I-
Pode-se pensar
a psicanálise contemporânea a partir da existência
de três paradigmas: o freudiano caracterizado pelo paradigma
pulsional, o kleiniano caracterizado pelo paradigma objetal,
e o lacaniano caracterizado pelo paradigma do Sujeito.
O termo sujeito, no entanto merece algumas precisões:
no Dicionário Aurélio aparece definido como ser
individual, real, que se considera como tendo qualidades ou praticado
ações. No Dicionário de filosofia de Oxford,
Sujeito aparece como sinônimo de Eu. No Vocabulário
técnico e crítico de filosofia de A. Lalande, Sujeito
aparece definido desde da lógica, da metafísica,
da psicologia, da sociologia, do direito e da filosofia.
O uso do termo Sujeito varia também dentro da filosofia.
Por exemplo para Heidegger Sujeito é uma categoria da
filosofia que se deve descontruir, para Marx a história
é um processo sem Sujeito, e portanto a noção
de Sujeito seria uma categoria da ideologia, já a fenomenologia
identifica Sujeito à consciência.
Pensado desde a psicanálise, constata-se que Freud não
utilizou o termo Sujeito, mas não foi alheio à
questão, e a abordou com outra terminologia, podendo-se
dizer que usou o termo Das Ich para se referir ao Sujeito da
experiência.
Em Lacan o termo Sujeito está presente desde seus primeiros
escritos, e no início seu uso equivale a "ser humano".
Depois Lacan diferencia o Sujeito da lógica, do Sujeito
gramatical, assim como difere o Sujeito de um Sujeito definido
apenas por oposição ao objeto. Lacan tambem diferencia
o Sujeito noético, gramatical, do Sujeito anônimo
e ambos do Sujeito cuja singularidade se define por um ato de
afirmação.
É a este Sujeito, entendido como o que se define por um
ato de afirmação, que Lacan diferencia do Eu. O
Eu é entendido como a sensação de um corpo
unificado, e na teoria do estádio do espelho, encontra-se
produzido desde o a imagem do outro.
Em diferença do Eu, o Sujeito decorre do Outro,(com maiúscula)
que é referência à linguagem enquanto efeito
da ordem simbólica. Por isso o Sujeito é consequencia
do significante, e está regido pelas leis do simbólico.
Para Lacan, portanto, a causa do Sujeito é a estrutura
do significante.
Para Lacan o Sujeito não é uma sensação
consciente, não é uma ilusão produzida pelo
Eu, senão que é insconsciente, e por isso não
é o agente da fala, mas é descentrado, acéfalo,
dividido, evanescente.
O Sujeito na psicanálise é explicitamente diferente
da consciência, portanto é um Sujeito não
fenomenológico, não é uma categoria normativa,
ele é uma categoria clinica, e não remete a uma
totalidade.
O Sujeito da psicanalise é o Sujeito do inconsciente,
e como o inconsciente está estruturado como linguagem,
o sujeito do inconsciente decorre do significante. O sujeito
é o que representa um significante para outro significante.
Devido ao fato do ser humano ser atravessado pela linguagem,
para o ser falante, sempre haverá Sujeito do inconsciente.
II-
O Sujeito do inconsciente testemunha a dependência do falante
à ordem simbólica que pré-existe à
sua constituição. A linguagem, como paradigma da
ordem simbolica depõe da relação do Sujeito
com o saber, constituindo a evidência empírica do
tratamento analítico o que foi nomeada como transferência.
Dai Lacan ter formalizado a transferência como um Sujeito
Suposto ao Saber .
Mas como os saberes mudam, pode-se então supor que o Sujeito
tambem muda. Dai Lacan rter insistido na existência de
um Sujeitoproprio à sua época, que ele chamou de
moderna. Lacan em Ciência e verdade , posicionado-se sobre
esta questão, utilizou a expressão "um certo
momento do Sujeito" como também, ainda referindo-se
ao Sujeito, falou de "um momento históricamente definido",
e ainda, em relação ao Sujeito, refere-se a "um
momento históricamente inaugural".
A razão desta possibilidade de temporalizar o sujeito,
está na afirmação de Lacan de que o Sujeito
está definido em relação ao saber. Como
o saber muda , o Sujeito também muda, causando o surgimento
de um Sujeito novo em função da nova relação
deste com o saber.
Para Lacan o Sujeito novo seria o Sujeito da ciência em
tanto fundamento da modernidade do Sujeito. Para Lacan o aparecimento
de um Sujeito que se poderia chamar de moderno, está historicamente
localizado a partir da publicação das Meditações
metafísicas de Descartes , que com a operação
do Cogito teria produzido este Sujeito novo.
Situar o Sujeito moderno como decorrente da operação
Cartesiana, é centraliza-lo em relação à
uma razão objetiva. Este sujeito "reflexivo",
seria moderno por diferir de um anterior, cuja característica
seria a de ser centro do conhecimento.
Para Lacan o Sujeito cartesiano é o pressuposto da noção
de inconsciente, pois a psicanálise, tal qual Descartes,
parte do fundamento do sujeito da certeza, ou seja o Sujeito
pode ter certeza de si desde que se possa destacar no seu discurso
dúvidas que aparecem como reveladoras de um Sujeito dividido.
O lugar do "eu penso" é para Freud independente
do "Eu sou".
Para Lacan, um dos temas que caracteriza o pensamento moderno,
é a idéia de um personagem vivendo só em
uma ilha deserta, e mencionando Robinson Crusoé, sugere
que esta idéia representa o começo da era moderna,
pois seria fundamental para o homem moderno poder afirmar sua
independência, e autonomia em relação a todo
amo e a todo Deus.
