| S�bado, Setembro 18, 2004 MATEUS YURI RIBEIRO DA SILVA PASSOS Agora sim, de volta! Logo darei seq��ncia aos eventos de Altera��o, mas primeiro segue um conto medieval, ambientado tamb�m em Zemlya. Vida longa e pr�spera! Inimigo P�blico Mal havia se encerrado a guerra � vinte e nove meses de ferro e fogo contra os orbisienses tratantes que nos queriam tomar umas prov�ncias a nordeste �, ainda em abund�ncia corriam as l�grimas das vi�vas e muito faltava para o in�cio da recupera��o das cidades avariadas ao longo do conflito: enfim, com dificuldade conseguia mover as id�ias para longe dos campos de batalha, quando veio ter comigo um certo coronel Roderic D�Alchiel, elfo dos mais azuis. �Capit�o Ger�rd, o Estado novamente clama por sua espada.� �T�o cedo? Acabo de retornar da campanha...� �Compreendo sua urg�ncia de repouso, mas nosso D. Machyelorn em pessoa requisitou-me seus servi�os para a captura de um criminoso.� �Criminoso? Isso n�o �, de forma alguma, assunto para as For�as Armadas!� �Bem, trata-se de um assunto um tanto... delicado. Grave, digo mais!� �Alguma invas�o de trolls? Tejus?� �N�o, est�o todos bem quietos, para dizer a verdade. Nosso malfeitor, sinto lhe informar, � bem humano.� �Deveras? Humano com eu, quer dizer?� D�Alchiel hesitou. Fez-me espanto seu embara�o, pois � de se entender, numa na��o de hegemonia �lfica, que somente um semelhante possui traquejo social suficiente para lidar com um homem em casos de delito. J� fiz muita diplomacia e pris�es sem quaisquer rela��es com minhas fun��es � nessas ocasi�es, pareceu-me confortante para meus oponentes que o confronto ficasse em fam�lia. Procurei resgatar o fio da meada. �Que fez o sujeito? Tomou alguma soma alta de algu�m importante?� �N�o, a situa��o � bem mais hedionda!� �Molestou alguma jovem da corte, talvez?� �De forma alguma!� �Atentou contra a vida de algu�m?� �Pior ainda: atentou contra a p�tria!� �Perd�o?� �� um desertor.� Nem preciso dizer o quanto meu sangue gelou de pasmo e vergonha. Nosso monarca soube escolher bem seu azrael � afoga-me em asco o mero pensamento... Como p�de o homem perpetrar ato t�o ingrato e vil? E ainda h� o fator agravante de o infrator ser nada menos que um dos meus: h� tanto esfor�o no intuito de aceita��o, pelo belo e nobil�ssimo povo �lfico � em seu �nico Estado de grande porte �, o conv�vio com os brutos esp�cimes da ra�a humana. N�o basta o empenho de gente como eu, a empregar sua dedica��o m�xima no intuito de se obter aceita��o social � n�o basta o suor de nosso rosto, devemos tamb�m suportar em nossas costas o fardo difamat�rio oriundo das atitudes de sujeitos como aquele? Assim que o coronel D�Alchiel me forneceu as instru��es a respeito do onde e como operar a captura, reuni vinte � n�o dos mais bravos, mas dos menos fatigados � guerreiros de meu batalh�o e parti para o vilarejo de Deuxboeufs, no extremo norte de Golu�rien � e, curiosamente, dentro da regi�o invadida pelas hordas de Orbisterrarum. Era uma viagem curta, facilmente realiz�vel em cerca de dois dias � por�m, tanto exigimos de nossas montarias que a cumprimos em menos de dia e meio � era mister faz�-lo com presteza, uma vez que n�o se podia deixar de considerar o risco de o fac�nora se informar sobre o mandado de captura e sumir no mundo. Sede e fome assolaram as cercanias de nosso percurso � arrasados pelo conflito, v�rios munic�pios da regi�o faziam o imposs�vel para impedir o seu colapso. Com Deuxboeufs n�o era diferente: viam-se pelas ruas crian�as magras � elfos, em absoluta totalidade � e carca�as de cavalos e cachorros em decomposi��o a c�u aberto � isso quando n�o eram recolhidas para enriquecer o farnel da popula��o. Aparentemente, toda a vila ignorava nossa miss�o ali � todos