Estado ateísta |
fonte: Ateus.net
autor: Antonio Vildes Junior*
"Era uma vez um
casal de ateus que tinha
uma filha de seis anos. Um dia, durante uma briga, o marido matou a
mulher e depois se matou com um tiro na cabeça, tudo na frente
da criança...”
Não importa como continua a história. Nós, ateus, conhecemos a sua moral. Fomos criados sob esses preconceitos. A maior parte de nós não nasceu ateísta nem teve pais ateus, ao contrário da infeliz historinha acima. Nascemos na maior nação cristã do mundo, somos batizados e sabemos o pai-nosso (com minúscula mesmo) de cor.
A moral cristã é impiedosa com os
ateus. Nossa imagem não goza de status social e, invariavelmente, somos
considerados estranhos e pecaminosos. É a nossa herança. Revoltadas, legiões de
ateus se formam para proclamar sua aversão aos preceitos cristãos e da Igreja.
O que é isso? Guerra?
A crença no além está enraizada na
sociedade. Não podemos odiar aqueles que crêem. Estaremos odiando nossos pais e
irmãos. “Mas como vamos combater esse preconceito com a nossa filosofia?”
perguntarão alguns. Não vamos. Em vez disso, vamos encarar o problema de frente
e mostrar a eles que nossa filosofia é, antes de tudo, baseada na humildade.
É difícil ser ateu. Encaramos a
morte com olhos aterrorizados. A despeito de todos saberem que ela é
inevitável, nós a encaramos como o fim de tudo. Não esperamos nada do
além-túmulo. Não estamos indo ao encontro a deus ou a eternidade. Quando nos
apaixonamos, não esperamos viver no paraíso ao lado de nossas esposas ou maridos.
Tornar-se-á célebre a frase de Ann Druyan, viúva de Carl Sagan, um dos ateus
mais respeitáveis dessa geração, ao falar da despedida do marido, no leito de
morte: “Nenhum apelo a Deus, nenhuma esperança sobre uma vida pós-morte,
nenhuma pretensão que ele e eu, que fomos inseparáveis por vinte anos, não
estávamos dizendo adeus para sempre.” São palavras terríveis, mas sabemos que
são verdade. Sabemos. A consciência ateísta, quando surge, nos eleva a
uma percepção única. Passamos a enxergar a vida como a areia da ampulheta, que
escorre inexoravelmente pela fenda. Não importa o quão correta tenha sido sua
vida, no fim, a morte reina absoluta.
“Pessimista!”, gritam alguns
frente a estas verdades. Já estamos acostumados. Somos ateus, percebemos nossa
limitação. Somos feitos de carne e osso. Dúvidas quanto a isso? Cientistas já
decifraram o código genético, não temos mais segredos. Até agora, nem sinal de
um espírito. Estamos vazios.
Ora, retire do cristão a promessa
da vida eterna. De que adiantaria, então, seguir os passos do Senhor? A
religião está impregnada da relação oferta-procura: “Eu sou bonzinho, o
Senhor me dá a vida eterna. Sou humilde, por isso viverei para sempre”.
Se a promessa da vida eterna fosse arrancada do Homem, este se revoltaria
contra deus. Viveríamos num universo burlesco e trágico, onde os crentes
tornar-se-iam os ateus da historinha acima. Ainda assim, é difícil afirmar que
a crença em Deus está associada à ignorância. Conheço pessoas bastante
inteligentes de todas as religiões. A questão é mais profunda do que isso. Está
ligada ao resto de instinto de sobrevivência que temos.
Nossos ancestrais hominídeos eram
caçados por animais maiores. Quase sempre, a morte era sangrenta e violenta.
Desenvolvemos um medo natural por ela. Tínhamos medo de muitas coisas. Tínhamos
medo da escuridão quando o Sol morria no horizonte ou quando as montanhas
rugiam, soltando fumaça. Divinizamos aqueles fenômenos, não podíamos
explicá-los, pois éramos pouco mais que macacos enormes e desengonçados, aprendendo
a explorar suas potencialidades. Chorávamos quando tínhamos que abandonar um
membro doente na migração do inverno ou quando nossos velhos eram expulsos da
aldeia por não servirem mais ao trabalho. Não havia enterros e, talvez, nem
piedade.
Estabelecemos morada para os
deuses no alto das montanhas e no fundo do mar. Quando subimos ao cume das
montanhas e cruzamos o oceano em toscos barcos de junco, empurramos os deuses
para outras esferas. Nossos aviões nunca atropelaram um anjo, nunca encontramos
um par de chifres enterrados no quintal de casa. Arrebatados para o “céu” ou o
inferno, os deuses nunca mais foram acessíveis. Hoje, são vistos apenas em
igrejas, por um número seletíssimo de escolhidos que têm a sorte de ver, mas
nunca a chance de registrar.
Com o surgimento da tecnologia,
tornaram-se fontes de luz ou sombras, receberam explicações espirituais
complicadas e teorias esotéricas profundas e claras como um bueiro. Não
precisamos disso. A humanidade tem criado seus pesadelos, mas também tem realizado
sonhos sociais, materiais, divinos. Cientistas, no século XX, fizeram mais pela
Humanidade (esta sim, com maiúscula) que deus fez em toda sua história.
Empurramos a presença de deus cada vez mais para o fundo do poço. Não rezamos
mais para curar as doenças. O papel de deus diminui a olhos vistos. Aprendemos
a creditar nossos problemas à nossa incompetência ou ignorância, já não existem
demônios a assombrar nossos feitos.
Essa é a verdadeira essência da
humildade. Sabermos nosso papel na história do desenvolvimento humano, a
consciência do fim cada vez mais próximo. A semelhança entre o Homem e o
peixinho que ele cria no aquário é de 98% em ordem genética. Não há divindade
no nosso nascimento, não há milagres no cotidiano.
A revelação da humildade chega ao
ateu quando este encara, pela primeira vez, a inigualável sensação de livrar-se
da culpa da religião, do pecado natural. Não precisamos de religião para
aprender a humildade. Quando encaramos nossas limitações, ela surge
naturalmente. Ficamos assombrados pela nossa ignorância e pela impotência
frente a todo conhecimento. Aprendemos que até o matuto tem a nos ensinar.
Talvez a religião ainda seja um
mal necessário. Quando deixarmos de ser julgados pelos crentes, talvez possamos
expor nossas idéias com clareza. Neste dia, a humildade poderá florescer entre
os homens, fundamentada em princípios humanos, e não em fantasias envolvendo
deuses e demônios. Será um tempo, então, onde todos poderão considerar-se
irmãos, pois ninguém esperará mais da vida do que seu semelhante.
Para pensar...
Ser ateu, é conviver com o preconceito graças ao conhecimento adquirido, que ironicamente, nos liberta de sermos tambem preconceituosos.