Muita farsa, pouca história
PALAVRA CRUZADA - 07/07

Diz a piada que a receita infalível para uma crise institucional envolve um presidente carismático, um careca, uma secretária, um motorista e, por fim, acrescenta-se o Banco Rural. A estes ingredientes podemos juntar um projeto de poder pelo poder, arrogância, certeza da impunidade e muita mentira. As denúncias feitas ao governo Lula e ao seu partido, o PT, já provocaram o que talvez seja a maior crise vivida pela esquerda brasileira na história recente, seja pelo que guarda de semelhança, seja pelas diferenças em relação ao governo Collor.

Mesmo que nem todas as acusações já feitas ao núcleo-duro do governo Lula – Dirceu, Gushiken, Genoino, Delúbio, Silvinho e, aparentemente, Valério – sejam verdadeiras e/ou possam ser provadas, já ficou evidente que se trata de mais um grupo que tomou de assalto o Estado brasileiro, de forma semelhante a da tristemente famosa “República das Alagoas”. Se os fins parecem ser diferentes, já que não parece crível que figuras como Dirceu e Genoino estejam movidas pelo enriquecimento próprio, os meios e métodos são muito semelhantes aos de PC Farias e sua gangue.

Uma primeira conclusão que se faz necessária, é a de que não estamos falando de mais uma história, onde companheiros bem intencionados se corrompem no pântano do estado burguês. Ao contrário, a atual “operação”, que se ainda não foi provada, é de uma descarada verossimilhança, nada mais é do que um upgrade dos esquemas de financiamento das campanhas petistas. Os mesmos esquemas que sempre foram cochichados nos corredores do PT, e sobre os quais o conjunto do partido [esquerda petista inclusive] sempre se calou. Os mesmos cochichos incômodos que, desde sempre, estiveram presentes nas mortes de Celso Daniel e, possivelmente, Toninho de Campinas.

Pela “causa”, já que era preciso fazer campanhas mais caras, foi necessário deixar de purismos e cair no troca-troca de interesses que cercaram, e ainda cercam provavelmente, as concorrências de prefeituras petistas, não somente as de transportes e recolhimento de lixo. Pela “causa” também, foi necessário “profissionalizar” dirigentes e suas famílias, para que eles pudessem “operar” com mais tranqüilidade. Pela “causa”, sindicatos cutistas, além de darem sua “cota mensal de sacrifício”, tornaram-se grandes cabides de emprego. Isso já acontecia no PT e na CUT muito antes do governo Lula. Pela “causa”, os ornitorrincos fundos de pensões das estatais tornaram-se também financiadores da “esperança que venceu o medo”.

Ao assumir o governo, onde interesses e recursos eram muito maiores, a “equipe de operação” se adaptou ao tamanho do Estado. A contragosto, teve que admitir que não conseguiria administrar todas as “fábricas de dinheiro”. Mesmo assim, lutou o quanto pode para evitar “porteiras fechadas”. As indicações para a ocupação de cargos de confiança na máquina pública assumiram, assim, dois vieses: de um lado, a cooptação dos movimentos sociais, via cargos nos ministérios e secretarias sociais; de outro, para a “operação”, operadores de dentro ou de partidos da base aliada. Quando Lula e o núcleo-duro resolveram aplicar a realpolitik econômica, trouxeram junto com ela a degeneração da burocracia petista.

Agora, quando começam a serem pegos com a mão no pote de biscoitos, negam a realidade “malufianamente”, mesmo que tenham que se desmentir poucas horas depois. Ninguém sabe nada; ninguém fez nada. Lula aceita ser colocado no papel de rainha da Inglaterra [ou bobo da corte], e afirma constrangido que não sabia o que Zé Dirceu fazia. Zé Dirceu, por sua vez, nada sabia de Waldomiro e Sereno. Genoino desconhecia o que Delúbio e Silvinho estavam fazendo. Delúbio não tem nada a ver com Valério nem Gushiken, que nunca se reuniu com Silvinho no Alvorada, numa Ciranda esquizofrênica. Enquanto isso Roberto Jefferson, de culpado assumido, acabou se transformando no grande “operador” da reforma ministerial de Lula e no articulador político do governo, já que dele partiu o mote de preservação da figura de Lula. Além disso, de quebra, está fazendo alguns ajustes na burocracia petista. Foi ele que, por enquanto, demitiu Dirceu, afastou 3 diretores de estatais, e licenciou Delúbio e Silvinho.

E qual o papel a esquerda petista está jogando neste imbróglio todo? Contraditório, para dizer o mínimo. No primeiro momento, também criou a sua farsa — juntamente com o MST, CUT e UNE — embarcando na teoria conspiratória do golpe branco, minissérie que acabou no primeiro capítulo, atropelada que foi pela realidade dos fatos. Agora, embalada pela esperança de conseguir um melhor resultado no PED, menos pelas diferenças das suas propostas e mais pela fragilização do Campo Majoritário, quer ressuscitar uma outra farsa: a da possibilidade da disputa dos rumos do governo e do PT. O Bloco de Esquerda, por seu lado, agora engrossado por alguns “muy aliados”, está seguindo religiosamente a cartilha ética de procedimentos partidários, na ilusão de é possível aplicar procedimentos democráticos e éticos em um partido corrompido como o PT, ou quem sabe na tentativa de mostrar à sociedade que ainda existem petistas no Partido dos Trabalhadores.

De uma forma geral, tanto a burocracia petista corrompida, como a esquerda governista e o Bloco de Esquerda ainda têm dificuldade em entender o tamanho da desconstrução do PT junto à população em geral. E aí está, infelizmente, a grande diferença entre esta crise em que o governo Lula e o PT estão enterrados até o pescoço, e a crise de Collor. Naquele momento, a esquerda e os movimentos sociais, mesmos derrotados em 1989 e duramente golpeados durante a era collorida, travaram um embate vitorioso contra um setor “novo-rico” da direita. Agora, os prejuízos causados pela denúncia às “operações do núcleo-duro” não vão cair unicamente nos ombros destes burocratas. Toda a esquerda, mesmo a que vem denunciando de forma sistemática a mudança de trilhos do expresso Lula, vai perder grande parte do que acumulou desde os anos 1970. É um momento tão grave que não admite mais a fragmentação da esquerda socialista e a divergência, completamente artificial agora, sobre a escolha de qual o melhor instrumento neste momento histórico.

Devemos superar urgentemente esta fase de afirmação das pequenas diferenças e rumar para a construção de uma frente que congregue partidos, sindicatos, estudantes, movimentos sociais, organizações de esquerda, lutadores e lutadoras sociais, que estejam dispostos a criar coletivamente uma agenda de denúncia e de combate a todos os corruptos, mas que seja também uma agenda positiva, que proponha para a sociedade brasileira uma alternativa à política econômica de Lula e do FMI. E que desta mobilização sejam criadas, quem sabe, as bases e condições para a apresentação de uma alternativa em 2006 aos candidatos da ordem.
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