
O
dia nasceu estranho. Era 4 de
Agosto de 2000 e os Placebo vinham actuar pela terceira vez a Portugal.
Eu ia vê-los pela primeira...
A praia da Zambujeira do Mar estava simplesmente
perfeita. O solzinho estava a começar a queimar e a falta de sono da
noite anterior estava a deixar marcas. Era dia 4 de Agosto e eu ia ver
os Placebo actuarem. Com algum custo tive de deixar a praia e pensar em
arranjar um lugar nas camionetas que iam para o recinto do festival.
Esperar na fila era coisa que não passava pela cabeça. Depois de algum
tempo a estudar o pessoal, lá consegui entrar pela porta de trás da
camioneta. Os tipos que iam à minha beira iam a ouvir o "Nevermind"
dos Nirvana e a fumar charuto. Cheguei ao recinto e as bandas do palco
Blitz já tocavam mas não havia tempo para as ouvir. Apenas havia tempo
para ir à tenda comer qualquer coisa e acabar o cartaz que já tinha
começado a fazer na vila da Zambujeira. Como não queira ficar muito
afastado do palco, comecei a pensar em entrar no recinto dos concertos.
Apesar de ainda ser dia, a entrada não estava a ser nada fácil.
Milhares de pessoas queiram ouvir Beck e Bush. Eu contentava-me apenas
com os Placebo. Lá dentro ainda houve tempo para passar pela tenda do
artesanato e pela tenda de chill-out. Pairava no ar um agradável cheiro
a maresia. O palco principal simplesmente intimidava quem lá estava por
perto. Era bastante grande. Depois de ver algumas caras conhecidas e que
nunca esperava encontrar num festival deste género, sentei-me na relva
a poucos metros do palco. À minha volta comecei a ver alguma malta do movimento e vi
uma camisa que tinha como marca simplesmente "Glam".
Passei-me... Com isto o tempo ia passando e o recinto enchendo. Por
volta das 8 da noite, que de Verão ainda é dia, os Elastica subiram ao
palco. Que a verdade seja dita, os Elastica não pareciam lá muito entusiasmados
assim como o público que os ouvia. A teclista (não percebi muito bem o
seu papel) era a única que corria e saltava pelo palco. Ela fazia anos
nesse dia. Os primeiros aplausos iam surgindo e a banda ficava mais
solta. Eu não os conhecia muito bem e a única música que sabia cantar
era a "2:1", incluída no álbum do excelente filme "Trainspotting".
O momento que suscitou mais aplausos foi quando o Brian Molko apareceu
no backstage para assistir à actuação dos Elastica. Parece que eles
são bastante amigos e constou que partilharam garrafas e charuto antes
da actuação. Com alguma naturalidade os Elastica deram por terminada a
sua prestação e o palco começava a ser montado para o Glam Rock dos
Placebo. Não havia tempo a perder e o pessoal começava a empurrar para
a frente. A noite caia depressa mas o calor era cada vez maior e a sede
apertava. Durante a montagem do palco, teve de ser feito um pequeno
soundcheck uma vez que os membros da banda tinham andado perdidos pelas
herdades do Alentejo e não tiveram tempo de afinar o som durante a
tarde. Os primeiros acordes de "Taste in Men" fizeram-me
gritar por eles. Algumas pessoas à minha volta olharam para mim. Esta
era uma das duas músicas que eu já conhecia do novo álbum que tinha
descarregado do Napster. A outra era a "Commercial For Levi".
Os rodies iam montando o palco e a malta estava a adorar. Finalmente as
luzes do palco apagaram-se e surgiram três vultos no fumo. A assistência
gritava... O Steven Hewitt sentou-se na bateria. O Stefan vestia uma
t-shirt cabeada muito justa de tecido transparente. Tinha o cabelo muito curto. O
Brian Molko apareceu com o seu novo look. Cabelo escalado, olhos e unhas
pintados de preto e uma t-shirt preta com o que me pareceu ser um tigre
chinês vermelho. "Black-Eyed" abria o concerto a apesar de eu
não conhecer a musica, não podia deixar de saltar. Os Placebo estavam
a actuar. Durante a primeira música, o Stefan fartou-se de posar para a
plateia em atitudes verdadeiramente provocantes. O glitter estava por
todo o lado. As miúdas fartavam-se de gritar pelo Brian e ele parecia
muito compenetrado no seu trabalho. Era a altura ideal para as primeiras
fotos. Finda a primeira música, Brian cantava agora "Days Before You Came" e a assistência
ainda esperava a sua oportunidade para mostrar que sabe as letras de cor.