se limitavam a nos lan�ar olhares curiosos ou, no m�ximo, desconfiados. Encontrou-se com relativa facilidade a morada de nossa presa. O salafr�rio ocupava o cargo de edil e era, portanto, conhecido de todo o povo local � assim, arrancamos a sua localiza��o � primeira elfa a quem abordamos (sem hesita��o da parte dela, infelizmente). O casebre onde residia nosso homem tinha um aspecto deplor�vel, semelhante � maior parte do povoado: varanda imunda, janelas caindo aos peda�os e paredes desbotadas cobertas de rachaduras. Instru� �s ordenan�as que cercassem o ref�gio � ent�o, hesitei. Algo havia no local a inibir-me. Os brados costumeiros ao se dar a voz de pris�o n�o pareciam convenientes � n�o me parecia certo fazer alarde, quebrar a paz do povo, em especial naquele fim de tarde, estranhamente acolhedor gra�as ao lusco-fusco. Decidi bater palmas. Ato cont�nuo, atendeu � porta uma crian�a, uma menina com cabelos de �bano, olhos castanhos intrigados e orelhas semipontiagudas. N�o estava maltrapilha, mas seu vestido j� vira dias melhores. �Bonsoir�, cumprimentou-me, com uma mesura. �H�... O Sr. des Enfants est�?� Diante da afirmativa, pedi � pequena para cham�-lo, o que ela me recusou � fazia quest�o de minha entrada e acomoda��o a uma poltrona rota da sala de estar, enquanto notificava o pai (o pai!) de minha chegada. Assim que a meio-elfa disparou corredor adentro, assobiei quatro vezes para dar o aviso aos soldados � concomitante, ruminava minha indigna��o: o patife unira, ent�o, sua carne � do Povo Belo para depois tra�-lo! Bela, decerto, fora a desculpa inventada para faltar ao seu dever c�vico, enquanto seus compatr�cios pereciam... Interrompi meus pensamentos ao notar, assombrado, uma presen�a sobrenatural no recinto � deixei-me estar paralisado (e branco de temor, confesso), durante alguns segundos (talvez minutos), at� tomar conhecimento de me espavorir por conta de um ser inanimado, nada mais que uma das poucas pe�as decorativas da resid�ncia: uma criatura empalhada, de ar demon�aco, a pele cor de cobre, os olhos vermelhos a ponto de quase tingirem o globo ocular, o porte baixote e atl�tico, os cabelos brasis de impressionante vivacidade, os p�s virados para tr�s. �Pavoroso, n�o? Usei como carranca em algumas caravanas.� Voltei-me na dire��o da voz, �spera e confiante, para encarar, enfim, Serbo des Enfants � o qual, com imenso descaramento, segurava nas m�os duas ta�as de vinho. �Aceita um trago? N�o?�. Interrompeu-se para bebericar. �Esse bicho a� � um duende florestal � bem arisco at�...� Curioso, n�o pude conter a indaga��o. ��... Monstruoso! Jamais vi algo assim. Onde o encontrou? Meliaceae-hilae?� �Oh, n�o, n�o, foi num lugar muito mais distante... Floresta de Abaet�, nos confins de Lech.� �Lech?� Assumi, aqui, um ar petulante, mais do que adequado ao contexto. �Ent�o o senhor vai dar uma volta nas terras b�rbaras e sobrevive, mas n�o sente um pingo de remorso em desertar quando sua na��o clama por seu sabre?� �Ah�, disse o homem, visivelmente abalado pela perspicaz investida, �� por isso que veio, ent�o? Illyan, querida, pode levar isto para a cozinha, por favor?� Certamente com a inten��o de ganhar tempo para bolar algum �libi, o covarde entregou as duas ta�as � amante � uma elfa cuja estonteante beleza era maculada por seu traje grosseiro (um vestido vermelho de algod�o, t�pico das camponesas humanas de Oliv�rio). O instinto recomendou-me manter uma m�o � bainha agora que, estrategicamente, meu antagonista deixara livres as suas. �Ent�o, senhor...?� �Capit�o. Ger�rd Andrerieu, felizmente n�o a seu dispor.� �Hum. Serei preso ou o qu�?� �Acha que uma temporada na Ellisbat seria o bastante? Meu caro, seu destino � a forca!