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o rei-filósofo


O rei, em tese, devia se ocupar do seu reino, o Real — mas ele não tava nem aí: o seu negócio era a filosofia.

— O mundo contemporâneo — filosofava ele — é uma grande pizza democrática! Na concepção de Locke, o peperone está para o aliche na mesma proporção em que o palmito, para Hume, está para a calabresa. Aplicando a isso a fenomenologia dos 4 queijos, portanto, sou mais um jabá à Gomes de Sá.

Enquanto o rei filosofava, porém, o Real ia pro beleléu. Volta e meia o reino recebia uma invasão estrangeira.

— Majestade — disse um assessor —, Real acaba de ser invadido pela República dos Estados Unidos do Dólar Americano!

Diante do espelho, o rei conferiu a maquiagem.

— Oh, yeah! Mas o que é que você acha da minha digníssima figura hoje? — perguntou ele.

— Magnífica, majestade — respondeu o assessor. — Mas voltando ao Real...

— O Real, meu querido, é pura e simplesmente uma abstração epistemológica. A boa e velha Crítica da Razão Pura já provava isso em 1789, quando aconteceu a famosa Revolução dos Cravos. Ou das Rosas, sei lá. Isto posto, se seguirmos o princípio cartesiano aplicado às teorias reducionistas de Kant, que tomou emprestado de Pascal uma noção que prega a igualdade entre a picanha e a maminha, significa que o Real, o Real... o que é mesmo que tá acontecendo com o Real?

O assessor balançou a cabeça.

— O Real tá malemale, majestade. A República do Dólar, ó, só entrando feito nabo... É ataque especulativo pra tudo quanto é lado e até o risco-reinado disparou!

O rei conferiu mais uma vez a maquiagem diante do espelho, soltou um palavrão em francês (que é mais chique e digno de um homem da sua estatura) e falou:

— Em 1968, quando o Império Romano da Mangueira caiu, o ataque especulativo nada mais era do que uma ilusão gerada pelo fluxo de capitais inexistentes, somados à turbulência dos gases expelidos pelas tanajuras acéfalas de Nurenberg. O que aconteceu, então? Com o advento das próteses de silicone aplicadas aos reality shows, o refluxo de capital intensificou a filosofia de Husserl, da qual se conclui que tudo o que é sólido desmancha no ar. Fui claro?

— Claro, majestade. Claríssimo. Mas a perspicácia dos seus argumentos não muda em nada a situação de Real.

— O que é que você sugere que eu faça então? Que me inspire nas fábulas populares de Platão ou vá buscar soluções nos ensaios de orquestra de Montaigne?

— Sugiro que o senhor faça um pronunciamento, majestade. O povo de Real precisa ouvir as suas palavras. Só assim ficará mais tranqüilo.

* * * * *

Depois de ter passado quatro horas e meia diante do espelho, retocando a maquiagem e ajustando a meia-calça, o rei finalmente foi dar um tostão da sua voz ao povo de Real. Do alto do Parlatório, com o vento açoitando suas mechas recém-tingidas, ele falou, solene:

— Povim de Real! Digo-vos que é chegada a hora. Para o alto e avante! Sei que, devido ao mau tempo que impera nos mercados interno e externo, o bicho tá pegando por aqui. Mas venho agora trazer-vos algumas palavras de alento. Eu, que estudei muito nas Europas e nas Américas e sou adepto do pagode construtivista, sei muito bem do que tô falando. Amparado pelos meus sólidos conhecimentos tarológicos e filosóficos, digo o seguinte: numa escala de grandeza de zero a dez, Real tá mais pra lá do que pra cá. Isso é fato, mas também assim o foi em 1345, quando Matusalém entregou a tábua de queijos contendo os 10 mandamentos ao nobilíssimo senhor Osama bin Laden D'Afeganistan. Após esse ato memorável da história da Humanidade, o que tem acontecido no mundo é digno de nota: vemos hoje boquiabertos o avanço das tropas estelares, evento esse retratado no magnífico Marimbundos del Fuego, do inesquecível imortal pós-socrático e pré-adolescente Paulus Cuelhum. Mas não é tudo: segundo o Oráculo de Cirus, O Azedo, de autoria dos pigmeus do Alto Ceará, o buraco é mais embaixo. Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a pica ereta e o coração tranqüilo, como já disse por aqui o saudoso mestre Chacrinha. E isso tudo quer dizer o quê? Bem, se tratarmos o assunto utilizando uma abordagem lacaniana, chegaremos rapidamente à conclusão de que o que nos aflige não passa de mera metáfora, coisa de menos que tem por objetivo nos preocupar demais. Já uma abordagem existencialista, no entanto, é bem mais objetiva: o Kama-Sutra (posição 475, capítulo 12 à direita de quem entra) diz que, quanto mais de quatro fica o povaréu, mais profundamente penetra o membro da Assembléia, o que torna o Poder Executivo um mero coadjuvante do Judiciário que, como todos vós sabeis, é cego pela própria natureza. Em resumo: as variantes da retomada da economia dependem única e exclusivamente de uma vontade pré-renascentista e bigbrotheriana da qual todos fazemos parte desde que Dom Petrus Malan, O Sovina, foi sepultado nas catacumbas do Banco Central.

Por incrível que pareça, todo o povo de Real aplaudiu o pronunciamento do rei. Ato contínuo, a imprensa estrangeira parou de encher o saco e o risco-reinado finalmente atingiu patamares considerados estáveis. A bolsa de valores da província de Nova Iorque fechou em alta histórica e até mesmo o santo papa recuperou a virilidade há muito perdida pelos labirintos do Vaticano. Sendo assim, o equilíbrio sócio-econômico retornou ao Real e todos, todos mesmo, viveram felizes para sempre.

(E desse texto serpenteante e referencial, puro exercício de um estilo delirante e pretensioso, só podemos concluir o seguinte: a fala do rei não precisa fazer sentido — desde que sirva para acalmar o mercado, é claro.)




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