Sad Cat

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A Ana das três personagens

A Grande Diagonal

A Sombra

Amo-te

Carta à Fada

Confesso

Farol

Gelo

Lisboa

Pseudo Poema

Sopa de feijão

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Os poetas do canal

 

Sad Cat! Os Poemas...

 

A Ana das três personagens

Olha para a montra
o seu reflexo
corrige a tua aparência.
Raciocina uma lista branca pontuada de reflexos correctos.
"pormenores com estilo"
Um castelo bem montado de linhas sem palavras semelhantes.

Marca tudo e esquece.

Caminha
O trajecto parte deste local preciso e seguro
a viagem é aprazível
e termina algures na incerteza de um panorama desconhecido.

Procura um olhar peculiar, pouco banal.
Assume a tua face original
esse aspecto familiar e socializado.
personagem lenta, flutuante, triste.

Assassina, mata

          regurgita cenários cruéis e sublimes
                    cenários que traumatizem
se isso te excitar
se isso te devolver o teu estado emproado e arrogante
se isso te fornece sentimentos, meu pai
se esta sucessão de letras gémeas te causarem a sensação de importância e alarme
                                                               no meu tom de voz.

Mas por favor, não sejas inconsequente com joguinhos para crianças.
Já não sou criança.
Não, não sejas tão paternal
outrora tive olhos impressionados
por obras crescentes, ritmos graduais, exponenciais
belos
puros lineares e suaves.
O meu belo charco de águas paradas, imóveis.
Depois surpreendias sempre com um fim abrupto
                           com mudanças de rumo cruéis, desajustadas e confusas.

A confusão, o movimentos sem mistura de adjectivos com rótulos
                                          perfumes com nomes
No desvendar - Um titulo, o avanço para outro orgasmo
um aumento na nossa conta do banco
o meu montinho de obras de arte.
Brinquedos.

Agora os olhos estão fechados
abertos, lentamente encerrados... cheios.
Os heróis morrem, mas os pais envelhecem, degeneram, enfraquecem
os pais são exorcizados para o limbo das recordações felizes
               ou então para um lar.
Esta é a época dos heróis mortos
da palavra chocante, musical e antagonista
das poetizas agressivas, inteligentes e vazias.
ciosas ou com cio,
repetidas vezes frias quentes e frias e mareantes e quentes, traumatizadas.
Coxas com odor a sexo, pele húmida e esticada pelos seios que rebentam.
insectos no meu jardim.
Paternais, como a moda.


Rui Martins
à Ana das 3 personagens

 

 

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A Sombra

O homem viveu durante 3 anos
o cabelo gradualmente negro da raiz
crescia na cascata que lava
solidão diluída em silencio.

O mundo que o cercava continuou
inexplicavelmente feliz e bem disposto.
cidade autónoma
Não tinha importância, nunca teve
ela é apenas o subúrbio do meu quarto escuro,
cheio de ar e petróleo
na forma ausente da luz e das suas sombras mímicas.

As distracções constantes do cenário sem gosto nem design,
melodias e ritmos escolhidos por outros,
enervantes, absurdas, percursoras de miúdas ridículas
e cheias da moda de não estar na moda.
Alegres idiotas.

Existiu...
uma calorosa e viciante

mulher.

Amor lancinante, fez dele um cano roto
jorrante de água na rua, para as crianças refrescarem-se
debaixo do sol amarelo, canceroso, doente.
Tosse.

Não há mais água, secou tudo.
Agora tenho uma enorme e incontável quantidade de ar e escuridão,
sim, em tempos houve O Amor.
Não sei para onde canalizo agora
toda aquela celebridade celeridade de sensações
ampliadas à raiz do Deus transcendente.
- Deus tu transcendes por não existires.
Sinto-me tão perto de Ti.

"Doesn't matter, soon enough it will be all over."
Esboço de sorriso na verdadeira acepção de piada
que ainda escorria esporadicamente nas deambulações fantasiosas
sobrecarregadamente sentidas. vómito.
Sorriso desmoronado em risadinha de criança... não - bebé,
brinca com as palavras, dá uns toques na bola
prenuncio de um ciclo abusado vezes demais, poeta.
Alguém sem dinheiro para psicólogos
e louco demais para acreditar neles.


