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defeito congênito





Um presidente com bom senso — caso raro na história universal — foi colocado à frente de um país caótico.

Suas primeiras determinações: restabelecer o sistema de saúde, recuperar o prestígio do sistema educacional e resolver todos os problemas habitacionais.

Por causa de um defeito congênito no sistema de comunicações, os ministros responsáveis pelas áreas acima entenderam tudo ao contrário e, no curto espaço de uma semana, puseram abaixo todos os hospitais, todas as escolas e todas as casas do país.

Desolado em seu gabinete, o presidente emitiu a sua opinião:

— Uma pena, senhores, uma pena.

Mas como um país não se dá por vencido com tão pouco, o presidente voltou à carga e convocou todo o ministério para uma nova reunião, na qual ficaram decididos um aumento nas exportações, uma conseqüente alta na balança comercial e ainda uma solução rápida e eficaz no combate ao desemprego.

Por causa de um defeito congênito no sistema auditivo, mais uma vez os ministros meteram os pés pelas mãos e resolveram tudo à sua maneira: triplicaram o volume de importações e, por causa disso, houve a conseqüente baixa baixíssima na balança comercial. O problema do desemprego, contudo, foi resolvido de maneira mais sutil: numa simples sessão de execução pública todos os desempregados se viram livres para sempre de toda e qualquer dívida terrena, devendo prestar contas somente no momento do encontro com o Senhor.

Mais uma vez pressionado pelos acontecimentos, o presidente voltou a se manifestar:

— Uma pena, senhores, uma pena.

Cabisbaixo, macambúzio, sorumbático, o presidente enfim tomou a decisão que deveria ter tomado antes mesmo do momento da posse: consultou um pai-de-santo. Este enviado dos deuses, homem lúcido e idôneo, aconselhou o presidente a mudar a sua maneira de governar.

— Já que os ministros entendem tudo pelo avesso do avesso do avesso — falou o pai-de-santo —, por que Vossa Excelência não lhes pede o absurdo do absurdo do absurdo? Quem sabe assim...

Sem perda de tempo, o presidente convocou uma reunião extraordinária. Entre outras coisas, determinou que os ministros escangalhassem com tudo, arrebentassem com tudo, mandassem tudo à merda.

Por causa de um defeito congênito sabe-se lá aonde, pela primeira vez na história os ministros acataram às determinações do presidente. Uma pena, senhores, uma pena...




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