� �Deveras? D. Machyelorn se d� tanto trabalho por causa de um faltoso?� �Faltoso? Voc� se recusou a morrer por sua p�tria, verme!� �Mas � claro! Golu�rien nunca morreria por mim!� �Blasf�mia!� �Mesmo?� O homem come�ava a exaltar-se, a face enrubescia a olhos vistos. �O que faz voc� ao lado deles? Os elfos nunca aceitaram, a seu gosto, outros povos por aqui � n�o fosse a necessidade de manter boas as rela��es internacionais, j� teriam nos escorra�ado para fora.� �N�o fale assim dos senhores de Golu�rien � este at� pode ser, sim, o pa�s deles, mas n�s somos aceitos muito bem, se quer saber. De que outra forma se explicaria meu posto no Ex�rcito, ent�o? S�o exclu�dos s� aqueles que, assim como a sua pessoa, se recusam a levar uma vida limpa! Ponha-se no seu lugar e tenha mais respeito! Os elfos t�m mais sabedoria do que qualquer um de n�s conseguir� desenvolver em toda a vida!� Estava a ponto de explodir, por�m recobrei a lucidez a tempo de inspirar fundo.�Venha, agora. Vamos lev�-lo.� Ia sacar a espada, quando des Enfants voluntariamente saiu porta afora e entregou-se, sem resist�ncia, aos meus comandados. De repente, olhou em volta, alarmado. �S� vou eu? O que ser� do resto da vila, animal?� �Do que est� falando? Ficar�o todos em paz, assim que o levarmos daqui!� O ar exaltado do homem tornou-se intrigado. Olhava para os lados, nervoso. Na certa, cogitava que far�amos uma chacina... Ou chateou-se por ser o �nico a ser preso. Um pouco de al�vio, depois preocupa��o, pareceram domin�-lo. Ent�o, intrigado fiquei eu. �Os outros est�o absolvidos, ent�o?� �Absolvidos de qu�?� �Deser��o, � �bvio. Toda Deuxboeufs boicotou a convoca��o.� �Todos se recusaram a tomar parte no conflito? H� mais traidores, ent�o?� �A guerra nada tinha a ver conosco. Golu�rien foi atacada por se apossar de terras de Orbisterrarum...� Hesitei. Talvez aquilo fosse ver�dico, mas minhas ordens haviam sido bem claras. Levei apenas des Enfants � embora grande parte dos moradores da vila nos tenha seguido por todo o caminho at� Le Bagarre, a capital, numa estranha escolta, assemelhada a um cortejo f�nebre prematuro. A carro�a na vanguarda, conduzia-a a elfa Illyan, acompanhada de cinco rebentos. Nada fizemos para evitar a peregrina��o. Era bom, ali�s, que vissem como se tratava os inimigos p�blicos � e dessem gra�as ao Rei por n�o compartilharem de sua sina. A execu��o tomou lugar no palanque cerimonial em frente a Ellisbat, nosso maior e mais seguro complexo carcer�rio. O processo foi r�pido: o carrasco envolveu o pesco�o do homem na corda da forca e, sem fazer grande demora � algo contr�rio ao suspense de praxe, acionou a alavanca do al�ap�o sob os p�s do condenado. Al�m do sentimento de dever cumprido, invadiu-me um esp�rito do mais puro orgulho patri�tico: Golu�rien livrava-se do joio. O anil�ssimo monarca, D. Machyelorn, saltitava de alegria ao ver o corpo do traidor se desprender de seus �ltimos fiapos de vida, a l�ngua al�ando-se ao c�u, como que a buscar, tardiamente, a reden��o. O p�blico vibrava em sua quase totalidade. Quase. Um pequeno grupo de agitadores � espantou-me notar que se constitu�a exclusivamente de elfos �, do qual faziam parte os cidad�os de Deuxboeufs, protestavam em altos brados � nada diziam, por�m, contra a subtra��o do conterr�neo: em vez disso, vociferavam acusa��es mentirosas contra a Coroa. Furioso, dei um sinal de alerta aos soldados pr�ximos � e estava prestes a avan�ar no desordeiro mais pr�ximo, com o sangue suficientemente quente para parti-lo em dois, quando nossa mui formosa rainha, D. Nillin, para n�o ver acabar-se a alegria do maridos, foi logo cortando o barato dos ingratos: �Se n�o t�m p�o...� |
||||||
| Coment�rios: | ||||||
| Voltar para Mateus Passos Voltar para Contos |
||||||