Por hoje a arma mantém-se virgem
e na secretária executiva só, para já, o nada.
A tesão de morrer está adiada pelo impulso
de escrever-te na cara, nos seios delgados adolescentes, prematuros,
nas pernas timidamente abertas,
na tua boca inexperiente...
de poeticamente foder-te a alma com os sonhos.
Impulso cada vez menos frequente.

Um quarto, uma secretária... executiva, um candeeiro... esquisito
aceso.
- Já podem sair agora, fechem a porta
mas deixem-na fechada, sem incertezas
sem mentirosas camuflagens
sem amor.

Vou ligar o computador e jogar

Saiam todos !
amanhã estarei aí a mostrar-vos o meu poema.
o meu poema
eu, o meu, cada vez mais mereço morrer infeliz.
Saiam todos , já disse !
a festa terminou.
o poema terminou
e acaba
e termina
e acaba, musicalmente


Rui Martins
mil novecentos e qualquer coisa.

 

 

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Amo-te

Se um dia fores à pt net
cairás num banho de multidão histérica
com palavras que cortam, que afogam
que tiram todo o ar fresco.
Gente de todos os cantos do inferno
                         do céu
com todos os nicks que possas odiar e amar

Todas com excesso de algo que despejam no canal,
o seu ódio
as asneiras que não podem gritar
a voracidade de um desejo não saciado
a solidão desesperada
a pérola que procuram dar

... a quem esteja disposto a ler.

Não te detenhas pelo ar inofensivo do teu computador
é o instrumento de expressão mais evoluído que existe.
Desenvolvido por mentes inteligentes e traumatizadas
como a tua,
segregados em quartos
rodeados de pizza e coca-cola
construíram um aparelho de emoções e frustrações mecânicas
invisíveis... quase místicas.
ideias complexas de princípios simples.... zeros e uns.

Mas sabes....
ideias complexas de princípios simples
nunca aliviaram fardos de existências vazias
as vidas em conjunto acarretam demasiados traumas
para a voz solitária e subterrânea da nossa consciência carente.
aglomerados nojentos e cruéis...cidades.
Vais deparar com muitas almas desesperadas
por - um pouco de liberdade nas mais variadas formas.
    - um muito de amor
    - seja o que for de vingança

... sim, deves sentir-te livre nas tuas primeiras horas
terás a real sensação de escolher a pessoa que amas à medida do teu amor
neste hipermercado de carne.
Até ao instante lúcido
em que o chocolate sai do teu carro de compras
em que o leite tenta beber-te
em que a embalagem com dois livros de poesia contem um caderno em branco
    e uma caneta.

Nesse dia, percebes que estás na estante também
para ser consumida
e depois vomitada noutro local longe da tua casa.
Será uma experiência revoltante, vais arder
- a representação teatral de orçamento reduzido
do amor que te marcou algures na tua adolescência alienada.

É o tempo das frases longas e enervadas
do monólogo subterrâneo
de generalização desmedida.
a crueldade que nos faz chorar.

Mas tudo muda quando carregas nesse botão que desliga tudo.

Fita a TV
vê o programa que te é imposto
vai até à cozinha e come algo doce
responde a uma pergunta camuflada da tua mãe
ignora a indiferença do teu pai
e telefona a alguém.

Agora sai de casa, repete tudo mas desta vez a sério
e recorda-te que os fins são sempre marcantes e inevitáveis
como este poema..

Rui Martins
17-01-2000

 

 

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Confesso

São 11 da noite e acho que
consegui parar um pouco,
por agora.
Sinto que tenho pouco tempo
antes de recomeçar a viver de novo
daqui a pouco quando me levantar.
Decidi escrever-te
esta carta, poesia.
Tenho saudades de estar só,
e de uivar em silencio
com lágrimas que nunca derramei,
tenho saudades sobretudo de amar
de experimentar contigo novos e perigosos limites
foste e és um buraco sem fundo
que absorvia toda a realidade
um vórtice negro e aglutinante
cordão umbilical que me alimentava
de tudo o que urge sentir.

