Coniventes e idiotas
PALAVRA CRUZADA - 21/07

A “minissérie” em 3 capítulos que a TV Globo exibiu neste final de semana, apresentou à população brasileira mais uma versão mal-ajambrada e de difícil verossimilhança para as ligações perigosas – e cada vez mais obscuras – entre o PT, o governo Lula e o “operador” Marcos Valério. A novidade é que, desta vez, o próprio presidente Lula faz parte do engodo. Caso esta nova versão, como as anteriores, não se sustente, Lula terá, finalmente, deixado suas digitais nesta história, e o trio terá nos transformado a todos numa nação de coniventes e idiotas.

No editorial “Muita farsa, pouca história”, de 07 de julho, já apontávamos que as denúncias feitas ao governo Lula e a seu partido, o PT, tinham muitos ingredientes também presentes na crise que acabou afastando Collor da presidência. Mas nem de longe cogitávamos que, daquela semana para cá, estaria sendo posta em funcionamento uma “Operação Uruguai II”, ou, melhor dizendo, uma “Operação Arrasa PT”.

A oposição de direita já havia dado a senha, ao concentrar seu foco no desmonte do patrimônio ético e na desmoralização do Partido dos Trabalhadores, ao mesmo tempo em que poupava sistematicamente Lula e, principalmente, a política econômica de seu governo. O recado era claro: afaste-se do PT e você estará a salvo; permaneça junto e o seu futuro, e de seu governo, será duvidoso. As atitudes de Lula mostram que o recado foi assimilado e a barganha aceita. Lula colocou o seu projeto pessoal acima, até mesmo, do partido que ele chama de “filho” e que o levou de São Bernardo ao Palácio do Planalto. O PT torna-se dispensável e a relação com a população – que continua a brindá-lo com altos índices de aprovação – passa a ser direta; sem intermediários, insinuando, quem sabe, uma gestão populista tutelada pela tucanagem alvoroçada. A conta cobrada pela direita já foi apresentada e atende pelo nome “Déficit Zero”.

O que não se esperava – pelo menos com esta intensidade – era que o próprio PT aceitasse fazer haraquiri, se imolando em praça pública. E muito menos que o ritmo do desmantelamento petista fosse acelerado por dólares encontrados em cuecas partidárias. A partir daí, o primeiro escalão da burocracia petista, que vinha prestando inestimáveis serviços na blindagem de Lula, foi defenestrado sumariamente, A escolha de Tarso Genro para a presidência do PT acelera a adaptação – antes prevista para o final deste ano – do partido às políticas antipovo do governo Lula. É emblemático que, em sua última entrevista como presidente, José Genoino tenha insistido em ligar sua gestão no PT à construção de um “socialismo democrático”.

Se a burocracia petista comandada por José Dirceu inverteu e degradou completamente a relação ética entre fins e meios, tentando encontrar atalhos para o poder, Lula agora é o principal responsável por entregar o PT aos leões, para tentar manter-se ao largo dos prejuízos causados pela descoberta de um esquema que, em última análise, existia para beneficiá-lo e a seu governo. A sua participação nesta tramóia engendrada para transformar a compra dos votos – que retiraram direitos dos trabalhadores e que liberaram a produção e o consumo de substâncias geneticamente modificadas, só para falar em duas das maldades cometidas – numa operação de caixa 2 de campanhas políticas, não permite mais que a oposição de esquerda continue poupando Lula.

Mesmo com toda a responsabilidade que temos, e com tudo o que Lula ainda representa no imaginário da população brasileira, aceitar a versão de Valério e Delúbio – dois mentirosos contumazes, já pegos em inúmeras mentiras – de que Lula não tinha conhecimento de nada, é chamar a população de idiota e nos colocar como coniventes com esta farsa! Já basta que a “esquerda” governista – inebriada pela possibilidade de herdar o PT – cumpra o papel de legitimador deste enorme estelionato político. Já é suficiente que setores cooptados dos movimentos sociais tenham tentado criar sua própria farsa, na tentativa de defender o indefensável, atribuindo a Bush e à mídia reacionária a gestação de “um golpe”. Para começar a levar a sério esta fantasia, seria necessário redefinir o papel das organizações Globo na história brasileira.

Aliás, as organizações Globo merecem um parágrafo à parte. No começo dessa “encalacrada em que se meteu o PT e seu governo”, como costuma dizer o sociólogo e colunista Léo Lince, houve quem dissesse que se tratava de uma luta entre o tucanato e a Folha de SP, de um lado, e o petismo e as organizações Globo, de outro. Quando a este último lado, pelo menos, a análise vem se confirmando. Ao exibir em seqüência as entrevistas de Marcos Valério, Delúbio Soares e de Lula – esta ainda muito mal-explicada – as organizações Globo pagaram a dívida que tinham com Lula, por conta da edição feita, e exibida na TV Globo, do último debate do segundo turno em 1989. A vitória esmagadora de Collor naquele debate é tão difícil de engolir quanto esta versão que procura isentar Lula e a ex-cúpula petista de um esquema fraudulento de financiamento de campanhas. Mais um ponto que aproxima Collor de Lula?

Como um certo material orgânico que quanto mais é remexido, mais exala um aroma desagradável, e que tem a propriedade de contaminar tudo em sua volta, as investigações que começaram nos Correios e que já estão batendo nas vidraças do Palácio do Planalto, vêm provocando, a cada momento, mais e mais baixas. A população bombardeada diariamente por uma barragem de informações que mais escondem do que revelam, vai comprando sem sentir a versão de que partidos, políticos, Congresso são, realmente, sinônimos de picaretagem e roubalheira. Logo aparecerão pretensos intelectuais – sempre prontos para se venderem – para reafirmar que coisas como esquerda e direita estão superadas; que importantes são as personalidades públicas que conseguem se descolar desse “atraso”, como o presidente Lula.

Na expectativa própria dos chacais rodeando a carniça, a “esquerda” governista, que até há pouco tempo atrás se limitava a dar um certo conteúdo progressista de fachada ao mesmo discurso dos burocratas petistas, agora parece estar apostando no quanto-pior-melhor. Sôfrega por conquistar mais espaço na burocracia, nem percebe que se vier a herdar o PT, estará, na verdade, recebendo a casca, já que o conteúdo há muito se perdeu. Pelo andar da carruagem, cedo ou tarde, acabará sendo engolfada também por esta tsunami lamacenta, já que algumas das campanhas petistas, alegadamente financiadas pela caixa 2 de Valério e Delúbio, eram de representantes desta “esquerda”.

Por questão de sobrevivência, mas principalmente por convicção, cabe à oposição de esquerda socialista tentar se diferenciar e escapar dessa vala comum em que a direita quer nos colocar. Deve conformar uma frente que, sem vacilação, defenda a apuração total da corrupção e a punição ­sem contemplação de todos os envolvidos, estejam eles nas agências de publicidade, nos partidos da base aliada, na burocracia petista e, se for o caso, no Palácio do Planalto.
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