Revista Pobres & Nojentas, da Cia.dos Loucos. Só doido não lê!
Editorial
Esta é mais do que uma simples revista. É um movimento, um caminhar. De gênero e de classe. De gênero porque entendemos que existe, sim, uma “mirada” feminina, que é ancestral e poderosa. Nem melhor, nem pior, apenas desigual. E, nessa diferença, precisa se expressar desde seu lugar, a partir da “mulheridade”. De classe, porque o olhar das mulheres pobres, marginalizadas, oprimidas, é duplamente desigual e, mais do que qualquer outro segmento, raramente tem onde se dizer. Pois aqui, nestas páginas, vão falar as mulheres pobres e nojentas. O que não impedirá, é claro, que igualmente os companheiros homens possam ser narrados nas suas dores e lutas. Não seremos nunca um gueto, mas uma amorosa rede (nunca virtual) para o acolhimento de quem batalha por vida digna.
A palavra “nojenta” que vem agregada ao nome, nesse caso, não tem qualquer conotação de sujeira. Seu significado específico, para nós e para todas as mulheres que aqui vão dizer a sua palavra, é “insuportável”. No interior do Rio Grande, onde nascemos e nos criamos, uma “guria nojenta” é aquela que não se dobra a nada nem a ninguém. Que entra nos lugares onde não é chamada, que empina o nariz quando todos a censuram, que não aceita ordens, que sabe dizer um “não” sonoro e rotundo àquilo que não lhe cai bem, que questiona velhos valores, que cria o novo, que inventa primaveras em plena noite de temporal, que gera o verão nas madrugadas de frio minuano, que ama sem medo. Enfim, uma mulher insuportável ao sistema patriarcal, opressor e capitalista e, por isso, imprescindível. Pois assim são as mulheres aqui narradas. No mundo sem ser do mundo, tal qual ensinou Jesus, o nazareno.
Pois nesse mundo globalizado, metido a pós-moderno, no qual as grandes editoras se preocupam em lançar revistas de moda e outros quetais que apenas movimentam a estúpida e predadora máquina do capital, ou então publicações que contam a vida dos famosos ou de inúteis e portentosos desconhecidos, nós aqui vamos falar de pobres e nojentas. De mulheres que, apesar de sua condição, de sua classe, não se rendem a nada. Empinam seus narizes e, feito deusas, adentram no mundo rompendo todas as cercas. Mulheres que lutam, que trabalham, que se movem na direção do grande meio-dia, o tempo em que as riquezas serão repartidas e a vida de todos será boa e bonita. A “Eko Porã” dos Guarani. Mulheres que, com seus corpos e mentes, cheias de promessas a realizar, sobem na mais alta montanha da terra e dizem, como Jeremias: ainda se plantarão vinhas nesse lugar. E dali descem, como loucas, dispostas a semear e, principalmente, a colher.
Pobres & Nojentas nasce em nós como uma filha, das tantas que não vieram ao mundo, mas que vivem, em ebulição, dentro de nossos corpos, malucas por sair. É gerada de um sonho. É uma resposta ao pseudo-vazio do espírito do tempo, à religião do capital, ao insosso mercado mundial, ao medo, à desesperança. Pobres & Nojentas é um mágico portal, feminino, feminista e humano, demasiado humano! Se você cruzar, se perderá... Insha Allá.
Elaine Tavares
Míriam Santini de Abreu
Editoras
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