És um mundo e um cenário
que não tenho pisado,
- estou doente poesia.
Sucumbi ao canto das sereias cobertas de petroleo
...elas apareceram-me em delírios
numa altura em que estava só e desprevenido.
Escrevo-te esta carta poesia,
Numa cumplicidade secreta que temos
a escrever ás escondidas noiva de plástico
já oiço o apelo
comecei a apagar palavras compulsivamente,

a vida chama-me.
Tenho de ir, e dói-me
porque tenho a certeza que
voltarei a ver-te noutro dia só, como este
só não sei se ainda me amas
ou se recordarei o caminho das almas livres.

o alucinado beijo das sereias
arde-me.


Rui Martins - (nome pequeno)
hoje foi dia 21/06/99 ... pouco depois do mundo ter acabado

 

 

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Lisboa

Tudo está branco
Não tenho a certeza que o Tejo lá esteja
nem que o Cristo rei ainda espera o abraço
da cidade cinzenta.
Por agora tudo o que busco é a tranquilidade
que suspende os espíritos vaporosos
escondida no útero de Lisboa
e da solidão que ela industrialmente produz.
	
O silêncio está impregnado nos telhados sem vida
e só o splash
das rodas dos táxis sempre apressados, de estrela em riste
interrompem esporadicamente o marasmo.
Mas até a isso me habituei.

Coma latente, sonolenta...
Lisboa tu dormes.

Através do nevoeiro
vi o Cristo rei descer o morro
e caminhar sobre as águas.
Sentou-se ao meu lado e disse:

- "Estou pregado naquele monte,
à espera que esta cidade
deixe de estar só entre a multidão.
A solidão é uma cruz que nenhum de nós vê
nas nossas costas... apenas nos obriga a manter os braços abertos.

Depois levantou-se, voltou lá para cima e abriu de novo os braços.

Chorei no anonimato da névoa densa,
um bébé de cordão umbilical cortado, frio.
Subitamente alguém berrou num queixume mal-humorado:

Silêncio !


Rui Martins
99/10/27

 

 

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Sopa de Feijão

Um líquido semi-aquecido
numa tigela de barro do tempo dos avós
como convém,
que cheire a velho e a mofo.
Um traço de ranso no sabor ludibriado
é o toucinho lá da terra,
dá paladar...dizem.
O bago castanho no ponto de manteiga
para que a mistura tenha um aspecto viscoso
e uma textura fácil de digerir.

Estou sem fome,
hora de jantar, ritual de família,
obrigação do miúdo.
Sentado agora,
gastei largos minutos a observar atentamente
o vapor que lentamente evolui e morre
da minha concha de sopa do feijão.
Cheiro que enche o nariz...
é o timbre característico da comida mais que caseira
balançou o estômago desequilibrado
como um barco numa tempestade mareante.

Abdiquemos do calor momentaneamente,

tenho a fruteira mais à frente...
com fruta cinzenta... quase morta
suplicando o caixote do lixo,
imoralmente desperdiçada,
tanta fruta que morreu no meu cesto.
Agora só tem o valor decorativo daqueles mosquitos irritantes,

...se não sorrir nos próximos instantes
terei problemas, pior ainda...haverão perguntas !

Os meus pais mais ao lado
bebem e sorvem ruidosamente o liquido quente
sôfregos, ouvem a telenovela brasileira e comem apressadamente.
Mãe, Pai, também sou actor... e dos bons,
olhem para mim a fingir que estou cá...
o meu sorriso lá surgiu naturalmente,

precedendo o vómito urgente.


Rui Martins
31/01/2000

Um dia vou escrever sobre a famigerada canja da galinha do campo.

 

 

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PSEUDOPOEMA

saí 
saí de pijama vestido 
pelo trilho das pedrinhas brancas 
sol ofuscante do jardim verde e fresco, as plantas.. a relva... quero comê-la e vomitá-la. 
 
