Censura ?
Gueixas ocidentais
“Três quartos do universo podem considerar agradável
o cheiro de uma rosa, sem que isso possa servir de prova, nem para condenar o
outro quarto que poderá acha-lo desagradável, nem para provar que esse odor é
verdadeiramente agradável.”
Mário Cesariny, introdução a uma obra de
Sade.
A censura vem acompanhando a história do homem desde os primórdios dos tempos,
castrando o conhecimento e o direito de acesso à informação que seria delegada
ao povo. Temos infinitos exemplos de censura que atrasaram o desenvolvimento
científico cultural social, etc. Tomaremos a Igreja como pretexto para essa
interminável discussão: A Igreja censurou Aristóteles. Teria alguém o direito
de privar a humanidade de Aristóteles? Quantos outros grandes ‘Aristóteles’ não
sucumbiram no fogo sacro da ignorância, e sem deixar uma vírgula sequer do que
ainda não descobrimos?
Não cabe aqui um tratado sobre a censura, pois a
questão é única e simples: Quem tem o direito de censurar quem?
Mas por que existe essa censura (interna e externa)?
Puramente por uma questão moral. A censura interna é uma reflexão da censura
externa. Citemos o exemplo: Quando uma criança chora, a mãe a repreende.
Internamente, a criança aprende que é ‘errado’ chorar. Quando adulta, essa
criança já tem implantado em sua formação uma moral social que a censura de tal
ato. Vemos que a censura interna somente existiu após a influência da censura
externa. A moral (o certo coletivo) nada mais é do que limites impostos para a
contenção de, talvez, uma ‘anarquia pandemônica’, não restrita à política. Mas
seria ‘errado’ essa anarquia? Como no exemplo da criança, essa moral ou o ‘certo coletivo’ foi-nos implantada,
passando a fazer parte do indivíduo, que dificilmente aceitaria algo que
ferisse sua moral, como tal anarquia. Vemos então que a moral é algo criado
pelo homem, que pode ser recriado, ou até mesmo estar ‘errado’. E mesmo a
própria Igreja já viveu seus conflitos, e alterou seus princípios morais ao
longo da história.
Chegamos em um ponto em que a palavra censura não é
capaz de especificar. Tomaremos então dois tipos: a censura social, e o órgão
censor. A primeira reflete toda a discussão da moral coletiva antes relatada. E
a segunda, o órgão censor, é a ‘censura’, discutida nesse trabalho,
propriamente dita. O órgão censor teoricamente é o executor para o cumprimento
da censura social. E por que teoricamente? Não por ele não executar o seu
papel, mas por representar algo além da censura social, a própria moral do
censor que pode diferir da coletiva. Daí o absurdo da censura, tanto social,
pela incerteza da moral, como o órgão censor, pelo excesso de poder.
Através de tantos argumentos, talvez simplórios,
propomos o questionamento do leitor dos próprios valores. Batalhamos para
manter valores que nem mesmo sabemos a ‘verdade’, somente os aceitamos. Valores
cristãos de que ‘roubar é errado’ se contrapõem à mesmo idéia na visão dos bárbaros
de que roubar é só mais um meio. A pergunta é: Ao considerarmos algumas idéias
absurdas e erradas, quem nos garante que a nossa própria moral ou cultura é que
não está errada? Pode parecer absurdo (olhamos pela ‘nossa’ moral) mas estaria
a Declaração Universal dos Direitos Humanos correta? Quem somos nós, ‘cristãos
capitalistas ocidentais’, para criticarmos a cultura milenar japonesa que
sempre considerou a mulher subjugada ao homem? Como disse o autor de “Sociedade
dos Sonhos”, temos de vestir os ‘óculos’ da Antropologia Social para
transformar o familiar em exótico, causando estranhamento e só assim conhecendo
nossa própria cultura. Porém, aqui é mais extremo do que propõe o autor. Ultrapassamos
os limites da Antropologia Social para um questionamento ainda maior, o da Filosofia.
Cabe aqui simplesmente uma proposta: questionar.
Tomemos por um instante a ‘moral’ como correta.
Mesmo dentro desse contexto, a censura ainda é absurda. Citemos:
“Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião
e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas
opiniões e o de procurar, receber, e difundir, sem consideração de fronteiras,
informações e idéias por qualquer meio de expressão.”
No caso da Internet, atualmente a mídia de maior
abertura para a liberdade de expressão, não existe ainda um órgão de censura. É
inviável devido à extensão da rede, grande circulação de informações e
virtualidade dessa informação. Há também o entrave das legislações de cada país
que devem ser respeitadas pelos demais, diferentes ou não. Existem, porém,
formas repressoras, controladas por governos e provedores que censuram
informações não condescendentes com a ‘moral’. Violam tanto o direito de
expressão quanto o direito da informação. Caímos aí na velha questão: Quem tem
o direito de censurar quem?
Estaria, então, por exemplo, um neonazista ‘fora
da moral’?