Felicia não queria morrer analfabeta

 

por Ventura de Jesús e Jorge L. Baños

Tradução do Círculo Bolivariano de São Paulo - http://www.unidadepopular.org

A idéia de se alfabetizar com sua idade, 99 anos, lhe parecia algo irreal. Como é de se imaginar, a essas alturas já dóem todos os ossos e até a alma. Mas Felícia Gómez se decidiu a continuar viva e realizar um sonho que lhe foi negado durante quase um século: ir à escola.

Com uma pergunta de incredulidade na boca de muitos, a longeva mulher, de ascendência indígena, desafiou toda lógica e ocupou uma cadeira na sala de aula de seu bairro, na capital. Não queria deixar as coisas como estavam. "Esta é minha hora e quero aproveitá-la para me defender sozinha", tratou de se animar.

"Deixa que o tempo corra e logo veremos se posso mesmo", dizia aos incrédulos. E assim foi. Felicia aprendeu a ler e escrever. Integra esse exército de mais de 53.000 venezuelanos do Distrito Capital que este domingo receberam seu certificado de alfabetizados.

Quando alguns costumam entusiasmá-la com frases de elogio, ela sorri e diz "não têm que me enganar como um bebê. Já vivi muitos anos, não me mimem tanto. Gostaria de ser agora muito mais jovem e estar menos esgotada, mas me meti nisso porque não quero morrer analfabeta".

Felicia é dessas poucas pessoas que puderam sobreviver tanto tempo à inclemência da pobreza. Seus rasgos originários destas terras deixam ver as marcas de uma vida dura. É, contudo, uma anciã cândida e de muito bom humor.

"Nós pobres, e muito menos os índios, nunca tivemos oportunidade de ir à escola. Recordo que quando criança ia na porta dos colégios e pedia para que me deixassem entrar: eu me sento no chão, suplicava. Mas nunca deixaram que eu entrasse. Diziam que nós índios não aprenderíamos jamais. Foi algo que me cansei de escutar".

Seu futuro estava traçado: "Com apenas 10 anos tive que ir trabalhar. Era o máximo a que podíamos aspirar. Assim gastei minha juventude e minha vida. Graças a Chávez, hoje os venezuelanos têm outras possibilidades".

Quando alguns lhe recordam que as mudanças chegaram um tanto tarde, Felicia desabafa com um toque de ironia. Conta que estava viva por milagre, mas depois que aprendeu a ler e escrever se nega a morrer.

"Além disso, o prognóstico do meu médico da missão Bairro Adentro é que vou chegar a 120 anos. Só então morrerei satisfeita", diz e sorri para permitir que aflore a satisfação em seu rosto sulcado pelo tempo e pela miséria.

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