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Sapatão

Talvez exista um fundo de verdade por trás do clássico termo popular

Sapatão. Poucas coisas na vida são mais apropriadas do que o termo, usado, como todos sabem, para indicar mulheres que gostam de mulheres. Apesar do tom pejorativo do nome, fato é que mulheres gays – ainda que toda generalização corra o risco de ser burra – preferem mesmo usar sapatos confortáveis. Para não cair na tentação de generalizar para simplificar, falarei apenas por experiência própria.
Comprar sapatos é, para mim, tarefa das mais penosas. Lido com ela da mesma forma que me relaciono com dentistas: na base do controle de danos – evito ir tanto quanto possível e, quando não dá mais para fugir, agendo uma visita, que, dada a desculpa ideal (trânsito, cólica, possibilidade de cólica, horário eleitoral gratuito...), trato de desmarcar algumas horas antes.

Busca inglória
Recentemente, por causa de uma festa – dessas em que mulheres se equilibram em plataformas tacanhas e homens se enforcam em gravatas –, me vi obrigada a praticar a odiosa função. Para meu desespero, as vitrines es-tavam populadas unicamente com sandálias de saltos exorbitantes. Gastar um par de horas me equilibrando em uma parafernalha dessas não é opção nem que seja para salvar minha vida – a ordem é, na verdade, a inversa: tentar me equilibrar em uma estrutura estreita, ligada ao chão apenas por uma agulha de vários centímetros, faria com que alguém precisasse salvar minha vida.
Como já passei da fase de me torturar fisicamente para fugir de estereótipos, estava determinada a comprar um sapato baixo, sofisticado e confortável. Rapidamente descobri que um que reúna essas características não existe. Se é sofisticado, não é baixo; se é baixo, não é sofisticado – conforto, então, é quesito fora de questão quando se trata de sapatos femininos capazes de freqüentar festas de casamento.
Como não há nada mais fora de moda do que ser escravo da moda, decretei minha abolição e resolvi simplesmente insistir em alguma coisa confortável. E saltos altos, francamente, não deixam ninguém com a sensação de banheira de espumas. Muito pelo contrário: diante de alguns saltos que existem por aí, a possibilidade de dormir em uma cama de pregos para não se render a eles soa mais como uma bênção.
Mas, como tudo o que eu não entendo me fascina, fico encantada com mulheres que escolhem perambular pela rua (para cumprir tarefas mundanas do dia-a-dia!) em saltos colossais. Sempre que me deparo com uma, paro para olhar, deslumbrada com aquele equilíbrio circense e com o fato de elas saberem, quase transcendentalmente, lidar tão bem com a dor (porque é humanamente impossível que, mesmo rindo, elas não estejam sofrendo de forma cruel lá em cima).
No segundo dia de buscas, voltei às lojas determinada a levar para casa um par de sapatos fino e com a minha cara. Foi, na verdade, uma operação muitíssimo malsucedida. Minha cara, descobri, não tem equivalente em calçados finos.

Altura falsificada
Mas a experiência não foi de todo devastadora. Aprendi, entre outras coisas, que, dada uma festa chinfrim qualquer, a maioria das mulheres nela presente têm, fora dali, nove centímetros a menos de altura.
Aprendi também a fazer projeções mercadológicas e rapidamente cheguei à conclusão de que, como a tendência aponta para saltos cada vez maiores e agulhentos, o consumo feminino de álcool em festas deve crescer na próxima temporada – só quimicamente estimulada para encarar esse sofrimento por horas. E, finalmente, aprendi que uma das melhores sensações do mundo é sair de cima de um sapato desses. E que, exatamente por isso, talvez valha a pena ter um no armário.
Depois de bater perna por vários e vários quilômetros, acabei encontrando mais ou menos o que eu queria. Sorte a minha que, durante a incessante busca, estava usando um de meus confortáveis sapatões.

Por Milly Lacombe

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