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A Ana das três personagens
Olha para a montra
o seu reflexo
corrige a tua aparência.
Raciocina uma lista branca pontuada de reflexos correctos.
"pormenores com estilo"
Um castelo bem montado de linhas sem palavras semelhantes.
Marca tudo e esquece.
Caminha
O trajecto parte deste local preciso e seguro
a viagem é aprazível
e termina algures na incerteza de um panorama desconhecido.
Procura um olhar peculiar, pouco banal.
Assume a tua face original
esse aspecto familiar e socializado.
personagem lenta, flutuante, triste.
Assassina, mata
regurgita cenários cruéis e sublimes
cenários que traumatizem
se isso te excitar
se isso te devolver o teu estado emproado e arrogante
se isso te fornece sentimentos, meu pai
se esta sucessão de letras gémeas te causarem a sensação de importância e alarme
no meu tom de voz.
Mas por favor, não sejas inconsequente com joguinhos para crianças.
Já não sou criança.
Não, não sejas tão paternal
outrora tive olhos impressionados
por obras crescentes, ritmos graduais, exponenciais
belos
puros lineares e suaves.
O meu belo charco de águas paradas, imóveis.
Depois surpreendias sempre com um fim abrupto
com mudanças de rumo cruéis, desajustadas e confusas.
A confusão, o movimentos sem mistura de adjectivos com rótulos
perfumes com nomes
No desvendar - Um titulo, o avanço para outro orgasmo
um aumento na nossa conta do banco
o meu montinho de obras de arte.
Brinquedos.
Agora os olhos estão fechados
abertos, lentamente encerrados... cheios.
Os heróis morrem, mas os pais envelhecem, degeneram, enfraquecem
os pais são exorcizados para o limbo das recordações felizes
ou então para um lar.
Esta é a época dos heróis mortos
da palavra chocante, musical e antagonista
das poetizas agressivas, inteligentes e vazias.
ciosas ou com cio,
repetidas vezes frias quentes e frias e mareantes e quentes, traumatizadas.
Coxas com odor a sexo, pele húmida e esticada pelos seios que rebentam.
insectos no meu jardim.
Paternais, como a moda.
Rui Martins
à Ana das 3 personagens
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A Sombra O homem viveu durante 3 anos o cabelo gradualmente negro da raiz crescia na cascata que lava solidão diluída em silencio. O mundo que o cercava continuou inexplicavelmente feliz e bem disposto. cidade autónoma Não tinha importância, nunca teve ela é apenas o subúrbio do meu quarto escuro, cheio de ar e petróleo na forma ausente da luz e das suas sombras mímicas. As distracções constantes do cenário sem gosto nem design, melodias e ritmos escolhidos por outros, enervantes, absurdas, percursoras de miúdas ridículas e cheias da moda de não estar na moda. Alegres idiotas. Existiu... uma calorosa e viciante mulher. Amor lancinante, fez dele um cano roto jorrante de água na rua, para as crianças refrescarem-se debaixo do sol amarelo, canceroso, doente. Tosse. Não há mais água, secou tudo. Agora tenho uma enorme e incontável quantidade de ar e escuridão, sim, em tempos houve O Amor. Não sei para onde canalizo agora toda aquela celebridade celeridade de sensações ampliadas à raiz do Deus transcendente. - Deus tu transcendes por não existires. Sinto-me tão perto de Ti. "Doesn't matter, soon enough it will be all over." Esboço de sorriso na verdadeira acepção de piada que ainda escorria esporadicamente nas deambulações fantasiosas sobrecarregadamente sentidas. vómito. Sorriso desmoronado em risadinha de criança... não - bebé, brinca com as palavras, dá uns toques na bola prenuncio de um ciclo abusado vezes demais, poeta. Alguém sem dinheiro para psicólogos e louco demais para acreditar neles. Por hoje a arma mantém-se virgem e na secretária executiva só, para já, o nada. A tesão de morrer está adiada pelo impulso de escrever-te na cara, nos seios delgados adolescentes, prematuros, nas pernas timidamente abertas, na tua boca inexperiente... de poeticamente foder-te a alma com os sonhos. Impulso cada vez menos frequente. Um quarto, uma secretária... executiva, um candeeiro... esquisito aceso. - Já podem sair agora, fechem a porta mas deixem-na fechada, sem incertezas sem mentirosas camuflagens sem amor. Vou ligar o computador e jogar Saiam todos ! amanhã estarei aí a mostrar-vos o meu poema. o meu poema eu, o meu, cada vez mais mereço morrer infeliz. Saiam todos , já disse ! a festa terminou. o poema terminou e acaba e termina e acaba, musicalmente Rui Martins mil novecentos e qualquer coisa.
