|
Esta convicção é a de que a realidade é independente da
nossa mente: existe em si e por si e se o homem não existisse, ela seria a
mesma (exceptuando, é claro, os vestígios da intervenção humana).
Na sequência da 1ª convicção, somos levados a
estabelecer a distinção entre o que é interior e o que é exterior à nossa
mente. confundir estas duas coisas é cair na loucura.
Esta terceira
convicção é muito importante, pois permite explicar porque é que o senso
comum é tão limitado: ao identificarmos a
verdade
com a certeza, caímos no dogmatismo, ou seja, não nos
interrogamos
acerca do
nosso saber e das coisas que julgamos saber, pensamos que já sabemos tudo
o que há para saber em relação a um determinado assunto.
Assim,
não nos interrogamos, ficando à superfície das coisas, com um conhecimento
superficial e pouco fundamentado em termos racionais.
Só
admitindo que a verdade é dinâmica, ou seja, está em constante
aperfeiçoamento, é que podemos evoluir ao nível da nossa consciência do
mundo e de nós mesmos, pois esforçamo-nos continuamente por nos
aproximarmos da realidade e podermos representá-la de uma forma cada vez
mais rigorosa e adequada. |
|
As três convicções básicas da consciência natural |
|
|
“Primeira convicção: O mundo em
que vivemos e os seus processos são independentes de nós e do conhecimento
que deles temos.
Os astros e as galáxias existiam milhões de
anos antes do aparecimento do homem sobre a terra e continuarão a existir
mesmo quando já não existir qualquer vestígio da raça humana. Céu, mar,
montanhas, planícies, seres animados e inanimados da natureza existiriam
mesmo que eu existisse e não os pensasse. A arte humana enche a terra de
objectos: mas mesmo estes objectos artificiais (cidades, instrumentos,
etc.), uma vez produzidos pelo homem, existem independentemente da
consciência que o homem deles tem.
Esta convicção ‑ a convicção, portanto, de que as coisas (a
realidade, o ser) são independentes da consciência que dele temos ‑ existe
em nós, ainda que possa acontecer que não sejamos capazes de a exprimir.
Segunda
convicção: O mundo em que vivemos é
exterior à nossa mente.
Ou seja, estamos convencidos de que os sonhos, as ilusões,
as fantasias e os raciocínios só existem se existir uma mente que sonha,
que se ilude, que imagina, que raciocina: estes eventos existem apenas no
interior da mente. Inversamente, a propósito das coisas “reais”, nós
estamos convencidos de que elas existem ‑ ao contrário do primeiro tipo de
eventos ‑ no exterior da nossa mente. O sonho encontra‑se na nossa
mente, o monte Branco e a casa onde habitamos são exteriores à nossa
mente, estão “fora”dela. Em geral exteriores à mente, são sobretudo,
embora não exclusivamente, as coisas físicas e corpóreas da natureza.
Essa convicção é a convicção de que as coisas independentes
da nossa mente são também exteriores a ela.
Terceira convicção: Quando reflectimos acerca do
mundo, aquilo que conseguimos saber pertence efectivamente ao mundo acerca
do qual reflectimos.
Estamos portanto convencidos de que, com toda a certeza,
não explicamos tudo com os nossos conhecimentos e de que existem coisas
infinitas que não conhecemos; mas estamos também persuadidos de que,
quando conhecemos qualquer coisa, aquilo que conhecemos pertence
efectivamente à coisa conhecida. Se nos encontramos diante de um edifício
de três andares e dizemos: “Aqui está um edifício de três andares”,
estamos convencidos de que os três andares pertencem efectivamente ao
edifício que estamos a ver, ainda que não conheçamos e não venhamos nunca
a conhecer o interior da casa. O mundo, pois, é independente e exterior à
nossa mente, mas mostra‑se a ela, ou seja, é cognoscível em alguns
dos seus traços, se bem que muito limitados.
Essa convicção é a convicção de que a realidade,
independentemente da mente e a ela exterior, é, no entanto, acessível ao
nosso conhecimento.
‑ As
três convicções acima referidas exprimem precisamente o sentido da
afirmação da identidade imediata entre a
verdade e a certeza.
Qual é o conteúdo do conjunto de certezas em que consiste o
nosso senso comum? É precisamente este mundo em que vivemos. E para o
nosso senso comum, este é o verdadeiro mundo. Se perguntarmos,
portanto, ao nosso senso comum: “De que é que estás fundamentalmente
certo?”, a resposta é: “Estou certo deste mundo em que vivemos e que nos
enche os olhos, os ouvidos e a mente, e que é o verdadeiro mundo.” O senso
comum, portanto, responde dizendo que o conteúdo da sua certeza (ou seja,
de certezas fundamentais em que se baseia) é precisamente a verdade. E se,
uma vez mais, lhe perguntarmos (e ele responder ainda de acordo com a
modalidade anterior): “ E o que é verdade?”, a resposta é: “A verdade é
precisamente este mundo de que estou certo.” A verdade é, deste modo,
idêntica ao conteúdo da certeza.
O senso comum surpreende‑se quando a filosofia e a ciência
se perguntam o que é verdade, porque para ele a verdade é a coisa mais
fácil de se saber: é precisamente o conteúdo das suas certezas: e,
portanto, considera inútil ocupar‑se da filosofia e da ciência”.
E. Severino, A Filosofia Moderna, Ed. 70, Lisboa,
pp. 16‑18
|