Visita inesperada |
autor: Cientista
fonte: Fórum Ateus.net
Esta semana esteve em minha casa um rapaz de 19 anos que joga futebol, amigo de meu filho e que mora aqui no condomínio. Eu o conheço há muitos anos; criou-se com meu guri, mas nada sabia de sua vida já adulta, o que faz, deixa de fazer, etc. Veio trazer-me um aparelho para conserto, coisa que gosto de fazer. Conversamos um bom tempo sobre a melhor estratégia para salvar o dito aparelho quanto fomos até meu PC fazer uma consulta ao fabricante. Em poucos minutos notou a palavra ATEU, em um ou outro lugar na minha tela e teve uma reação.
Primeiro perguntou-me se eu era ateu e eu disse que sim, que era. Um pouco insatisfeito, começou-me a fazer uma série de perguntas, depois de revelar que era ‘evangélico’:
- Em quê eu ‘acreditava’,À primeira pergunta respondi que podia acreditar apenas em coisas que mostrassem evidências racionais e/ou científicas. Minhas outras respostas foram semelhantes: “Se houver evidência racional de que isto existe, pode ser que acredite.” O rapaz foi se impacientando, porque me toma por uma pessoa madura e culta e pude perceber claramente que meu ceticismo ameaçava sua cega crença, justo pelo fato de me ter em ‘alta conta’. O raciocínio do rapaz me era claro: “Se este senhor maduro e bem informado NÃO acredita nestas coisas, então fica óbvio que estou acreditando em falácias”, coisa que negava reativamente.
(sempre acham que se TEM de acreditar em 'alguma coisa' sobrenatural)
- Se acreditava em ‘Deus’,
- Se acreditava em ‘Cristo’,
- Se acreditava em ‘Inferno’;
- Se acreditava em ‘Satanás’,
- Se acreditava em ‘Isto ou aquilo’ dos dogmas cristãos.
Dado minha negativa em ‘acreditar’ em qualquer dos dogmas tolos que me apresentava, sua impaciência aumentava e passou então para o desafio. Disse então que podia ‘provar’ que cristo existia. Quanto eu lhe fiz ver que o Yeshua já havia morrido há 2000 anos, ele então rematou que ele havia ‘ressuscitado’ e que estava ‘VIVO’. Retruquei então que depois de supostamente ‘ressuscitar’ o cara tinha sumido do mapa, ao que o rapaz retrucou que ele havia ‘subido aos céus’ e estava vivo e ele podia ‘provar’. Não pedi a tal ‘prova’ pois vi que iria entrar numa disputa que não convinha.
Um pouco depois, de volta ao assunto técnico, a ansiedade do rapaz retornava. Queria que eu fosse à Igreja com ele nem que fosse uma vez, para que eu me ‘convencesse’ (leia-se: convertesse). Percebi o quanto a dúvida que eu lhe havia instalado na cabeça o estava perturbando (isto que saí pela tangente, sem confrontar).
Em determinado momento percebi que o rapaz provavelmente era tomado de MEDO e fiz um teste. Como falávamos de satanás, fiz uma cara feia, olhei para cima e clamei por ele, dizendo que se aparecesse eu iria dar-lhe uns bons pontapés na bunda, etc. Acertei em cheio! O rapaz ficou assustado, confessou que estava amedrontado e que ‘tinha medo’ do satanás e sua revanche maligna. Ficou claro que tinha tanto medo dele como de Yeshua e deus.
Ficou claro que o medo que sentia era anterior a sua ‘conversão’ e que nela, apenas este foi canalizado para estereótipos mais palpáveis. Era o medo que morava em seu coração que o havia fragilizado ao ponto de engulir aquele monte de besteira.
Falou-me também de que aquela religião era ‘de verdade’, que não tinham santos nem imagens e que seguiam apenas a Bíblia e que a liam muito, etc. Mostrava ter gostado do calor com que foi recebido lá (toques, abraços), da carinhosa atenção que o pastor lhe dispensava, etc. Havia se acostumado com os gritos e ‘shows’ histéricos que lá aconteciam não raro e tomava aquilo como um diferencial de ‘autenticidade’.
Conheço um pouco sua história familiar para perceber que o calor e a atenção que recebe lhe supre carências históricas de sua vida, especialmente quanto ao pai. Percebi então, claramente, que a religião se instala em pessoas carentes daqueles engôdos, em pessoas loucas para terem seu MEDO aplacado, pois o medo é seu maior impulsor. Como já havia notado, religiosos são portadores de uma fragilidade emocional e um visível medo que é proporcional ao fervor de sua 'devoção'.
Seu recurso aos 'céus' significa que a Terra falhou em mitigar seu desespero! Quê fazer contra isto? Que fazer contra a religião, se ela é justo o ‘tampão’ que falta à pessoas desestruturadas e carentes, sem antes curar estas carências? Como impor-lhes uma coisa que é indisponível: Milhares e milhares de psicólogos e psiquiatras, num tratamento longo que iria expor suas mazelas tão ciosamente ocultas? Não estaríamos lutando quixotescamente contra moinhos de vento?
Para pensar...