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Ficha 6 | FILOSOFIA - 10º
ANO Podemos provar a existência do mundo exterior? |
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As crenças instintivas
“Em certo sentido, deve admitir-se como sendo impossível o provar a existência de quaisquer outras coisas que não sejam nós mesmos e a nossa experiência. Não pode resultar nenhum absurdo lógico da hipótese de que o mundo se reduz a mim próprio - e aos meus sentimentos, sensações, pensamentos, - e de que tudo mais é fantasia pura. Nos sonhos, pode-nos ser presente um complexo mundo; sem embargo, concluímos ao despertar que foi tudo ilusão. Por outras palavras: concluímos que os dados sensíveis do sonho não corresponderam aos objectos físicos que inferimos naturalmente dos dados sensíveis quando nos achamos acordados. Não há impossibilidade lógica na hipótese de que a vida é toda um sonho, no qual nós próprios conferimos o ser a todos os objectos que se nos deparam. Mas, embora não seja tal hipótese logicamente um impossível, não há motivo para a supormos verdade; e seria um pressuposto menos simples, como explicação dos factos da nossa vida, do que é a convicção do senso comum: a de que há objectos independentes de nós, cuja acção exercida em nós dá origem às sensações. Naturalmente, não é por via de argumentações que chegamos a acreditar em um mundo externo, independente de nós. Em nós próprios achamos essa crença, apenas começamos a pensar: poderíamos chamar-lhe uma crença instintiva. Podemos portanto admitir (embora o façamos com leve dúvida, a qual se origina na questão dos sonhos) que o mundo externo realmente existe, e que não depende completamente, para a sua existência, do facto de continuarmos a percepcioná-lo. Todo conhecimento, em última análise, se constrói sobre crenças instintivas; e, se são rejeitadas estas últimas, não nos fica nada. Mas, entre as nossas crenças instintivas, umas são mais fortes do que outras, ao passo que algumas existem que, pelo hábito e associação, se foram misturando com outras crenças, as quais realmente não são instintivas, mas que nós supomos ilegitimamente fazerem parte do crer instintivo. A filosofia, pois, deverá expor-nos a hierarquia das nossas crenças instintivas, começando pelas crenças instintivas a que nós aderimos mais fortemente, e dando-nos cada uma tão isolada, tão livre de adições injustificadas, quanto possível. Deverá cuidar de mostrar-nos que, na forma em que finalmente as enunciámos, elas não colidem entre si, senão que se conciliam num sistema harmónico. Não há que rejeitar uma crença instintiva senão quando contradiz quaisquer outras crenças; e assim, quando achamos que se mantém realmente em harmonia, o sistema merece que o aceitemos. Claro que é possível que todas tais crenças, ou alguma delas, se encontrem em erro; e a todas, portanto, as devemos tomar com um resquício de dúvida. Não podemos, todavia, ter razão para rejeitar uma dada crença, senão em virtude de uma outra crença. Portanto, pela organização das crenças instintivas e das suas respectivas consequências; pela consideração de quais de entre elas é mais possível, se necessário, modificar ou abandonar, - ser-nos-á dado chegar enfim (sobre a base de só aceitarmos como nossos dados aquilo em que cremos instintivamente) a uma sistemática organização dos conhecimentos, em que, se bem que se mantenha a possibilidade do erro, a sua probabilidade seja diminuída pela dependência das partes entre si e pelo cuidadoso exame crítico que precedeu a adesão do nosso espírito.” Bertrand Russell, Os problemas da filosofia, Almedina,2001, pp.35-38. (Texto adaptado).
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| Actividades: |
1. Explique o que são as “crenças instintivas”. 2. O que é que, no texto, nos permite distinguir a realidade do sonho? Justifique a sua resposta. 3. Há, neste texto, algum argumento que nos permita resolver o problema que nos é proposto pelo texto da ficha 4 ? Justifique a sua resposta. |
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