Olavo Bilac
Deixando a bola e a peteca
com que ainda antes brincavam,
por causa de uma boneca
duas meninas brigavam!
Dizia a primeira - É minha!
É minha! - a outra gritava.
E nenhuma se continha e nem a boneca largava!
Quem mais sofria, coitada!
Era a boneca. Já tinha
toda roupa estraçalhada
e amarrotada a carinha.
Tanto puxaram por ela
que a pobre rasgou-se ao meio
perdendo a estopa amarela
que lhe formava o recheio.
E, ao final de tanta fadiga,
voltando á bola e a peteca.
Ambas, por causa da briga,
ficaram sem a boneca
Martins Fontes
Ser paulista é ser grande no passado!
E ainda maior nas glorias do presente
É ser a imagem do Brasil sonhado,
E, ao mesmo tempo, do Brasil nascente!
Ser paulista é morrer sacrificado
Por nossa Terra e pela nossa Gente!
É ter dó da fraqueza do soldado
tendo horror à filaucia do tenente.
Ser Paulista é rezar pelo Evangelho
de Rui Barbosa, o Sacrossanto Velho,
Civilista imortal da nossa fé
Ser Paulista - em brasão e em pergaminho,
É ser traído e pelejar sozinho
é ser vencido mas cair de pé
Guilherme de Almeida
Creio em São Paulo todo-poderoso
Criador para mim, de um céu na terra:
e num ideal paulista, um só glorioso,
nosso senhor na paz como na guerra,
o qual foi concebido nas "bandeiras",
nasceu da virgem alma das trincheiras,
padeceu sob o jugo de invasores;
crucificado, morto, sepultado,
desceu ao vil inferno dos traidores
mas, para um dia, ressurgir dos mortos
subir ao nosso céu e estar sentado
á direita do Apostolo Soldado,
julgando a todos nós, vivos ou mortos,
Creio no pavilhão das Treze Listas,
na santa união de todos os Paulistas,
na comunhão da terra adolescente,
na remissão de nossa pobre gente,
numa ressurreição do nosso bem,
na vida eterna de São Paulo
Amém!
autor desconhecido
Quero meu filho brincando na praça
quero sorrir p´ro moço que passa
quero sentar ao lado...
sem cuidado
da mulher...
do menino...
do desempregado.
Sem medo do revolver guardado...
Quero...
sair na tarde frias...
Caminhar na noite vazia
olhar o mundo com alegria
Sem temor...
sem agonia...
sem vigília...
Quero
A criança dormindo...
seu caminho seguindo...
o velho se despedindo...
velhinho...
partindo...
e a gente morrendo...
de morte morrida.
Quero!...
Um Brasil de vergonha na cara...
De gente que AMA
de gente que VIVE
De gente que FAZ
Basta
EU QUERO PAZ
Roberto Coimbra
Minh´alma está fria, desabitada.
Sinto um enorme vazio em tudo.
Esta angustia é um grito mudo,
É a ausência de minha amada
Meus dias são recheios do nada,
Tristonhos, sem rumo e sem escudos,
Cinzentos, monótonos e sisudos.
P ´ra onde me levará esta estrada?
O tempo é um ribeiro que passa
a caminho do mar e do infinito...
Bebo de sua água em minha taça,
A sede diminuiu, é esquisito...
Meus sonhos agora são fumaças,
Enquanto no que já passou medito
Roberto Coimbra
O sol se cansou de um dia tão pesado,
vem caindo, rumo ao horizonte.
Mergulhará no oceano agitado,
P´ra que amanhã surja revigorante,
cobrindo tudo com um pano dourado
É um gostoso entardecer de verão.
A brisa sopra, é muito confortável;
os ruídos vão e vem com lentidão;
as flores exalam aroma agradável[
o canto dos pássaros chama a atenção.
É um momento de paz e harmonia,
sinto um prazer imenso de aqui estar,
sentindo esta beleza e magia;
Erguer ao alto um pensamento e rezar:
Senhor! a Tua obra me extasia!
Luiz Vaz de Camões
Tanto de meu estado me acho incerto
que em vivo, tremendo estou de frio.
sem causa, justamente choro e rio
o mundo todo abarco e nada aperto
É tudo quanto sinto um desconcerto
da alma um fogo me sai, da vista um rio.
Agora espero, agora desconfio
Agora desvario, agora acerto
Estando em terra, chego ao céu voando
numa hora acho mil anos, e é de jeito
que cem mil anos não posso achar uma hora
Se me pergunta alguém porque assim ando
Respondo, não sei; porém suspeito
que só porque vos vi, minha Senhora
Luiz Vaz de Camões
Amar é fogo que arde sem se ver
é ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
é dor que desatina sem doer
É um não querer mais que bem querer
é um solitário andar por entre a gente
é nunca contentar-se de contente
é um cuidar que se ganha em perder.
É querer estar preso por vontade
é servir a quem vence o vencedor
é ter com quem nos mata lealdade
Mas como causar pode seu favor
nosa corações humanos amizade
Se tão contrario a sí é o mesmo Amor?
Cecília Meirelles
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre, nem sou triste;;;
sou poeta!
Irmão das coisas fugidías
Não sinto gozo e nem tormento
Atravesso noites e dias
no vento!
Se desmorono ou se edifico
Se permaneço ou se me desfaço
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo!
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno, a asa ritimada
E um dia sei que estarei mudo.
- mais nada!