Sossega, cora��o! N�o desesperes!
Talvez um dia, para al�m dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Ent�o, livre de falsas nostalgias,
Atingir�s a perfei��o de seres.
Mas pobre sonho o que s� quer n�o t�-lo!
Pobre esperan�a a de existir somente!
Como quem passa a m�o pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o conceb�-lo!
Sossega, cora��o, contudo! Dorme!
O sossego n�o quer raz�o nem causa.
Quer s� a noite pl�cida e enorme,
A grande, universal, solene pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.
- Fernando Pessoa
Intervalo
Quem te disse ao ouvido esse segredo
Que raras deusas t�m escutado -
Aquele amor cheio de cren�a e medo
Que � verdadeiro s� se � segredado?...
Quem te disse t�o cedo?
N�o fui eu, que te n�o ousei diz�-lo.
N�o foi um outro, porque n�o sabia.
Mas quem ro�ou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria algu�m, seria?
Ou foi s� que o sonhaste e eu te o sonhei?
Foi s� qualquer ci�me meu de ti
Que o sup�s dito, porque o n�o direi,
Que o sup�s feito, porque o s� fingi
Em sonhos que nem sei?
Seja o que for, quem foi que levemente,
A teu ouvido vagamente atento,
Te falou desse amor em mim presente
Mas que n�o passa do meu pensamento
Que anseia e que n�o sente?
Foi um desejo que, sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse
A frase eterna, imerecida e louca -
A que as deusas esperam da ledice
Com que o Olimpo se apouca.
- Fernando Pessoa
Dorme enquanto eu velo...
Deixa-me sonhar...
Nada em mim � risonho.
Quero-te para sonho,
N�o para te amar.
A tua carne calma
� fria em meu querer.
Os meus desejos s�o cansa�os.
Nem quero ter nos bra�os
Meu sonho do teu ser.
Dorme, dorme. dorme,
Vaga em teu sorrir...
Sonho-te t�o atento
Que o sonho � encantamento
E eu sonho sem sentir.
- Fernando Pessoa
.
Ao longe, ao luar,
No rio uma vela
Serena a passar,
Que � que me revela?
N�o sei, mas meu ser
Tornou-se-me estranho,
E eu sonho sem ver
Os sonhos que tenho.
Que ang�stia me enla�a?
Que amor n�o se explica?
� a vela que passa
Na noite que fica.
- Fernando Pessoa
Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece.
N�o sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece.
O lago nada me diz,
N�o sinto a brisa mex�-lo
N�o sei se sou feliz
Nem se desejo s�-lo.
Tr�mulos vincos risonhos
Na �gua adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha �nica vida?
- Fernando Pessoa
N�o: n�o digas nada!
Supor o que dir�
A tua boca velada
� ouvi-lo j�
� ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que �s n�o vem � flor
Das frases e dos dias.
�s melhor do que tu.
N�o digas nada: s�!
Gra�a do corpo nu
Que invis�vel se v�.
- Fernando Pessoa
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