Macarao, um Bairro Bolivariano
por Elaine Tavares, jornalista do OLA/UFSC
Aqueles são dias febris. O metrô da fervilhante Caracas está liberado para quem
usa o crachá do Fórum Social Mundial. Mesmo assim, a maioria dos visitantes
apenas circula pelo perímetro dos acontecimentos do Fórum. Poucos arriscam andar
pelos bairros, a conhecer a vida mesma, essa que vive longe das câmeras ou da
vigilância dos funcionários do governo. Algumas caravanas chegam a ser
articuladas pelos organizadores do Fórum, tudo bem certinho, em Vans
refrigeradas, com guia e tudo. Mas isso não dá a visão real, parece meio passeio
zoológico.
Nossos contatos são dois caraqueños bem distintos entre si. Um deles, Raul, é
micro empresário, iniciando agora um negócio de frango. O outro, Daniel, é
funcionário de um hospital e morador de Macarao, populoso bairro da periferia,
misto de reduto português com venezuelanos da gema. São eles que nos levam pelos
caminhos intricados das ruas da cidade que margeia o centro. Saímos da estação
Belas Artes até a última estação do metrô: Los Adjuntos. Percurso longo no qual
se pode ver as casinhas construídas pelo morro afora, num emaranhado de bairros
pobres, mas não miseráveis. Bem ali, na saída, já dá para ver a balbúrdia da
construção de mais uma parte do metrô. “Vai até o estado de Miranda”, diz
Daniel, orgulhoso da obra. A construtora é brasileira e, de noite, nos bares, é
bem comum ver os trabalhadores tomando uma gelada e sonhando com a volta à
terrinha.
Poucos metros depois da saída da estação, bem ao lado da obra, está a Unidade
Educativa Bolivariana Cláudio Feliciano, uma escola modelo, a maior delas, da
nova fase da vida das gentes da Venezuela. São 1.800 alunos que circulam pelas
salas de aula novinhas em folha. “Aqui a gente tem merenda, material escolar e
até o uniforme de graça”, diz Kimberli, uma garotinha sapeca de olhar intenso e,
embora deixe bem claro que não é chavista, ela reconhece que esta escola é muito
melhor do que a antiga, onde estudava. A professora Carolina Ribeiro mostra a
sala de aula onde alguns alunos estão desenhando ao som de uma música popular. A
paz é quebrada com a chegada dos estranhos, e logo Carolina já não consegue
controlar a confusão. Todo mundo grita, pula e quer posar para fotos.
Ela conta que para dar aula numa escola bolivariana os professores precisam ser
graduados na universidade. Na cozinha, fazendo a merenda, estão algumas mães de
alunos que ajudam com trabalho voluntário. Também os pais dão sua contribuição
fazendo serviços de pintura ou de consertos. “Tudo aqui é no coletivo e os pais
sabem que estão contribuindo com algo que é bom para seus filhos”. Carolina
ainda revela que uma das características da escola bolivariana é que ali as
crianças também aprendem um idioma originário, além do inglês. “Queremos
recuperar a cultura dos povos autóctones que, afinal, somos nós mesmos”. Daniel
mostra cada sala com a alegria estampada nos olhos. “Aqui estuda minha filha”.
Ao final da visita somos brindados com uma apresentação sobre drogas.
Subindo a rua saímos em direção ao centro médico, onde ficam os médicos cubanos,
protagonistas da Misión Barrio Adentro, que atuam na lógica da saúde da família.
Por todos os bairros estão as pequenas casinhas de tijolo à vista onde a saúde
agora se faz. Naquele dia, os médicos estavam em uma reunião fechada e não
puderam conversar conosco, mas Daniel, que mora no bairro, diz que o que antes
não existia, agora há. “Os médicos vão nas casas, conversam com as famílias,
trabalham com medicina preventiva. É outra relação. Antes, na Venezuela, os
médicos não queriam saber de atender pobre. Agora, com os cubanos, a gente tem
saúde”. Pelas calçadas também se estendem as barracas de lona do comércio
informal. Não há como fugir delas. Nos bairros vendem-se produtos de toda a
sorte tais como peixe e carne de galinha, embora não faltem os indefectíveis
telefones.
