ou cultura é que não está errada? Pode parecer absurdo (olhamos pela ‘nossa’ moral) mas estaria a Declaração Universal dos Direitos Humanos correta? Quem somos nós, ‘cristãos capitalistas ocidentais’, para criticarmos a cultura milenar japonesa que sempre considerou a mulher subjugada ao homem? Como disse o autor de “Sociedade dos Sonhos”, temos de vestir os ‘óculos’ da Antropologia Social para transformar o familiar em exótico, causando estranhamento e só assim conhecendo nossa própria cultura. Porém, aqui é mais extremo do que propõe o autor. Ultrapassamos os limites da Antropologia Social para um questionamento ainda maior, o da Filosofia. Cabe aqui simplesmente uma proposta: questionar.        
        Tomemos por um instante a ‘moral’ como correta. Mesmo dentro desse contexto, a censura ainda é absurda. Citemos:
   
     “Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber, e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e idéias por qualquer meio de expressão.”   - Artigo 19º da Declaração Universal dos direitos Humanos -
       
No caso da Internet, atualmente a mídia de maior abertura para a liberdade de expressão, não existe ainda um órgão de censura. É inviável devido à extensão da rede, grande circulação de informações e virtualidade dessa informação. Há também o entrave das legislações de cada país que devem ser respeitadas pelos demais, diferentes ou não. Existem, porém, formas repressoras, controladas por governos e provedores que censuram informações não condescendentes com a ‘moral’. Violam tanto o direito de expressão quanto o direito da informação. Caímos aí na velha questão: Quem tem o direito de censurar quem?
   
     Estaria, então, por exemplo, um neonazista ‘fora da moral’?

Refletir também é agir


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