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“Em certo sentido, deve admitir-se como
sendo impossível o provar
a existência de quaisquer
outras coisas que não sejam nós mesmos e a nossa experiência. Não pode
resultar nenhum absurdo lógico da hipótese de que o mundo se reduz a mim
próprio - e aos meus sentimentos, sensações, pensamentos, - e de que tudo
mais é fantasia pura.
Nos sonhos, pode-nos ser presente um
complexo mundo; sem embargo, concluímos ao despertar que foi tudo ilusão.
Por outras palavras: concluímos que os dados sensíveis do sonho não
corresponderam aos objectos físicos que inferimos naturalmente dos dados
sensíveis quando nos achamos acordados. Não há impossibilidade lógica na
hipótese de que a vida é toda um sonho, no qual nós próprios conferimos o
ser a todos os objectos que se nos deparam. Mas, embora não seja tal
hipótese logicamente um impossível, não há motivo para a supormos
verdade; e seria um pressuposto menos simples, como explicação dos factos
da nossa vida, do que é a convicção do senso comum: a de que há objectos
independentes de nós, cuja acção exercida em nós dá origem às sensações.
Naturalmente, não é por via de
argumentações que chegamos a acreditar em um mundo externo, independente
de nós. Em nós próprios achamos essa crença, apenas começamos a pensar:
poderíamos chamar-lhe uma crença
instintiva.
Podemos portanto admitir (embora o façamos
com leve dúvida, a qual se origina na questão dos sonhos) que o mundo
externo realmente existe, e que não depende completamente, para a sua
existência, do facto de continuarmos a percepcioná-lo.
Todo conhecimento, em última análise, se
constrói sobre crenças instintivas; e, se são rejeitadas estas últimas,
não nos fica nada. Mas, entre as nossas crenças instintivas, umas são
mais fortes do que outras, ao passo que algumas existem que, pelo hábito e
associação, se foram misturando com outras crenças, as quais realmente não
são instintivas, mas que nós supomos ilegitimamente fazerem parte do crer
instintivo.
A filosofia, pois, deverá expor-nos a
hierarquia das nossas crenças instintivas, começando pelas crenças
instintivas a que nós aderimos mais fortemente, e dando-nos cada uma tão
isolada, tão livre de adições injustificadas, quanto possível. Deverá
cuidar de mostrar-nos que, na forma em que finalmente as enunciámos, elas
não colidem entre si, senão que se conciliam num sistema harmónico. Não há
que rejeitar uma crença instintiva senão quando contradiz quaisquer outras
crenças; e assim, quando achamos que se mantém realmente em harmonia, o
sistema merece que o aceitemos.
Claro que é possível que todas tais
crenças, ou alguma delas, se encontrem em erro; e a todas, portanto, as
devemos tomar com um resquício de dúvida. Não podemos, todavia, ter
razão para rejeitar uma dada crença, senão em virtude de uma outra
crença. Portanto, pela organização das crenças instintivas e das suas
respectivas consequências; pela consideração de quais de entre elas é
mais possível, se necessário, modificar ou abandonar, - ser-nos-á dado
chegar enfim (sobre a base de só aceitarmos como nossos dados aquilo em
que cremos instintivamente) a uma sistemática organização dos
conhecimentos, em que, se bem que se mantenha a possibilidade do erro, a
sua probabilidade seja diminuída pela dependência das partes entre si e
pelo cuidadoso exame crítico que precedeu a adesão do nosso espírito.”
Bertrand Russell, Os problemas da filosofia, Almedina,2001,
pp.35-38. (Texto adaptado). |