FALANDO
SOBRE
WING CHUN

Por Thomas Pinheiro

O desenvolvimento das t�cnicas de artes marciais na China muito se deve � necessidade do aprimoramento de t�cnicas para combate em guerras, para conquistas, defesas de cl�s ou contra povos inimigos. O grande marco da arte marcial chinesa, difundida com o nome de kung fu, sem d�vida foi no momento onde rebeldes se alojaram em templos shaolin.

At� ent�o a maioria das t�cnicas se baseavam em for�a bruta, f�sico e com a necessidade dos rebeldes enfrentarem os manchus, considerados invasores; utilizarando dos templos como esconderijos para treinar grupos rebeldes com artes militares, corporais e com armas. A concentra��o de especialistas em artes marciais levou ao desenvolvimento de t�cnicas novas, definidas em estilos com suas caracter�sticas diferentes. Usando n�o mais apenas o f�sico, mas procurando melhor aproveitamento nos movimentos, na pot�ncia, na t�cnica, e a necessidade de treinar em espa�os de tempo mais curto tamb�m, pois havia a urg�ncia de um maior contingente rebelde. A cria��o do estilo Wing Chun est� ligada a necessidade de um ensino de combate mais r�pido, o que n�o quer dizer que outros fossem melhor ou pior em efetividade. Algumas caracter�sticas de wing chun s�o rapidamente aprendidas, outras demoram mais para desenvolver e dependem muito do praticante. Com a destrui��o do templo em que se alojava a mestre Ng Mui, o ensino do Wing Chun foi restrito, passando de fam�lia a fam�lia e sendo ensinado publicamente apenas por volta de 1950.
O treino de Wing Chun desenvolve por si s� uma agressividade nos movimentos do praticante, fator este muito importante para um combate real e que pode superar a t�cnico.

Devido ao treino sem regras, sem competi��o, mas visando defesa pessoal, e com menos movimentos do que a maioria dos outros estilos chineses, o estilo Wing Chun obteve grande aceita��o de 1980 para c�.
Wing Chun tem caracter�sticas que o tornaram um estilo pr�prio e n�o uma simples deriva��o de outro estilo de kung fu, como j� foi afirmado: �Wing Chun � um derivado do Hung Kuen�.
Todos os estilos que passaram por Shaolin tiveram alguma influ�ncia um no outro, por�m cada um criou e manteve uma identidade pr�pria.
Ao contr�rio do Hung Kuen, o Wing Chun, como outros estilos internos, necessita fundamentalmente de �ombros e cotovelos soltos�, que n�o � uma caracter�stica de estilos que procuram fortalecer o corpo a aprimorar a resist�ncia f�sica, criando a energia de fora para dentro (escolas de chi kum externo). Ao contr�rio do que muitos praticantes pensam, o Wing Chun utiliza muitos movimentos de defesa, movimentos circulares pequenos dentro de movimentos circulares grandes e que se ligam a movimentos retos, formando um movimento c�nico. Por�m, seus movimentos de ataque tem como caracter�stica principal seguirem em linha reta com muita velocidade e explos�o.

Assim como para um estrategista de guerra, o Wing Chun necessita uma maior somat�ria de for�as em um movimento e em uso para atacar com o menor desgaste poss�vel de energia, reservando maior pot�ncia para os ataques.
� f�cil decorar os movimentos, mas treinando � que se percebe o quanto � dif�cil desenvolver a t�cnica, exige muita determina��o e muito treino como qualquer outra atividade para se sobressair. Ombros soltos n�o s�o f�ceis de desenvolver, e estes s�o fundamentais para a movimenta��o correta dos bra�os. A percep��o e o sentir est�o ligados aos ombros e outras juntas como o cotovelo, o pulso. Quando as juntas n�o est�o soltas, a explos�o n�o ocorre e conseq�entemente o praticante depender� apenas da massa muscular do bra�o. As outras �reas e juntas do corpo fazem parte da somat�ria de for�as e todas as juntas devem ter esta capacidade de soltura, de relaxamento.
Como adquirir ent�o t�cnica de Wing Chun se o ombro e outras juntas n�o est�o relaxadas? Imposs�vel. As for�as criadas para explos�o s�o como uma �gua corrente por uma mangueira de �gua, se a mangueira est� dobrada a �gua n�o passa, e pouco ou nada chega a sair pelo bico da mangueira. Para exemplificar, o soco de Wing Chun funciona assim; somente nas juntas do punho no instante da batida a for�a � expressa. Se as juntas dos bra�os est�o im�veis ou tensas, o advers�rio � somente empurrado, e a energia criada n�o percorre cada junta e n�o se desloca para a �rea de contato. O praticante ent�o necessita de muita massa corp�rea, muito peso muscular para agredir o advers�rio. Isto por�m ignora o conceito de se agregar o m�ximo poss�vel de for�as para atacar. Em combate real, retardar a finaliza��o pode significar muito.
Isto n�o se aplica apenas ao soco, mas tamb�m a t�cnicas do Wing Chun como bong sau, tan sau e outras de bra�o, perna, cotovelos, joelhadas e ombradas.
Muitas ramifica��es no Wing Chun atual, seja de fam�lias recentes ou de ramifica��es de Wing Chun de mais de cem anos atr�s, se devem ao entendimento e � obten��o das caracter�sticas b�sicas no estilo Wing Chun atrav�s de treino. Em muitas t�cnicas praticantes alteraram fundamentos, e apesar de muitas levarem o mesmo nome, muitas nada tem a ver com o tradicional wing chun kuen (�punho de wing chun�).

Ent�o, qual � certo qual � errado? A �nica verdade � o correto desenvolvimento de determinadas t�cnias que ganharam reputa��o, com seus respectivos fundamentos e mantendo sua tradi��o; s� assim esta t�cnica pode sobreviver. Do contr�rio, a t�cnica � dispersada, e tudo que se obt�m � uma fuma�a dela ou outra coisa que n�o � o que se diz ensinar. Tal postura n�o pode levar um praticante ao real conhecimento do estilo.
Yip Man ensinou Wing Chun tradicional a poucos, sendo que � maioria ele ensinou o que achava ser mais interessante para o praticante, t�cnicas que fossem mais acess�veis ao f�sico ou � mentalidade de seu aluno.
S�o os conceitos b�sicos e fundamentais do Wing Chun que quando presentes no ensino permitem o correto aprendizado da t�cnica, e n�o um t�tulo ou descend�ncia geneal�gica.
Muitos que interromperam seu treino de Wing Chun e ao retorn�-lo embutiram t�cnicas diversas, em nada contribuiram ao estilo. Atualmente � muito comum levar o aprendizado de um determinado estilo de forma comercial, e considerar um aluno apto ap�s a decora��o das formas. Isto n�o � o que o ensino tradicional prop�e, � necess�rio compreender e conseguir aplicar de fato. E isto leva tempo.
Quando se fala de aprender um estilo de kung fu, trata-se de aprend�-lo de forma acad�mica. Ao atingir um n�vel alto, o estilo � incorporado e n�o comprado. Este deve abrir ao praticante infinitas formas de impor aquela t�cnica acad�mica, como dizemos: �Treinamos forma para n�o ter forma�. Quando ainda engatinhamos temos que pensar em tudo para andar pela primeira vez, mas com o passar do tempo o passo vira instintivo.
A a arte marcial chinesa deve levar o praticante a compreender seu corpo, conhec�-lo, saber separar cada parte e ao mesmo tempo utiliz�-lo como um todo, aumentar seu poder de concentra��o, seu controle sobre seu corpo e sua mente, e acima de tudo, seu uso para fins sociais e humanit�rios.
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