O calor da pele é conservado no vidro do Verão 
  -no cantar dos insectos da hora do lanche 
  -no formigueiro do palmo superior aos olhos encandeados 
  -na terceira enumeração de uma lista pseudo-surreal, camuflada de factos. 
 
pelo ranger da brita pisada, 
quero o piar abafado dos pássaros embriagados 
cheira a pó branco 
chinelos com cal 
inspira o ar saudável de um sábado descontraído 
comichão na borbulha ou simples vicio de sentir as unhas 
o trilho evolui à medida que aproveito os olhos semi-cerrados. 
 
hummm ? Sim claro! podes falar. 
Já acordei. 
 
Não, não é isso 
eu necessito já de um desvio que me carregue 
até à proposta da noite passada. 
Algo diferente disso que estás a dizer 
 
o cansaço não tem importancia 
nada importa. 
e é uma sensação de anestesia sentir que deixei o corpo na cama 
sentir que estou neste jardim 
invisivel e tranquilo 
ahhhh 
saudades da despreocupação dos meus 4 anos 
 
o quê ? 
quem ? 
nãooo, não é nada disso. 
Diz-me algo que seja absurdo 
senta-te aqui e desperdiça-te sem me observar 
abandona-te na relva e simplesmente ignora-me. 
Persegue aquela borboleta, vá ! corre ! 
 
Ahhh que vontade de rir 
que alegria... 
tenho a cabeça oca de sono, e o jardim está a preenchê-la. 
Tanta beleza sem publicidade. 
 
hummm ? 
- Mas que diabo, porra! 
NÃO TENTES LER-ME !!! 
Sou um efeito, não sou uma causa 
sou a passagem, não sou um passageiro 
não sou o que fui 
não sou o que hei-de ser 
bebe-me ou cospe-me, não mastigues nem te defendas. 
Que mania, pensam todos que são psicólogos. 
Mijo em vocês! 
 
pijama na relva, olha aquela nuvem ! Parece... uma nuvem. 
Ontem ? 
 

Pseudo-Rui Pseudo Martins 
Pseudo 18/04/2000 

 

 

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GELO

 
Tenho que o escrever 
o frio está nos pés 
alastrou em cristal pelos ossos 
com o assassinato da mulher que possuí ontem 
senti que podia quebrar qualquer agregado branco e gelado 
sem ruídos sem dor sem analgésicos nem anti-depressivos. 
 
Ontem veio-me em larvas de lucidez casual 
o prenuncio de que ia-me habituar a este local solene 
cuspi no chão 
dois minutos antes de tombar nele, com medo. 
 
Necessito de afogar a doçura 
Da contagem decrescente para morrer 
Dá-me água ! 
O ódio já não sobrevive com expressão da lamina 
O medo avança em pânico à rotação de um motor desenfreado 
A sala está negra e pintada com carvão. 
 
O vulcão esgotou o fumo negro e toxico 
A terra deixou de tremer e uma vez mais 
As vozes das frases curtas regressaram 
Com elogios gratuitos e desmedidos 
 
Como é possível consumir um gesto suave e lento ? 
Sobre o ecrã frio e ignorado 
Que sustenta a minha cabeça 
Está a saber-me bem comprimir o cabelo na luz deformada 
Na melodia formada pela energia que se esfuma 
No espaço que me rodeia 
Na simplicidade da forma como existi e nascemos todos 
Tudo coroado pela 
Longa promessa da morte que vem aí. 
Ao virar de algo 
Da pedra antiga 
Da porta desta sala 
Da explosão da uma veia na minha cabeça 
Da pólvora 
Do petróleo que explode na válvula do motor do carro que me atropele ou projecte sobre a mesa fria de um hospital com a aorta seca e um médico aos murros no meu peito. 
Que belo. 
 
Rui Martins

 

 

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CARTA Á FADA 
 

Desejo 
pintar a folha 
perfumá-la 
moldá-la e esculpir a sua curva circunflexa 
tenho de criar uma voz musical grave e profunda 
que embale e estremeça o gelo 
que quebre a face espelhada de um diamante impuro com o seu cantar. 
enchê-la de poesia... e chamar-lhe filha. 