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Amo-te
Se um dia fores à pt net
cairás num banho de multidão histérica
com palavras que cortam, que afogam
que tiram todo o ar fresco.
Gente de todos os cantos do inferno
do céu
com todos os nicks que possas odiar e amar
Todas com excesso de algo que despejam no canal,
o seu ódio
as asneiras que não podem gritar
a voracidade de um desejo não saciado
a solidão desesperada
a pérola que procuram dar
... a quem esteja disposto a ler.
Não te detenhas pelo ar inofensivo do teu computador
é o instrumento de expressão mais evoluído que existe.
Desenvolvido por mentes inteligentes e traumatizadas
como a tua,
segregados em quartos
rodeados de pizza e coca-cola
construíram um aparelho de emoções e frustrações mecânicas
invisíveis... quase místicas.
ideias complexas de princípios simples.... zeros e uns.
Mas sabes....
ideias complexas de princípios simples
nunca aliviaram fardos de existências vazias
as vidas em conjunto acarretam demasiados traumas
para a voz solitária e subterrânea da nossa consciência carente.
aglomerados nojentos e cruéis...cidades.
Vais deparar com muitas almas desesperadas
por - um pouco de liberdade nas mais variadas formas.
- um muito de amor
- seja o que for de vingança
... sim, deves sentir-te livre nas tuas primeiras horas
terás a real sensação de escolher a pessoa que amas à medida do teu amor
neste hipermercado de carne.
Até ao instante lúcido
em que o chocolate sai do teu carro de compras
em que o leite tenta beber-te
em que a embalagem com dois livros de poesia contem um caderno em branco
e uma caneta.
Nesse dia, percebes que estás na estante também
para ser consumida
e depois vomitada noutro local longe da tua casa.
Será uma experiência revoltante, vais arder
- a representação teatral de orçamento reduzido
do amor que te marcou algures na tua adolescência alienada.
É o tempo das frases longas e enervadas
do monólogo subterrâneo
de generalização desmedida.
a crueldade que nos faz chorar.
Mas tudo muda quando carregas nesse botão que desliga tudo.
Fita a TV
vê o programa que te é imposto
vai até à cozinha e come algo doce
responde a uma pergunta camuflada da tua mãe
ignora a indiferença do teu pai
e telefona a alguém.
Agora sai de casa, repete tudo mas desta vez a sério
e recorda-te que os fins são sempre marcantes e inevitáveis
como este poema..
