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Fã irredutível do filme
original, fui um dos maiores críticos quando a refilmagem de
"O Massacre da Serra Elétrica" foi anunciada, no começo
de 2003. Ainda mais quando surgiram os boatos dizendo que
Michael Bay (diretor de "Armageddon" e "Pearl
Harbor") estava envolvido na produção e um iniciante
diretor de videoclipes, Marcus Nispel (um alemão de 38 anos),
tinha assinado para "cometer o crime" de dirigir o
remake. E as notícias continuaram me deixando com um pé atrás,
como o elenco de caras bonitinhas contratado para os papéis
principais, o fato de Leatherface acabar na pele de um
halterofilista (e não de um gordo escroto como o Gunnar Hansen,
no original) e as críticas negativas que o filme recebeu na
imprensa internacional - apesar de ser um sucesso de bilheteria.
Para piorar, o filme foi lançado em DVD e VHS nos Estados
Unidos em janeiro de 2004, quando nem tinha estreado no Brasil
ainda. E a estréia por aqui foi chutada lá para 13 de agosto
para a Europa Filmes, aumentando ainda mais a expectativa. Odeio
ver filmes no computador, mas no caso do remake de "O
Massacre da Serra Elétrica" estava tão curioso que não
agüentei e mandei vir o filme. Assisti com uma imagem péssima,
super escura e granulada, que não permite distinguir direito
algumas coisas, mas pelo menos tinha legendas em português. E
cheguei a uma conclusão quanto ao filme... Tudo bem, está bem
longe de ser a bomba que eu esperava. Na verdade, "O
Massacre da Serra Elétrica" versão 2003 é um bom filme.
A violência do original não foi atenuada, pelo contrário, foi
explicitada. O elenco jovem come o pão que o diabo amassou. E
as cenas mais fortes do original (vítima espetada no gancho de
carne, Leatherface surgindo com a moto serra, marretada na cabeça)
continuam todas ali. Infelizmente, o grande problema do filme é
justamente a produção (muito caprichada, se compararmos com o
estilo "documentário" do original, rodado com uma
verdadeira mixaria) e o roteiro, péssimo, que começa bem, mas
acaba se perdendo em idas e vindas totalmente desnecessárias...
Em comparação, vamos dizer que "O Massacre da Serra Elétrica"
original é uma verdadeira viagem ao inferno, onde quase
acreditamos que os atores vítimas estão sofrendo mesmo e que
os atores algozes são verdadeiros psicopatas. Já "O
Massacre da Serra Elétrica" remake não passa de uma volta
no trem-fantasma de um parque de diversões: dá seus sustos e
diverte, mas no geral é bobo e nada memorável (alguém lembra
detalhes de algum trem-fantasma em que já andou?). O diretor
Marcus Nispel teve alguns acertos, como convidar Daniel Pearl, o
diretor de fotografia do original, para repetir o serviço na
refilmagem. E também chamou de volta o ator John Larroquette
para narrar o tétrico texto de abertura, a exemplo do que ele
havia feito no clássico de 1974. Ao contrário de todos os
outros filmes da série, onde o texto explicando a história é
mostrado em letras sobre um fundo preto e narrado, aqui só há
a narração, enquanto imagens feitas em preto-e-branco, com câmera
amadora, supostamente nos anos 70, mostram policiais recolhendo
cadáveres e evidências da "cena do crime" - tudo
para enfatizar tratar-se de uma história
real, o que todo mundo sabe que não é verdade. Assim é o novo
texto deste remake: "O filme que vocês verão
é baseado na tragédia que se abateu sobre um grupo de cinco
adolescentes. Foi ainda mais trágico pelo fato de eles serem
jovens. Mas se eles tivessem vivido, jamais esperariam ter visto
toda a loucura e o macabro que viram naquele dia. Para eles, um
simples final de tarde foi o início de um pesadelo. Por 30
anos, os arquivos acumularam pó na divisão de casos não-resolvidos
do Departamento de Polícia do condado de Travis, no Texas. Mais
de 1.300 evidências foram recolhidas na cena dos crimes, a
residência da família Hewitt. Mas nenhuma das evidências é
mais marcante do que um secreto rolo de filme feito na cena do
crime. Os eventos daquele dia guiaram o desfecho de um dos
crimes mais bizarros dos anais da história americana: O
MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA DO TEXAS!" Ao invés de hippies inofensivos
que estão andando em uma van para visitar o cemitério e a
velha casa da família (como no original), aqui temos cinco
jovens que foram ao México comprar maconha e estão indo rumo a
um show da banda Lynyrd Skynyrd (que, na vida real, morreu toda
em um acidente aéreo, alguns anos depois). Os jovens e
"carne de churrasco em potencial" são Kemper (que é
a cara do apresentador Marcos Mion e aparece no seriado "Six
Feet Under"), o motorista e proprietário do veículo; sua
namorada Erin (a gostosíssima Jessica Biel, de "Regras da
Atração", que não chega aos pés de Marilyn Burns como
"scream queen" e jamais convence), o casal Andy (Mike
Vogel) e Pepper (Erica Leershen, de "A Bruxa de Blair
2"), e Morgan (Jonathan Tucker, de "100 Garotas"
e "As Virgens Suicidas"). Ah sim: nenhum deles é
paralítico, como o velho Franklin do filme original. Nem
tampouco há algum parentesco entre eles. Cruzando o Texas,
entre papos imbecis sobre maconha e sexo e uma intimação de
Erin para Kemper sobre casamento, o grupo passa por uma moça
que anda cambaleando pela estrada de chão, como se estivesse
perdida. Param e lhe oferecem carona, mas a mulher não fala
coisa com coisa, como se tivesse passado por um trauma terrível.
