Proposta para a nova bíblia |
autor: Pensador
Tenho notado que nos ultimos meses o mercado editorial no Brasil tem recebido um novo folego em suas vendas e produções. Incrivelmente, em pouquissimo tempo, milhares de brasileiros criaram o hábito de ler. Porém eu digo, mais que o hábito de ler é a qualidade do que que é lido. Vou dar um exemplo: se em uma escola, em um novo ano letivo, os professores resolvem incentivar os alunos a lerem literatura fantastica de grandes autores como o Tolkien e a J. K. Rowling, logo teremos várias crianças sonhando com batalhas heróicas, mágias de encanto, aventuras em locais desconhecidos, castelos com princesas ou reis de honra e coragem inspiradoras. Isso é bom, é lúdico, incentiva a imaginação e busca pelo conhecimento de diversas culturas. Ruim é quando a leitura envolve algo partidário, unilateral, e que não permite outras possibilidades senão o que está escrito ali. É o caso da bíblia, que segundo ela mesma, ou você acredita no que está escrito nela ou então já estará condenado a um castigo que ela mesma criou! (ugh!)
Voltando ao assunto... boa parte dos brasileiros que passaram a ler sem mais nem menos, tem uma peculiaridade em comum: todos eles estão lendo literatura evangélica. É realmente incrível a enchurrada de livros evangélicos que várias editoras estão lançando no mercado! A maior fatia desses livros são de auto ajuda, explicando como Deus faz o quê em tal situação de acordo com a visão do pastor fulano. Achou complicado? Pois a coisa é meio bagunçada desse jeito. Cada escritor escreve uma coisa diferente do outro sobre um mesmo assunto, e milagrosamente tudo é igual e perfeitamente aceitável na ótica de qualquer leitor evangélico incauto.
É claro, não é só de auto ajuda que esses livros falam, eles exploram muitos outros ambientes, na verdade uma miriade de ambientes, porém, é claro, sempre envolvendo de alguma forma Deus. Nesse mundão de temas, um deles é bastante interessante e toma a segunda maior fatia do bolo. Esse tema senhoras e senhores, cachorros, gatos e crianças, nada mais é que A REVELAÇÃO DIVINA que um ou outro maluco teve e resolveu tornar em livro para a desgraça da inteligência humana.
Nesse tema, um dos livros pioneiros e de grande sucesso, foi a dobradinha A DIVINA REVELAÇÃO DO INFERNO e A DIVINA REVELAÇÃO DO CÉU. Esses dois livros narram a "visão" de uma mulher que, numa espécie de pré-morte, é levada por Jesus para dar umas voltinhas no inferno, conhecer uma galerinha por lá, e depois dá uma passada rápida no céu só para completar o intinerário turistico espiritual. O ruim é que a moda pegou, e como há variedades e copias fajutas da Coca Cola, existem da mesma forma os clones desses dois primeiros livros. Um dos mais recentes é o (blarg!) VISÕES ALÉM DO VÉU, onde (pasmem) narra a historia de um orfanato na China, em que as crianças receberam visões do céu, do inferno, dos anjos, da vida após a morte e do fim dos tempos. E ainda diz que foi verídico! Talvez até seja mesmo, por naquelas bandas de lá do mundo, o governo sente uma leve liberdade que lhe permite fazer experiências com humanos que no ocidente nunca ocorreriam (novas drogas alucinógenas, quem sabe?), daí acontecer esse desastre de crianças tendo alucinações... Mas cá entre nós, a minha opnião é que o autor do livro no máximo deu uma voltinha na China durante as olimpiádas e nada mais; e para bancar projetos pessoais resolveu escrever o livro só para aumentar a renda.
Mas o ponto a que quero chegar com essa história toda é a seguinte: cada livro desses é tido como uma verdade incontestável. Desafiar a veradicidade deles é como questionar a Deus, algo impensável para qualquer religioso. Sendo assim, por que raios então não inauguram uma nova bíblia? Pouparia tempo! A biblia de hoje levou vários séculos para chegar onde chegou. Tá certo, tem milhões de contradições, mais milhares de erros ainda... mas tá aé, firme e... persistente (sabe aquela historia de que vaso ruim não quebra?). Se pegassem esses livrinhos todos que são lançados a cada fim de semana nos cultos das maiores igrejas evangélicas, ou pelo menos pegassem os melhores, os reunisse num compêndio, pronto! Teriamos uma incrível bíblia 2.0 prontinha para uso e principalmente para a venda (que soem os sininhos das caixas registradoras!$!).
Mas quem sabe se algum leitor evangélico esteja se levantando na frente do computador agora, e com o dedo apontado para esse texto esteja gritando aos berros: queima Jesus! Esse é do diabo e só tá falando mentiras! Porque lá na igreja o pastô disse pra gente que não ler qualquer livro porque muitos são do diabo tambem! Esse homi tá generazliando!
Ok, ok, então façamos justiça, mas explicando bem a outra parte do caso. Verdade é que no meio evangélico, como já é de conhecimento de todos, há dicenssões e discordância acerca de tudo, inclusive sobre a literatura cristã. Se numa igreja o livro do sr. fulano é vendido na lojinha ao lado da salinha das crianças, em uma outra o tal livro pode ser alvo de uma rajada fulminante de criticas! Mas há consenso. Existem uma série de livros que são aceitos de bom grado por todos (ou pelo menos a maioria...), como é o caso dos livros falando das tais "visões". Isso acontece porque nesse estilo literário os autores juram de pés juntos que viram pessoalmente o sinhô Gzuis, e outros que ainda dizem que viram até mesmo o chefão dele (ou seria pai dele...), então, por via das dúvidas, resolvem aceitar tudo que envolve esses dois sem questionar.
Então caro leitor, por que estaria errado ao dizer que esses livros não poderiam formar uma nova bíblia? Cada um deles vem com uma doutrina nova, que supostamente busca uma orientação em comum com a velha biblia, porém mostrando as coisas de um jeito diferente, mais novo, mais condizente com o que o povo quer ouvir. E se tudo o que eles escrevem é de inspiração divina, e tem a aprovação do poderoso chefão, oras, o que falta para fazer a biblia 2.0? Aprovação do CONAB (Conselho Nacional de Bispos e Pastores do Brasil)?
De qualquer forma, enquanto eles continuam enrolando acerca desse tema, a sociedade brasileira (e tambem portuguesa, já que por lá os missionários evangélicos já tão começando a firmar...) agradece.
Para pensar...
Ainda bem que tenho bom senso, senão acreditaria em Deus...