Revista Pobres & Nojentas, da Cia.dos Loucos. Só doido não lê!

 

Perfil

Nascida com o Redentor

 

 

por Raquel Moysés

 

No dia em que Ida nasceu a mãe lhe disse, na intimidade do primeiro abraço, visguento, banhado de suor e sangue, vestígios de um parto apenas consumado: “Tu vai ser uma guerreira!”

A premonição materna teria tudo para se cumprir. A menininha viera ao mundo na solidão de um pedacinho de chão rural, assolado pelo sol de dezembro, nos arredores de Joaçaba,  no mesmo dia em que veio à Terra o Redentor. Só ela, a mãe e o Criador.

Ao sentir que entrava em trabalho de parto, Olívia ferveu água, chamuscou a tesoura, pegou panos limpos e deu um jeito de afastar os três  filhos pequenos, dizendo que fossem à casa da vizinha mais próxima, a uma hora da casa andando a pé. Encantou-os dizendo que era  para ir lá brincar, comer bolacha de natal e falar para a  amiga que a cegonha estava chegando. Quando a mulher  chegou, à uma da tarde, a pequenina já estava embrulhadinha, nos braços da mãe.

Desde aquele dia passaram-se 42 anos e,  a cada natal, Ida  renasce. Um deles, em especial, dois anos atrás, foi mesmo como uma ressurreição, pois ela pôde celebrar, com a numerosa família,  a recuperação de uma doença que lhe atacou sem piedade os pulmões. A vida tem reservado batalhas sem fim para essa mulher de aspecto altivo, que guarda no porte e nos traços a beleza de uma princesa africana. Quando ouve isso de uma amiga que se tornou uma irmã na vivência da dor compartilhada, responde com um sorriso tímido. Ela não conhece políticas de afirmação da negritude nem  essa coisa de cotas para  afro-descendentes na universidade, mas tem reverência pelos seus antepassados: “Gosto de minha cor, gosto de ser como sou”.

As histórias de família vão se cruzando enquanto rememora a própria vida. Recorda a avó materna, Carolina,  de quem não tem boas lembranças, pois tinha se tornado uma mulher amarga e dura depois que assassinaram com um tiro seu grande amor, o italiano Francisco, com quem se casara em meio a forte resistência dos familiares. Pego em uma tocaia, ele morreu aos 24 anos, deixando uma viúva de 23, que criou sozinha cinco filhos. Mas, apesar de ter sofrido  rejeição da família do marido por causa de sua cor, a avó nunca aceitou o marido que a filha Olívia escolhera, também por amor. E, após o casamento, encontrou motivos para aumentar o ressentimento contra o genro Maurílio, que teve a vida devastada pelo álcool, virando um andarilho que sumia meses e meses de casa. “Foi por isso que minha mãe viveu meu parto  sozinha, no dia de natal, mas ela amava muito meu pai, e sempre o aceitava quando voltava, todo maltrapilho. Depois que ela engravidava de novo, ele dava no pé.”

Ida nunca entendeu por que isso acontecia, se o pai sumia porque  não tinha coragem de enfrentar a vida, ou se não suportava  ver a mulher e os filhos sofrerem a pobreza. “A gente nunca entendeu o pai. Quando estava em casa  bebia, mas  não andava com mulherada nem nunca maltratava a gente, ele era contra bater em criança. Mas nossa história de infância  é muito triste...  o que era bom era ter a mãe, sempre amiga, companheira, dando força para a gente ter um bom caráter. Ela me ensinou que a verdade está acima de tudo, por mais doída que seja. Somos irmãos muito unidos, e isso é uma herança dela. Éramos sete filhos, cinco homens e duas mulheres...Agora  somos cinco,  já morreram dois.... A mãe era a minha melhor amiga e é por causa dela que temos músicos e cantores entre os irmãos e meus filhos. Eles tocam e cantam nos cultos e festivais da igreja.”

O trabalho duro deixa marcas no corpo de Ida, mas ela cultiva o gosto pela beleza. Trabalha como faxineira em um condomínio do continente há 13 anos, e nunca ninguém a viu chegar ou sair desarrumada do prédio. Põe a roupa da lida na hora de limpar tudo e, quando vai embora, se apronta bem, com as roupas que reserva para a hora de sair de casa. A coluna sofre o peso da labuta desde a meninice, mas ela mantém o porte ereto, os cabelos bem ajeitados, as unhas lixadas. Os lábios pintados iluminam o rosto marrom, de linhas generosas, que mesclam traços da origem africana e italiana.

