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"O
aluno acumula saberes, passa nos
exames, mas não consegue usar o que
aprendeu em situações reais"
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esenvolver
competências nos alunos é a palavra de ordem da
educação moderna. Para formar pessoas preparadas
para a nova realidade social e do trabalho, o
professor brasileiro enfrenta o desafio de mudar sua
postura frente à classe, ceder tempo de aula para
atividades que integrem diversas disciplinas e estar
disposto a aprender com a turma.
De
nada adianta, porém, exigir mudança do docente se a
escola não diminuir o peso dos conteúdos
disciplinares e a sociedade não se empenhar em
definir quais competências quer que seus estudantes
desenvolvam. É isso que defende o sociólogo suíço
Philippe Perrenoud, doutor em Sociologia e
Antropologia, professor da Universidade de Genebra e
especialista em práticas pedagógicas e instituições
de ensino. Autor do livro Dez Novas Competências para
Ensinar, ele concedeu por e-mail a seguinte entrevista
exclusiva.
NOVA
ESCOLA> De onde vem a idéia de competência
na educação?
Philippe
Perrenoud< A abordagem por competências é uma
maneira de levar a sério um problema antigo, o de
transferir conhecimentos. Em geral, a escola se
preocupa mais com ingredientes de certas competências
e menos em colocá-las em sinergia nas situações
complexas. Durante a escolaridade básica, aprende-se
a ler, escrever, contar, mas também a raciocinar,
explicar, resumir, observar, comparar, desenhar e dúzias
de outras capacidades gerais. Assimilam-se
conhecimentos disciplinares, como Matemática, História,
Ciências, Geografia etc. Mas a escola não tem a
preocupação de ligar esses recursos a situações da
vida. Quando se pergunta por que se ensina isso ou
aquilo, a justificativa é geralmente baseada nas exigências
da seqüência do curso: ensina-se a contar para
resolver problemas; aprende-se gramática para redigir
um texto. Quando se faz referência à vida,
apresenta-se um lado muito global: aprende-se para se
tornar um cidadão, para se virar na vida, ter um bom
trabalho, cuidar da saúde. A transferência e a
mobilização das capacidades e dos conhecimentos não
caem do céu. É preciso trabalhá-las e treiná-las,
e isso exige tempo, etapas didáticas e situações
apropriadas, que hoje não existem.
NE>
Ou seja, a escola não prepara o aluno para usar o
conhecimento no seu dia-a-dia?
Perrenoud<
Exatamente. Os alunos acumulam saberes, passam nos
exames, mas não conseguem mobilizar o que aprenderam
em situações reais, no trabalho e fora dele (em família,
na cidade, no lazer etc.). Isso é grave para aqueles
que freqüentam aulas somente por alguns anos. A
escola básica não deve ser uma preparação para
estudos longos. Deve-se enxergá-la como uma preparação
de todos para a vida. Formulando-se mais
explicitamente os objetivos da formação em termos de
competências, lutamos abertamente contra a tentação
da escola de ensinar por ensinar, de marginalizar as
referências às situações da vida e de não
reservar tempo para treinar a mobilização dos
saberes para situações complexas.
NE>
Quais as competências que os alunos devem ter
adquirido ao terminar a escolarização?
Perrenoud<
Essa é uma escolha da sociedade, que deve ser baseada
em um conhecimento amplo e atualizado das práticas
sociais. Não basta nomear uma comissão de redação
para se elaborar um conjunto de competências. Certos
países contentaram-se em reformular os programas
tradicionais, colocando um verbo de ação na frente
dos saberes disciplinares. Onde se lia "ensinar o
teorema de Pitágoras", agora lê-se
"servir-se do teorema de Pitágoras para resolver
problemas de geometria". Isso é maquiagem. A
descrição de competências deve partir da análise
de situações, da ação, e disso derivar
conhecimentos. Os países que querem ir rápido demais
se lançam na elaboração de programas sem dedicar
tempo à observação das práticas sociais, sem
identificar situações com as quais as pessoas são e
serão verdadeiramente confrontadas. O que sabemos das
competências que precisam um desempregado, um
imigrante, um portador de deficiência, uma mãe
solteira, um jovem da periferia? Se o sistema
educativo não perder tempo reconstruindo a transposição
didática (a transformação de um conhecimento científico
em conhecimento escolar), não questionará as
finalidades da escola e se contentará em verter
antigos conteúdos dentro de um novo recipiente. Sob a
capa de competências, dá-se ênfase a capacidades
sem contexto. Resultado: conserva-se o essencial dos
saberes necessários aos estudos longos e os lobbies
disciplinares ficam satisfeitos.
