SETECENTOS E TRINTA MIL ANOS

Setecentos e trinta mil anos antes da crucificação
Quando em redor do lago Tiberíades era todo verde
Nós, quase-homens, sentávamos às suas margens
E víamos nosso filhote ser comido por
Um crocodilo gigante
Sem asas, aves, presas fáceis de carne tenra e rosada
Crua e às vezes com penas, que cuspíamos na chamada do raio
E quando o sol-criador se punha em Marte
Comíamos carne de camelo queimada e ríamos

Gritávamos e nos mordíamos com nossos dentes negros
Nosso mau-cheiro não existia
Éramos agradáveis
As neuroses estavam distantes
No futuro
Alguns dos nossos haviam partido em direção ao sol
Ver seu ninho oco que nascia atrás
E nós que ficávamos, quando saíamos da toca para as árvores
Colher e brincar
Não caíamos dos galhos
Não batíamos as cabeças
Éramos saudáveis
Éramos carne
Havia frescor na terra, não havia frescura na Terra
A morte era um mistério sem dor
A dor era um dos muitos mistérios
Tudo na terra era de todos
Quando havia muito, muito todos comiam
Se havia pouco, pouco era comido por todos
Não havia donos e o que queria
Logo era morto
Linchado
Amor não era sentido

 

Arildo Correia Lima nasceu em 1969, desde então em Diadema. Tem obras publicadas na antologia "Tempos Perplexos", nos cadernos do projeto "Q Poética?!", no "Zine Mad 2004" e é autor participante do projeto "Poesia nos ônibus", todos da cidade de Diadema. Foi contemplado com o 2º lugar na categoria "Poesia" na Mostra de Artes de Diadema / 2004.

 

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