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Ficha 4 Correcção |
O senso comum |
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Talvez não possamos mesmo provar que não somos um cérebro naquelas circunstâncias. Mas se estivéssemos perante uma pessoa que nos fizesse fazer crer que somos aquele cérebro, poderíamos tentar inverter o ónus da prova: poderíamos pedir-lhe que nos provasse que estamos naquela situação. Duvido que ela nos conseguisse apresentar provas concludentes em favor da sua tese… Podemos, no entanto, aplicar aqui a mesma argumentação que um filósofo francês do século XVII, Blaise Pascal, utilizou em relação ao problema da existência de Deus. Pascal defende que, perante a impossibilidade de encontrar uma resposta concludente, indubitável, para o problema da existência de Deus (pois não podemos provar racionalmente, quer a sua existência, quer a sua inexistência), só nos resta apostar na alternativa que consideremos mais forte. Se estivéssemos a jogar a dinheiro e tivéssemos que apostar numa de duas alternativas, decerto que escolheríamos a alternativa mais vantajosa: se uma das alternativas nos desse um prémio muito pequeno e a outra nos permitisse transformar o dinheiro da aposta numa fortuna incalculável, qual das duas alternativas escolheríamos? É claro que a segunda seria quase irresistível, sobretudo se tivéssemos que apostar todo o nosso dinheiro! Havendo 50% de hipótese de acertar (tendo ambas as alternativas a mesma chance de calhar), se apostássemos na alternativa menos vantajosa, perderíamos sempre… Se ganhássemos ficaríamos com muito menos dinheiro do que ganharíamos se tivéssemos escolhido a outra alternativa e esta tivesse sido a sorteada. Se perdêssemos, perderíamos tudo. No caso de apostarmos na segunda alternativa só teríamos uma chance de perder: perderíamos o nosso dinheiro se a nossa escolha não tivesse sido a acertada. Mas se a nossa alternativa fosse a contemplada, ganharíamos tudo! Assim, segundo Pascal, devemos apostar na existência de Deus e viver como se ele existisse, pois se estivermos errados e não houver vida depois da morte, perdemos tudo, mas se, por outro lado, Deus existir, então ganhamos tudo se, como é natural, essa aposta se traduzir numa vida correcta em termos morais. Mas voltemos à nossa questão, pois não nos interessa aqui a questão da existência de Deus, uma vez que a nossa questão remete para a existência do mundo exterior (e do nosso corpo como elemento do mesmo mundo). Podemos aplicar a este problema o mesmo argumento que Pascal emprega em relação ao problema da existência de Deus. Qual das duas alternativas é mais vantajosa: 1) Sou um cérebro num aquário; 2) Sou um ser humano de carne e osso? É claro que somos naturalmente compelidos a apostar tudo na segunda hipótese, pois o que teríamos a ganhar com a primeira hipótese? Se a escolhêssemos só teríamos a perder, pois tudo aquilo em que acreditámos até agora se desmoronaria, irremediavelmente. E, assim, se escolhêssemos a primeira hipótese perderíamos sempre, pois mesmo que a nossa escolha não fosse a correcta, o mais certo seria acordarmos um dia num quarto acolchoado de um manicómio. Com a escolha da segunda hipótese ganhamos sempre: mesmo que sejamos, de facto, um cérebro num aquário, teríamos uma vida muito mais feliz se não acreditássemos nesse hipótese. Teríamos, nesse caso, alguma vantagem em conhecer a verdade?
Podes encontrar outra resposta possível para este problema na ficha 6.
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