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Antônio
Milena
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"O
que se sabe verdadeiramente sobre as
competências que são necessárias
a um desempregado"
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NE>
O que é preciso fazer para que a formação geral
acompanhe os objetivos da profissional em termos de
competência?
Perrenoud<
Eu tentei um exercício para identificar os saberes
fundamentais para a autonomia das pessoas. Cheguei a
oito grandes categorias: saber identificar, avaliar e
valorizar suas possibilidades, seus direitos, seus
limites e suas necessidades; saber formar e conduzir
projetos e desenvolver estratégias, individualmente
ou em grupo; saber analisar situações, relações e
campos de força de forma sistêmica; saber cooperar,
agir em sinergia, participar de uma atividade coletiva
e partilhar liderança; saber construir e estimular
organizações e sistemas de ação coletiva do tipo
democrático; saber gerenciar e superar conflitos;
saber conviver com regras, servir-se delas e elaborá-las;
saber construir normas negociadas de convivência que
superem as diferenças culturais. Em cada uma dessas
grandes categorias, é preciso ainda especificar
concretamente os grupos de situações. Por exemplo:
saber desenvolver estratégias para manter o emprego
em situações de reestruturação de uma empresa. A
formulação de competências afasta-se, então, das
abstrações ideologicamente neutras. De pronto, a
unanimidade está ameaçada, e reaparece a idéia de
que os objetivos da escolaridade dependem de uma
escolha da sociedade.
NE>
Nesse contexto, quais são as mudanças no papel do
professor?
Perrenoud<
É inútil exigir esforços sobre-humanos dos
professores se o sistema educativo apenas adota a
linguagem das competências, sem mudar nada de
fundamental. O melhor indício de uma mudança
profunda é a diminuição do peso dos conteúdos
disciplinares e uma avaliação formativa e
certificativa, orientada claramente para as competências.
As competências não dão as costas para os saberes,
mas não se pode pretender desenvolvê-las sem dedicar
o tempo necessário para colocá-las em prática. Não
basta juntar uma situação de transferência no final
de cada capítulo de um curso convencional. Para o
sistema mudar, é preciso reformular seus programas em
termos de desenvolvimento de competências
verdadeiras, liberar disciplinas, introduzir os ciclos
de aprendizagem plurianuais ao longo do curso, chamar
para a cooperação profissional e convidar o
professor para uma pedagogia diferenciada, mudando,
então, sua representação e sua prática.
NE>
O que o professor deve fazer para modificar sua prática?
Perrenoud<
Para desenvolver competências é preciso, antes de
tudo, trabalhar por resolução de problemas e por
projetos, propor tarefas complexas e desafios que
incitem os alunos a mobilizar seus conhecimentos e, em
certa medida, completá-los. Isso pressupõe uma
pedagogia ativa, cooperativa, aberta para a cidade ou
para o bairro, seja na zona urbana ou rural. Os
professores devem parar de pensar que dar o curso é o
cerne da profissão. Ensinar, hoje, deveria ser
conceber, encaixar e regular situações de
aprendizagem, seguindo os princípios pedagógicos
ativos construtivistas. Para os adeptos dessa visão
interativa da aprendizagem, trabalhar no
desenvolvimento de competências não é uma ruptura.
O obstáculo está mais em cima: como levar os
professores, habituados a cumprir rotinas, a repensar
sua profissão? Eles não desenvolverão competências
se não se perceberem como organizadores de situações
didáticas e de atividades que tenham sentido para os
alunos, envolvendo-os e, ao mesmo tempo, gerando
aprendizagens fundamentais.
NE>
Quais são as qualidades profissionais que o professor
deve ter para ajudar os alunos a desenvolver competências?