Rui Martins
17-01-2000
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Confesso São 11 da noite e acho que consegui parar um pouco, por agora. Sinto que tenho pouco tempo antes de recomeçar a viver de novo daqui a pouco quando me levantar. Decidi escrever-te esta carta, poesia. Tenho saudades de estar só, e de uivar em silencio com lágrimas que nunca derramei, tenho saudades sobretudo de amar de experimentar contigo novos e perigosos limites foste e és um buraco sem fundo que absorvia toda a realidade um vórtice negro e aglutinante cordão umbilical que me alimentava de tudo o que urge sentir. És um mundo e um cenário que não tenho pisado, - estou doente poesia. Sucumbi ao canto das sereias cobertas de petroleo ...elas apareceram-me em delírios numa altura em que estava só e desprevenido. Escrevo-te esta carta poesia, Numa cumplicidade secreta que temos a escrever ás escondidas noiva de plástico já oiço o apelo comecei a apagar palavras compulsivamente, a vida chama-me. Tenho de ir, e dói-me porque tenho a certeza que voltarei a ver-te noutro dia só, como este só não sei se ainda me amas ou se recordarei o caminho das almas livres. o alucinado beijo das sereias arde-me. Rui Martins - (nome pequeno) hoje foi dia 21/06/99 ... pouco depois do mundo ter acabado
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Lisboa Tudo está branco Não tenho a certeza que o Tejo lá esteja nem que o Cristo rei ainda espera o abraço da cidade cinzenta. Por agora tudo o que busco é a tranquilidade que suspende os espíritos vaporosos escondida no útero de Lisboa e da solidão que ela industrialmente produz. O silêncio está impregnado nos telhados sem vida e só o splash das rodas dos táxis sempre apressados, de estrela em riste interrompem esporadicamente o marasmo. Mas até a isso me habituei. Coma latente, sonolenta... Lisboa tu dormes. Através do nevoeiro vi o Cristo rei descer o morro e caminhar sobre as águas. Sentou-se ao meu lado e disse: - "Estou pregado naquele monte, à espera que esta cidade deixe de estar só entre a multidão. A solidão é uma cruz que nenhum de nós vê nas nossas costas... apenas nos obriga a manter os braços abertos. Depois levantou-se, voltou lá para cima e abriu de novo os braços. Chorei no anonimato da névoa densa, um bébé de cordão umbilical cortado, frio. Subitamente alguém berrou num queixume mal-humorado: Silêncio ! Rui Martins 99/10/27
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Sopa de Feijão Um líquido semi-aquecido numa tigela de barro do tempo dos avós como convém, que cheire a velho e a mofo. Um traço de ranso no sabor ludibriado é o toucinho lá da terra, dá paladar...dizem. O bago castanho no ponto de manteiga para que a mistura tenha um aspecto viscoso e uma textura fácil de digerir. Estou sem fome, hora de jantar, ritual de família, obrigação do miúdo. Sentado agora, gastei largos minutos a observar atentamente o vapor que lentamente evolui e morre da minha concha de sopa do feijão. Cheiro que enche o nariz... é o timbre característico da comida mais que caseira balançou o estômago desequilibrado como um barco numa tempestade mareante. Abdiquemos do calor momentaneamente, tenho a fruteira mais à frente... com fruta cinzenta... quase morta suplicando o caixote do lixo, imoralmente desperdiçada, tanta fruta que morreu no meu cesto. Agora só tem o valor decorativo daqueles mosquitos irritantes, ...se não sorrir nos próximos instantes terei problemas, pior ainda...haverão perguntas ! Os meus pais mais ao lado bebem e sorvem ruidosamente o liquido quente sôfregos, ouvem a telenovela brasileira e comem apressadamente. Mãe, Pai, também sou actor... e dos bons, olhem para mim a fingir que estou cá... o meu sorriso lá surgiu naturalmente, precedendo o vómito urgente. Rui Martins 31/01/2000 Um dia vou escrever sobre a famigerada canja da galinha do campo.