Pela amostra, o álbum a editar em Outubro parecia ser muito bom. Decido
elevar o meu cartaz no ar para que os membros da banda o pudessem ler.
No cartaz lia-se: "Play 20th Century Boy" que é uma música
sublime dos T-Rex que os Placebo cantam no filme "Velvet Goldmine"
e já gravaram com o David Bowie. O Stefan olha, lê e esboça um
sorriso. A mensagem tinha passado. "Allergic" abre finalmente
as hostilidades dos fãs e há mosh um pouco por todo o lado. Alguns
elementos mais agitados lançam o pânico e eu tento-me aguentar em pé.
Sinto a minha t-shirt a ser agarrada e o escaldão que tinha apanhado na
praia arde que se farta. Tudo bem que as pessoas gostem da música, mas
eu não vou para um concerto para ser espezinhado. Volto a pôr o meu
cartaz no ar e ouço algumas bocas por isso. O concerto continuava com
"You Don´t Care About Us" e o mosh manteve-se assim como o
meu cartaz. O Brian que parecia já ter reparado no cartaz, olha mais
atentamente para ele e esboça um novo sorriso. Desta vez ele olha para
o Stefan e diz-lhe "...in the encore!...". Tudo apontava para
que eu iria ouvir a "20th Century Boy" no encore. Fiquei nas nuvens!
"Slave to the Wage" ecoa pelo recinto e algumas pessoas
mostram já conhecer o tema, que repito, ainda não tinha conhecido
edição. O próximo tema é "Bionic" que volta a estalar com
o mosh na frente do palco. Nesta altura o suor escorria por toda a gente
e o meu cartaz, apesar de já não mostrar muita saúde, lá ia de vez
em quando para o ar. Uma música suave foi um calmante para a malta mais agitada. "Passive Aggressive" serviu
também para tirar mais umas fotos. Já com o meu cartaz feito em
pedaços, Brian começa "36 Degrees" ao que se seguiu "Special
K" . Durante as semanas anteriores ao concerto sempre pensei que ia
gostar da actuação deles. Tinha-me enganado: estava a adorar! A
música "Without You Im Nothing", que dá nome ao segundo álbum
da banda, estava agora a ser executada pelo fascinante
Brian Molko. Enquanto ele canta"...tick toq..." o concerto
chega ao fim. Quase uma hora de espectáculo tinha voado... A malta que
nestes casos não dá hipótese, começou logo os tão tradicionais
chamamentos e não demorou muito a vermos a banda outra vez. Foi
montado um piano no palco e o Stefan sentou-se às teclas. Brian Molko
acende um cigarro e diz à assistência que quer ver os isqueiros
acesos. Como não foi muito bem sucedido, resolve atirar o seu próprio
isqueiro que para meu espanto cai a um metro de mim. Vejo um rapaz a
apanhá-lo e dirijo-me a ele. Meto a minha mão ao bolso e saco tudo o
que tinha: 500 paus. Tive azar porque o tipo era um grande fã e não me
vendeu o isqueiro. Disse mal da minha vida... A esta altura já se ouvia
"Teenage Angst" desta vez em formato acústico. O single de
apresentação "Taste in Men" foi a música que a banda tocou
depois do piano ter sido retirado do palco. Este foi para mim um dos
melhores momentos do concerto pois fartei-me de cantar enquanto os meus companheiros
de plateia olhavam abismados para mim. A música "Nancy Boy"
que foi tocada na sua versão "sex mix", voltou a despertar os mais
agitados e o mosh surgiu naturalmente para minha angústia. O concerto
já ia longo para estas coisas de festivais e eu continuava sem ouvir
"20th Century Boy". Volto a levantar os pedaços do meu cartaz
mas a banda remata com "Pure Morning". Sinceramente não sei o
que se passou. Sempre pensei que eles iam tocar mais uns temas mas o
concerto tinha realmente chegado ao fim. A banda despediu-se e
automaticamente o palco começou a ser desmontado matando todas as
hipóteses de novo encore. Tinha sido a primeira vez que os tinha visto
actuar e estava maravilhado. Apesar de me ter parecido pequeno, foi
mesmo um grande concerto! A esta altura a malta já dispersava pelo
recinto e eu aproveitei para ir à tenda mudar de t-shirt pois a que
tinha estava alagada. Aproveitei e também deixei por lá os quatro
pedaços de papel em que o meu cartaz se tinha tornado. De volta ao
recinto era tempo de matar a sede com cerveja, ver os concertos que
faltavam e ir encontrando amigos ou mesmo conhecer caras novas. Amanhã
era outro dia e a praia esperava, assim como uma boa dose de música!
Horácio Luís Baptista - Agosto 2000
|