Ficha 6

Correcção

FILOSOFIA - 10º ANO

Podemos provar a existência do mundo exterior?

 

 

1. As crenças instintivas são convicções que têm uma origem biológica (fisiológica): "em nós próprios achamos essas crenças, apenas começamos a pensar". Trata-se de crenças que não adquirimos pelo raciocínio, nem pela relação com os outros, pela aprendizagem. Pelo contrário, essas crenças nascem espontaneamente, fazem parte da nossa experiência do real.

Sendo assim, estas crenças permitem que a nossa mente encontre, por assim dizer, pontos de ancoragem no real, que nos permitem distinguir o sono da vigília, a realidade da ficção, os factos e os produtos da imaginação, nossa ou alheia.

Se estivermos a atravessar a rua e virmos um carro a dirigir-se a alta velocidade na nossa direcção, não nos pomos a pensar se a realidade exterior existe, se podemos ser um cérebro num aquário, ou se estamos a sonhar, pensando que estamos acordados... Instintivamente desviamo-nos do automóvel. Isto porque acreditamos instintivamente que esse automóvel existe e vem na nossa direcção.

Sendo assim, as crenças instintivas estão directamente ligadas à nossa adaptação à realidade, ao meio ambiente em que vivemos. O mesmo é dizer que elas são fundamentais para a nossa sobrevivência.

Podemos, é certo, interrogarmo-nos sobre estas crenças, mas o que é certo é que dificilmente encontraremos razões plausíveis para as pormos em causa. Tal como nos diz Bertrand Russell:

"Todo o conhecimento, em última análise, se constrói sobre crenças instintivas; e, se são rejeitadas estas últimas, não nos fica nada."

 

2- O que permite distinguir a realidade do sonho é, precisamente, a existência das crenças instintivas: o sonho não se nos impõe com a mesma força persuasiva que a realidade, com que contactamos quando estamos acordados e da qual fazemos parte.

O sonho não é convincente; mesmo quem acredita nos sonhos como fonte de conhecimento acerca das profundezas da alma humana, como acontece, por exemplo com Freud e a Psicanálise, necessita de um sistema de carácter racional que lhe permita interpretar os sonhos. Ora, a interpretação dos sonhos é, digamos assim, uma actividade de segundo nível, afastada dos dados imediatos da consciência: não são os elementos sensíveis dos sonhos que se impõem, mas o seu significado simbólico ou alegórico.

As convicções instintivas são mais fortes do que as outras convicções, pelo que nos servem de base para fazermos a distinção entre o que é ou não real. Mas há ainda outra razão para distinguirmos o sonho da realidade, com base nas crenças instintivas: é que estas não estão isoladas, elas forma um sistema coerente, estão interligadas. Por exemplo, quando acordamos de manhã notamos que a estrutura da realidade se mantém a mesma: quando nos deitámos a cama estava num certo local do quarto, a janela estava fechada, os nosso sapatos ficaram desarrumados perto da porta, etc. Já quando sonhamos, os sonhos são desconexos: tão depressa estamos a correr para apanhar o autocarro, como estamos a nadar no num mar agitado, para a seguir estarmos deitados num divã de uma sala imensa... E quando voltamos a adormecer, a não ser que vivamos perseguidos por pesadelos terríveis, geralmente não nos encontramos na mesma cena em que nos encontrávamos na noite anterior.

É esta interligação das crenças instintivas que nos faz acreditar, para além de qualquer dúvida razoável, que a realidade existe e que é diferente do sonho.

 

3- Como vimos na resposta à questão da ficha 4 o problema do cérebro num aquário é, em última instância, insolúvel. Mas podemos sempre aprofundar o nosso questionamento, de forma a podermos encontrar respostas melhores para as nossas interrogações.

De facto, este texto de Bertrand Russell é notável, em primeiro lugar pela sua simplicidade (a simplicidade é, em muitos casos, sinónimo de inteligência). Deixa de parte argumentos muito rebuscados, para se centrar na nossa experiência de nós mesmos e do mundo.

Por outro lado, Bertrand Russell leva-nos a termos que tomar em linha de conta um facto importante mas que, por vezes é esquecido: o facto de sermos organismos vivos. Ora os nossos fenómenos mentais, entre os quais incluímos a percepção, são manifestações da vida, são elementos integrantes do estarmos vivos: pensar, ver, ouvir, sonhar, etc., são, ao fim e ao cabo, manifestações do viver. Isto leva a que as convicções a que o autor chama crenças instintivas tenham uma força que as distingue das outras convicções: as crenças instintivas são básicas, fundam-se no nosso contacto directo com a realidade de que fazemos parte enquanto seres vivos.

É importante, por exemplo, que eu esteja convicto de que tenho que me alimentar para sobreviver, ou que tenho que me levantar de manhã para ir trabalhar, ou que tenho que trabalhar para poder adquirir os bens necessários à minha sobrevivência. Se eu perder estas convicções perco também a possibilidade de levar uma vida, digamos, normal ou humanamente aceitável.

Assim, eu posso vir a acreditar que sou um cérebro num aquário, mas essa crença só se teria formado ou porque eu li a ficha 4 e não consegui provar que não estou naquela situação, tendo ficado afectado por esse facto, ou porque perdi a razão e passei a viver num mundo só meu. Em ambos os casos não estaria em muito bons lençóis...

Mas essa crença, e isto é que é importante, não tem a mesma força que as crenças instintivas. E se eu estivesse na posse das minhas faculdades mentais, analisando todas as minhas crenças, depressa concluiria que a convicção de que a realidade existe e de que eu tenho um corpo que faz parte dessa realidade, tem mais força do que a convicção de que não passaria dum cérebro num aquário.

Mas há um pormenor salientado pelo texto, que nos permite reforçar esta ideia: é que a crença na existência da realidade exterior é solidária com outras crenças igualmente instintivas -  a crença de que o sonho é diferente da realidade, que a realidade é concreta, etc.

Já a crença de que somos um cérebro dentro de um aquário não é instintiva, nem  é solidaria com nenhuma crença instintiva que possuamos.

 

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