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O Beijo da Lua

Amarraste-me ao mundo. Prendeste-me as mãos a teu belo prazer. Padece a carne nas mãos da noite.
Fixo os olhos no teu manto cintilante, com os pulsos rasgados pela dor de não me libertar do teu olhar. Acaricias-me o rosto, tocando levemente os olhos, cegando a vista natural dos
sonhos. Prendes-me o desejo enchendo a noite com o teu perfume.
Cai o teu manto sobre mim e agoniza-se o sonho, eleva-se o corpo em contradição
com o solo que me segura. A tua pele clara, que se enche de luz e eu, de olhos vendados, toco o teu rosto. Não reconheço os contornos da tua boca, mas relembro o toque molhado dos teus lábios.
Os sonhos que me passam pela mente, este sabor a noite que senti a cada aparição tua, o amargo na boca pela escuridão em que te envolves. Sei onde estás, mas não
te encontro sem fechar os olhos e abrir o coração. Sabe a mar cada beijo teu, forçados, arrancados sem que te permita tal acto. Violas em cada beijo, enches-me a alma de sal, de sonhos.
A carne que se agarra à terra, os pulsos que se contorcem, que sangram, as forcas que faltam…. E deixo-me ir, levado por ti. És tu quem comandas, quem me leva para
longe daqui sem que eu queira ir, com o maior desejo de partir.
Por mais que me defenda, o teu manto envolve-me desnudando o teu corpo,
reflectindo-se nas rochas para que lá fique gravado o seu contorno, as suas formas. Iluminando o mar num tom de prata guiando o meu corpo no teu encontro, como um
navio na tempestade à procura do porto, da praia, de casa.
De negro te vestes para na noite te despires, para na noite lançares as tuas
armadilhas a cada raio do teu olhar, em cada canto do meu mar. Em cada onda, em espuma de sentimentos que nos envolvem e nos deixam os corpos ir mais além.
Para que se toquem, se transmitam, projectando no ar ondas de desejo.
Os corações que batem apressados, ligeiramente apertados pela emoção. Sente-se
o ar quente que emana do teu corpo. Em pequenos rastos no céu ficam, cintilantes, pedaços do pecado que se atira suicidamente para a terra, como numa conquista das almas.
O mar que espelha a tua alma, que me enfeitiça os sentidos, que me percorre... e o sal que sai pelos poros do corpo. Enxagua a alma a cada beijo roubado a um sonho
azul do escuro do céu, num sonho de amor.
O sol da manhã irá surpreender os nossos corpos, abraçados, num beijo da paixão...
contigo namorando o meu coração, contando ao mundo que o pescador foi beijado pela lua.
Poeta das Marés
13 de Janeiro de 2004
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