Lacan faz referência ao homem moderno relacionado-o ao
discurso da liberdade, da mesma maneira que faz referencia à
uma ciência moderna, que segundo ele se caracterizaria
pela eliminação do simbolismo religioso dos céus,
o que possibilitou estabelecer os fundamentos da física
atual.
Para Lacan foi Descartes quem através de seu Cogito fundou
o Sujeito moderno. Caberia então a pergunta: há
um Sujeito que seja atual, produzido por um saber novo compartido
nos dias de hoje?
Levando-se em consideração a articulação
entre Sujeito e história, para alguns autores haveria
um Sujeito pós-moderno decorrente da mudança de
saber ocorrida neste século, pois a partir da teoria quântica,
da teoria da relatividade de Eistein, da desmonstração
da incompletude de qualquer sistema feita por Goedel, da teoria
dos tranfinitos de Cantor, da lógica paraconsistente de
Newton da Costa, da teoria das catastrofes de Reneè Thom,
para o saber compartido socialmente, tornou-se comum e aceitável
a idéia da incerteza, de incompletude, da improbabilidade
do provável e da probabilidade do improvável, caracterizando
o que se veio a chamar de Nova Ciência. Esta nova maneira
de pensar rompeu com os paradigmas Newtonianos de uma certeza
calculavel e demostravel, modificando os fundamentos do saber
conteporâneo.
E por não ser mais um Sujeito que se refira a um saber
unificado, o sujeito pós-moderno seria um sujeito sem
paradigmas de consenso, como por exemplo ocorre em relação
às mudança dos costumes sexuais, ou em relação
às mudanças ideológicas, fazendo do Sujeito
pós-moderno um Sujeito que sofre da ausência de
ideais preestabelecidos.
III-
Talvez por tudo isto, um último destino para a noção
de Sujeito surgiu atualmente no campo do saber, que é
sua desconstrução ( Derrida) fundando um novo momento
na filosofia, a que se chamou de "pós-estruturalismo"
, momento este é apresentado como a morte do sujeito.
A possibilidade da inexistência de sujeito, teria inaugurado,
segundo alguns autores, o que se pode chamar de subjetividade
pós-moderna, questão que, levando-se em conta que
existe uma articulação entre sujeito e historia,
permite perguntar: como situar a responsabilidade deste novo
Sujeito no mundo moderno? Em que a psicanálise pode contribuir
para modificar as formas contemporâneas do mal estar na
cultura?
Lacan no texto Função da psicanálise em
criminologia, aproximou a psicanálise do Direito, ao correlacionar
as duas com a produção de uma verdade. Neste texto
Lacan mostra que o que se chama de Eu nao pode ser uma mera referência
às funções psicológicas da consciência,
mas sim deve indagar como o Sujeito pode se aproximar da verdade.
Através do paralelo com a confissão (admissão
de culpa), comum tanto ao direito como à psicanálise,
Lacan chama a atenção que importante não
é a confissão mas o reconhecimento ( da verdade).
Neste ponto Lacan sugere que para se saber o que é um
Sujeito, para saber como ele se reconhece em seu ato, seria pela
prática das ficções jurídicas, de
seu manejo, de sua teoria, que poderiamos apreender algo sobre
a estruturação do Sujeito (em relação
à veradade).
O que se trata então, não é da existência
ou não de um Sujeito, pois para a psicanálise o
sujeito é evanescente, ele é apenas efeito do significante.
Porém a existencia do significante não pode ser
negada e por isso, para a psicanálise, o Sujeito é
um Hypokaimenon, ou seja não tem substância, pois
depende do significante.
Dai a necessidade de Lacan introduzir o conceito de Parlêtre,
(este sim substacial no sentido de ousia) conceito que, ao articular
o corpo com o significante, torna possivel tomar-se a verdade
como causa material, ou seja no verdadeiro trata-se de reconhecer
( não confessar) o gozo, conceito que passa a ser a chave
para a verdade do Sujeito.
Podemos então concordar com Tercio quando levanta a possibilidade
do Sujeito ser uma invenção do analista, e existir
só virtualmente (idealmente).( Há autores que afirmam
que o inconsciente só existe na relação
analítica). Porém o gozo não é virtual
e não ganha significancia somente a partir do analista,
pois o gozo é um real que inscreve o efeitos da palavra
no corpo.
Por isto o analista entenderá sua época a partir
dos novos semblantes que servem para distribuir o gozo, sendo
que aparentemente existe uma tendência de procurar o gozo
sem que haja a mediação do Ideal, o que caracterizaria
a tendência da subjetividade moderna.
Resumindo, para a psicanálise, o Sujeito é sempre
responsável. Porém é responsável
pela verdade. Verdade esta indicada pelo seus modos de gozo.
Seria exagerado concluir que, para a psicanálise, somos
sempre responsáveis, e não há inimputabilidade?
A posição de Lacan sempre foi clara, tendo afirmado,
no texto Ciência e Verdade: "...somos sempre responsáveis
da nossa posição de sujeito. Que isto se chame,
onde quiserem terrorismo".
Marcio
Peter de Souza Leite é Médico, Psiquiatra, Psicanalista,
Diretor-Geral da Escola Brasileira de Psicanalise-SP, Diretor
do Instituto de Pesquisa em Psicanálise de SP, autor dos
livros: Psicanálise Lacaniana, ed Iluminuras, SP, 2000,
o Deus odioso, o Diabo amoroso, ed Escuta , SP, 1996
O texto
"A Verdade como Sujeito do Gozo" foi extraído
da Carta de São Paulo de agosto/2000.