Rodeei-me de filhos destes no dia em que me recordo 
de perceber que o preço foi meloso e pegajoso 
- eliminar os ciúmes. 
em vão 
encontrado que estava o reflexo da figura estranha que 
levei para a cama. 
é impossível subjugar-me à imagem da utopia que ela guardou 
ela não reconhece a diagonal 
o infinito 
o nada 
o escuro que por ser oculto podia ser tudo o que desejássemos 
a voz de comando do mundo em que vivíamos era livre. 
imaginada 
solta 
perdida 
...só. 

foi nesse dia que as palavras perderam algumas letras 
e ela não compreendeu. 
não voltou pintar quadros... hoje só existe emocionada 
na tela dos quadros que pinto da escuridão imaginária 
na espiritualidade do meu mundinho lindo. 
ela não larga a utopia dela 
não sabe que vivo por detrás daquela porta. 
 
 
Mas eu vou tentar 
porque quando tento sinto-me um homem, 
eu acho. 

Não é bem isto, eu tento tocar na minha vida algures no espaço intemporal 
tento chegar-lhe 
mas a roupa queima a pele 
mas a gota de chuva nunca caiu na areia que está seca 
o pássaro nunca teve esta pena aguarela 
mas os pequenos medos da criança são bem mais reais e assustadores. 
...dou graças ao Deus...por ter tantas formas de preencher 
e esgotar a água com "mas". 
                com todas as opções de não ser servil. 
e no fim 
 
mesmo 
no fim... 
saber que não fui racional nem compreensivo. 
nem solidário 
nem visitei a família na Páscoa 
nem chorei no funeral do meu filho quando dei o nó no latex. 
nem [mil formas de servir a humanidade] 
 
não... nunca serei um Homem. 
Sou um mensageiro da divina nova forma de comunicar o sentido. 
 

Cansei-me de assinar com o meu nome, ninguém se recorda dele.

 

Rui Martins

 

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A GRANDE DIAGONAL 
Paro porque não consigo preencher a minha obra com toda a raiva que me mantém rebelde e ardente 
o diluvio que por ser água é forçado gradualmente a inundar as ruas poeirentas 
as escadas - cascatas 
as arvores sibilantes 
os edifícios que estremecem com morteiradas trovoadas 
e mesmo que eu esteja a ser áspero 
injusto 
egoísta 
... que isso interessa ? 
Os acordes de uma tempestade são tocados pela ironia da vitima inocente, levada 
devorada pelo gesto do artista e da sua grandiosa sensibilidade 
ele cria monstros. 
Procuramos uma escrita azul e cremosa 
que apresente todas as irregularidades dissimuladas de uma pasta granulada 
a lama revolta e projecta-se numa aceleração 
súbita 
imprevista 
diagonal 
Gravidade evolui no processo criativo sedento de objectos para pintar 
buscas a profunda ou aérea extremidade que se encontra 
no fecho do circulo das personagens que construíste na tua falange de amantes idealizados e depois descartados. 

Depois de observar o lento evoluir do vapor... 
nesta sala de corpos nus 
o calor 
sim, o calor dá-nos sempre a anestesia confortável 
uma lama tépida liquefeita e mais suave ainda 
transmite a doce vontade do mamilo cozido em lume brando. 
Lá fora as faces de pedra acentuam o seu cínico mau estar 
voraz inveja que eles têm deste corpo inerte e confortavelmente mortal 
pulsos coagulados, sangue cortado. 
Os músculos reagem isolados aos vestígios de vida que 
escaparam à diluição na pasta morna. 
É a coma de que falaste toda a minha vida, é assim que ela existe. 
... duvido que alguma vez consiga observar a diagonal de saída 
o helicóptero de salvamento 
ou sequer uma ambulância que chegue a tempo. 
Mas pouco importa, 
o poema está lançado. 

Espera ! Algo está defenitivamente contaminado... 
O vale de pouso dos montanhistas está inundado pelo som anormal 
de um motor pouco comum neste cenário naturalista do interior humano, 
o que será ? 
Quem vem aí ? 

Veiculo colorido e inventado, feito com todas as vozes concentradas da consciência 
que sempre reprimi para proteger a paisagem inocente da criança que sou. 
É sem duvida uma invenção surpreendente 
talvez a tal diagonal seja isto... 

poderoso e grave sim, é isto que sinto ! 
Um som cru que assuste todos estes nobres escaladores de infelicidades inúteis 
infundadas e obliquas. 
O rrrrr do Alvaro de Campos 
afinal não passava de uma séria revolta de expressões estéreis das almas que morrem nas areias movediças da cidade. 
Conduzi 
o dragão metálico das engrenagens que trincam 
pela colina acima 
monte de amor que conservei encerrado e selado em névoas intransponíveis 
onde todas as quimeras se perdiam e desapareciam. 