Para chegar até a creche, ou nos “simoncitos” como são chamados os espaços que
abrigam crianças, é preciso pegar um micro-ônibus. E lá vamos nós em direção ao
céu, bem no alto do morro. A casa é simples e pequena. Mal se pode crer que ali
ficam 60 niños durante todo o dia. Alguns deles estão dormindo no chão. Carmem
Osticochea é a educadora que cuida do local. Ela tem 54 anos e há 13 trabalha
com crianças naquele bairro. “Antes, isso aqui era só um depósito de niños.
Agora não. Estamos sendo vistos, estão sendo feitas obras, temos móveis novos.
Temos merenda e salário para as voluntárias”. O dinheiro é pouco, 226 mil
bolívares (226 reais) por mês, mas para quem trabalhava de graça é um avanço e
tanto. Carmem é uma dessas mulheres que não se satisfaz com pouco. Protagonista
da revolução bolivariana ela não só cuida da creche como atua no Comitê de Saúde
e participa de todas as discussões na comunidade. “Agora, com Chàvez, está tudo
chevere”, diz, sorrindo, enquanto ergue nos braços um pedacinho de gente que
chora pedindo carinho. “Chevere” é uma expressão típica da Venezuela que quer
dizer “tudo muito bom e bonito”.
A caminhada por Macarao segue até a parte onde vivem os imigrantes portugueses.
É como uma ilha no meio do bairro. Casas avarandadas, coloridas, cheias de
sacadas. Tem também uma pequena praça onde as famílias sentam-se ao fim da tarde
para conversar. A vida ali parece seguir sem percalços. É hora de descer e lá
vamos nós outra vez no ônibus. Chove forte e os estudantes se amontoam nas
paradas, entrando aos borbotões. Ao saber que ali viajam brasileiros logo querem
saber de coisas. Fazem perguntas, contam de suas vidas e confirmam o que dizem
quase todas as gentes mais humildes de Caracas. “Com Chàvez, é bom!” Do ônibus
passamos ao metrô, voltando para o centro da cidade. Vamos passar no “23 de
Enero”, o famoso bairro que cerca Miraflores, o palácio presidencial. Pegamos
mais dois outros ônibus e ali estamos.
Diz Daniel que até poucos anos ninguém poderia andar no bairro tal como
fazíamos. “Era um reduto de violência, de assaltos, de gangues. Agora não, a
comunidade assumiu o controle. A gente pode passear, os velhos podem ficar ao
sol e as crianças brincam nas praças. Tudo isso só foi possível com o poder
popular”. Segundo ele, ali no 23 de Enero, incrustados nos milhares de
apartamentos populares que compõe o bairro, estão os mais ferrenhos defensores
da revolução bolivariana. São os tupamaros (uruguaios) e os chavistas de
carteirinha. Foram eles que, no golpe de 2002, desceram rua afora até o palácio,
prontos a defenderem com armas e com a vida o governo de Hugo Chàvez. É um
bairro mítico e não há quem não se arrepie ao andar pela calle La Silsa , uma
rua imensa, cheia de casas e muros pintados com grafites pró-revolução. Raul
conta que não só ali, mas em outros tantos bairros pobres, as pessoas agora tem
também o gás encanado, chegando diretamente nas casas, num acordo fechado com a
PDVSA (empresa do petróleo). Ele se emociona porque lembra que quando mais jovem
fez muito trabalho comunitário naquele lugar. “É bom ver isso assim”.
Dali seguimos para o centro onde nos despedimos de Raul e Daniel. Os dois
venezuelanos que nos deram uma tarde de caminhada agradecem pelo fato de termos
querido andar pelas ruas, pelos bairros mais pobres. E nós agradecemos por
termos tido a oportunidade de conhecer um pouco mais de uma Caracas que não
estava no roteiro do Fórum. Poucas horas depois, no ginásio esportivo, o
presidente Chàvez falaria aos participantes do Fórum, na Assembléia dos
Movimentos Populares. Nunca um discurso nos pareceu tão concreto. Porque ainda
tínhamos nas retinas as imagens de Macarao e do 23 de Enero, lugares em que o
povo é verdadeiramente protagonista da história.
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