DISSECANDO A SÉRIE: LEATHERFACE - O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 2  - ARTIGO 3

 

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O que qualquer pessoa normal e em sã consciência esperaria de um filme chamado "O Massacre da Serra Elétrica"? No mínimo, muita truculência, sadismo, brutalidade e violência, seja psicológica ou explícita. Bem, tente explicar isso para a censura americana e para os produtores da New Line Cinema. Nenhuma das duas instituições viu a coisa por esta ótica, e o resultado foi que a segunda continuação de "O Massacre da Serra Elétrica" tornou-se um dos maiores exemplos cinematográficos de como a visão artística de um cineasta e de um roteirista pode ser arruinada pela cobiça dos produtores. "Nós estávamos fazendo um filme chamado 'O Massacre da Serra Elétrica 3'... Não tem como você fazer um filme com este nome pensando em não ofender ninguém", disse o diretor da seqüência, Jeff Burr. Para explicar melhor, com "Leatherface: O Massacre da Serra Elétrica 3" aconteceu a mesma coisa que com "Halloween 6". O diretor e o roteirista fizeram o filme que queriam. Os produtores não gostaram. E assim os dois primeiros foram forçados a cortar várias cenas mais fortes para que o filme não recebesse uma certificação X da censura americana - o que reduziria bastante a bilheteria nos cinemas, considerando que somente maiores de 18 anos poderiam assisti-lo. Logo, a New Line exigiu o corte de nove minutos com cenas sangrentas e também a filmagem de um novo final, menos violento e pessimista. Ninguém pareceu se importar muito se o filme ficou vazio e sem a menor graça. Os produtores preferiram que mais gente fosse ao cinema, mesmo que elas saíssem odiando o filme. O resultado foi um fiasco: a New Line nunca divulgou o orçamento da seqüência, mas sabe-se que ficou perto do que a Cannon investiu na parte 2 (ou seja, em torno de 5 milhões), e, neste caso, o filme mal se pagou, pois rendeu nos cinemas apenas US$ 5.765.000! A história toda ao redor desta seqüência começa em 1989. Na época, a New Line era uma pequena produtora quase independente, que nem sonhava com franquias monstruosas tipo "O Senhor dos Anéis". Pelo contrário: estavam à procura de séries de terror já desgastadas que pudessem explorar, lançando novas continuações. Eles tinham, por exemplo, os direitos sobre Freddy Krueger e a franquia "A Hora do Pesadelo". E resolveram adquirir também os direitos sobre Leatherface, depois que "O Massacre da Serra Elétrica 2" dividiu as opiniões do público. Logo depois iriam adquirir os direitos da Paramount sobre a franquia "Sexta-Feira 13", mas aí é outra história... Meses antes do filme começar a ser rodado, já eram lançados teasers nos cinemas (aquele pré-trailer que normalmente nada tem a ver com as cenas do filme). A propaganda era bem interessante: mostrava um homem corpulento parado em frente a um lago. De repente, uma serra elétrica prateada e brilhante saía lentamente do lago, erguida por uma mão feminina - como a lenda da Excalibur, onde o rei Arthur recebia a espada mágica da Dama do Lago. A mulher atira a serra para o homem, um relâmpago atinge a arma e então ele se vira, revelando o hediondo Leatherface. Os fãs da série com certeza ficaram emocionados e esperando pelo melhor. Algum tempo depois, o diretor Jeff Burr foi contratado para dirigir o filme. Era um nome pouco conhecido, mas vinha de duas produções no gênero: "Do Sussuro Ao Grito" (1987, com Vincent Price) e a continuação "A Volta do Padrasto" (1989). Os produtores já tinham um roteiro de David J. Schow, um escritor de livros de horror. Este é seu primeiro trabalho para o cinema (depois ele escreveria os roteiros de "Criaturas 3", "Criaturas 4" e também do primeiro "O Corvo"). Nem Tope Hooper nem Kim Henkel, os mentores do original, se envolveram. Disposto a eliminar qualquer traço de comédia ou bobeira visto na segunda parte, o roteirista resolveu encher a história com os elementos mais violentos e chocantes que conseguiu conceber, sem fazer referências à continuação anterior - como se ela nunca tivesse existido. Aí começaram os problemas: do começo ao fim, "O Massacre da Serra Elétrica 3" é um exercício violento de sadismo e morte como poucas vezes se viu no cinema. Logo nos créditos iniciais, uma mulher é morta com uma marretada e tem a pele do seu rosto arrancada - isso nos primeiros segundos do filme! Depois tem muito mais, inclusive tortura psicológica, closes em feridas expostas, sangreira desatada, psicopatas impiedosos e até uma menininha assassina! Não era preciso ser muito inteligente para ver que a censura iria encrencar com o filme. E foi justamente o que aconteceu... O problema é que com a quantidade de cortes que o filme sofreu, a essência da história (que era chocar através da barbárie e do excesso de violência) se perdeu. Infelizmente, os brasileiros contam apenas com a versão altamente censurada nas locadoras. Lembro que quando vi o filme pela primeira vez até achei razoável, mesmo que alguns cortes abruptos fossem visíveis. Foi só neste ano, ao assistir a versão "uncut" em DVD importado, que percebi como o filme censurado era ruim demais. A versão sem cortes é, de longe, a melhor seqüência do clássico original, um ótimo filme de terror, perverso e sangrento como poucos feitos na mesma época. "Leatherface: O Massacre da Serra Elétrica 3" começa com o tradicional letreiro que abre todos os filmes da série. Sem querer recorrer aos acontecimentos da parte 2, Schow criou uma trama mirabolante, que deixa mais dúvidas do que esclarecimentos. A abertura é assim: "Em 18 de agosto de 1973, Sally Hardesty, irmão e amigos enfrentaram um clã de predadores canibais. Ela foi a única sobrevivente daquela noite de terror. Morreu numa clínica particular, em 1977. Um membro do clã sobreviveu e foi a julgamento. A acusação registrou seu nome como W.E. Sawyer. Ele morreu na câmara de gás em 1981. Os jurados concluíram que Leatherface, um assassino nunca preso, era na verdade uma segunda personalidade de Sawyer, ativada quando ele vestia uma máscara, feita de pele humana. Se não houve realmente um outro assassino, então Sally pode descansar em paz. Se houve, ele está vivo e o Massacre da Serra Elétrica foi só o começo." Depois do texto, já entra uma cena em que Leatherface executa uma garota, arrancando seu rosto e recortando a pele como se fosse couro de animal, costurando-a para fazer uma nova máscara - uma cena grotesca, que já dá o tom do que vem pela frente... Somos então apresentados ao casal de heróis, dois jovens namorados da Califórnia, Michelle (Kate Hodge) e Ryan (William Butler). Eles estão cruzando o país em um Rolls-Royce, para entregar o carro ao pai de Michelle, na Flórida. No momento, passam pelo Texas - claro! Entre discussões bobas no interior do veículo, o rádio revela que numa área próxima foi encontrado um poço repleto de cadáveres em decomposição. Anoitece e o carro com os dois jovens passa bem próximo ao local. A cena é uma das melhores do filme. Um enorme grupo de policiais e pesquisadores forenses está escavando o poço, observados por jornalistas. Uma delas é Caroline Williams, que fez a heroína Stretch na parte 2, e aqui aparece menos de três segundos em cena. Segundo o diretor Burr, a idéia era criar um vínculo que poderia ser melhor explorado numa próxima continuação, onde Stretch estaria caçando Leatherface por todo o Texas em busca de vingança. A idéia foi limada porque os produtores não queriam relação com a segunda parte, e Caroline aparece em participação relâmpago: piscou, perdeu. Enquanto isso, os técnicos tiram os cadáveres do poço repleto de membros decepados. Quando fotografam os cadáveres, entra aquele conhecido som de flash do início do filme original. Entre as cenas cortadas, presentes na versão "uncut", está aquela em que Tink e Tex atravessam ganchos de carne nos pés da vítima, depois erguendo-a de cabeça para baixo. Enfim, ao descobrirem que Ryan continua vivo, decidem terminar com ele ao modo tradicional: uma marretada na cabeça. Tink inventou um sistema onde uma marreta é acionada automaticamente, bastando puxar uma cordinha. Na versão censurada, vemos uma mão não-identificada puxar a corda e então um barulho, SPLAT!, que nos leva a crer que a cabeça da vítima foi esmagada - mas nada é mostrado. Na versão "uncut", é a menininha da família que resolve matar Ryan, numa cena forte e cruel. Como se estivesse fazendo uma brincadeira infantil, ela puxa a cordinha e então a câmera dá um close na cabeça de Ryan sendo atingida lateralmente pela marretada. Uma seqüência impressionante pela crueza e sadismo. Em seguida, a menina recolhe o sangue que jorra da cabeça arrebentada do rapaz para servir ao "Vovô". Tudo isso foi cortado pelos produtores, bem como o esquartejamento de Ryan: Tink, usando uma faca, começa a retalhar o cadáver sem cerimônia, inclusive levando um jato de sangue no rosto! Os produtores também cortaram os closes das mãos de Kate Hodge pregadas na cadeira, inclusive quando ela arranca as mãos dos pregos (um close sangrento, digno do diretor italiano Lucio Fulci). Por fim, outro momento muito censurado é quando Benny aparece para atrapalhar o jantar dos canibais, disparando sua metralhadora e fazendo um pequeno massacre na cozinha da família. Na versão censurada, aparecem alguns closes da metralhadora disparando, a "Mamãe" sendo atingida por um tiro, Tink tendo sua orelha arrancada por uma bala e caindo no chão, e Michelle arrancando as mãos dos pregos (sem os closes) e