Sem ter pedido permissão ás vozes da fruta amassada 
passei pelos pomares 
voei sobre rochas carecas que boiam sobre a neve 
corri como um louco na floresta dos pinheiros 
...todos eles queixaram-se com mais sono ainda 
mas foram imediatamente abafados pelo ronco grave e acelerado 
o animal engrenado gritava ... 
ecoando sobre todo o meu universo. 

Tentem compreender: 
Não é a necessidade de exercitar todo o meu vocabulário medíocre 
É mais a reacção da minha covardia latente 
provocada pela ausência acidental de sensações homologadas. 
Um escritor sem obras feitas 
que acelerou o seu ciclo de amores e mortes 
Para que um dia dominasse todo o circulo de infelicidades 
Para que um dia ele se dissolvesse nesse circulo 
Para que um dia suplantasse o caracter inconstante da vida. 
Esse era o seu grande plano 
ansiava pelo regresso à paz de um útero. 

Rui Martins

 

 

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Farol 
 

Lisboa encheu-se com melancolia entranhada 
um sol qualquer, amarelo. 
reproduz a preguiça 
induz calor no abandono das 2 da tarde 

Escrevo-te porque perdi a tua silhueta velada 
nas mil renascenças que se espalharam aos pedaços pela cidade 
desde que morreste. 
A vida projectada do retrovisor 
revelou-me um fio de pedrinhas- pedacinhos de carne 
que deixei em cada esquina do labirinto 
que nos mantêm hoje ocupados e vegetais. 

Pergunto-me se durante algum desses episódios 
pude realmente absorver-me numa folha branca 
que não tivesse o teu nome escrito em letras também brancas. 
E falhei. 
Fujo da minha própria sombra e isso cansa! 
Ela está aqui agora, 
parou comigo 
projectada no trajecto da fuga desenfreada que tracei à pressa 
e que ainda não terminou desde aquele dia. 
 
Escrevo cartas, monólogos de gelatina vermelha 
dirigidos ao abismo do anonimato alheio em que vives. 
as palavras são imoladas na folha 
como se todos os meses sentisse o dever de oferecer-te 
um exclusivo sacrifício de Amor 
que deixo cremar no fundo da minha gaveta. 

Dei por mim a renegar todos os dias 
estes pêlos ansiosos da maturidade - barba na pele 
maldito Tempo que não parou quando devia. 
teima em levar-me 
para longe, longe, longe do dia em que fizemos amor. 

O tempo passou por nós Sónia 
e o rio Tejo lá continua, a estender aquele longínquo 
plano espelhado entre o Barreiro e o Lumiar. 
Ainda permaneço com a sensação que a água que passa 
é sempre a mesma, lembras-te ? 
... e que cada barco azul que parte do Terreiro do Paço 
faz ricochete em Lisboa 
e leva-te para casa. 

Sim, 
eu ainda me deleito sobre ti 
como mel sobre as amêndoas, 
porque perdi-me algures na peregrinação do limbo. 
Perdi a bengala, e de repente libertei-me das palavras! 
Mas não quero esta liberdade, 
lá fora a tua cara é igual à de muitas outras 
lá fora, a felicidade espera-me com a promessa 
de uma face estranha, 
feliz. 

Por isso escrevo-te escondido dessa face 
em segredo dos amigos que presenciaram a agonia imediata desse fim 
em segredo das paredes que me apontam o eco 
em segredo do nosso pior inimigo, 
o tempo, 
decorado de amantes 
inúmeras sereias de ternura que acariciei de olhos fechados. 

O tempo apagou-te da memória das pessoas que me rodeiam, 
apagou-te das paredes do meu quarto e do cheiro da minha almofada 
apagou-te da minha voz 
mas o tempo 
não 
toca 
na poesia. 


Rui Martins

 

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