Nunca perdeu a vaidade da menina que trabalhava na lida da roça e ajudava a mãe lavadeira a deixar impecáveis as roupas dos ricos, que lavavam nas águas do rio do Peixe, nas bandas de Herval D’Oeste. Foi lá que começou a trabalhar fora, com nove anos, cuidando de crianças e da casa dos outros. Mudaram-se para Florianópolis porque veio uma tia, e ela dizia que a cidade era muito boa. Moraram os primeiros três anos  no Bairro de Fátima, nos fundos do quintal da sogra dessa tia. “Era uma casinha de duas peças. A mãe mesma fez, com as mãos dela, com tocos de tábua, e ficou bem feitinha. Mas quando chegamos aqui, a mãe ficou muito doente, com bronquite asmática, e os guris faziam de tudo para pôr comida na mesa: vendiam picolé, lavavam calçada, enceravam casa, capinavam terreno e como paga ganhavam café, açúcar,alimentos...Os dois mais velhos que saíam para trabalhar com o pai, nos tempos que ficava em casa, acostumaram a beber com ele, e disso morreram, um de cirrose, com 24 anos, e outro de hepatite, com 43 de idade.” 

Tudo que Ida ganhava da lida em casas de família da capital, a mãe guardava para dar de entrada e comprar um terreno da Cohab, em Biguaçu, onde foram viver e do qual os filhos de Olívia saíram todos casados.  As prestações  era Ida que pagava. “No início a mãe montou  uma barraquinha de lona preta que quando chovia com vento forte a gente tinha  que ficar segurando para não cair. O chão era de terra batida,mas tudo limpinho, e ela fez os cômodos separados, com madeirinha de resto de construção. Em volta era bonito demais, tudo com folhagem plantada.. e a mãe tocava violão para nós.”

Quando era solteira, Olívia tocava baile, mas depois que veio para a capital se batizou nas águas e se  tornou evangélica. Três dos filhos e uma das duas filhas, Letícia,  a seguiram, mas Ida continuou católica. “Duas das minhas meninas, Vânia e Vanessa, seguiram a avó na fé, porque era ela que cuidava delas para eu trabalhar e levava as meninas para os cultos.”

Costurando de novo os retalhos de memória que vão se juntando, Ida lembra que ficaram  um ano morando na barraca de lona preta até  comprarem a madeira para construir uma casinha. O dinheiro para isso ela  ia conseguindo das faxinas que fazia na praia nos finais de semana.    

Ida pensa que a felicidade  que hoje existe na família é herança dessa mãe que partiu cedo, com 49 anos, acometida por um derrame.Os últimos anos ela tivera de novo o marido em casa, pois Maurílio também se convertera à fé da mulher. Ele ficou quatro anos sem beber, arranjou um emprego de vigia na prefeitura de Biguaçu e só voltou  a se consolar  no  álcool depois que Olívia morreu. Disse que sem ela não queria mais ficar neste mundo, voltou a viver sua  sina de viandante e   acabou atropelado na BR-101, perto de Tijucas.

Do pai, Ida tem uma boa recordação. “Ele gostava de se meter em política e eu acho que é desse sangue dele que eu herdei  esse gosto que tenho de me enrolar nas coisas da vida da comunidade.”

Ida é uma líder informal, dessas que nunca “virou cargo” em associação de moradores. Tudo que lhe dão nas casas em que faz faxina, ela reparte em família e  com a gente do Pedregal. Roupa, agasalho, coberta,  sapato, material escolar, pedaços de carpete, móveis velhos. Lá na comunidade há sempre alguém para quem serve alguma coisa,  e ela não se importa de forçar a coluna carregando no ônibus sacolas cheias de coisas ganhadas. Quando é coisa grande demais, dá um jeito de conseguir carona para levar ou de fazer uma vaquinha para pagar um frete ou a gasolina de algum conhecido que tem carro. “Eu nunca vendo nem troco nada do que ganho, sempre dou aquilo que posso doar...”

Com a política de partido ela anda desiludida. Ganhou muito voto para o PT, mas não viu acontecer aquilo que era prometido nas campanhas. Meio tímida, confessa que hoje talvez votasse de novo para o Lula. “Ainda não consegui deixar de gostar dele e não acredito que seja culpado de tudo. Acho que é uma vítima no meio dos grandões.”

