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MINAS DO CUNHAÚ



"Pesquisadores acham túnel nas escavações em Barra de Cunhaú"


A descoberta casual de um túnel em Barra de Cunhaú, município de Vila Flor, pode acrescentar vários dados novos à história econômica do Rio Grande do Norte. Duas galerias  encontradas durante a retirada de terra para a construção das paredes de criadouros de camarão, por parte de uma empresa local são os mais significativos achados do tipo no Estado, nos últimos 10 anos, e devem ter sido utilizadas na obtenção de minério de ferro para os engenhos da região, no século 17.

"Essa descoberta é importante, pois pode acrescentar mais um capítulo à história da economia do Rio Grande do Norte", avaliou o historiador Olavo de Medeiros Filho, após analisar fotos do local. Ele comparou o túnel recém encontrado à Gruta do Bode, localizada em Canguaretama, que possivelmente foi a mina de ferro que abasteceu o engenho Cunhaú ainda no tempo de seu fundador, Jerônimo de Albuquerque, desde as primeiras décadas dos anos seiscentos.

As minas de ferro da época, mesmo que produzissem pouco, eram fundamentais, pois esse tipo de matéria-prima utilizada para a confecção de diversos objetos usados nos engenhos só poderia ser comprada da metrópole, Portugal, e por preços altíssimos. O historiador descartou a possibilidade do túnel ter sido feito por indígenas. "Os índios daqui não conheciam ou trabalhavam com ferro, somente com madeira, portanto é improvável que tenha sido obra deles", explicou.

Nas proximidades do túnel, arqueólogos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) também encontraram fragmentos de sílex. "Esse material não é natural dessa região e era a principal matéria-prima utilizada pelos indígenas para fabricação de seus objetos", afirmou Iago Albuquerque. O pequeno número de fragmentos, porém, não consiste ainda fonte suficiente para atestar qualquer antigo tipo de atividade indígena na área. Para dirimir as dúvidas serão necessários levantamentos mais detalhados da região.

A arqueóloga Marluce Lopes enfatizou que o estudo mais aprofundado pode levar a descobertas ainda mais significativas. "Não encontramos, até agora, materiais que possam precisar qual a utilização desse túnel, mas caso venha a ser feito um trabalho detalhado na área, por especialistas, esses materiais poderão ser descobertos." A responsabilidade pelo estudo, no entanto, é da empresa dona do terreno, que deverá contratar especialistas para realizar o levantamento arqueológico. O Iphan já entrou em contato com a empresa, para que não seja dado continuidade à retirada de areia do local até a conclusão do estudo.

Os arqueólogos já consultaram geólogos que avaliaram as formas do túnel como sendo obra humana. "Isso pode ser percebido pela regularidade do arco das galerias, que dificilmente poderiam ter sido esculpidas de forma natural", explicou Marluce Lopes. O salão maior tem diâmetro de cerca de três metros e mais de quatro metros de profundidade. Possui quatro entradas para galerias, todas elas soterradas.

As "portas" das galerias têm de 80 centímetros a um metro de diâmetro, mas somente com a retirada do volume de areia que caiu durante as escavações, o tamanho real poderá ser avaliado. Já a entrada do buraco menor tem dimensões de cerca de dois metros quadrados, porém o salão formado sob o solo possui mais de 10 metros cúbicos, o tamanho de um pequeno cômodo de uma residência. O solo ao redor é de arenito ferruginoso.

Historiador diz que mina foi descrita antes

A Gruta do Bode, à qual a nova descoberta foi comparada, também chamada de Gruta dos Sete Buracos, fica às margens da BR 101, no município de Canguaretama, e é apontada pelo historiador Olavo de Medeiros Filho como uma das minas de ferro de Jerônimo de Albuquerque descritas em antigos relatos. Descobertas em 1608, as minas forneciam o minério para o uso do engenho Cunhaú e também poderiam abastecer a capital da então Capitania do Rio Grande, já que a gruta ficava às margens do caminho que ia de Natal ao engenho, fundado em 1604.

Hoje a entrada da gruta do Bode e vários dos buracos que funcionavam como respiradouros ainda podem ser encontrados. Porém há vários anos ninguém se atreve a entrar no túnel, cheio de dejetos de morcegos. O historiador esteve no local registrando o achado há 10 anos. Segundo Olavo de Medeiros, relatos de moradores da região já se referiam à gruta desde o início do século passado. Jerônimo de Albuquerque foi capitão-mor da capitania do Rio Grande de 1603 a 1610.

Matéria publicada no site da Tribuna do Norte dia 01/02/03.


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