|
Acordar, Viver
Como acordar sem sofrimento?
Recome�ar sem horror?
O sono transportou-me
�quele reino onde n�o existe vida
e eu quedo inerte sem paix�o.
Como repetir, dia seguinte ap�s dia seguinte,
a f�bula inconclusa,
suportar a semelhan�a das coisas �speras
de amanh� com as coisas �speras de hoje?
Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua p�rpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que n�o sou?
Ningu�m responde, a vida � p�trea.
- Carlos Drummond
Receita de Ano Novo
Para voc� ganhar bel�ssimo Ano Novo
cor do arco-�ris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem compara��o com todo o tempo j� vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para voc� ganhar um ano
n�o apenas pintado de novo, remendado �s carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
at� no cora��o das coisas menos percebidas
(a come�ar pelo seu interior)
novo, espont�neo, que de t�o perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
voc� n�o precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
n�o precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
N�o precisa
fazer lista de boas inten��es
para arquiv�-las na gaveta.
N�o precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperan�a
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justi�a entre os homens e as na��es,
liberdade com cheiro e gosto de p�o matinal,
direitos respeitados, come�ando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mere�a este nome,
voc�, meu caro, tem de merec�-lo,
tem de faz�-lo novo, eu sei que n�o � f�cil,
mas tente, experimente, consciente.
� dentro de voc� que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
- Carlos Drummond
Poesia
Gastei uma hora pensando em um verso
que a pena n�o quer escrever.
No entanto ele est� c� dentro
inquieto, vivo.
Ele est� c� dentro
e n�o quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.
- Carlos Drummond
No meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no mei do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
- Carlos Drummond
Itabira
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas t�o fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Cada um de n�s tem seu peda�o no pico do Cau�
Na cidade toda de ferro
as ferraduras batem como sinos.
Os meninos seguem para a escola.
Os homens olham para o ch�o.
Os ingleses compram a mina.
S�, na porta da venda, Tutu caramujo cisma na
derrota incompar�vel.
- Carlos Drummond
Mais poesias
|