Mesmo assim, os cinco jovens resolvem lhe dar carona. Dentro da
van, a "Caroneira" (sentiu a referência ao filme
original?) começa a falar coisas sem sentido, dizendo que toda
a sua família foi morta. Quando passam por um velho matadouro,
a garota fica histérica e grita que "não quer voltar para
lá". Quando Kemper se recusa a voltar, ela tira um revólver
que trazia enfiado no meio das pernas (ui!) e se mata com um
tiro na cabeça. E a câmera de Nispel faz questão de passar
por dentro do buraco, em um divertido movimento de câmera.
Desesperados com a situação, os cinco jovens resolvem procurar
o xerife para explicar todo o caso. Afinal, levam um cadáver
com a cabeça explodida no banco de trás de sua van! Parando em
uma loja que vende carne para churrasco (outra citação ao
original), eles descobrem que o homem da lei está em um velho
moinho. Como vai demorar para voltar, resolvem ir até lá,
levando o cadáver no banco de trás. No moinho, entretanto,
eles encontram tudo, menos o xerife. Ali há vários carros
abandonados e até dentes humanos espalhados pelo chão - mas
nenhum dos jovens chega a desconfiar disso por um momento. Erin
e Kemper resolvem ir até uma casa próxima em busca de um
telefone para ligar para o xerife, deixando os amigos para trás.
Na tal casa vive a família Hewitt. O casal é atendido por um
velho aleijado e furioso, em uma cadeira-de-rodas, que permite
apenas que Erin entre na casa para fazer o telefonema, deixando
seu namorado do lado de fora. Mas o bisbilhoteiro Kemper resolve
entrar na casa mesmo assim. E, ao passar por um corredor escuro,
descobre, da pior forma possível, que está no lar de
Leatherface, ao ser atingido brutalmente na cabeça com uma
marretada. A cena recria a primeira morte do filme original,
onde Kirk (William Vail) era abatido dessa forma, mas não
consegue atingir o mesmo nível de brutalidade e choque do filme
de 1974. Enquanto o cadáver de Kemp é arrastado para o porão
escuro por Leatherface (o marombeiro Andrew Bryniarski, filho de
Christopher Walken em "Batman Returns" e intérprete
do russo Zangief na bomba "Street Fighter 2"), Erin
sai achando que o namorado voltou para a van. E naquele momento,
o trio que ficou para trás recebe a visita do esquisito xerife
(interpretado pelo veterano R. Lee Ermey, que praticamente
repete seu papel de psicopata do clássico "Nascido Para
Matar", de Stanley Kubrick). Falando dezenas de palavrões
por segundo e de um jeito durão e neurótico, o xerife obriga
Andy e Morgan a embalarem o cadáver da caroneira suicida com plástico,
embarcando-o depois em sua viatura e deixando o grupo para trás.