Essa mulher que nasceu no mesmo dia em que Jesus veio ao mundo, sempre dividiu o pouco que tem e, além de ter sido  um arrimo para os irmãos, soube sustentar a  família que formou com o marido, mesmo nos momentos de maior crise. Ida se uniu a Valdir quando tinha 16 anos, e com 17 já era mãe de Vânia. Ela se apaixonou por ele através de um retrato. “Um dia fui fazer limpeza na casa de uma irmã dele. Por acaso achei uma foto e perguntei quem era aquele moço.. .Gostei dele  desde que vi a fotografia e  guardei comigo. Seis meses depois, um sábado de manhã, chegou um rapaz, de Imaruim de Laguna, procurando pela irmã  e eu  senti que já o conhecia, corri olhar a foto e vi que era aquele moreno  bonito. Ele tinha vindo para a cidade ser cobrador de ônibus.”

Valdir logo se tornou amigo dos irmãos  e daí para o namoro com a bela Idalina Silva de Souza foi um passo. Depois de dois meses decidiram casar, mas como ela era menor  de idade e o pai, que precisava assinar a concordância,  estava naqueles meses de sumiço, a mãe da mocinha aceitou que os dois ficassem juntos. O casamento no papel veio meses depois, num 20 de outubro,  e este ano eles completam bodas de prata. Foram capazes de formar, em meio a dificuldades e sacrifício, uma família de cinco filhos,  que já lhes deram sete netos. “O mais velho, Rodrigo, é um filho do coração, que meu marido teve antes do nosso casamento.”

Ida se alegra quando fala que o marido agora tem um trabalho de carteira assinada e saiu da depressão. “A gente sofreu estes anos todos, nunca tinha nada em casa, teve dia de só ter água da torneira para pôr na panela,  mas eu nunca perdi a esperança.”

Foram manhãs e tardes  de lida doméstica em casas alheias, na cozinha de um restaurante, em uma fábrica de plástico. Noites de frio vendendo pinhão na porta de uma escola. Nesses caminhos,  nem sempre encontrou pessoas boas e respeitosas. “Muitas me exploraram, muitos dos anos trabalhados nunca foram registrados para a aposentadoria. Quando era menina, trabalhava numa casa no bairro de Fátima e levei uma conchada nas costas porque deixei a comida queimar, era muito pequena, não sabia cozinhar direito. Quando contei, minha mãe me tirou de lá e fui trabalhar perto da marinha, lá cuidava de um menino, como babá. Depois que eles foram embora para Porto Alegre, fui trabalhar para um casal de médicos no centro. Eles tinham duas crianças e a menina era muito apegada a mim, mas o menino vivia me chamando de negra e não queria que eu comesse o que eles comiam. A mãe repreendia ele... Uma vez, fui pegar um emprego,  e quando a mulher viu que eu era negra, não me quis, disse que a menina não iria me aceitar.”

Hoje Ida ainda vive no Pedregal do Bom Viver, num pedaço de terra que novamente está pagando com o suor do trabalho, pois acabou deixando para os irmãos a sua parte no terreno em que vivia com a mãe . “Felicidade mesmo eu só encontrei no dia que conheci uma pessoa que me estendeu a mão e me emprestou, sem juro nenhum, o dinheiro para eu comprar o meu terreninho. Eu me sentia perdida, como um pássaro fora da gaiola, e ela me fez sentir como se minha mãe tivesse ressuscitado para me ajudar.

E como tudo na vida de Ida tem a dádiva do pão repartido, ela já abriga em duas casinhas no seu quintal dois dos filhos casados,  Vânia e Valdeci, com nora, genro e netos.  “O que se tem de mais importante na vida são os filhos, tenho vontade de viver por causa deles.

No coração, guarda dois desejos: Não quero morrer sem construir minha casinha de material.  Também sonho em ver Viviane,minha filha caçula, formada em Fisioterapia. Ela estuda, se esforça e vou fazer de tudo para ela cursar a universidade.”

Outro sonho, ela traz escondidinho no fundo do peito, mas o revela no final da conversa. “Tenho desejo de um dia  ser evangélica...parece que eles são tão felizes servindo a Deus, falam abertamente com ele como se fosse um amigo...na católica, não tem muita intimidade com Deus... Só não me batizei ainda porque sou muito vaidosa,  gosto  de me arrumar, fazer as unhas, usar calça comprida, blusa cavada, passar batom...Também gosto demais de  dançar, e não poderia mais fazer nada  disso.”

Caprichosa e silenciosa,  Ida cuida da casa dos outros com a delicadeza de quem acaricia os pertences que servem para fazer viver bem os seres que mais ama. Deixa tudo cheiroso e arrumadinho. O chão, a parede, as janelas, as  almofadas, os enfeites,  cada objeto guarda o toque de suas mãos generosas. E quando vai embora, à noitinha, permanece no ar um perfume de limpeza e um desejo de bem.

 

 

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