correndo. Na versão "uncut", a cena é bem mais sangrenta. A "Mamãe" leva balaços na barriga, esguichando sangue no rosto de Michelle; Tink tem dedos da mão arrancados, além da orelha; o "Vovô" é tão furado que começa a jorrar sangue pela sua barriga, e até o cadáver de Ryan, pendurado e já bastante esquartejado, leva alguns tiros. A câmera dá até alguns closes nas mãos de Michelle sendo arrancadas dos pregos da cadeira, deixando buracos enormes. Com todos estes cortes, a versão censurada de "O Massacre da Serra Elétrica 3" fica bem próxima de um daqueles filmes feitos para a TV, exibidos todo sábado no Supercine. Muito há de sugerido, mas pouca coisa é mostrada - um fiasco, ainda mais considerando que a proposta do filme era justamente exagerar no "gore". A morte da garota na floresta também era bem mais longa. Na versão censurada, Leatherface se aproxima dela com a motosserra e era isso, um grito ecoa pela floresta. Na "uncut", o assassino enfia a serra no peito da garota e a câmera começa a filmar por trás da árvore onde ela está apoiada, mostrando a lâmina atravessando o tronco (da garota e da árvore), enquanto o sangue jorra aos borbotões no rosto da vítima! Saber que tudo isso existe aumenta a frustração de qualquer espectador que só conhece a versão censurada do filme! Uma outra cena que precisa ser vista é o final alternativo. Nele, Benny lutava com Leatherface num pântano e tinha sua cabeça serrada pelo assassino, morrendo na hora. Michelle então pegava uma pedra enorme e esmagava a cabeça de Leatherface, batendo mais de 10 vezes no crânio do assassino. Depois, ela caminhava sem rumo até enxergar, na estrada, uma viatura da polícia. Quando ela se aproxima, percebe que a menininha, integrante da família de canibais, está no banco de trás, rindo dela. Michelle então cai de joelhos e a câmera filma um adesivo no pára-choque do carro, dizendo "Não mexa com o Texas" Nas exibições de teste, o público (provavelmente adolescentes bobalhões) odiou o final, dizendo que era "pouco heróico". A maioria também gostou do personagem de Benny e não gostaria que ele morresse. Resultado: final refilmado. No fim oficial, usado na edição final, Benny sobrevive à cabeça serrada (aparece apenas com um ridículo cortezinho na careca). Graças à censura, Michelle bate com a pedra apenas 3 vezes na cabeça de Leatherface. E o casalzinho volta sorrindo para a picape dos assassinos, onde tem um encontro "amigável" com Alfredo antes de sair acelerando... deixando para trás Leatherface, que reaparece vivo e bem! Nada se fala sobre a menininha, que é esquecida. E o casal de heróis aparentemente escapa vivo e com saúde. Pois é, o público preferiu ESTE final! O melhor é esquecer que existe a versão censurada de "O Massacre da Serra Elétrica 3" e torcer para que alguma distribuidora lance o filme sem cortes no Brasil. Este sim é um verdadeiro legado à série. Analisando criticamente, percebe-se que esta seqüência não tem quase nada de continuação. É, na verdade, quase uma refilmagem, pois não traz situações diferentes (tirando os novos integrantes da família de Leatherface). É a velha perseguição pela floresta, o velho jantar repleto de detalhes macabros e a velha perseguição final e duelo contra Leatherface. Lembra a série "Sexta-Feira 13", onde os produtores nunca deram muita atenção à história... Comparando com as partes 2 e 4 (e também com o recente remake de 2003), "O Massacre da Serra Elétrica 3" ganha pontos pelo roteiro enxuto. Ao invés de encher o filme com personagens secundários caricatos, que aparecem apenas para morrer, o roteiro de David Schow prefere enfocar apenas três personagens (Michelle, Ryan e Benny), além da própria família de vilões. A única personagem secundária, rapidamente eliminada, é a garota perseguida por Leatherface na floresta. Como além dela só existem os outros três personagens, o espectador começa a se identificar com eles, até temendo pela vida deles - confesso que até hoje fico um tanto chocado com a frieza como Ryan é morto.  O filme é uma continuação decente do clássico original, e certamente deveria estar no lugar da ridícula parte 2. Com bom ritmo e muita loucura e crueldade, "O Massacre da Serra Elétrica 3" (o "uncut", claro) é um filme injustamente criticado, que merece ser revisto e reconhecido.

 

LEATHERFACE - O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 3
(Leatherface - Texas Chainsaw Massacre 3, 1990, EUA)
Direção: Jeff Burr
Roteiro: David J. Schow
Com: Kate Hodge, William Butler, Ken Foree, R.A. Mihailoff, Viggo Mortensen, Tom Everett, Jennifer Banko e Ron Brooks.
Duração: 73 minutos (a versão sem cortes lançada em DVD nos EUA tem 85 minutos)
Lançado em VHS pela LK-Tel Vídeo.

 

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