É quando aparece Erin e o grupo se espanta ao saber que Kemper
está sumido. Eles voltam à casa, e então finalmente se
deparam com Leatherface e sua motosserra. E assim o filme avança
praticamente recriando o filme original, com parte do elenco
sendo picotada pela motosserra de Leatherface e a outra parte
descobrindo que não dá para confiar nos moradores do Texas,
pois a maioria das pessoas que encontram são parte integrante
da família Hewitt. No programa, ainda, muita tortura psicológica,
incluindo uma cena de forte suspense onde o xerife psicopata
tenta obrigar uma de suas vítimas a explodir a própria cabeça
com um revólver. Quem conhece o original sabe que a maior parte
da violência é implícita, ainda que o filme seja violentíssimo.
Já o remake apela para a sangreira e para a brutalidade
gratuitas. Há doses cavalares de sangue e cenas fortes, como o
jovem que tem a perna serrada no meio por Leatherface ao tentar
escapar; depois, ele é arrastado ainda vivo para o porão,
tenta se agarrar nas paredes e tem as unhas arrancadas no
atrito! O nível de sadismo também é maior, com o tal jovem
sendo pendurado no gancho de carne (como Pam do filme original)
e ainda tendo que agüentar Leatherface passando sal grosso no
toco da perna decepada! Sem limites para a brutalidade, o
diretor Nispel chega a filmar closes do gancho de carne entrando
e saindo das costas do rapaz! Também foi quintuplicada a violência
na cena do esquartejamento de um dos rapazes para virar
"churrasco". Se no filme original víamos Leatherface
serrando sua vítima "off-screen", aqui presenciamos
toda a preparação do esquartejamento, como se o rapaz fosse um
animal tipo um porco ou um boi, sendo inclusive barbeado antes
de acabar pendurado nos ganchos de carne. Se há mais violência,
por outro lado desapareceram todas as referências a canibalismo
(ninguém comenta o assunto abertamente e nem há a famosa cena
do jantar que caracteriza os outros quatro filmes). E o roteiro
logo se revela um grande fiasco, repleto de idas e vindas sem
cabimento, partindo do nada para o lugar nenhum e acabando de
forma totalmente inverossímil. Não me entendam mal: os
primeiros 50 minutos deste remake de "O Massacre da Serra
Elétrica" são muito bem realizados, repletos de tensão,
suspense e brutalidade, lembrando uma versão hardcore do
original. É então que o filme desanda. Sejamos francos:
qualquer pessoa com um mínimo de experiência em filmes de
horror sabe que a maior parte dos jovens vai morrer. Tobe Hooper
não fez mistério e matou quatro dos cinco personagens já nos
primeiros 45 minutos do filme original, concentrando o restante
da história na fuga desesperada da única sobrevivente, Sally.
Já o roteiro do remake trata o espectador como um imbecil. É
um tal de morre-não morre, foge-e-morre-mais-tarde que chega a
ser irritante. Tipo, um personagem que julgávamos morto
reaparece vivo apenas para morrer cinco minutos depois! Um outro
que todo mundo pensava estar morto está vivo e consegue
escapar... só para ser morto outros cinco minutos depois (que
saco!). E chama a atenção o fato de que o roteirista Scott
Kosar (este é seu primeiro trabalho no cinema, o que é visível)
não sabe o que fazer com seus personagens. Tipo, na primeira
vez que o xerife encontra os jovens, ele podia prender todos e
levá-los logo para a casa da família. Mas não, ele os deixa
em liberdade, apenas para reaparecer mais tarde e prender um
deles - os outros ele deixa para Leatherface fazer o serviço.
Tem cabimento isso? Pior: lá pelas tantas, recriando outro
momento clássico do original, Erin escapa de Leatherface,
armado com sua motosserra, pelo meio da floresta, até chegar a
um estacionamento de trailers. Pois não é que a moça,
desesperada, que viu os amigos morrerem, sendo perseguida por um
maníaco com uma máscara de pele humana e uma serra elétrica,
simplesmente senta no degrau de um dos trailers e começa a
chorar, ao invés de continuar correndo??? E nem vamos falar da
forma como ela resolve enfrentar o psicopata mais tarde, quando
qualquer pessoa normal só pensaria em fugir o mais rápido possível
- a não ser que você ache coerente que uma menina indefesa e
desarmada enfrente um truculento psicopata com uma enorme serra
elétrica! São os 40 minutos finais que afundam o filme,
transformando-o em um verdadeiro passeio no trem-fantasma, com
todos os sustos falsos e seqüências exageradas/inverossímeis
que NÃO deveriam ser usadas em um filme de terror, inclusive
atos nobres (como o membro da "família" que se
arrepende e ajuda os heróis a escapar). Mas o mais apelativo é
que o filme termina com uma péssima conclusão que parece
chupada diretamente de "A Bruxa de Blair" - podiam ter
nos poupado dessa -, deixando as portas escancaradas para uma
possível continuação (que, espera-se, não seja um remake da
horrenda parte 2 do original). Por sinal, novamente inventaram
uma nova família para Leatherface, com outros integrantes bem
diferentes da turma dos dois primeiros filmes (nada do
Cozinheiro, do Caroneiro ou de ChopTop aqui...). Nem o clássico
Vovô dá as caras neste remake. Mudaram também o sobrenome da
família de Sawyer para Hewitt, e cometeram o deslize, pelo
menos na minha concepção, de mostrar o rosto de Leatherface
por baixo da tradicional máscara de pele humana. Em uma cena
completamente dispensável (prevista no roteiro da parte 3, mas
só agora aproveitada), o psicopata tira a máscara e revela um
rosto horrendo, sem nariz, corroído por uma doença de infância.