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PSEUDOPOEMA saí saí de pijama vestido pelo trilho das pedrinhas brancas sol ofuscante do jardim verde e fresco, as plantas.. a relva... quero comê-la e vomitá-la. O calor da pele é conservado no vidro do Verão -no cantar dos insectos da hora do lanche -no formigueiro do palmo superior aos olhos encandeados -na terceira enumeração de uma lista pseudo-surreal, camuflada de factos. pelo ranger da brita pisada, quero o piar abafado dos pássaros embriagados cheira a pó branco chinelos com cal inspira o ar saudável de um sábado descontraído comichão na borbulha ou simples vicio de sentir as unhas o trilho evolui à medida que aproveito os olhos semi-cerrados. hummm ? Sim claro! podes falar. Já acordei. Não, não é isso eu necessito já de um desvio que me carregue até à proposta da noite passada. Algo diferente disso que estás a dizer o cansaço não tem importancia nada importa. e é uma sensação de anestesia sentir que deixei o corpo na cama sentir que estou neste jardim invisivel e tranquilo ahhhh saudades da despreocupação dos meus 4 anos o quê ? quem ? nãooo, não é nada disso. Diz-me algo que seja absurdo senta-te aqui e desperdiça-te sem me observar abandona-te na relva e simplesmente ignora-me. Persegue aquela borboleta, vá ! corre ! Ahhh que vontade de rir que alegria... tenho a cabeça oca de sono, e o jardim está a preenchê-la. Tanta beleza sem publicidade. hummm ? - Mas que diabo, porra! NÃO TENTES LER-ME !!! Sou um efeito, não sou uma causa sou a passagem, não sou um passageiro não sou o que fui não sou o que hei-de ser bebe-me ou cospe-me, não mastigues nem te defendas. Que mania, pensam todos que são psicólogos. Mijo em vocês! pijama na relva, olha aquela nuvem ! Parece... uma nuvem. Ontem ? Pseudo-Rui Pseudo Martins Pseudo 18/04/2000
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GELO Tenho que o escrever o frio está nos pés alastrou em cristal pelos ossos com o assassinato da mulher que possuí ontem senti que podia quebrar qualquer agregado branco e gelado sem ruídos sem dor sem analgésicos nem anti-depressivos. Ontem veio-me em larvas de lucidez casual o prenuncio de que ia-me habituar a este local solene cuspi no chão dois minutos antes de tombar nele, com medo. Necessito de afogar a doçura Da contagem decrescente para morrer Dá-me água ! O ódio já não sobrevive com expressão da lamina O medo avança em pânico à rotação de um motor desenfreado A sala está negra e pintada com carvão. O vulcão esgotou o fumo negro e toxico A terra deixou de tremer e uma vez mais As vozes das frases curtas regressaram Com elogios gratuitos e desmedidos Como é possível consumir um gesto suave e lento ? Sobre o ecrã frio e ignorado Que sustenta a minha cabeça Está a saber-me bem comprimir o cabelo na luz deformada Na melodia formada pela energia que se esfuma No espaço que me rodeia Na simplicidade da forma como existi e nascemos todos Tudo coroado pela Longa promessa da morte que vem aí. Ao virar de algo Da pedra antiga Da porta desta sala Da explosão da uma veia na minha cabeça Da pólvora Do petróleo que explode na válvula do motor do carro que me atropele ou projecte sobre a mesa fria de um hospital com a aorta seca e um médico aos murros no meu peito. Que belo. Rui Martins
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CARTA
Á FADA
Rui Martins |
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A GRANDE DIAGONAL Paro porque não consigo preencher a minha obra com toda a raiva que me mantém rebelde e ardente o diluvio que por ser água é forçado gradualmente a inundar as ruas poeirentas as escadas - cascatas as arvores sibilantes os edifícios que estremecem com morteiradas trovoadas e mesmo que eu esteja a ser áspero injusto egoísta ... que isso interessa ? Os acordes de uma tempestade são tocados pela ironia da vitima inocente, levada devorada pelo gesto do artista e da sua grandiosa sensibilidade ele cria monstros. Procuramos uma escrita azul e cremosa que apresente todas as irregularidades dissimuladas de uma pasta granulada a lama revolta e projecta-se numa aceleração súbita imprevista diagonal Gravidade evolui no processo criativo sedento de objectos para pintar buscas a profunda ou aérea extremidade que se encontra no fecho do circulo das personagens que construíste na tua falange de amantes idealizados e depois descartados. Depois de observar o lento evoluir do vapor... nesta sala de corpos nus o calor sim, o calor dá-nos sempre a anestesia confortável uma lama tépida liquefeita e mais suave ainda transmite a doce vontade do mamilo cozido em lume brando. Lá fora as faces de pedra acentuam o seu cínico mau estar voraz inveja que eles têm deste corpo inerte e confortavelmente mortal pulsos coagulados, sangue cortado. Os músculos reagem isolados aos vestígios de vida que escaparam à diluição na pasta morna. É a coma de que falaste toda a minha vida, é assim que ela existe. ... duvido