Perrenoud<
Antes de ter competências técnicas, ele deveria ser
capaz de identificar e de valorizar suas próprias
competências, dentro de sua profissão e de outras práticas
sociais. Isso exige um trabalho sobre sua relação
com o saber. Muitas vezes, o professor é alguém que
ama o saber pelo saber, que é bem-sucedido na escola,
que tem uma identidade disciplinar forte desde o
Ensino Médio. Ora, os alunos não são e não querem
ser como ele. O professor deve, então, se colocar no
lugar desses alunos. Aí ele começará a procurar
meios de interessar sua turma pelo saber — não como
algo em si mesmo, mas como ferramentas para
compreender o mundo e agir sobre ele. O principal
recurso do professor é a postura reflexiva, sua
capacidade de observar, de regular, de inovar, de
aprender com os outros, com os alunos, com a experiência.
Mas, com certeza, existem capacidades mais precisas.
| Masao
Goto Filho |
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"A
avaliação é o que realmente
conta. E ela deve ser feita com
problemas complexos e tarefas
contextualizadas"
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NE>
Como o professor deve empregar as disciplinas dentro
desse conceito?
Perrenoud<
Não se trata de renunciar às disciplinas, que são
os campos do saber, estruturados e estruturantes. No
Ensino Fundamental, é preciso preservar a polivalência
dos professores, não "secundarizar" a
escola básica. No Ensino Médio, pode-se desejar a não
compartimentalização precoce e estanque, com
professores menos especializados, menos fechados
dentro de uma só área, dizendo ignorar as outras. É
importante ainda não dedicar todo o tempo escolar às
disciplinas, deixando espaços para as encruzilhadas
interdisciplinares e as atividades de integração.
NE>
Como deve ser a avaliação em uma escola orientada
para o desenvolvimento de competências?
Perrenoud<
Ninguém formará competências na escolaridade básica
se não forem exigidas competências no momento da
certificação. A avaliação é o que realmente
conta. É preciso avaliar seriamente as competências,
mas isso não pode ser feito com testes escritos. São
essenciais os problemas complexos e as tarefas
contextualizadas, dentro de uma série de condições
(conheça alguns exemplos concretos na reportagem de
capa, à página 12).
NE>
Em quanto tempo é possível perceber resultados
dessas mudanças no sistema de ensino?
Perrenoud<
Antes de avaliar as mudanças é melhor colocá-las em
operação. Isso levará anos, se for um trabalho sério.
Pior é acreditar que as práticas de ensino e
aprendizagem mudam por decreto. As mudanças exigidas
passarão por uma espécie de revolução cultural,
que será vivida pelos professores, depois pelos
alunos e seus pais. Quando as práticas forem
alteradas em larga escala, a mudança exigirá ainda
anos para dar frutos visíveis, pois será preciso
esperar que mais de uma geração de estudantes tenha
passado por todos os ciclos. Enquanto se espera, é
melhor implementar e acompanhar as mudanças do que
procurar provas prematuras de sucesso.
NE>
O que uma reforma dessa natureza pode fazer por um país
como o Brasil?
Perrenoud<
Seu país confronta-se com o desafio de escolarização
de crianças e adolescentes e de formação de
professores qualificados em todas as regiões. Há
também a questão da reprovação e da evasão. A
abordagem por competências não vai resolver esses
problemas num passe de mágica. Entretanto, não vamos
negligenciar três suportes dessa abordagem, caso ela
atenda suas ambições. Ela pode aumentar o sentido de
trabalho escolar e modificar a relação com o saber
dos alunos em dificuldade; favorecer as aproximações
construtivistas, a avaliação formativa, a pedagogia
diferenciada, que vai facilitar a assimilação ativa
dos saberes; colocar os professores em movimento,
incitando-os a falar de pedagogia e a cooperar no
quadro de equipes ou de projetos do estabelecimento
escolar. Por isso, é sensato integrar desde já as
abordagens por competências à formação — inicial
e contínua — e à identidade profissional dos
professores. Não nos esqueçamos de que, no final das
contas, o objetivo principal é democratizar o acesso
ao saber e às competências. Todo o resto é apenas
um meio de atingir esse objetivo.
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