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ROMANCE

Para você ler e colecionar...

Leia a seguir (e se quiser colecione) um capítulo do romance "A Sétima Maldição"

Cantalabrini, filho de imigrantes italianos, tinha sido um trabalhador incansável. Era ele quem, à noitinha, acendia os candeeiros das ruas da capital e, ao raiar da aurora, os apagava um a um. Durante o resto do dia era amolador ambulante de facas e tesouras, e consertava guarda-chuvas. Quem o conhecia bem, afirmava com segurança, que ele não dormia nunca, e que o colchão da cama lhe servia apenas para guardar o dinheiro que não tinha tempo de gastar. Era conhecido na cidade, pois em sua ocupação diurna fazia-se anunciar tocando pelas ruas uma flauta cujo agudo timbre, penetrava nos becos mais escuros. Nela, ele interpretava os sete primeiros compassos do hino nacional, em três tons diferentes. Este fato, no início da sua carreira de ambulante, causou-lhe sérios transtornos, pois a interpretação, a desoras, da música-símbolo da nação, segundo artigo da Constituição em vigor até à data, obrigava os transeuntes a estacarem onde estivessem e a escutarem em posição de sentido com o braço direito erguido, às crianças, mulheres e galinhas a se calarem, à paralisação de todos os veículos em circulação enquanto as notas musicais estivessem no ar, e aos soldados a bradarem às armas. Além disso, inflamou, muito justamente, os sentimentos nacionalistas de um grande número de cidadãos conscientes e cumpridores, alguns dos quais formaram uma liga que, após uma campanha em que sobressaíram os discursos em praças públicas, entremeados de cânticos religiosos, e o lançamento de coquetéis Molotov de madrugada pelas janelas dos cidadãos menos nacionalistas, conseguiram que ele trocasse a música por uma marcha nupcial, também interpretada em três tons diferentes. Em curto espaço de tempo a cidade, e em especial os componentes da citada liga, viram que a emenda tinha saído pior do que o soneto: as mocinhas em idade casadoira ficavam de tal modo excitadas com as perspectivas que a audição daquela música lhes transmitia, que saíam para a rua, umas vezes em vestes despudoradamente sensuais, outras com longos vestidos brancos de noiva, com ramos de laranjeira nos braços e os olhos vidrados no infinito. Atrás delas iam os moços em idade casadoira, os moços fora da idade casadoira e, como era de se esperar, os já casados. Toda a cidade ficava paralisada. Foi quando a cúpula da liga resolveu apelar para o general-presidente. Indivíduo dotado de forte poder convincente, o general-presidente chamou Cantalabrini e os dois, democraticamente, pois que o presidente como todos os seus antecessores e sucessores era um democrata e um intérprete fiel e imparcial da vontade do povo, tão fiel e imparcial que considerava desnecessário consultar o povo, os dois então alteraram o artigo da Constituição que falava do hino nacional, reformulando-o de tal modo que, a partir de então, o hino só se considerava em execução apenas após o sétimo compasso e que, portanto, até esse ponto lhe estavam dispensadas as honrarias da praxe. Tudo isto poderá parecer intrigante. O mais justo e procedente teria sido, como era uso na época, o recolhimento do cidadão a um calabouço, ou mediante interrogatórios, acompanhados de eficientes e depurativas coações, mostrar-lhe a sua prevaricação e indicar-lhe o bom caminho. Mas acontece que Catalabrini era sobrinho-neto de uma velha secretária de um coronel deputado que não mais estava na ativa, mas tinha uma forte ascendência no Clube Militar, o único clube permitido pela Constituição, onde um brigadeiro, seu enteado, que era tesoureiro do clube, era amigo de um bispo que jogava, aos sábados, o jogo das moedas com o general-presidente. Isto mudava todo o panorama, e inclusive, como se viu, a Constituição. As meninas em idade casadoira choraram muito com a mudança da música que anunciava a presença do amolador, e mais ainda choraram os homens, em idade casadoira ou não, contrariando a teoria que vigorava então, de que homem não chora. E foi assim que Cantalabrini se viu autorizado a voltar a vender o seu trabalho, apregoando-o com os sete primeiros compassos do hino.




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"A Sétima Maldição", Ed. Razão Cultural, Rio de Janeiro, Brasil, 160 págs.

ou direto com o autor:
Tel: ++351961289578
e-mail: Pedro Veludo



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