que alguma vez consiga observar a diagonal de saída o helicóptero de salvamento ou sequer uma ambulância que chegue a tempo. Mas pouco importa, o poema está lançado. Espera ! Algo está defenitivamente contaminado... O vale de pouso dos montanhistas está inundado pelo som anormal de um motor pouco comum neste cenário naturalista do interior humano, o que será ? Quem vem aí ? Veiculo colorido e inventado, feito com todas as vozes concentradas da consciência que sempre reprimi para proteger a paisagem inocente da criança que sou. É sem duvida uma invenção surpreendente talvez a tal diagonal seja isto... poderoso e grave sim, é isto que sinto ! Um som cru que assuste todos estes nobres escaladores de infelicidades inúteis infundadas e obliquas. O rrrrr do Alvaro de Campos afinal não passava de uma séria revolta de expressões estéreis das almas que morrem nas areias movediças da cidade. Conduzi o dragão metálico das engrenagens que trincam pela colina acima monte de amor que conservei encerrado e selado em névoas intransponíveis onde todas as quimeras se perdiam e desapareciam. Sem ter pedido permissão ás vozes da fruta amassada passei pelos pomares voei sobre rochas carecas que boiam sobre a neve corri como um louco na floresta dos pinheiros ...todos eles queixaram-se com mais sono ainda mas foram imediatamente abafados pelo ronco grave e acelerado o animal engrenado gritava ... ecoando sobre todo o meu universo. Tentem compreender: Não é a necessidade de exercitar todo o meu vocabulário medíocre É mais a reacção da minha covardia latente provocada pela ausência acidental de sensações homologadas. Um escritor sem obras feitas que acelerou o seu ciclo de amores e mortes Para que um dia dominasse todo o circulo de infelicidades Para que um dia ele se dissolvesse nesse circulo Para que um dia suplantasse o caracter inconstante da vida. Esse era o seu grande plano ansiava pelo regresso à paz de um útero. Rui Martins
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Farol Lisboa encheu-se com melancolia entranhada um sol qualquer, amarelo. reproduz a preguiça induz calor no abandono das 2 da tarde Escrevo-te porque perdi a tua silhueta velada nas mil renascenças que se espalharam aos pedaços pela cidade desde que morreste. A vida projectada do retrovisor revelou-me um fio de pedrinhas- pedacinhos de carne que deixei em cada esquina do labirinto que nos mantêm hoje ocupados e vegetais. Pergunto-me se durante algum desses episódios pude realmente absorver-me numa folha branca que não tivesse o teu nome escrito em letras também brancas. E falhei. Fujo da minha própria sombra e isso cansa! Ela está aqui agora, parou comigo projectada no trajecto da fuga desenfreada que tracei à pressa e que ainda não terminou desde aquele dia. Escrevo cartas, monólogos de gelatina vermelha dirigidos ao abismo do anonimato alheio em que vives. as palavras são imoladas na folha como se todos os meses sentisse o dever de oferecer-te um exclusivo sacrifício de Amor que deixo cremar no fundo da minha gaveta. Dei por mim a renegar todos os dias estes pêlos ansiosos da maturidade - barba na pele maldito Tempo que não parou quando devia. teima em levar-me para longe, longe, longe do dia em que fizemos amor. O tempo passou por nós Sónia e o rio Tejo lá continua, a estender aquele longínquo plano espelhado entre o Barreiro e o Lumiar. Ainda permaneço com a sensação que a água que passa é sempre a mesma, lembras-te ? ... e que cada barco azul que parte do Terreiro do Paço faz ricochete em Lisboa e leva-te para casa. Sim, eu ainda me deleito sobre ti como mel sobre as amêndoas, porque perdi-me algures na peregrinação do limbo. Perdi a bengala, e de repente libertei-me das palavras! Mas não quero esta liberdade, lá fora a tua cara é igual à de muitas outras lá fora, a felicidade espera-me com a promessa de uma face estranha, feliz. Por isso escrevo-te escondido dessa face em segredo dos amigos que presenciaram a agonia imediata desse fim em segredo das paredes que me apontam o eco em segredo do nosso pior inimigo, o tempo, decorado de amantes inúmeras sereias de ternura que acariciei de olhos fechados. O tempo apagou-te da memória das pessoas que me rodeiam, apagou-te das paredes do meu quarto e do cheiro da minha almofada apagou-te da minha voz mas o tempo não toca na poesia. Rui Martins
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