Isso tira boa parte do impacto, ainda mais ao lembrarmos que
Leatherface foi inspirado em Ed Gein. O velho Gein também usava
máscaras de pele humana, mas não era deformado, e sim uma
pessoa assustadoramente real. Ao mostrar Leatherface como um
"monstro" deformado, o diretor e o roteirista tiram
aquela idéia assustadora de que por trás da máscara poderia
haver uma pessoa comum, como eu e você - o que é infinitamente
mais apavorante, se considerarmos que seu vizinho do outro lado
da rua pode ser um Leatherface! Entre mortos e feridos, o remake
de "O Massacre da Serra Elétrica" ainda se salva com
uma boa cotação porque, se não é um filme tão memorável ou
clássico quanto o original, pelo menos vai na contramão das
produções recentes. Eu jurava que os produtores iriam amenizar
boa parte da truculência do argumento original, mas fiquei
surpreso ao ver que ao invés de tornar a violência mais
branda, eles exageraram tudo ao máximo. O resultado é que a
juventude de hoje, que for ver o remake antes do original,
certamente vai se decepcionar com o clássico de Tobe Hooper,
julgando que ele tem "pouca violência". Sabe como são
os jovens... Pelo menos, o remake serviu para reacender o
interesse pela série original, enterrada desde o pavoroso
"Return Of The Texas Chainsaw Massacre", de 1994. Quem
sabe agora os produtores não lançam continuações mais
trabalhadas, dando prosseguimento à linha de tempo abordada
neste remake? Por sinal, o filme foi o mais caro de toda a série,
custando um total de US$ 9.200.000 (o que chega a ser uma
pequena fortuna, comparando com os 140 mil dólares investidos
no original). E o retorno foi mais do que satisfatório: só na
estréia nos cinemas americanos, a refilmagem rendeu 28 milhões
de dólares (mais que o triplo do que custou!). É a força de
Leatherface, que com certeza poderá ser ainda melhor explorada.
Como eu disse antes, a nova versão de "O Massacre da Serra
Elétrica" chega bem atrasada aos cinemas brasileiros,
considerando que estreou nos EUA em 2003 e até já foi para o
mercado doméstico. Por outro lado, o lançamento neste ano no
Brasil tem um caráter nostálgico, pois é neste ano de 2004
que o filme original completa nada mais nada menos que 30 anos!
Uma bela oportunidade para conferir o remake e revisitar o clássico
que deu origem a ele. E ver que mesmo com a evolução dos
efeitos especiais, da violência no cinema e dos recursos (o
remake custou muito, muito mais que o primeiro filme), "O
Massacre da Serra Elétrica" de 1974 continua uma
verdadeira aula de como fazer cinema barato, independente... e
realmente ASSUSTADOR! Como eu disse antes, a nova versão de
"O Massacre da Serra Elétrica" chega bem atrasada aos
cinemas brasileiros, considerando que estreou nos EUA em 2003 e
até já foi para o mercado doméstico. Por outro lado, o lançamento
neste ano no Brasil tem um caráter nostálgico, pois é neste
ano de 2004 que o filme original completa nada mais nada menos
que 30 anos! Uma bela oportunidade para conferir o remake e
revisitar o clássico que deu origem a ele. E ver que mesmo com
a evolução dos efeitos especiais, da violência no cinema e
dos recursos (o remake custou muito, muito mais que o primeiro
filme), "O Massacre da Serra Elétrica" de 1974
continua uma verdadeira aula de como fazer cinema barato,
independente... e realmente ASSUSTADOR!
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