AQUI

 

 

 

Aqui falam os repórteres da casa das mulheres,

das diretamente enviados à cruz, do homem

total sem posses, possível homem das pazes;

da rua da criação do mundo,

da rua da paz e seu confronto duradouro,

da rua anônima onde se encontra um menino

massacrado ou perdido frente ao ronco

industrial de motores e polícias.

 

Aqui falam os amigos íntimos do moço trabalhador

de qualquer país, de qualquer continente,

a fazer com que circulem papéis impressos

donde se lê que o capitalismo extermina

todos os anos 58 milhões de homens feitos,

mulheres e crianças menores que uma

caixa de sapatos;

 

aqui estão a voz e o rosto negro da mulher

ex-empregada doméstica que se recusou a passar

fome, e foi condenada a três anos inteiros

de reclusão num presídio por haver roubado

o que botar no pão, dos corredores de um

supermercado francês, no Brasil.

 

Por aqui caminha o profeta ou pastor Operário,

ele aponta pela Terra os nomes de seus traidores,

ele aponta no ar um laço promissor de estrelas

e ferramentas que se cruzem, e formem seu brasão

de armas e outras coisas que dão som,

e sejam por esse ar a bandeira vermelha,

aberta por uma memória

de camisas rotas de sangue

e feliz toalha de mesa.

“Messiânicos!”, grita mister jornalista de smocking,

“o comunismo acabou, nós rasgamos para sempre

a bela toalha para todas as mesas.”

Nós respondemos: “Imbecil, a mesa em breve

estará posta, até mesmo em tua casa.”

 

Aqui falam o desempregado e seu desespero

quase indescritível, não fosse a descrição geral

do que sentem o condenado, o sentenciado

à loucura, o trabalhador esmagado pela prensa

e o soldado sem balas e sem batalha,

apontado como desertor, chamado covarde, parasita,

estúpido, viciado, oportunista, vagabundo,

burro, senil, doente, vergonhosamente doente.

Aqui fala o desempregado, com sua dor

de sapatos furados e um fedor acre, desde o asfalto

calcinado de sol, desde as casas abandonadas

e imensas antenas metropolitanas, perante as quais

seguem perfilados, defumados, os tonéis

de gasolina azul para os helicópteros dos milionários

e a fachada de cristal das pocilgas de fino trato.

Aqui fala meu camarada desempregado,

com esse suor dos tempos, com esse calvário

aceso do Inferno.

 

Aqui fala meu companheiro desempregado,

com quem caminhei por anos infinitos,

com quem mastiguei a brasa de seu coração

rachado de marretas e calor dos fornos

em que se fizeram o pão e o bolo,

longe de suas mãos. Foi quando morremos os dois,

somente assim nos separamos.

 

Aqui fala a moça expulsa dos caminhos bonitos

de lojas altas e chafarizes,

aqui fala a menina vendida por seus pais

famintos e imensamente mortos;

aqui fala o homem diverso, em tamanho e graça

crescido diante das mulheres,

diante de seus olhos abertos, para sempre

abertos, é possível apenas que permaneçam abertos.

 

E aqui também ninguém fala, aqui calamos todos.

 

 

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